A terapia do prazer  

Com uma Emma Thompson brilhante e liberta de tabus, Boa Sorte, Leo Grande relança o tema do corpo feminino no grande ecrã, fora do cânone da idade. O encontro entre uma mulher madura e um trabalhador do sexo é ponto de partida para desempoeirado ensaio da intimidade.

"Nós mulheres sofremos uma lavagem cerebral durante toda a vida para odiar os nossos corpos. É um facto." As palavras de Emma Thompson na conferência de imprensa de apresentação de Boa Sorte, Leo Grande no Festival de Berlim condensam o significado do gesto mais corajoso de um filme - e de uma atriz ("Foi a coisa mais difícil que tive de fazer") - que talvez sem esse gesto não fosse tão marcante no panorama. Thompson fala de um momento específico, o último plano do filme, em que despe o roupão diante do espelho e detém-se a observar, sem medo, as imperfeições do seu corpo de 63 anos (a personagem é um pouco mais nova), completamente nu, envelhecido e flácido. São apenas alguns segundos, mas chegam e sobram para lançar uma reflexão sobre o corpo da mulher no grande ecrã, quando a idade não corresponde ao ideal de beleza que o cinema mainstream sempre cultivou.

Assinado pela australiana Sophie Hyde, Boa Sorte, Leo Grande não é particularmente original em tudo o resto, embora seja bastante hábil a desviar-se dos clichés das comédias dramáticas. Mas a verdade é que, ao saber fechar desta maneira, com uma imagem de tamanho impacto sereno, contraria a própria natureza superficial das comédias. É como se naquele instante qualquer coisa elevasse na nossa visão sobre o filme: mais do que uma personagem, estamos a ver uma atriz em confronto com o seu corpo, sem filtros ou poses, e consciente de um ato de bravura diante da câmara.

Vale a pena também destacar o minimalismo desta operação a dois. Good Luck to You, Leo Grande tem tudo que ver com a capacidade dos atores de criar um contexto de conforto em que o desconforto permanece latente. Emma Thompson interpreta uma professora aposentada e viúva que nunca tirou prazer do sexo (chega mesmo a confessar que nunca teve um orgasmo), razão pela qual decide recorrer aos serviços de um charmosíssimo trabalhador do sexo, o Leo Grande do título (Daryl McCormack), recebido no quarto de hotel entre a verborreia de quem de repente, não sabe porque é que se meteu numa situação destas...

À semelhança de uma estreia recente, Três Mil Anos de Desejo, de George Miller, com Tilda Swinton e Idris Elba (este em modo de génio da lâmpada), Boa Sorte, Leo Grande passa-se quase inteiramente dentro do referido quarto de hotel. Mas ao contrário dessa fantasia de Miller, não há aqui flashbacks que nos levem para fora do reduzido campo de ação: a conversa entre Thompson e McCormack, com interrupções mais ou menos arejadas e sexy, tem os pés bem assentes na terra e a sua energia segura é o que mantém o espectador interessado na química humana em desenvolvimento. Basicamente, temos uma mulher em luta desajeitada com a sua própria vontade de despertar para um território "desconhecido" (que é menos o sexo do que o prazer), enquanto o jovem gigolo irlandês, com paciência (quase) infinita, procura manter-se no papel de uma espécie de terapeuta, controlando os fantasmas de uma vida privada que a curiosidade dela insiste em puxar para a sessão. E há mais do que uma "consulta".

Thompson, atriz britânica com tantas provas dadas, só poderia ser admirável na manifestação tensa da vertigem interior desta mulher perante um adónis que tanto lhe sugere um instinto maternal como o julgamento da profissão em causa. A questão era perceber se o filme de Sophie Hyde assumiria essa complexidade com inteligência suficiente para criar nuvens sobre a ligeireza do quadro. E assume - acaba mesmo por reservar alguma atenção ao lugar na sociedade destes trabalhadores do sexo; encontrando, ao fazê-lo, um ponto de gravidade que descentra brevemente o assunto da mulher cinquentona que quer voltar a sentir-se adolescente. Seja como for, Thompson nunca deixa de ser a personagem em estudo.

Aquilo que retira Boa Sorte, Leo Grande da zona de conforto típica das comédias passa justamente por uma nudez que vai além do físico. A franqueza que aqui se mistura com profissionalismo (porque Leo é muito bom no que faz) ativa emoções inesperadas um pouco por todo o lado, num caminho que é preciso ser feito até que a palavra sexo surja como sinónimo de prazer. Neste caso, há mesmo um efeito curativo que se confunde com diversão.

É possível que a ideia de um filme concentrado no interior de um quarto suscite o rótulo de "teatral", na aceção mais apressada do termo. Mas até a isso se consegue dar a volta: o espaço do quarto funciona como uma gramática de intenções, sendo a conversa no sofá diferente daquela que se tem na proximidade da cama (sinal de que há progressos), ou o encontro com o espelho a ocasião de uma descarga de realismo...

Com uma dupla tão bem desenhada na fronteira entre um princípio de anedota e a aspereza da vulnerabilidade humana, Boa Sorte, Leo Grande é uma proposta mais do que simpática, que não se livra de figurar como um marco no percurso de Emma Thompson. Uma atriz que, na pele da personagem e sem pestanejar, se confronta com o falso monstro do seu corpo e desestabiliza o cânone assim como quem não quer a coisa. É bonito de se ver e vale mais do que qualquer discurso inspirado.

dnot@dn.pt

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