Admirável Mundo Novo: a felicidade já não é o que era

Publicado em 1932, o romance Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, regressa agora em formato de série televisiva: este é o retrato de um mundo em que a formatação da "felicidade" fez perder qualquer noção de solidariedade.

Algumas estatísticas mais ou menos sugestivas garantem-nos que o nosso admirável mundo virtual, pontuado pelos objetos que a tecnologia colocou à nossa disposição - a começar pelos telemóveis -, nos tem afastado do hábito ancestral da leitura. Enfim, talvez não seja assim tão simples, até porque, melhor ou pior, os aparatos dessa tecnologia nos fazem continuar a ser leitores. Um sintoma paradoxal deste estado das coisas é que, mesmo que andemos a ler menos, passámos a ser confrontados com uma impressionante diversidade de adaptações, cinematográficas e televisivas, de muitos livros e, em particular, grandes clássicos da literatura. Agora é a vez de Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, surgir em versão televisiva: a nova série, homónima, foi um dos trunfos do recentíssimo lançamento (a 15 de julho) do serviço de streaming norte-americano Peacock, do grupo NBC Universal, chegando ao mercado português através da HBO.

Publicado em 1932, o livro de Huxley é uma daquelas referências universais que várias gerações adotaram como modelo de distopia, esse avesso pedagógico da utopia. Há nele um tema transversal a que, no nosso atribulado século XXI, continuamos a ser dramaticamente sensíveis. Que é como quem diz: o projeto de criação de um mundo de bem-estar universal, superando todas as injustiças entre os humanos, de tão extremado e idealista, pode desembocar no seu assustador contrário. Ou ainda: o utópico contém os germes do distópico.

Tendo em conta o modo como a série é lançada através do seu episódio-piloto, realizado pelo britânico Owen Harris, podemos deduzir que prevaleceu uma preocupação de alguma "fidelidade" à estrutura de personagens e eventos do romance.

Assim, encontramos: Bernard Marx, psicólogo, um dos vigilantes oficiais do comportamento e da felicidade "obrigatória" dos humanos, embora assombrado por perturbantes dúvidas existenciais; Lenina Crowne, especialista do Centro de Incubação e Condicionamento, que tem estado a infringir a lei que proíbe a fidelidade sexual, mantendo uma relação exclusiva de várias meses com um colega, Henry Foster; enfim, John, o "Selvagem", marginal entre os próprios rejeitados pela Civilização, vivendo nas Terras Selvagens com a mãe, Linda, alcoolizada e decadente...

Deparamos, assim, com um mundo gerido por normas tão rígidas quanto genericamente aceites, quanto mais não seja porque os habitantes vivem uma "felicidade" sustentada pelo consumo de pílulas de cores radiosas, cada uma garantindo a satisfação de algum desejo ou a superação dos mais variados impasses psicológicos. Nesta comunhão "ideal", a gravidez tornou-se um processo totalmente artificial, gerido por um sofisticado aparato de laboratórios, produzindo seres classificados (Alfa, Beta) de acordo com uma metódica divisão da sociedade em castas.

"Não há privacidade"

Num cartão de abertura, antes do título da série, surge uma saudação para quem chega a esse futuro, na cidade de Londres ("New London"), enunciando os princípios do "admirável mundo novo". A saber: "Temos três regras. Não há privacidade. Não há família. Não há monogamia." Um segundo cartão propõe a conclusão filosófica desta trilogia: "Todos se sentem muito felizes."

Um dos aspetos mais sugestivos da série, porventura definindo também os seus limites, decorre da preocupação de explorar um "visual" que a aproxime de alguns sucessos da produção cinematográfica mais recente. A estilização dos cenários, a generalização social (e policial) dos hologramas de vigilância e até as linhas austeras do guarda-roupa fazem lembrar elementos de filmes como Divergente (2014), depois prolongado em várias sequelas, ou ainda The Giver - O Dador de Memórias (2014). Mais do que adaptações de livros mais ou menos devedores de uma certa tradição de ficção científica (respetivamente de Veronica Roth e Lois Lowry), são filmes de narrativas formatadas de modo convencional, procurando rentabilizar os valores de um mercado que teve um boom decisivo há pouco mais de 20 anos com J. K. Rowling e o seu Harry Potter. Ou seja: o mercado das ficções para "jovens adultos".

Parece ter havido, aliás, a preocupação de sublinhar a dimensão "juvenil" de algumas personagens, não tanto pela idade dos respetivos intérpretes, antes pela sua associação a outras ficções em que encarnaram alguma forma de "rebeldia". Os casos mais sintomáticos serão os de Lenina e John. Ela está a cargo de Jessica Brown Findlay, atriz inglesa que assumia a personagem de Lady Sybil, na série Downton Abbey (2010-12), a filha mais nova de Lady e Lord Grantham que se apaixonava pelo motorista da família. Ele é o americano Alden Ehrenreich, um dos protagonistas de um filme admirável sobre o milionário Howard Hughes - Rules Don"t Apply/ /Exceção à Regra (2016), de Warren Beatty -, ignorado nas salas portuguesas, lançado sem qualquer cobertura promocional nos canais do cabo; seja como for, o seu papel mais conhecido é, obviamente, o de Han Solo no filme de Ron Howard Han Solo: Uma História de Star Wars (2018).

Tudo isto é bem revelador do paradoxo que Admirável Mundo Novo quer resolver. Por um lado, a série tenta encontrar um lugar de alguma evidência num mercado audiovisual em que as ficções distópicas adquiriram um evidente valor comercial; recordemos o sucesso das várias temporadas de Westworld (neste caso, uma produção HBO), também sobre um futuro gerido por mecanismos compulsivos de "felicidade" - e não deixa de ser irónico recordar que a série se baseia num filme fascinante, com quase meio século, também intitulado Westworld (entre nós O Mundo do Oeste), escrito e dirigido por Michael Crichton em 1973.

Por outro lado, para lá dessa "dependência" comercial, a nova série procura, pelo menos, preservar alguns enunciados da herança de Huxley, ecoando a perturbação de linhas temáticas cuja drástica atualidade não desapareceu, nomeadamente a promoção mercantil da felicidade e os cruzamentos perversos da investigação científica com o exercício do poder político.

Huxley, Orwell e Bradbury

Vale a pena recordar que foi o próprio Huxley a legar-nos uma reflexão acutilante sobre a dimensão visionária do seu livro, ao escrever, em 1958, o ensaio Brave New World Revisited (disponível no mercado português como Regresso ao Admirável Mundo Novo, tal como o romance com chancela da editora Antígona).

Não poderia prever, por certo, que na banda sonora de Admirável Mundo Novo se escutariam canções de Goldfrapp ou dos Radiohead... Mas julgou ele que "passaria muito tempo" até uma eventual concretização das suas antecipações mais pessimistas, incluindo a "abolição da livre vontade por processos metódicos de condicionamento" ou a "servidão tornada aceitável através de doses regulares de felicidade quimicamente induzida". O certo é que, menos de três décadas depois, as profecias de Admirável Mundo Novo estavam a "tornar-se verdadeiras muito mais cedo do que imaginei".

Citando apenas romances que há muito pertencem ao imaginário popular, inclusive através das respetivas adaptações a cinema e televisão, Admirável Mundo Novo pode ser inscrito numa trilogia que, ao longo de três décadas do século XX, foi fazendo a antologia dos efeitos do "progresso" industrial e dos mecanismos totalitários que nele se se apoiaram. O livro de Huxley inaugura essa trilogia, seguindo-se 1984, de George Orwell, publicado em 1949, e Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, com data de 1953 (Orwell também disponível no catálogo da Antígona; Brad bury está editado pela 11x17).

Tal como Huxley, Orwell descreve-nos o carácter implacável de uma sociedade regida por um sistema de apertada vigilância de todos atos dos cidadãos; Bradbury liga essa vigilância a uma promoção brutal da ignorância, através da supressão, isto é, da destruição pelo fogo de todos os livros. Para lá das suas muitas diferenças de estilo e estrutura, por todos eles perpassa uma noção de inquietante perversidade política: a programação compulsiva das formas de fruição individual e coletiva favorece o desenvolvimento de uma sociedade de insustentável "igualdade", porque desconhecedora de qualquer forma de solidariedade.

A série Admirável Mundo Novo apresenta como sinal de tal política a possibilidade (automática) de os dirigentes políticos poderem aceder, em holograma, a imagens de todas as relações sexuais de todos os cidadãos. De tal modo que, nas suas tarefas de vigilância "psicológica", Bernard Marx (interpretado pelo excelente Harry Lloyd) é levado a uma descoberta que ele próprio não sabe verbalizar: subitamente, a imagem dos corpos nus de Lenina e Henry reflete formas de prazer que ele desconhece, porque não correspondem a nada que esteja "programado".

Algumas cenas mais tarde, será confrontado com um acontecimento que potencia o seu mal-estar: a morte por suicídio de um trabalhador de uma casta inferior. Segundo o sistema de formatação comportamental a que ele pertence e, mais do que isso, aplica, é impossível supor (muito menos pensar) que alguém tenha tomado a decisão de desistir da vida. É essa, talvez, a suprema obscenidade de qualquer lógica totalitária: a de querer "libertar" o ser humano da consciência da sua mortalidade.

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