Abel Ferrara: "Os filmes da Marvel são para crianças de 5 anos"

O realizador Abel Ferrara abre a alma ao DN a propósito de "Tommaso", uma das grandes estreias da semana. O cineasta fala deste filme tão biográfico como fantasmático e mete o dedo na ferida que Scorsese levantou sobre os filmes de super-heróis da Marvel.

No novo filme de Abel Ferrara há demónios à solta. Os dele, os nossos e os do cinema. Tommaso é sobre o próprio Abel Ferrara, um dos maiores cineastas independentes americanos, mas também não é. Uma espécie de falso documento biográfico sobre esta fase do cineasta, alguém capaz de misturar o cinema e a sua vida pessoal num bairro de Roma, cidade que adotou depois da sua saída de Nova Iorque.

Em Tommaso, Ferrara espanta espíritos, em especial a partir do momento em que torna o seu ator fetiche, o companheiro Willem Dafoe, numa versão de si mesmo, neste caso um realizador americano em Roma a aprender italiano, a viver um quotidiano com a mulher e filha, ambas interpretadas por Christina e Anna Ferrara, que, como o nome indica, são mulher e filha do realizador. Cinema do real à prova da mera coincidência. Isso ou um rasgo às vezes brilhante de "cinema lá de casa", sempre numa corda bamba de exposição pessoal em tom confessional único. Por isso, torna-se numa experiência de cinema low budget capaz de captar os alvoroços interiores, aqueles que nem às paredes confessamos.

Mas, no caso de Abel, tudo é espelho de expiação, tal como já acontecia nos seus melhores filmes, nomeadamente Bad Lieutenant - Polícia sem Lei. Só que aqui parece haver uma tendência mística, entre os momentos em que vemos este Dafoe/ Ferrara a ir para reuniões de alcoólicos anónimos ou em sessões de budismo, algo que puxa de forma delirante o filme para para uma inesperada meditação existencialista, algures entre a mais selvagem das alucinações e uma reflexão sobre o que significa criar e falhar.

Em Sintra, aquando da passagem de Ferrara pelo Lisbon & Sintra Film Festival, Ferrara sempre a balbuciar, foi dizendo que este jogo de identificações biográficas é mais complexo do que aquilo que à primeira vista podemos pensar: "A dada altura, eu e o Willem Dafoe quisemos criar um outro ser humano. Claro que usámos todas essas coisas específicas, mas depois o processo era criar uma personagem de cinema...Faço filmes para descobrir coisas novas em folha. Fizemos o mesmo no Go Go Tales e no Pasolini. Identifico-me com este cineasta Tommaso, mas não me vejo a mim naquela pele, nem tão pouco o Willem. Este filme existe para pessoas que sabem quem eu sou mas também para aqueles que não me conhecem, a maioria, diga-se de passagem."

Se é verdade que Tommaso não é mesmo uma piada interna entre Dafoe e Ferrara, colaboradores de longa data, também não é mentira que arrepia caminho para um estado de verdade, quase em filtros: "Quero estar mais perto daquilo que é verdadeiro. Quero expressar-me usando aquilo que tenho: a linguagem do cinema. Este filme nasceu porque eu e o Willem íamos fazer o Siberia, mas sabíamos que iria demorar até termos o financiamento. Pensei então que poderíamos fazer algo em estilo documental e quis fazer qualquer coisa perto do meu lar. Muito do que vemos no filme são aspetos da minha vida quotidiana. Já tinha feito algo assim, com o Dangerous Game/ Linha de Separação [belíssimo filme com Madonna, espantosamente nunca estreado entre nós]. O que acontece a um cineasta quando acaba de filmar é sempre muito mais interessante do que aquilo que estamos a filmar. Na altura de Linha de Separação percebi que é mil vezes mais interessante a nossa vida pessoal", conta o realizador.

Sobre a retrospetivas e homenagens, diz que não liga muito e resume a questão: "Tenho de trabalhar para ter comida em casa e sustentar a minha filha. Se só olhasse para o passado estaria agora numa posição em que poderia estar a viver na rua". Palavras de um cineasta que filma a um ritmo infernal e que tem no currículo algumas das maiores obra-primas do cinema americano, como O Funeral ou O Rei de Nova Iorque. Juntamente com Martin Scorsese, é um dos últimos cineastas da sua geração a filmar Nova Iorque com uma vertigem própria, não sendo por acaso que também refere aqui a questão polémica dos filmes da Marvel levantada por Scorsese à revista Empire, onde salientava que não eram cinema: "As pessoas têm de perceber que o Martin Scorsese faz filmes para adultos, tal como eu. Estes filmes Marvel são para crianças de 5 anos. Agora tenho uma filha dessa idade e, sinceramente, não sei se um dia não faço um filme para ela. Caramba, os filmes da Marvel são para putos! Se fizer um filme para crianças claro que terá o meu toque, o meu engenho..."

A seguir a Tommaso, Siberia está já concluído. Volta a ter Willem Dafoe e é tudo menos banal segundo Ferrara: "é um filme completamente marado!". Será que vai estar a concorrer em Berlim 2020? "É possível, vamos ver...", sussurra.


Classificação: 3 estrelas (Bom)

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