A vida da Internet filmada em tom de conto moral

Linhas Tortas, de Rita Nunes, encena a relação de duas pessoas através do Twitter, num drama de inequívoca atualidade temática e simbólica - é um dos filmes portugueses que, por estes dias, na televisão ou na Net, podemos ver ou rever.

Neste tempo em que as nossas perplexidades, interrogações e angústias passam inevitavelmente pela Internet, o filme Linhas Tortas, de Rita Nunes, adquire uma renovada e perturbante atualidade (sábado, 23.35, na RTP2). Nele se conta a história de uma relação virtual estabelecida entre Luísa (Joana Ribeiro) e António (Américo Silva) - ligados pelo Twitter, eles vão protagonizar uma história singular em que o efeito de revelação se baralha com os ambivalências de uma troca cujo intimismo é posto em causa pela distância dos corpos.

Digamos que a estrutura narrativa do filme tem dificuldade em resolver as linhas dramáticas que se vão cruzando. Além do mais, creio que terá havido alguma precipitação no modo como a promoção do filme antecipa ou, pelo menos, sugere um sobressalto na relação entre Luísa e António cuja descoberta deveria pertencer, por inteiro, ao espetador.

Seja como for, a atualidade temática de Linhas Tortas não está em causa. A sobriedade das interpretações de Joana Ribeiro e Américo Silva contribui de modo decisivo para o seu impacto, uma vez que se trata, não de enunciar uma "tese" generalista sobre a dimensão virtual da nossa existência, mas sim de elaborar um conto moral, centrado na relação muito particular, irredutível, de dois seres humanos.

O contexto social em que acontece a passagem deste filme justifica que lembremos também o modo como, neste dias de reclusão, os espetadores podem descobrir, ou redescobrir, diversos títulos da produção portuguesa - Edgar Pêra, por exemplo, disponibilizou os seus filmes O Barão [trailer] e O Homem-Pykante; Pedro Maia, André Gil Mata ou Pedro Serrazina são outros cineastas (de uma lista que continua a crescer) que colocaram filmes em streaming aberto. Entretanto, a Agência da Curta Metragem, entidade ligada ao festival Curtas de Vila do Conde está também a colocar online alguns títulos do seu catálogo; para já, estão disponíveis O Que Arde Cura, de João Rui Guerra da Mata, e Maria do Mar, de João Rosas.

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