A segunda vida de Fernando Pessoa

E se Fernando Pessoa regressasse ao presente sob o heterónimo Vicente Guedes, aquele que foi preterido como autor do Livro do Desassossego para Bernardo Soares? Um romance inédito de João Céu e Silva que o DN publicou em 12 capítulos. Leia aqui o texto integral.

"Este livro é a biografia de alguém que nunca teve vida.

De Vicente Guedes não se sabe nem quem era, nem o que fazia

Este livro não é dele: é ele.

Mas lembremo-nos sempre de que, por detrás de tudo quanto aqui está dito na sombra, misterioso

Para Vicente Guedes ter consciência de si foi uma arte e uma moral; saber foi uma religião.

Ele viveu definitivamente a anestesia interior, aquela atitude de alma que mais se parece com a própria atitude de corpo de um aristocrata completo."

Fernando Pessoa

O poeta regressa à Casa Fernando Pessoa

Era mais que certo que ao bater à porta da Casa Fernando Pessoa iria revolucionar a minha vida e a do poeta para toda eternidade. Afinal, a ressurreição não está à mão de qualquer ser humano que a reclame, nem o avanço da ciência a tornou mais fácil. Não estou a referir-me ao voltar à vida através de bruxarias, complexas cirurgias, processos de congelamento ou outros progressos da tecnologia, daqueles que se vão ouvindo de vez em quando nas notícias.

Não, o meu caso é diferente e mais difícil de compreender, mesmo que para o aceitar seja necessário crer em alguma coisa. Porque para mim foi um passo dado sem dificuldade, quase natural como o de uma criança que começa a caminhar. Estou certo, repito, que ao bater à porta da Casa Fernando Pessoa irei revolucionar a minha vida e a do poeta para toda a eternidade. Afinal, o que vou dizer aos que estão resguardados pelas paredes grossas daquela construção e que mandam na minha antiga morada não é o que escutam todos os dias da boca dos visitantes que vão à procura das memórias de Fernando, nem o que querem ouvir sobre o Pessoa que guardam oficialmente.

E como não desejo ser aquele sobre quem existam dúvidas, tenho de lhes dizer toda a verdade logo desde o princípio, convencendo-os de que não sou um turista de passagem e que apareceu neste ano de 2010 por acaso, ou talvez um louco que decide fazer uma habilidade especial. Antes, devo-lhes mostrar que a eternidade das palavras que têm por missão preservar não está, como pensam, numa arca meio cheia mas na parte meio vazia para a qual só eu tenho a chave que abrirá de novo a sua tampa.

Decerto que a novidade que lhes vou dar não será a que esperam, mesmo que passada a previsível grande tempestade devam ficar satisfeitos com a revelação. Não me custa pensar que assim será porque os últimos dias têm mostrado como é uma experiência complicada esta de certificar que o poeta não morreu para sempre. Que não é como o Luís de Camões, morto e enterrado sabe-se lá aonde e que ficou esquecido por muito mais tempo do que Pessoa no que diz respeito à sua obra. De uma coisa estou certo antes de bater à porta da Casa e de lhes dizer ao que vou: não contem comigo para inventar uma mentira. Tudo o que vai acontecer nos dias que se seguirão foi montado aos poucos, como se eu observasse uma casa a crescer desde as fundações até ao teto. Foi assim que ficou definida a minha missão, como se fosse uma segunda vida que Vicente Guedes dá a Fernando Pessoa, depois de ter sido um heterónimo quase esquecido e substituído pelo Bernardo Soares no Livro do Desassossego.

O que eu disse ao porteiro não o surpreendeu. Olhou de alto a baixo e reconheceu-me. O que seria de esperar, porque eu era exatamente como o têm descrito; bigode, nariz circunspecto, fato negro e chapéu, tudo a combinar com a imagem que existe nas fotografias.

- Bom dia Senhor Fernando Pessoa. Como tem passado?

Diria mesmo que foi mais educado do que poderia esperar do guardião da casa onde vivi tanto tempo, pois poderia ter respondido torto ao achar que vinha reclamar o que era meu e ficaria sem emprego. Ou pensar que, portando-se bem, o manteria, pois nenhum poeta famoso dispensa um funcionário para todo o serviço como ele parecia poder vir a ser. Portanto, fiquei satisfeito com a forma como decorreu a primeira situação, mesmo que tivesse antevisto vários outros desfechos.

Pedi-lhe, então, que me mostrasse a casa. Em menos de um minuto, o funcionário estava do lado de fora do balcão que antes nos separava e deu início à visita guiada.

- Temos tido muito cuidado com a casa e está tudo em condições, mesmo que às vezes o dinheiro seja curto para as despesas de manutenção. Acho que vai gostar do que lhe vou mostrar e irá ficar surpreendido com as melhorias que os diretores têm feito.

Realmente estava tudo alterado em relação ao tempo em que vivera num andar deste prédio da rua Coelho da Rocha. Já lá iam muitos anos, no entanto reconhecia o lugar com facilidade, pois alguns edifícios mantinham-se como eram na memória apesar de estarem mais degradados do que nos quinze anos em que habitara no bairro, entre 1920 e 1935. As paredes que antes dividiam os pisos tinham sido destruídas e o espaço à vista era bem maior. Se me perguntassem, confessaria sem problemas que nunca teria conseguido imaginar que os apartamentos fossem tão capazes de emparedar quem morava dentro deles e apagar-lhes o exterior. Que largueza e amplitude que estas mudanças teriam oferecido aos antigos moradores!

- Bem, se morassem cá todos não poderíamos ter feito estas alterações.

O funcionário fora rápido na resposta ao meu comentário, fazendo-me pensar até que ponto este meu regresso não estava encenado na sua cabeça há bastante tempo. Passaria ele os dias a pensar no que me diria caso eu voltasse a esta casa ou seria apenas um empregado cuidadoso? Posso dizer que para o primeiro contacto estava a ficar com uma boa opinião sobre a Casa e que se todos os funcionários fossem como este a instituição estava bem entregue.

Continuámos a visita ao rés-do-chão, sempre com ele à minha frente a mostrar-me a habitação, tendo rapidamente desistido de continuar refazer mentalmente como era ela nos tempos em que aqui tinha habitado. Encaminhou-me para a escadaria que ligava ao primeiro andar e, certo de que iria fazer uma surpresa, perguntou se queria subir pelos degraus ou preferia experimentar o elevador.

- Tenho a certeza de que isto é que não estava cá no seu tempo?

Realmente este regresso à minha última morada era uma surpresa constante. Olhei para os degraus de madeira e contei-os um a um para confirmar se o seu número se mantinha o mesmo. Com tanta obra feita entretanto... Era a mesma quantidade de degraus, o que me permitia continuar a repetir a contabilidade que antigamente executava todos os dias ao chegar a casa. Porque seria que eu contava os degraus, perguntei-me? A questão seria antes o porquê de o fazer neste regresso e de como é que me lembrava desse tique após quase um século passado? Voltei ao presente devido à pergunta do funcionário e respondi-lhe que preferia subir pelos degraus.

- Como fazia antigamente, não é?

Respondi-lhe que sim enquanto reparava nos pormenores de decoração da casa, sempre com a minha imagem espalhada a cada canto. Eram estátuas, frases, poemas e desenhos. Uns meus, uns de outras pessoas sobre mim, mas sempre em torno do mesmo tema: eu. Coisas que não tinha reparado com tanto cuidado na minha visita anterior à Casa Fernando Pessoa, às escondidas e ainda distante de ser quem vim a ser. O funcionário aproveitava a minha demora em percorrer cada metro para ir explicando o significado do mobiliário novo e contava-me a sua história, mesmo que se notasse que estava com alguma pressa em chegar a uma das salas mais à frente. De tão entusiasmado, não conseguiu deixar de soltar uma pista.

- Creio que no piso de cima vai encontrar algo que o deixará surpreso e feliz.

Não esclareceu qual seria a surpresa que me deixaria nesse estado de felicidade que antecipava e também não o pressionei, afinal se a minha intenção era tomar posse da Casa seria conveniente que a olhasse bem nesta primeira visita como Fernando Pessoa. Aliás, para que nada falhasse olhei-me num espelho onde estava desenhado o meu rosto e aproveitei para retocar o bigode, deixando-o conforme a ilustração mostrava ter sido. Estava a aproveitar este momento como mais nenhum outro na minha vida, continuando o passeio em câmara lenta como se fosse o espetador de um filme que rodava depressa de mais para acompanhar o argumento.

Daí que tenha ignorado a confusão que estava a acontecer poucos degraus acima daquele em que me encontrava agora, maravilhado e curioso. É que na balaustrada aonde ia dar este primeiro vão de escada esperava-me meia-dúzia de pessoas, acompanhando cada passo que dava e analisando cada gesto que fazia. Observei-as e notei nesse olhar incrédulo com que era habitual repararem em mim desde que ressurgira como Pessoa. Se para alguns a primeira sensação era o espanto perante a diferença entre a reprodução física em movimento e a cores do poeta que só conheciam de fotografias a preto e branco e estáticas, para outros o mais estranho era o facto de eu falar. Notara essa incapacidade em aceitarem como real a fantasia que tinham de mim nestes últimos tempos em que ocupava os meus dias no Martinho da Arcada a reviver o passado. Havia os que passavam a correr e ficavam com uma leve impressão de um engano; os que iam a caminhar em paz e a perdiam com o vislumbre de alguém que consideravam estar morto; os que paravam e fixavam os olhos no poeta enquadrado por um cenário que era mais literário do que possível; os que não queriam acreditar e me questionavam, e os que não se surpreendiam, talvez por já terem visto de tudo. Aliás, a existência de vida para um heterónimo de Fernando Pessoa após a sua morte não era coisa que acontecesse pela primeira vez, já que antes um escritor até fizera um romance inteiro sobre o reaparecimento de Ricardo Reis por nove meses!

A verdade é que as pessoas ainda se surpreendiam com o meu regresso, mesmo que todos soubessem de tal novidade devido à quantidade de notícias publicadas nos últimos dias, e continuavam a ficar especadas tal como acontecia com as que me aguardavam no fim do lance de escadas que me levava até ao primeiro piso da Casa Fernando Pessoa. A razão deste espanto não seria de estranhar, visto que a segunda vinda do poeta era palpável na carne do meu corpo e não como mero protagonista de um livro. Se me espetassem sairia sangue, coisa que ao Ricardo Reis do romance jamais aconteceria, porque era feito de palavras. Aliás, se me dessem tempo, o que iria sangrar era a continuação da obra do poeta. E isso é que era importante, até porque faltava aos portugueses alguém em quem acreditar e que lhes devolvesse a sua própria voz. Quem melhor do que um poeta para interpretar esta angústia tão visível num povo que já elegera um outro poeta como o seu patrono do dia nacional? A única condição que colocaria, quando fosse o tempo certo, era a de não me virem com a história do V Império. Não queria mais ilusões!

Eram já mais de uma dúzia as pessoas que me esperavam no primeiro andar da Casa. Se fora lento a subir as escadas, elas foram rápidas a concentrar-se junto ao corrimão, mesmo que não tivesse reparado no ajuntamento devido à atenção prestada ao que estava pendurado ou pintado nas paredes. Curiosas e receosas, iam recuando cada vez que eu avançava ladeado pelo funcionário que me encaminhava para o lugar que definira como sendo o de uma "surpresa feliz". Eis senão quando a diretora da Casa interrompe a minha entrada triunfal e me manda parar.

- Alto. Como se atreve a entrar na Casa Fernando Pessoa depois de tanto mentir sobre a sua identidade nos jornais?

O funcionário ainda quis intervir mas a diretora não o deixou pronunciar uma única palavra. Olhava para mim furiosa e capaz de me empurrar pela janela fora, ordenando que a seguisse até ao seu gabinete para termos, disse ela, "uma conversa muito séria". Respondi-lhe imediatamente que sim, afinal convencer a diretora antes de mais era a minha estratégia e a sua chegada intempestiva apenas facilitava dar início ao processo.

Cinco minutos após o confronto entre a diretora da Casa e Fernando Pessoa, tempo que o funcionário conseguiu para exibir a recriação do meu quarto como teria sido enquanto ali vivera, mostrando-o em todo o seu esplendor e descrevendo os bens que se tinham recuperado, ficámos frente a frente.

O escritório onde nos sentámos tinha uma vista para os telhados dos prédios próximos. Olhei primeiro para o céu e, baixando os olhos calmamente, reparei nas muitas imagens que representavam o poeta espalhadas pela sala. A brincar, perguntei-lhe se nos achava parecidos, mas não lhe dei tempo para responder porque iniciei um discurso em que a cumprimentava pela função; pelos cuidados que eram bem visíveis na manutenção da minha antiga casa e no bom gosto com que tudo estava decorado. Confessei-lhe que nunca pensara que a minha posteridade preocupasse tanta gente e que nos últimos tempos tinha-me surpreendido o interesse na minha obra, da qual, infelizmente, ficara na maior parte por publicar. Daí que contasse com o seu apoio para tornar bem-sucedido este meu regresso, situação que serviria a ambos e à literatura nacional. Ia continuar o discurso, mas fui interrompido pela sua pergunta brusca.

- O que pretende realmente com esta visita?

Era muito fácil perceber que a diretora não estava com disposição para ouvir contar a verdade que eu tinha para revelar e que considerava mentirosas as minhas palavras. Tentei acalmá-la e reiniciar o pensamento, retomando um discurso que não ultrapassara o minuto de duração na primeira tentativa.

- Eu já o vi na televisão a dizer que é Fernando Pessoa e já li todas as suas entrevistas a explicar a razão de estar por aqui. Mas não vou nessa conversa fiada porque se é quem diz já morreu há muitos anos e está a fazer tijolo há bastante tempo.

Compreendi que a conversa iria ser difícil, mas não esperava outra situação. Decidi inverter o fio do discurso e contar-lhe em primeiro lugar o que ela desconhecia para só então explicar o que dizia ser do seu conhecimento. Comecei por afirmar que era minha intenção deixar nos próximos dias o hotel onde estava alojado para vir morar na minha antiga casa...

- Está-se mesmo a ver que o vou deixar! Estou a dirigir esta Casa desde 2008 e não vou deitar tudo a perder com a sua falsa aparição.

... Logo que possível gostaria de me reunir consigo para lhe mostrar muito do trabalho inédito em prosa e poesia que tinha para ser publicado...

- Nem pense que a Casa vai dar cobertura a textos apócrifos!

... Continuei com a informação de que poderia ceder mais património pessoal para a Casa, até a famosa arca onde guardava os meus textos.

- Essa já cá temos, não a viu no primeiro piso?

Entendi que me estava a experimentar no caso da veracidade da arca e respondi-lhe que sabia bem que não era a verdadeira pois tinha sido mandada fazer a um marceneiro de acordo com a original e que a verdadeira estava noutro lado e com dono.

- Não sei do que está a falar!

A resposta mostrou-me que lhe fizera nascer uma primeira dúvida. Era hora de passar para a segunda fase do discurso e explicar porque é que eu era o Fernando Pessoa que diziam ter falecido, bem como a razão de ali estar a reclamar um quarto e a continuação da minha vida na casa onde vivera. Para que como poeta voltasse a ter uma vida normal era minha convicção, disse-lhe, que nada seria melhor do que regressar ao ninho.

- Até agora nada do que disse me convence!

Para fazer sentido tudo o que lhe estou a tentar dizer, respondi-lhe, tem que ouvir a minha história. Basta isso, e não é nada que a diretora da Casa com o meu nome não tenha por obrigação fazer.

Ia começar a contar a história quando a diretora recebeu um telefonema interno. Respondeu um "sim, vou já ver" ao interlocutor e imediatamente ligou a televisão.

- Que grande confusão que você armou neste país!

Estava a passar em direto o debate entre parlamentares na Assembleia da República e o tema era o regresso de Fernando Pessoa - o meu! Uma deputada sugeria a criação de uma comissão para investigar o caso, enquanto outro adiantava-se com a proposta de votação para se fazer um referendo sobre o poeta reaparecido. Foi assim que vi que estava a ser tema de debate nacional e que, confirmei, este continuava a ser um país de poetas.

- Uma coisa já fez, que os deputados falem sobre cultura no parlamento!

Assistimos a mais um pouco do debate antes de começar a contar a minha história, tendo ouvido dos parlamentares as mais diversas opiniões sobre a minha pessoa. Curiosamente, nenhum dos deputados questionava a razão de ser da minha existência, mas sim o que fazer dela. Enquanto uns recordavam o passado e outros projetavam o futuro, o presente ou o que significava a minha segunda vida era ignorado no debate. Situação que mostrava que o plano estava bem delineado e que a surpresa perante a notícia do meu regresso ocupava mais a atenção das pessoas do que a ausência de uma explicação para tal incongruência. Que era exatamente o que interessava neste momento.

Bem, vamos lá contar esta história desde o princípio...

Aleister Crowley chega a Lisboa e Pessoa está à sua espera

A primeira frase que me ditou foi esta: "A besta tinha 55 anos quando desembarcou em Lisboa."

Antes de continuar, olhou para os meus apontamentos e fez uma primeira correção.

- besta será sempre com B maiúsculo, se faz favor.

Certo, respondi, enquanto apagava o b e colocava o B pretendido na palavra Besta. Em seguida, disse mais umas palavras: Descera as escadas do navio Alcântara no dia 2 de Setembro de 1930, um dia depois da data prevista para a chegada. A razão era fácil de explicar, devia-se ao mau tempo que se abatera sobre a rota do navio, que foi obrigado a permanecer em Vigo mais um dia do que o necessário por precaução. Mesmo com aquela figura monstruosa, Fernando Pessoa teve dificuldade em o reconhecer tal era a neblina que cobria o cais onde desembarcavam os passageiros.

- Vou precisar que me confirme a descrição da chegada da Besta no livro de um senhor que já morreu, mas que fez um registo de confiança sobre este momento e que será fundamental nos próximos dias para o que estamos a escrever.

Disse-lhe que sim e perguntei como é que o poderia consultar. Ele apontou para a estante e indicou vagamente o lugar onde estaria o volume.

- Está na letra J, de João Gaspar Simões... Encontrou?

Havia mais do que um volume deste autor e tive alguma dificuldade em descobrir o título, porque as capas estavam velhas e as letras quase desaparecidas. De posse do livro exato, entreguei-o ao Sena [em pensamento tratava-o sempre assim], que o folheou pacientemente até achar o trecho que desejava.

- É esta a parte que eu quero: "Em terra, Fernando Pessoa, transido e tímido, vê avançar para ele um homem alto, espadaúdo, envolto numa capa negra, cujos olhos, ao mesmo tempo maliciosos e satânicos, o fitam repreensivamente, enquanto exclama: "Então que ideia foi essa de me mandar um nevoeiro lá para cima?""

Achei que tudo aquilo que me estava a ser ditado, bem como a consulta ao livro da estante, era um disparate, mas não poderia desistir logo ao primeiro dia. Principalmente, quando anunciou que interrompíamos o trabalho com a justificação de que "por hoje é suficiente". Louco, mas não cansativo!

- Sabe que quando a Besta morreu os seus discípulos entoaram o Hino a Pã que ele escrevera e que o Pessoa tinha traduzido e feito publicar naquela revisteca do Régio, a Presença. Que por acaso era o número 33 do ano de 1933!

Voltemos a umas horas antes... Quando o autocarro parou, pressenti que chegava ao fim do mundo e que aquele seria o lugar onde poucos quereriam viver se não estivessem desesperados ou à morte. Como era o caso do homem que me contratara e a quem disse sim por não poder dar outra resposta. Estendera o braço e apertara-me a mão na primeira vez em que nos víramos e dissera chamar-se Sena. Antecipei-lhe um doutor por sugestão da secretária que me abrira a porta do escritório, ao mesmo tempo que lhe dizia o meu nome. A seguir, convidou-me a sentar e não perdeu tempo para entrar no assunto que me levara até ele. Foi dizendo que não era tarefa difícil para quem tivesse as minhas habilitações e que seria paga de acordo com a sua fortuna. "Muita", foi a palavra que utilizou para definir, primeiro, a minha capacidade, e, segundo, a sua riqueza. Era educado, pensei, e rico, depreendi, o suficiente para justificar o ano de licença sabática na universidade que me estava a ser exigido caso aceitasse o cargo.

- Não percamos mais tempo porque isso é a única coisa que me falta.

Eram assim as suas frases. Curtas e diretas. Normalmente, após pronunciar poucas palavras, deveria pôr à frente de quem queria contratar uma folha de papel onde estava explicado o que desejava. Comigo foi assim, uma página simples, onde escrevera o seguinte:

Destino: Freixo.

Ocupação: invenção literária.

Duração: 365 dias.

Pagamento: a acordar.

Escrito à mão e com tão poucas palavras... Não eram informações suficientes para entender o que quereria exatamente de mim. Perguntei-lhe o que significava "invenção literária"... Olhou para mim, com algum espanto porque pensara ter sido suficientemente claro.

- É professor de literatura? Já escreveu meia dúzia de livros?

Respondi afirmativamente às duas perguntas.

- Quero que torne interessante um livro que lhe vou ditar, que pretendo deixar pronto antes de partir para a eternidade que me espera.

Quando o doutor Sena acabou a frase, agradeci a mim mesmo ter sido comedido e não ter perguntado, a seguir a "Quero que torne interessante um livro que lhe vou ditar", se o que queria de mim era o trabalho de um escritor-fantasma ou com assinatura. Fiquei surpreso com a sua abordagem e, por instantes, sem saber o que lhe responder. Não por muitos, porque o valor que me pagava, que acrescentou na folha que pusera antes à minha frente, tornou a proposta muito sedutora.

- Então, podemos assinar o contrato?

Voltemos ainda um pouco mais atrás... O Freixo ficava à distância de oito horas de autocarro da minha casa. Era no fim do mundo, assim como o sítio onde acaba o país e fica o ponto habitado mais a norte. A viagem correu bem, sem percalços a não ser a minha vizinha malcheirosa ou, para quem gostasse do aroma, bem cheirosa a fritos e que a meio do percurso já me tinha entranhado o seu odor na minha roupa, mesmo havendo uns centímetros a separar-nos.

Ainda estive para lhe perguntar se morava no Freixo, mas desisti de o fazer porque preferia dormir em vez de tagarelar durante as oito horas que se previam enfadonhas. Se ela fosse de lá, ainda pensei, poder-me-ia contar como era a povoação, descrever as suas ruas e revelar a intriga do momento - mas preferi dormir. De qualquer modo, entendi-o mal pisei o chão do Freixo, só um bom contador de histórias teria sido capaz de fazer a verdadeira antevisão do local que me aguardava e esta mulher não tinha aspeto de ser muito dada a descrições eloquentes como as que se exigiam. Talvez fosse um bom ser a amassar farinha para bolos, a fritar doces ou lá o que fizesse na profissão que a impregnava deste cheiro nauseabundo. Mas tudo isto não interessa, designadamente utilizar palavras como "nauseabundo" quando fomos pagos para nos sentarmos num autocarro com destino a uma terra e ocupação desconhecidas.

Tentemos antes descrever o lugar onde desembarquei após o fim da viagem, a primeira visão obtida a partir de um pequeno telheiro que fazia a vez de terminal rodoviário. Talvez a melhor palavra para definir a geografia local fosse deserto; no caso da arquitetura: um estilo gótico; sobre a paisagem: inóspita; no que respeita aos habitantes: ninguém; a hora do dia: indefinível; o prazer de chegar: nenhum...

A paragem ficava no princípio da única rua que existia no Freixo. Não eram visíveis transversais, cruzamentos, pracetas ou o que quer que fosse habitual em qualquer povoação. Ao caminhar-se cerca de um quilómetro por essa rua principal, o que acontecia era que deixava de existir Freixo e voltava a ser a Estrada Nacional 101. As casas não tinham número no portão e a maioria das portas estavam entreabertas. Aliás, não eram muitas as residências, nem diferentes na sua fisionomia, conforme observei nessa primeira caminhada entre o início e o fim da rua principal em busca do endereço do Sena. Foi fácil reparar que existiam apenas três tipos de casa: palacetes, casarões e casinhas. Contei quatro do primeiro género, sete do segundo e vinte e duas do terceiro. O Freixo não me poderia surpreender mais!

O meu anfitrião habitava um dos palacetes dispostos sobre a rua principal e ficava, como todas as outras habitações, a uns quantos metros acima do nível do piso asfaltado. Cada casa parecia maior do que realmente era porque vistas de baixo para cima a sua dimensão aumentava em muito. Era assim como um trompe d"oeil natural, que não precisava ser pintado para valorizar o edifício na paisagem. Cada casa ficava numa pequena colina, separadas umas das outras por umas breves encostas, e tinham sempre na parte da frente uma escada que permitia o acesso da rua até à porta de entrada. Todas as escadas eram diferentes e notava-se que os proprietários se esforçavam por diferenciar o seu acesso do do seu vizinho. No entanto, num dos dias a seguir à minha chegada, Sena mostrar-me-ia uma coincidência entre todas elas, a de que todas tinham o mesmo número de degraus. Nem menos nem mais do que exatos 39 degraus entre o piso da rua e a soleira da porta.

Não existia uma razão que obrigasse à igualdade desse número, foi-me dito que acontecera por acaso, mas não acreditei em tal coincidência. Era mais uma das estranhezas do Freixo, das muitas a que me iria habituar nos dias que se seguiriam, e exemplo de como uma terra poderia tornar-se diferente de todas as outras num mesmo país. O mais curioso é que esta forma de não ser igual parecia resultar de um plano arquitetónico profundamente pensado - e melhor executado -, que deveria cumprir um desejo para além da própria vontade dos seus moradores, situação que eu jamais compreenderia se não me fosse revelado. Não iria ao ponto de admitir que o Freixo fosse obra de uma entidade superior, mesmo que houvesse alguma religiosidade sempre presente no que era visível. Como a trindade de tipos de construções que se observavam ao longo da via principal; a clara separação dos moradores por classes diferentes, numa espécie de regime social próprio da muita crendice dos tempos medievais; e a diferenciação de tudo o que se assemelhasse sob ínfimos pormenores, como se uma mão invisível disfarçasse as perfeições. Numa palavra, o lugar parecia uma tela que exigia todos os dias o retoque do artista.

O ambiente na casa do Sena era, definitivamente, gótico. Penso que se o pode descrever assim porque possuía muitas dessas características. Por certo não seria um falso gótico porque, apesar do bom estado, o modo de construção indicava que a estrutura seria anterior ao século XV. Talvez se o pudesse definir como um gótico tardio, mas não escaparia a essa catalogação arquitetónica, e teria sido originalmente um edifício religioso. Sena confirmou-me que poderia ter sido construído por ordem de um antigo rei para a Ordem Cisterciense e ser até a primeira edificação completamente gótica do país. Explicou que também poderia ter pertencido a uma qualquer ordem mendicante - como as dos agostinhos, franciscanos, carmelitas ou dominicanos - e, se assim fosse, seria datada dos séculos XIII e XIV. Ou também a ordens medievais militares dos cavaleiros Hospitalários ou Templários, porque era destituída do gótico flamejante que dominava noutras nações europeias no século XV.

Ouvi as explicações com curiosidade enquanto Sena me passeava pelo seu palacete e mostrava as obras de beneficiação mais recentes. Como era o caso de um coreto redondo que estava no jardim e a que chamava, muito pretensiosamente, o meu "gazebo".

- Sabe que o mandei fazer segundo uma réplica do gazebo que George Washington tinha na sua residência em Mount Vernon!

Claro que nada sabia sobre o pavilhão do presidente norte-americano, nem me interessava muito o conhecimento enciclopédico que continuou a proporcionar.

- Desconhece-se a origem do termo gazebo, mas é certamente muito antigo. Já existia na antiga literatura chinesa e persa, o que contraria uma tese recente de que a denominação surgira pela primeira vez num poema de Ibn Quzman, um hispano-árabe que vivia em Córdova no século XII. E, já agora, informo-o de que Thomas Jefferson também era um grande apreciador destes pavilhões construídos ao ar livre.

A pretexto deste segundo governante norte-americano, ainda desenvolveu mais alguns raciocínios sobre os gazebos.

- Jefferson pretendia construir três pavilhões diferentes na sua residência de Monticello, mas só viveu o suficiente para ver um terminado.

O gazebo, esclareço, seria a exceção à restante arquitetura gótica de que a casa do meu anfitrião era tão representativa.

A Besta! Voltemos à Besta.

Foi esta a exclamação de Sena quando entrou na sala no exato momento em que a empregada estava a colocar um prato com fruta às rodelas sobre a mesa. Via-se que estava tão fresca como as guelras amanhadas de um peixe acabado de ser pescado, tal era o estado de não oxidação das peças e do abundante sumo ainda a gotejar sobre a polpa descascada. Eu não tinha tido direito àquela fruta e olhava-o de modo suficientemente invejoso para que o meu anfitrião tivesse dito à mulher para, a partir da próxima manhã, servir-me o mesmo. Ainda duvidei se preferiria esta fruta à marmelada com que me deliciava - e já agora à manteiga caseira -, disponível numa travessa de vidro posta no centro da mesa. Será que a traição do meu olhar iria proibir-me estas guloseimas a troco de uma boa alimentação, foi a dúvida que se me pôs, rapidamente ultrapassada por outra afirmação de Sena.

- Já agora, que o vejo tão invejoso das minhas coisas, pergunte-lhe se também quer mulher.

Não entendi o que quereria dizer com aquelas três palavras, «também quer mulher», mas já me ia acostumando às surpresas constantes no Freixo e antevia que a qualquer momento a empregada fosse ter comigo para tratar do assunto. Antes de me recompor dessa frase, ouvi outra ainda melhor.

- Verifique se é mesmo de mulher que ele gosta? Não o contrarie, porque preciso dele satisfeito para trabalhar melhor.

Confesso que não percebi o diálogo que por ali ia - melhor dizendo monólogo, porque a mulher só acenava com a cabeça - entre patrão e empregada. Evitei intervir e optei por esperar pelo desfecho. Acabámos a primeira refeição do dia em silêncio e, meia hora depois, encontrámo-nos no seu escritório para reiniciar o trabalho para que fora contratado. Voltou a pegar no livro do João Gaspar Simões, leu um parágrafo e começou a ditar como se não tivéssemos interrompido por uma noite. Avisou-me, no entanto, que teria que colocar uma introdução que explicasse que Fernando Pessoa tinha conhecido a Besta porque lera o seu horóscopo e, ao ver que estava errado, escrevera a dizer-lhe o que tinha descoberto.

- "Recebe, de Londres uma carta de (...) onde o célebre mago dava inteira razão ao astrólogo português seu confrade. Estabelece-se correspondência entre os dois; Pessoa envia a (...) os seus English Poems, e um belo dia o mago anuncia ao seu émulo perdido nos confins ocidentais da Europa que virá a Portugal, propositadamente, para conhecer, em carne e osso, o prodígio astrológico que ele é".

Lidas e avisado sobre as palavras do tal Simões, Sena levantou-se e saiu porta fora.

Continuei sem entender o que seria concretamente o meu trabalho após as primeiras sessões e era difícil avançar no texto para que fora convidado escrever. Até porque Sena pegava num velho livro retirado da estante e ditava-me uns parágrafos de autoria de uma outra pessoa. Não fazia menção de esclarecer qual seria realmente o trabalho e, diga-se, que eu nem sabia quem era a Besta de quem tanto falava. Quando o nome de a Besta surgia no texto de João Gaspar Simões, ele omitia-o na maior parte das vezes e mandava-me abrir parêntesis, colocar reticências e fechar parêntesis.

Vai ser um quebra-cabeças este trabalho, pensei ao fim de poucos minutos de estar sozinho. Não é que me preocupasse com o facto de Sena parecer ser um relator bastante bissexto, nem pela situação de nada entender sobre o que pretendia de mim, afinal antes de vir para o Freixo verificara que o saldo da minha conta bancária aumentara muito para além do que me era habitual contabilizar em dinheiro disponível. Recebera um avanço de seis meses e, a partir daí, a cada dois seria depositado um salário até ficar pago o ano de contrato estabelecido entre nós. Portanto, se sob o ângulo financeiro a relação estava perfeitamente clara, eu deveria deixar-me destas preocupações e ficar minimamente descansado e acreditar que com o passar dos dias tudo seria esclarecido.

Se me questionava se o desejo de Sena era o de que eu lesse o livro que o estava a inspirar, em seguida duvidava que fosse essa a sua intenção, pois após cada ditado, voltava a enfiá-lo no seu lugar na estante. Ou seja, não me restava fazer outra leitura da sua vontade que não a de que desejava que me mantivesse desconhecedor das fontes. Cabia-me esperar pelas suas instruções e rever com a maior atenção os poucos parágrafos já escritos para que, ao menos nisto, não pudesse ser acusado de mau profissional caso Sena se deparasse com um erro ortográfico.

Fiz, então, o mesmo que ele. Saí porta fora.

O Freixo era bastante diferente quando visitado durante o dia. Podia-se dizer que parecia menos soturno do que a visão retida por mim na noite da chegada e, conforme ia caminhando pela rua, o facto de a localidade ser apenas composta por uma única estrada só realçava a sua particularidade. Não havia problema de o turista que eu era perder-se no enleado de ruas que ao longo do tempo vão aparecendo e reconstruindo a geografia das povoações. Aqui, confirmei, não existiam travessas, ruelas ou becos, apenas a rua principal onde ninguém se perdia.

Para além desta havia uma segunda particularidade, em que já reparara antes, a de só existirem palacetes, mansões e casinhas, que na maior parte eram comércios. Feitas as contas à população, era fácil concluir-se que seria em pequeno número, nunca ultrapassando a centena de pessoas.

Era uma terra estranha, não haja dúvida. Que eu não pude conhecer melhor nesse resto de dia porque o sol pôs-se de um momento para o outro e as luzes dos postes de iluminação pública só se acenderam bem depois de regressar a casa do meu anfitrião.

A segunda noite dormida no Freixo fora bem melhor do que a primeira. Provavelmente, acostumara-me à cama e encaixara melhor o corpo por entre as molas soltas do colchão. Uma delas espetava-me no fim da coluna e tivera que chegar-me um meio metro para o lado de modo a não acabar ferido. Ninguém me perguntara se o quarto era a gosto, o que poderia querer dizer várias coisas: que não eram recebidos muitos hóspedes; que não se preocupavam com a sua opinião; que achavam ser bom o mobiliário; que os quartos dos donos da casa seriam iguais aos oferecidos aos visitantes, ou ainda a qualquer outra interpretação.

O meu receio de ficar sem marmelada por ter direito a fruta fresca não se verificou como pude observar no pequeno-almoço seguinte. Só que desta vez, Sena teve direito a outra especialidade cozinhada pela empregada, uns ovos mexidos e umas fatias muito finas de pão torrado, ambas com um ótimo aspeto e que também me seduziram. Repetiu-se a situação do pequeno-almoço anterior, a de sentir água na boca perante o que via, e novamente foi dada ordem à empregada para me passar a servir o mesmo. Repetiu-se, também, a forma de trabalhar e alguns minutos após a primeira refeição do dia, Sena ditou-me mais alguns parágrafos:

- Estamos no ano 1930 e João Gaspar Simões escreveu o seguinte: «Em 18 de Setembro recebi uma carta de (...), escrita do Hotel Miramar, no Estoril. Dizia-me que Miss Jaeger tivera, na noite de 16, um violento ataque histérico, que havia sobressaltado o Hotel Paris inteiro; que em virtude disso tinha vindo para o Hotel Miramar, mas que na manhã de 17 Miss Jaeger tinha desaparecido».

Interrompeu uns minutos até continuar: «O encontro não foi assim tão idílico como seria de prever, já que Pessoa deve ter-se apercebido rapidamente dos desequilíbrios psíquicos e espirituais graves que (...) tinha. De qualquer forma prestou-se a colaborar na encenação do suicídio de (...) na Boca do Inferno, o que permitia a este escapar incógnito não só das suas amantes como do conhecimento do público. De facto, ele tinha sido um agente duplo dos ingleses e dos alemães, e era uma figura cujo paradeiro e atividades, por vezes as mais perigosas, não interessava saber-se. (...) vinha acompanhado de uma maga alemã, Miss Jaeger, também ela uma figura controversa da cena mágica».

Antes de sair porta fora, Sena disse-me para apurar a razão por que a Besta deixara uma cigarreira que o identificava junto ao buraco oceânico de Cascais, conhecido como Boca do Inferno, e a partir de que informações é que um jornalista elaborara a notícia do seu desaparecimento/suicídio, a que provocara uma investigação de polícias estrangeiras. Decidi que iria consultar o volume que Sena voltara a pôr na estante para saber exatamente quem seria o homem apelidado de a Besta e qual era a ligação com o poeta porque, mais do que ocioso, estava a ficar curioso sobre o alegado mago que viajara até Lisboa para conhecer Fernando Pessoa e que desaparecera da face da terra após uma farsa interpretada na famosa Boca do Inferno. Não receei que Sena se importasse com o facto de fazer as minhas consultas, pois seria parte do trabalho de casa de forma a concretizar a tarefa para que fora contratado.

Já fixara o local onde se encontrava o livro e estendi o braço automaticamente para lhe pegar. Mas a mão, por via de um olhar mais atento, não obedeceu de todo ao automatismo e parou a milímetros da lombada desbotada porque vi outro volume, também dedicado ao poeta. Intitulava-se Fernando Pessoa na Intimidade e era de autoria de uma mulher. Abri-o e folhei-o até sentir o apelo de um conjunto de palavras que diziam que a Besta era um ocultista famoso e que Pessoa, lendo numa publicação inglesa o seu horóscopo com alguns erros, escreveu-lhe a corrigir, já que era um profundo conhecedor e praticante de astrologia. Até aqui já eu sabia!

O texto continuava sob um tom misterioso. Efetivamente, a Besta ficara admirado com os conhecimentos de Pessoa e, sempre pronto a viajar, resolveu vir até Portugal para conhecer o poeta. Pulei algumas palavras e fui dar com uma pequena biografia: foi um mago da linha cinzenta ou negra, em que o egoísmo predomina sobre o altruísmo e os fins justificam os meios. É sabido como utilizou drogas, sexo e a violência nos seus rituais e na vida. Forçosamente que certas pessoas são atraídas por um lado ou outro destes aspetos. Porém, Pessoa nesta idade, já extremamente lúcido e conhecedor dos perigos do ocultismo, não quis naturalmente ligar-se com o mago e seguiu sozinho uma via cada vez mais mística num sentido de adesão aos princípios puros dos Rosa-Cruzes e dos Templários. Era, como ele dizia, um cristão gnóstico e iniciado na Ordem Templária de Portugal.

Agora, entendia um pouco melhor o que Sena me lera avulso e em citações do outro autor. Ainda pensei pegar nesse outro livro, mas achei que já tinha mexido demasiado nas estantes do anfitrião para não dar nas vistas.

A rua principal, e única, continuava igual ao dia anterior. Ainda não tinha dado uma dúzia de passos quando me veio ao pensamento que desconhecia o Hino a Pã que Fernando Pessoa traduzira. Esses versos poderiam ser a chave para abrir mais uma porta para o conhecimento de a Besta e reconhecer um pouco mais da personalidade - ou sensibilidade - do seu autor. Que palavras teria utilizado? Que género de poema teria composto? Que versos teria rimado? Perguntas que me fazia, mas tão pouco estava preocupado em conjeturar sobre as respostas possíveis, porque de nada valeria ocupar o pensamento com o que me era totalmente desconhecido. Nada que não tivesse feito já bastantes vezes, é certo, mas que desta parecia-me uma ocupação insípida para os neurónios.

Ainda andei outra dúzia de passos até que, de súbito e de um modo pouco pensado, regressei a casa, fui até à estante e procurei no primeiro livro o poema que Fernando Pessoa traduzira. Era assim:

HINO A PÃ

(de Mestre Therion)

Vibra do cio subtil da luz, / Meu homem e afã

Vem turbulento da noite a flux

De Pã! Iô Pã! / Iô Pã! Iô Pã! Do mar de além

Vem da Sicília e da Arcádia vem!

Vem como Baco, com fauno e fera

E ninfa e sátiro à tua beira,

Num asno lácteo, do mar sem fim, / A mim, a mim!

Vem com Apolo, nupcial na brisa / (Pegureira e pitonisa),

Vem com Artêmis, leve e estranha,

E a coxa branca, Deus lindo, banha

Ao luar do bosque, em marmóreo monte,

Manhã malhada da àmbrea fonte!

Mergulha o roxo da prece ardente

No ádito rubro, no laço quente,

A alma que aterra em olhos de azul

O ver errar teu capricho exul

No bosque enredo, nos nás que espalma

A árvore viva que é espírito e alma

E corpo e mente - do mar sem fim / (Iô Pã! Iô Pã!)

Não foi preciso ler muito mais para achar que o Hino a Pã era uma parvoíce total e que só um Fernando Pessoa dominado por alguma substância alucinogénica teria sido capaz de perder tempo a traduzir aquele poema assinado por Mestre Therion, um dos nomes que a Besta utilizava para além do próprio. Li o resto dos versos para me certificar de que estava correta a minha primeira impressão:

Diabo ou deus, vem a mim, a mim! / Meu homem e afã!

Vem com trombeta estridente e fina / Pela colina!

Vem com tambor a rufar à beira / Da primavera!

Com frautas e avenas vem sem conto! / Não estou eu pronto?

Eu, que espero e me estorço e luto

Com ar sem ramos onde não nutro

Meu corpo, lasso do abraço em vão,

Áspide aguda, forte leão - Vem, está fazia ???

Minha carne, fria / Do cio sozinho da demonia.

À espada corta o que ata e dói,

Ó Tudo-Cria, Tudo-Destrói!

Dá-me o sinal do Olho Aberto,

E da coxa áspera o toque erecto,

Ó Pã! Iô Pã! / Iô Pã! Iô Pã Pã! Pã Pã! Pã.,

Sou homem e afã: / Faze o teu querer sem vontade vã,

Deus grande! Meu Pã! /Iô Pã! Iô Pã! Despertei na dobra

Do aperto da cobra.

A águia rasga com garra e fauce; / Os deuses vão-se;

As feras vêm. Iô Pã! A matado,

Vou no corno levado / Do Unicornado.

Sou Pã! Iô Pã! Iô Pã Pã! Pã! / Sou teu, teu homem e teu afã,

Cabra das tuas, ouro, deus, clara

Carne em teu osso, flor na tua vara.

Com patas de aço os rochedos roço

De solstício severo a equinócio.

E raivo, e rasgo, e roussando fremo,

Sempiterno, mundo sem termo,

Homem, homúnculo, ménade, afã, / Na força de Pã.

Iô Pã! Iô Pã Pã! Pã!

Por alguns momentos pensei no erro que estaria a cometer ao ter pedido uma licença sabática na universidade para vir até ao Freixo aturar um louco que escrevia sobre um outro louco. Pensei na questão, mas convenci-me rapidamente de que não havia volta a dar por agora. Afinal, assinara um contrato, já recebera metade do seu valor e até gastara parte dessa verba adiantada para regularizar algumas contas e adquirir um novo computador portátil. Que estivera a utilizar neste trabalho até esta manhã, mas que já não teria grande préstimo porque Sena deixara um bilhete a informar-me que deveria passar a escrever as anotações em folhas de papel amarelecido - que estavam numa pilha sobre a sua secretária -, e fazê-lo com um lápis. A justificação era curta: o barulho das teclas do computador perturbava a sua concentração.

Não acreditei que fosse essa a razão, antes achava que Sena preferia que as anotações que me ditava se parecessem com as que o poeta fazia nos seus rascunhos. Pensei mais ainda no assunto ao recordar o que Sena dissera num momento anterior em que dissertara sobre caligrafias e que, disfarçadamente, citara as qualidades da do poeta. Mostrara-me uma cópia do poema Mensagem, que comprara há uns bons anos a um António Fumaça, que por sua vez o adquirira a Armando Figueiredo, da Editorial Império, e que no índice continha um exemplo da letra de Pessoa. Apontara-me o esforço para escrever sempre de forma igual em três versões da palavra Grypho que se encontrava na quinta parte do livro, mesmo que cada uma fosse um pouco diferente da anterior. Na primeira vez, Grypho tinha a perna do "G" muito maior do que nas duas seguintes; também o "r" dessa palavra era mais perfeito do que nos outros, tal como o "h". Particularidades do espírito, que não se repetem mesmo que sejam escritas num mesmo minuto, disse, e continuara a ditar, colocando em destaque uma frase que me parecia ser de Pessoa mas que não identificou: Era um poeta impulsionado pela filosofia, não um filósofo dotado de faculdades poéticas.

Como se o tema da caligrafia do poeta não lhe saísse do pensamento, continuara a dissertar sobre algo que não parecia ser de sua autoria: "A escrita tão inclinada, tão ligada, tão rápida, tão combinada, com finais tão generosas, tão angulosa mas tão aberta e largada diz-me que há uma enorme bondade e nobreza, um sentimento de fraternidade universal no poeta. Contemplar esta escrita não é muito diferente de contemplar o movimento das constelações numa noite escura, do Dragão à Hidra, da Cabeleira de Berenice ao Centauro, das Pleíades ao Escorpião, do Unicórnio aos Gémeos..." E silenciou de vez os pensamentos após murmurar: "a sua é a solidão cósmica".

Ao regressar a casa, já entardecia velozmente. Não entendia como é que o tempo passava tão rapidamente no Freixo, onde as horas entre o amanhecer e o pôr-do-sol pareciam ser menos do que as normais. Ainda não tinha feito a sua contagem para me certificar desta suspeita, apesar de considerar que se o fizesse iria surpreender-me com a resposta.

Quando entrei em casa, em vez de ir para o quarto, encaminhei-me diretamente para a estante onde estava o livro de lombada desbotada. Dentro dele, encontrei uma folha impressa com uma espécie de biografia de a Besta, assinada por três iniciais, J.A.N., que me permitiu saber algo mais sobre a vida do autor do Hino a Pã. Inteirei-me que durante a Guerra de 1914/18 viveu nos Estados Unidos, onde prosseguiu os seus estudos ocultistas, e também noutros países. Publicou vários livros, incluindo poemas, além de um Diário do Viciado em Drogas e As Confissões. Explicava o seu diabolismo como revolta contra a religião da infância. Associava o sexo ao pecado: A minha vida sexual era muito intensa e o amor era um desafio ao cristianismo. Era degradação e condenação. Fundou a Ordem da Aurora Dourada, cujos participantes foram definidos pelo mágico deste modo: Eles não eram protagonistas na luta espiritual contra as restrições, contra os opressores da alma humana, os blasfemadores que negavam a supremacia da vontade do homem. Entendi que a própria mãe admitiu contrariada as suas inclinações para a magia: visto que nunca hesitava na realização até de violências e experiências indescritíveis, era a Besta do Apocalipse, cujo número é 666. Mestre Therion foi outro título que o mágico inglês ostentou. Denunciado pela imprensa, declarou no tribunal ao ser interrogado, a propósito dos vários nomes que usava, que Besta 666 é uma designação que significa apenas luz do Sol. Assim, os senhores podem chamar-me Pequena Luz Solar. Por fim, soube que o mágico que amedrontou Fernando Pessoa morreu em 1 de dezembro de 1947, em Brighton, e que enquanto o cremavam alguns discípulos cantaram o Hino a Pã.

Eram estas frases que preenchiam a primeira folha dobrada que encontrei dentro do velho livro. Se quisesse divertir-me - ou assustar-me um pouco mais -, existiam outras duas que pareciam ter o mesmo tipo de afirmações biográficas. Já não as li porque ouvi passos de alguém a aproximar-se e só tive tempo de repor a normalidade. A empregada entrou no escritório de Sena sem achar que algo que me deveria ser proibido estava a passar-se e, sem qualquer nexo aparente, disse-me:

- O patrão mandou-me saber se sempre quer uma mulher às suas ordens. Ou se prefere um homem?

Sem pensar no que lhe estava a responder, porque apanhado de surpresa, disse-lhe que só gostava de mulheres.

Ela continuou o inquérito, agora de forma um pouco grosseira:

- Uma mais nova ou uma mais velha?

Não respondi, o que não evitou que continuasse ainda mais grosseira:

- Do tipo mamas grandes ou mais boas coxas?

Foi-me ainda mais impossível responder, principalmente porque insistiu numa das perguntas anteriores:

- Não quer mesmo homem?

Disse-lhe que não.

- Então, vou mandar vir uma que tenha bom físico.

Deixou-me no escritório de novo só, após espevitar a lareira, de onde um intenso cheiro a madeira a arder acabou por me acalmar os nervos. Enquanto os toros ardiam, eu remoía a linguagem ordinária com que esta mulher se me dirigia. Ainda a conhecia mal, pois mais parecia um fantasma nas suas aparições, além de que quando estava com Sena raramente abria a boca, o que dificultava entender como realmente seria. Pensava também nesta obstinação de me quererem arranjar mulher, situação que deveria ter um significado além do que por agora eu conseguia imaginar. Não é que isso me preocupasse, mas era um pouco incompreensível que chegássemos a esta intimidade em tão poucos dias. Principalmente, era anormal que fizessem tal pergunta, pois se houvesse necessidade da minha parte em namoriscar alguma aldeã, a decisão de a procurar deveria ser minha e não por imposição de terceiros. Fiquei nestes pensamentos por mais algum tempo e de olhar perdido nas cores do fogo na lareira, esquecendo a verdadeira razão de estar no escritório do meu anfitrião

- Venha cá fora ter comigo!

Sena apelava à minha presença e a sua voz parecia vir do jardim. Percorri o caminho até à porta que dava acesso ao jardim e identifiquei-o como a pessoa que estaria no gazebo, de pé e encostado ao varandim de madeira que rodeava o pavilhão. Ao ver a sua silhueta escura recortada pela lua em fundo, amedrontado que estava com o que acabara de ler sobre a Besta e enervado com as grosserias da empregada, pareceu-me que se fosse ter com o meu anfitrião iria meter-me ainda mais na boca do lobo. Pensei que a tentativa de passar discreto na consulta à biblioteca não teria sido conseguida e que, provavelmente, da mesma posição em que ainda se encontrava, mantivera-se a observar as minhas consultas aos livros da sua estante. Não é que me preocupasse com a situação, mas ainda era difícil saber os limites que me estavam autorizados à movimentação da minha pessoa e receava ser repreendido caso os ultrapassasse. No entanto, se Sena queria a minha contribuição, pensei, o que estivera a fazer não teria assim tantas contraindicações.

Não tocou no assunto e o que disse acalmou-me em relação a quaisquer medos. Achava que estava na hora de eu conhecer melhor o Freixo e informou-me que teria todo o prazer em indicar um percurso e iria entregar-me algumas cartas de recomendação para que os moradores me recebessem. Decerto que o espanto que ficou no meu rosto se fez notar porque logo me esclareceu que não teria tempo para andar a passear-me pela terra.

- Fique descansado que vai gostar de circular um pouco e que ficará admirado com a quantidade de pessoas interessantes que vai encontrar.

Respondi-lhe que estava certo dessas duas situações pois, do pouco que observara, concluíra que haveria muito a conhecer, mesmo que só houvesse uma rua para percorrer e que se vissem poucas pessoas. Acrescentei que esse facto não impossibilitava que a população pudesse ser curiosa.

- Curiosa, foi o que disse?

Sena não gostou que tratasse os seus vizinhos como animais de um jardim zoológico mas aceitou a explicação que lhe dei imediatamente, ao citar a origem etimológica para desdramatizar o sentido que dera à palavra.

- Do latim, curiosus, sobre quem tem grande desejo de ver ou de aprender.

A Lua foi o segundo pretexto que utilizei para fugir à utilização inoportuna da palavra "curiosa". Olhei-a demoradamente enquanto o silêncio se impunha e logo que me surgiu algo para dizer sobre o satélite da Terra, expus esse pensamento. Antes tivesse ficado calado porque o que fiz foi uma alusão ao ciclo lunar e à sabedoria popular sobre a menstruação nas mulheres e o cio nos animais. Em seguida, entrei num jogo de palavras que envolviam a Lua para evitar corar com as asneiras que continuava a dizer. Assim sendo, elenquei algumas frases populares, como estar na lua ou andar no mundo da lua; estar ou ser de lua; nascer com o rabo virado para a lua; pedir ou prometer a lua. Enumerei fases com a lua azul e cinzenta, a segunda lua cheia do mês e a que não é iluminada pelo Sol e, também, a intercalar que só se verifica a cada três anos.

E estava a olhar fixamente para a Lua quando Sena me pergunta:

- Já que aprecia tanto a etimologia, sabe como se chama àquela peça em arco nas selas dos cavalos?

Pensei um pouco mas a resposta escapava-me, até porque nunca fui grande apreciador de cavalos, nem da lua, a não ser em caso de grande necessidade como a que tinha acontecido há pouco.

- Lua! É assim que se chama essa peça das selas.

Para não me colocar em mais circunstâncias infelizes como a que estava a acontecer, decidi imitar Sena e apoiar-me no varandim em observação sabe-se lá do quê. Acrescentei a esta atitude um novo e profundo silêncio de meditação, que só interrompi para lhe perguntar quando é que me daria as cartas de apresentação para conhecer a vizinhança.

- Amanhã ainda trabalharemos no Pessoa. Depois, passeie-se uns dias e, quando eu estiver de regresso, logo voltaremos ao trabalho.

Foi assim que fiquei a saber que iria viajar. Quis perguntar-lhe aonde ia, mas considerei que se o quisesse dizer tê-lo-ia feito ao anunciar a sua partida.

Após um pequeno-almoço em que já nada invejei daquilo que era posto no lado da mesa onde Sena se sentava, o meu anfitrião comentou que tinha ficado a pensar no que eu tinha dito no gazebo, sobre a lua e o cio dos animais. Ainda elaborou uma teoria sobre o assunto enquanto barrava a torrada com manteiga mas rapidamente mudou de tema. E, logo que eu terminei a refeição, fez voar uma antiga fotografia para o meu lado da mesa. Olhei para a imagem e reconheci imediatamente Fernando Pessoa a jogar xadrez com um outro homem. Achei que Sena queria que eu identificasse o poeta e fiquei feliz por o conseguir tão rapidamente.

- Também pensa que é o Pessoa?

Afinal, parecia que eu estava enganado! Olhei com mais atenção para a fotografia, mas não encontrei pormenor algum que indicasse estar errado. Olhei ainda com mais atenção, enquanto esperava por uma lupa que Sena mandara a empregada ir buscar ao escritório. Voltei a analisar a imagem e em nada se alterou a minha opinião, era mesmo o poeta que estava a jogar xadrez com um velhote meio careca sentado à sua frente.

- Sabe o que dizem dessa fotografia?

A minha resposta voltou a ser imediata, só que desta vez negativa. Ainda bem, porque desconhecia totalmente o que esta ilustração representava para os admiradores de a Besta. Mas, apesar de me ter enganado na identificação das personagens da fotografia, senti que estava perante um momento importante deste meu trabalho pois fora, finalmente, apresentado à Besta: era o velhote meio careca que jogava com o poeta Pessoa.

Sena preferiu continuar sentado à mesa do pequeno-almoço em vez de me ditar frases no escritório. E mais, nem teve pressa de sair porta fora como era seu costume. Não duvidei que a fotografia o entusiasmava e que estava a divertir-se com a minha ignorância sobre o significado da partida de xadrez na imagem.

- Dizem que essa fotografia foi tirada em Sintra.

Olhei para ela e disse que sim ou que poderia até ter sido num dos cafés do Chiado. Porque não?

- A princípio também acreditei que era o nosso poeta e a Besta sentados num café de Sintra! Que, como disse, até poderia ser no Chiado. Só que era impossível que tal se verificasse, porque estes dois homens nunca se encontraram em Sintra ao mesmo tempo.

Em seguida explicou-me que a sua crença na integridade da fotografia como prova do encontro entre os dois só se manteve até ao dia em que leu uns textos de um tal Raskolnikov e entendeu que tudo não passava de um embuste. E citou de cor alguns parágrafos com a explicação: a foto só poderia ter sido tirada em dois sítios: em Portugal ou em Inglaterra. Mas em Portugal, na década de 30, as mulheres não serviam às mesas em cafés ou clubes como aquele que se podia ver na imagem. Nesse caso, só poderia ter sido em Inglaterra. Infelizmente, desde que Fernando Pessoa regressou com a mãe de Durban que não voltou a sair do país.

- Como foi possível então reuni-los, pergunta-me?

Eu não o ia questionar porque, demasiado surpreso com o que me estava a ser explicado, aceitava qualquer reviravolta. Sena continuou a citar Raskolnikov de cor: Segundo o diretor da revista Chess Monthly, o local onde o jogo de xadrez se realizava na altura em que a fotografia foi tirada, era na Gambit Chess Rooms, em Londres. E estaria com o seu habitual parceiro de jogo, um membro da Ordem Templi Orientis, de nome R. A. Starr, que tinha a fisionomia idêntica à de Fernando Pessoa.

Para que não restassem dúvidas no meu espírito, Sena devolveu-me a fotografia e a lupa e, em seguida, fez voar uma segunda imagem para o tampo da mesa até ao meu lugar. Nesta segunda fotografia estava o verdadeiro Fernando Pessoa, e aí sim, verifiquei que era fácil criar-se uma ilusão devido à extrema parecença com o poeta. Em seguida, sem mais conversa e após lhe ter sido servido um café, Sena saiu porta fora como era seu hábito.

A mim, no dia seguinte, não me restava outro passatempo para ocupar o vazio do primeiro dos dias de ausência de Sena senão aceitar a sua sugestão e ir conhecer os moradores do Freixo. De posse de uma das cartas de apresentação, desci os 39 degraus em direção à única rua da povoação. Sena deixara-me sete envelopes, um para cada uma das mansões, e não colocou um número em qualquer um deles. Ou seja, não existia um roteiro pré-definido para a visita, apesar de me ter dito que iria indicar um percurso. Primeiro pensei fazê-lo do modo fácil, ir à mansão que se encontrava mais próximo da dele. Em seguida, achei que seria melhor começar pela que ficava localizada ao fim da rua e ir percorrendo o caminho desde lá até ao princípio. Foi o que acabei por fazer.

A frontaria das mansões diferenciava-se de umas para as outras e, vistas do exterior, só se assemelhavam na dimensão cúbica do seu espaço. Não havia uma cor dominante, nem sequer uma variação de tonalidades, cada uma tinha a sua personalidade própria. Caminhei até ao fim da rua, sem pressa e a observar a povoação que estava sempre vazia de moradores. Ninguém se mostrava, aparecia ou cruzava comigo. Nada que me importasse neste meu primeiro dia de liberdade no Freixo, em que o meu pensamento estava mais voltado para o destino secreto da viagem de Sena do que para a visita à povoação. Não deixaria de seguir o seu conselho por duas razões; a primeira para evitar indispô-lo com o incumprimento de um passeio que sugerira e para o qual se dera ao trabalho de redigir cartas de apresentação; a segunda, porque o que estava por trás destas fachadas dispostas ao longo de uma única avenida, causava-me uma verdadeira curiosidade. Se eu fosse arquiteto e sonhasse com um mundo irreal, este poderia ser um modelo para o criar! Além de que, enquanto penetrava nestas mansões, poderia obter alguma pista que explicasse o Freixo e o meu próprio lugar neste canto do mundo.

Quando bati à porta da primeira mansão não esperava pelo que me foi dado a ver. Fiquei espantado por ser o próprio dono a abrir a porta, todo vestido de negro e com um ar muito circunspecto. Não pareceu surpreendido com a minha visita, como se estivesse avisado de que esta iria acontecer. Decerto que Sena o teria feito e, sem dúvida, que me deveria ter avisado também que o meu destinatário era o cangalheiro do Freixo.

A sala de entrada da mansão era imensa, como se de uma catedral se tratasse, obrigando-me a pensar que quem via o edifício de fora nunca imaginaria ser possível aquela dimensão tão gigantesca. Após a minha surpresa inicial, que deixou o cangalheiro indiferente, levou-me a passear pela mansão. Fui observando os pormenores da decoração desta espécie de catedral, que deveria ser assim para receber condignamente os mortos da povoação, mas o que mais me chamou à atenção foi que todo o seu espaço - chão, paredes e teto - era coberto de azulejos brancos e pretos em forma de losango. A única interrupção no pouco colorido revestimento era nos vitrais, que substituíam as janelas inexistentes, em cores berrantes quando comparadas com as outras duas.

Fixei o olhar nos vitrais e reparei que não reproduziam apenas cenas da Bíblia, como seria de esperar num edifício que se fazia passar por um local católico. Existiam representações de várias religiões e a primeira que estava vitralizada mostrava quatro cenas do budismo: um astrólogo que visitava o pai do recém-nascido Siddartha e profetizava a sua renúncia ao mundo material para se tornar um santo; o mesmo Siddartha a visitar pessoas em sofrimento; depois, em busca da vida espiritual e muito debilitado pela prática ascética. Em seguida, vinha a vitralização de Jesus com a reprodução dos seus antepassados, retirada dos dois únicos evangelhos que a referem: desde Adão no de Lucas, e desde Abraão no de Mateus. Ao centro, inscrevia-se a palavra "ungido" e por baixo estava a expressão grega "ησοῦς Χριστός Θεοῦ Ὑιός Σωτήρ" que o cangalheiro fez questão de traduzir: Jesus Cristo Filho de Deus Salvador. A finalizar, estava vitralizada a perfeição de Maomé como ser humano ignorando a divindade do seu ser, bem como os seus papéis de profeta, que têm como antecessores Jesus, Moisés, David, Jacob, Isaac, Ismael e Abraão; e de unificador das tribos que se tornaram um império desde a Pérsia até à Península Ibérica.

Foi preciso que o cangalheiro interrompesse o meu espanto com um ataque de tosse que ecoou pela catedral para me despertar do encanto perante a sua descrição e continuarmos a visita. Apressei-me a ir ter com ele que, com um sorriso franco, disse-me:

- Se o desejar, depois de lhe mostrar o jardim, pode continuar por si próprio a visita e admirar com mais atenção os vitrais ou o que desejar. Não tenha pressa porque esta casa nunca fecha as suas portas.

O que me esperava do outro lado da catedral, ao passarmos a última porta que dava para as traseiras, ainda era mais inesperado. Discreto, existia ali um jardim exterior onde estavam dúzias de campas e vários jazigos e mausoléus. Era o cemitério do Freixo, sem dúvida! Tinha uma relativa extensão e era murado. Como, depois de olhar para as lápides mais próximas, reparei com mais atenção nesse muro, o cangalheiro fez questão de explicar.

- A intenção é proteger-lhes o descanso eterno.

Acreditei que sim, mesmo que logo tenha pensado que ninguém estaria interessado em vir até à povoação profanar tumbas de mortos. O homem não prolongou o seu reparo e, antes de se despedir, fez questão de me levar pelo corredor principal entre campas até ao fim do cemitério. Aí, subimos uma escada feita em pedra que, ao fim de sete degraus, desembocava num pequeno patamar. Daqui, conforme me mostrou, podia ver-se o que ficava para além da única rua do Freixo. E foi-se embora, depois de me abraçar fortemente; de dizer que tinha sido um prazer receber um visitante, e de colocar-se às ordens para qualquer situação em que fosse necessário.

Enquanto observava a paisagem traseira da povoação, remoí nestas suas últimas palavras, as de estar às ordens, como se pudesse ser um mau presságio tê-las dito. Será que previa que eu - ou o meu corpo - iria necessitar dos seus serviços durante a estada no Freixo? Deixei esse pensamento dissolver-se e desci os sete degraus, para ir passear por entre as campas do cemitério. A minha principal curiosidade era saber quem ali estaria enterrado e nada melhor do que percorrer o jardim para o saber. Dei uns passos até à lápide mais próxima e li o nome do falecido. Depois, andei mais um pouco até à zona dos jazigos e li o nome das famílias a que pertenciam. Ainda fui ver as campas laterais e li mais nomes de pessoas que ali tinham ficado para sempre. Era um cemitério igual a tantos outros.

A segunda mansão que visitei era bem menos macabra, mas também tinha algo de inesperado à minha espera. Bati à porta com os nós dos dedos e não precisei de esperar muito para que o seu proprietário me viesse receber.

-Ainda bem que chegou! Estava à sua espera para dar início à projeção.

Não tivemos tempo para grandes apresentações, pois fui logo encaminhado para uma sala lateral onde, numa tela, passavam os créditos iniciais de um filme. Sentámo-nos cada um no seu cadeirão e durante quase duas horas assistimos à história angustiante de um naufrágio.

- Provavelmente, preferia um bom filme de cowboys?

Foram as únicas palavras pronunciadas pelo anfitrião até que a palavra Fim surgiu no ecrã e as luzes foram acesas, não me permitindo saber sequer o nome dos atores que protagonizavam esta aventura marítima. O filme começava com um incêndio na casa das máquinas, a que se seguia o esforço da tripulação para salvar o máximo número de passageiros. Quando os barcos salva-vidas já estavam no mar, o realizador parecia ter-se esquecido dos outros botes e focava o filme apenas num deles, aquele onde ia o comandante. Que era um homem intratável, sempre a arranjar mal-entendidos e que até atirou um casal mais indisciplinado na obediência às suas ordens borda fora durante uma violenta tempestade. No fim, após vários dias perdidos e muitas tragédias, um navio que tinha ouvido o pedido de socorro salvou-os do naufrágio e da violência do comandante.

O filme era fraco e quando o dono da mansão me perguntou a opinião, peguei nas suas palavras, respondendo-lhe que preferia uma boa coboiada, com muitas paisagens do Faroeste e índios à mistura. Deveria ter-me calado porque foi à estante buscar uma bobine com o género de filmes que eu dissera apreciar.

- Vamos ver um daqueles que nunca me cansa!

Era realmente um filme dos melhores do género. Muitas lutas entre o exército norte-americano e tribos sioux, caçadas que dizimavam dezenas de búfalos e execuções sumárias de um lado e do outro, tudo isto provocado pelo tradicional motivo do rapto de uma mulher branca pelos índios. Quando a palavra Fim surgiu novamente no ecrã, evitei dar outras sugestões sobre filmes de que também gostava ou a noite iria entrar pela madrugada.

Quando cheguei à porta de casa de Sena suspirei de tão cansado que estava após as duas primeiras visitas realizadas. Ainda me faltavam cinco mansões, mas essas ficariam para os próximos dias, pois teria tempo para o fazer até que Sena regressasse. Perguntei a mim próprio se ainda poderia jantar, já que nenhum dos anfitriões me oferecera algo para comer. Será que a empregada ainda estaria acordada? A resposta estava sentada à minha espera num dos bancos do salão de entrada, de onde uma jovem se levantou imediatamente mal me viu e fez a pergunta desejada:

- Boa noite. Posso servir o jantar?

Disse-lhe que sim, enquanto me perguntava pela criada do Sena. Onde estaria? Teria ido com ele na viagem? Essa e as outras perguntas que fazia desvaneceram-se ao sentar-me à mesa para comer o que a rapariga trazia nas travessas. Disse-me que desconhecia os meus gostos alimentares, mas como ninguém diz não a uma boa galinha do campo fora isso que decidira fazer. Assara-a com umas batatas novas e acompanhara-a com um molho, do qual não consegui descobrir que tempero lhe daria um sabor tão especial. No fim, trouxe-me uma torta de laranjas apanhadas pela tarde - informou-me - e perguntou se desejava tomar um café. Disse-lhe que sim e foi o que ela fez.

Refeito da estafa da tarde, decidi ir bisbilhotar a estante do escritório de Sena para saber mais alguma coisa sobre a Besta e Fernando Pessoa. Mesmo estando Sena ausente, sentia que não deveria deixar de trabalhar no tema que me trouxera até ao Freixo. Dispensei a jovem, pois não precisava de mais nada.

- Certo senhor. Vou, então, abrir a cama e ver se a lareira está em condições.

Achei piada ao modo como me tratava. Não era todos os dias que me chamavam de senhor e se preocupavam com a temperatura ambiente do meu quarto. Servi-me da aguardente que habitualmente Sena me oferecia após o jantar e fui para o seu escritório. Ainda li o seguinte trecho, impresso numa enciclopédia:" Era uma amizade literária improvável mesmo no século XX a de Fernando Pessoa com a Besta. Sofredor e tímido poeta, mestre em heterónimos e na melancolia e sem ver reconhecido em vida o seu génio, bastante diferente daquele a que alguém apelidara de o 'mais maléfico homem de sempre'. Trocaram durante algum tempo uma correspondência controversa..."

Ainda permaneci no escritório de Sena um bom par de horas, entretido com a leitura de tantos mexericos que encontrava sobre a relação entre Pessoa e a Besta. Quando vi as horas, mais do que meia-noite, levantei-me e dirigi-me ao quarto, ansioso por entrar naqueles lençóis que eram mudados todos os dias e desejoso por sentir o calor da lareira. O silêncio que ocupava a casa indiciava que a nova empregada estaria a dormir há mais de uma hora, tempo que passara desde que deixara de ouvir o lavar de louça na cozinha. Por isso, quando entrei no meu quarto, surpreendi-me ao encontrá-la sentada num cadeirão, como que à minha espera. Eu não tinha acendido a luz porque a chama da lareira era suficiente para iluminar o quarto enquanto me despisse, só que o fechar da porta acordou-a.

- Desculpe senhor, adormeci enquanto lia no escritório.

Fiquei sem saber o que lhe dizer porque não entendia o que estaria ali a fazer. Não precisava de nada e tinha-lhe dito isso mesmo no fim do jantar.

- A senhora escolheu-me entre as outras porque acha que sou o tipo de mulher de que gosta.

E começou a despir-se ali mesmo à minha frente. Tinha o cabelo comprido preso atrás e assim deixou. Desabotoou a blusa de mangas compridas e vi que tinha uns braços fortes. Deixou cair a saia e observei que as pernas também eram de boa constituição. Puxou pelos ombros abaixo a combinação, peça que há muito não via uma mulher usar, ficando apenas de roupa interior. Aí aproximou-se de mim e fez-me o mesmo, até eu ficar também só de roupa interior. A seguir, afastou-se um pouco e, levando as mãos atrás das costas, desengatou o fecho do soutien e colocou a peça sobre a cómoda.

Foi nesse momento que entendi a razão de ser da pergunta que a empregada do Sena me fizera há uns dias, sobre que tipo de mulher é que eu preferia? A resposta estava à minha frente e, mesmo que eu não tivesse escolhido entre as opções que ela me dera na altura, o que decidira fora perfeito. Tirou a última peça que ainda a cobria, fez-me o mesmo e levou-me pela mão para dentro daqueles lençóis bem passados a ferro como forma de evitar a solidão durante a ausência do meu anfitrião.

Faltava ainda conhecer algumas mansões no Freixo, mas fiquei em dúvida se iria correr o risco de ter mais experiências como as do dia anterior. Não é que fossem enfadonhas, afinal ambas me surpreenderam e ocuparam o tempo livre da melhor forma enquanto Sena estava fora, mas a noite agitada pedia mais cama. Assim fiz, falhando o pequeno-almoço, o que obrigou a jovem a vir bater à porta, para saber se não iria tomar a refeição matinal. Disse-lhe que não e fiz-lhe sinal de que pretendia desfrutar mais do seu corpo, convidando-a a entrar para dentro dos lençóis. Ela obedeceu e nesse dia não pus o pé na única rua da povoação. Mas não deixei de perguntar à rapariga como seriam as cinco mansões que me faltavam conhecer e que, não duvido, deveriam ser todas visitadas antes de voltar a ter a companhia de Sena. Ela respondeu-me apenas com um "nunca lá entrei", o que me deixou ainda mais curioso sobre o Freixo. Com tão poucos moradores, seria possível que não se conhecessem todos? Era essa a verdade, de acordo com as palavras da jovem. Ainda tentei saber alguma coisa mais sobre a terra, mas nada de útil me foi contado por ela durante o interrogatório entrecortado que fui realizando. Ou não queria fazer revelações indiscretas, ou estava mesmo com sono, como parecia ser o caso.

Adormeci por várias vezes enquanto sonhava por outras tantas. Bastantes sonhos, uns mais calmos, outros mais agitados, mas sempre com as mansões da povoação a dominarem as várias histórias que me eram contadas por uma mente febril em invenções. O mais curioso é que pareciam antecipar as minhas próximas visitas, só que com a forma de aventuras escritas em livros para crianças porque eram todos eles muito infantis. Havia reis numas mansões, rainhas e princesas nos palacetes e das casas saíra o povo para se juntar na única rua da povoação, à espera que se anunciassem casamentos entre as figuras reais. O mais estranho é que eu acordava e adormecia e o sonho nunca tinha um tema diferente, apenas mudavam os protagonistas. Que também vinham vestidos com os mesmos belos fatos dos anteriores casamentos e eram homens e mulheres mais belos do que os do anterior casamento. O único pormenor que tinha a ver com a realidade eram os olhos das rainhas e das princesas, semelhantes aos da jovem que estava ao meu lado na cama. Que significado teriam estes sonhos era o que me perguntava cada vez que acordava, mesmo que não fosse uma questão que me fizesse perder o sono e o sonho seguinte.

Apesar de a jovem parecer demasiado ignorante sobre o que se passava no Freixo e até na própria casa onde trabalhava para ser crível a sua ingenuidade, já que afirmava desconhecer o destino de Sena e da empregada, parti do princípio de que estaria a falar verdade. Os poucos dias de convivência com o meu anfitrião mostravam-me que essa era uma situação possível de acontecer, já que Sena não me parecia pessoa para justificar os seus atos sem a isso ser obrigado. Voltei a fazer mais algumas perguntas à jovem, de forma disfarçada, porque mesmo sem ter qualquer razão para tal o desaparecimento do meu anfitrião parecia-me suspeito e acreditava estar relacionado com o trabalho que envolvia.

Foi sob este interrogatório mascarado em questões postas no meio das conversas que acabei por concluir que o destino da viagem teria sido a Irlanda. Não sei bem explicar porque é que achei ser esta cidade o lugar para onde Sena e a empregada teriam partido, talvez por algumas deixas ou deslizes da jovem no diálogo que mantínhamos, mas nunca consegui arrancar-lhe o segredo - se é que era um segredo! Como também não falava durante o sono, nem nunca pronunciou a palavra Irlanda em qualquer resposta, o facto de ser esta a cidade para onde Sena fora era mais uma crença minha do que uma certeza. Aliás, esta busca pelo destino do meu anfitrião junto da jovem foi a minha primeira experiência no que respeita ao seu conhecimento mais íntimo e sobre a sua pessoa no geral, que mostrou como era mais transparente e ao mesmo tempo opaca do que qualquer outra mulher que já conhecera na minha vida. Até porque mais tarde, após saber que a Irlanda era a resposta certa, questionei-me pelo modo como aí chegara. Não existira nenhuma pista deixada por Sena ou pela empregada; nas nossas conversas, a jovem nunca se aproximara de qualquer referência à cidade ou ao país; nem sequer dissera que iam viajar de avião ou coisa semelhante. No entanto, eu chegara à conclusão correta.

Nesse momento jamais pensei na possibilidade de existir na jovem a capacidade e o poder de induzir em mim qualquer ideia ou pensamento de forma tão inocente como acontecera desta vez, mesmo que mais tarde eu aceitasse que ela era muito mais diferente das pessoas que eu já conhecera do que a princípio desejara admitira. Talvez devesse ter pensado que para Sena me pôr sob a sua trela durante as suas ausências existiria um motivo para além da simplicidade com que me fora apresentada, o de uma criada para todo o serviço.

Foi a descoberta que fiz no entretanto que me surpreendeu. Tudo começou quando pedi à jovem para me trazer alguns jornais de modo a inteirar-me do que se passava no mundo. Desde que chegara ao Freixo, nunca mais lera um jornal e, deste modo, passava-me ao lado a polémica em curso devido à venda de alguns manuscritos do espólio de Fernando Pessoa. Ela não encontrara nenhum jornal nacional e por isso comprara o único que restava, que já nem era daquele dia, o britânico The Observer, onde um jornalista redigia um artigo sobre o que restava da herança literária do poeta e que a família estava a leiloar. O título era "Batalha em Lisboa para interromper leilão de tesouros literários". Quanto ao texto escrito a partir da capital portuguesa, este dizia: O Governo português decidiu, segundo confirmou uma fonte oficial, não permitir a venda em leilão de mais de dois mil documentos de Pessoa. Os documentos incluem 800 páginas com cartas e outros papéis que relatam a amizade do poeta com a Besta. O responsável da casa leiloeira referiu que ainda não havia data marcada para o evento, mas adiantou que deveria acontecer brevemente devido à comemoração dos 120 anos do nascimento de Fernando Pessoa.

Em seguida, o jornalista J. Hooper relatava a importância do poeta: É uma figura célebre na história da literatura portuguesa, o poeta que melhor exemplifica a lírica nacional sob os signos da timidez, reserva e nostalgia. Antes de terminar o artigo explicava o porquê da polémica que o leilão causava, explorando o facto de que, apesar de os documentos pertencerem aos sobrinhos, a Casa Fernando Pessoa e a Biblioteca Nacional pretendiam evitar a dispersão por via do leilão dos manuscritos por vários compradores, nacionais e estrangeiros. Acrescentava que o seu valor era incalculável e essa era a parte que mais me chamava a atenção. Estava mesmo no fim do artigo do The Observer: Felix Pryor, consultor da Faber Books of Letters disse: O valor dos arquivos deve-se a Pessoa e não à Besta, ou, pode dizer-se, à combinação letal da correspondência entre ambos. Ainda escrevia mais umas linhas sobre os possíveis interessados nas cartas entre Pessoa e a Besta, dando como exemplo o guitarrista Jimmy Page, da banda Led Zeppelin, que durante anos colecionara manuscritos da Besta. Também reproduzia as declarações de um tradutor de Pessoa, Keith Bosley, que retratava o poeta assim: um homem intensamente privado e que se descrevia a si próprio como um degenerado superior, fascinado pelo oculto e que dera cobertura à falsa morte de a Besta ao afirmar ter visto o seu fantasma no dia a seguir ao suicídio na Boca do Inferno.

O último dia livre antes de Sena chegar foi bastante atribulado. Por um lado, a notícia do jornal criara-me uma grande dúvida: será que Sena fora mesmo à Irlanda ou andava envolvido na compra da correspondência entre Pessoa e a Besta? Era demasiada coincidência estar a acontecer esta polémica com uns manuscritos que seriam muito do seu interesse e ter feito uma deslocação misteriosa e inesperada para fora do Freixo. Por outro lado, ainda me faltavam cinco das mansões que Sena "sugerira" visitar e, se não o tivesse realizado antes do seu regresso, creio que o meu anfitrião iria fazer perguntas sobre o modo em como ocupara o meu tempo na sua ausência.

Yeats recebe o Nobel da Literatura mas não esquece os ritos mágicos

Alguém retirara a sobrecapa ao livro Uma Visão do poeta irlandês W.B. Yeats e este ficara encadernado apenas com uma cartolina totalmente branca. É certo que o conteúdo do livro estava no seu interior como antes, mas o rosto que lhe dava a primeira personalidade desaparecera. Folheei-o e reparei que nas últimas duas páginas, em branco, estavam anotados alguns números e várias breves frases. Havia o 160 e as palavras Ilhas de Aran, que logo fui verificar a que corresponderiam. Havia também o 101, sem nada escrito a seguir, e uma série de números, 181; 184; 206 e 210, que se referiam a páginas onde as palavras "os meus instrutores" estavam sempre sublinhadas.

Voltei a folhear o volume várias vezes durante as horas em que aguardei por Sena no escritório, na primeira manhã após o seu regresso da Irlanda, e acabei por me fixar na página 167, onde estava impressa a seguinte frase: O intelecto tornou-se indiferente ao bem e ao mal, à verdade e à falsidade; o corpo fez-se indiferenciado, como uma massa maleável; quanto mais perfeita a alma, mais indiferente o intelecto, mais maleável o corpo; corpo e intelecto assumem toda e qualquer forma, aceitam toda e qualquer imagem que neles seja gravada, cumprem todo e qualquer fito que lhes seja imposto, são deveras instrumentos de manifestação sobrenatural, o derradeiro elo entre os vivos e os seres mais poderosos.

Larguei o livro e fiquei a pensar na frase durante alguns minutos. Depois, coloquei-o no lugar onde estava antes na estante e quando Sena entrou pelo escritório adentro apanhou-me no êxtase de pensamento, num momento em que tentava adaptar a biografia que conhecia do poeta Pessoa àquelas linhas que acabara de ler sobre o poeta irlandês. E perguntava-me até que ponto este não era o verdadeiro retrato de Fernando Pessoa?

Sena não se apercebeu do meu estado de alma e, creio, até achou que eu dormitava, encafuado confortavelmente no sofá enquanto o aguardava. Ele, que abrandara a velocidade da marcha em que vinha com um bater de solas no chão de madeira, silenciou a fala que estava a iniciar - um bem audível Bom dia - que rapidamente me trouxe até à realidade matinal.

Logo que me achou estar desperto, perguntou:

- Já leu alguma coisa de William Butler Yeats?

Menti-lhe e disse que não, porque queria ouvir o seu relato sobre o autor numa versão para principiantes. Poderia ter confessado que já lera uma antologia da obra poética traduzida e alguns livros na língua original, mas preferi fazer uma afirmação mais tola, a de que o conhecia de nome e que sabia que ganhara o Nobel, mas desconhecia o que lhe valera tal Prémio. Sena não pareceu importar-se, nem mesmo surpreender-se com a minha ignorância. Antes disse:

- Ótimo, assim não fará o seu trabalho a partir de preconceitos errados como muitos têm por hábito em relação a William Butler Yeats. A quem vou a partir de agora referir-me sempre como Yeats e não como W.B. Yeats.

Gostava de ouvir estas afirmações de princípio por parte de Sena que, cada vez que iniciava um novo capítulo sobre alguém, esclarecia sempre algumas particularidades da sua relação com o autor. Não deixou de o fazer mais uma vez.

- O homem morre em 1939 e, como disse, ganhou o Prémio Nobel em 1923. Ou seja, teve pouco mais de quinze anos para gozar dessa glória mundana em que o galardão sueco sempre afunda aqueles que premeia. Curiosamente, mesmo laureado, não deixou de aprofundar as suas teorias mais esotéricas e de publicar no ano seguinte um livro chamado Uma Visão, no qual expõe muito do pensamento que nos vai interessar daqui para a frente.

- Conhece esse livro?

Respondi-lhe que nunca ouvira falar dele, mesmo que o tivesse tido entre mãos nos últimos minutos, lido algumas páginas e escrutinado as anotações finais manuscritas por quem, penso, agora me perguntava se conhecia esse livro. Evitei referir a curiosidade que me provocaram os sucessivos números de páginas que reportava aos conhecimentos transmitidos pelo que o escritor chamava de "os seus instrutores", designadamente uma frase que ainda me pedia compreensão: Os meus instrutores identificam consciência não com conhecimento mas com conflito, substituindo sujeito e objeto, com a lógica que lhes corresponde, por uma luta pela harmonia, pela Unidade do Ser.

Estava a pensar naquela frase quando Sena pediu para me aprontar. Peguei no lápis e nas folhas que estavam sobre a secretária e comecei a anotar o que dizia. Fi-lo sem atenção porque o meu pensamento estava na Irlanda de onde o meu anfitrião viera. Queria perguntar-lhe como fora a viagem e o que fizera durante os dias em que lá estivera. Como era a cidade; que monumentos visitara; se comprara livros e conhecera pessoas interessantes? Perguntas não faltavam porque, apesar de só conhecer Dublim através de leituras e descrições, era uma cidade que me interessava visitar. Provavelmente seria uma desilusão, mas existia em mim esse desejo que se sobrepunha à atividade que estava a fazer. E o nome Yeats sugeria-me também a pintura, visto que um irmão do poeta fora pintor e eu gostava de várias das suas telas.

Tentei não me distrair porque Sena gostava de uma caligrafia bonita, pouco esborratada e, principalmente, sem erros ortográficos. Ditava devagar para que eu não me pudesse desculpar com o facto de ser incapaz de o acompanhar e era bastante claro na dicção. Não havia, portanto, desculpas para erros da minha parte.

O que Sena perorava era pouco interessante. Fixava uma espécie de cronologia sobre a vida do poeta e ia referindo datas umas atrás das outras, preenchendo os anos entre 1948 e 1865. Estava tão distraído que só a meio da manhã é que eu entendi que estava a escrever a cronologia ao contrário, ou seja, do fim da vida de Yeats para o início. Também só ao rever os apontamentos, a pedido de Sena, é que reparei numa discrepância entre a última data da sua vida que ditara e aquela que realmente deveria ter proclamado como sendo a da sua morte. Yeats morrera a 28 de Janeiro de 1939 e ele fizera-me escrever o ano de 1948 como a data do seu fim. Olhei para o que escrevera com mais atenção e só então entendi que considerava a trasladação do corpo do poeta irlandês para a localidade de Sligo como o ponto final da sua vida e não a primeira sepultura em Roquebrune. Qual seria a razão desta opção?

Não a consegui saber porque a minha distração decerto o irritara. Por isso, quando lhe ia perguntar o motivo desta opção fúnebre já Sena tinha saído porta fora, como era seu hábito ao fim da manhã.

Irlanda? Dublim? Sligo? Roquebrune? Um país, três localidades e nenhuma história de viagem contada. Sem ser capaz de disfarçar o meu estado de curiosidade, decidi que durante o lanche iria extorquir-lhe o relato da sua deslocação àquela ilha do Mar do Norte. Far-lhe-ia uma pergunta discreta e logo veria se aceitaria conversar sobre o tema. Outra pergunta que lhe queria fazer era sobre uns versos que lera em voz alta, no entanto sem pedir para anotar qualquer referência. O verso que mais me surpreendera fora o que dizia "A cerimónia da inocência foi afogada".

- Isso pertence ao poema "The Second Coming", que Yeats escreveu pouco tempo depois de a Grande Guerra terminar. É um escrito estranho e sobre o qual há várias interpretações que pouco nos importam agora. Posso-lhe dizer que, na maior parte das opiniões, a razão de ser do poema terá a ver com a profecia bíblica do Livro da Revelação, a que anuncia o regresso de Jesus no fim dos tempos. Eu não partilho dessa explicação porque Yeats coloca nos versos a transposição de uma teoria que é alegadamente esotérica mas que será mais verdadeira do que as outras que parecem ter a ver com a Primeira Grande Guerra, até porque é devido a esse conflito que então se colocava a iminência do apocalipse.

Via-se que Sena não desejava divulgar o seu conhecimento, mesmo que ainda tenha dito que Yeats tinha uma opinião mais mística sobre o processo histórico e o seu fim, através da representação dos ciclos do tempo nuns cones em rotação, que se entrelaçavam uns com os outros e que continham espirais onde se registava o início e o fim do desenvolvimento do pensamento humano, bem como o combate entre as forças do que é puro e do que é mal.

- Ou seja, para Yeats o apocalipse será bem diferente daquilo que as Sagradas Escrituras contam e a tão esperada Segunda Vinda de Jesus terá uma relação com o aparecimento do Anti-Cristo que não será bem como se pensa...

Sena não falou mais sobre o poema, nem, clarificou a minha incompreensão sobre o simples verso que eu referira. Pelo contrário, o que dissera transformava aquelas palavras normais numa pilha de mistérios que, esses sim, afogavam a minha inocência sem cerimónia. Destas suas palavras, retive mais o inesperado de as proferir, já que era raro adiantar-se em explicações. Mais uma vez, eu confirmava que fazer três leituras era o prato forte de Sena no que respeita à mensagem oculta que se poderia encontrar em qualquer verso, aparentemente inocente e belo.

Saber ler nas entrelinhas era o meu maior desafio neste momento. O que ia desvendando na personalidade de Yeats através da sua poesia mostrava-me que era esse o caminho a seguir se o desejo fosse também o de entender o meu papel nesta estada no Freixo, até porque se um poeta transporta sempre para os seus versos muito do que observa no dia-a-dia, também a poesia serve para esconder conhecimentos. Pelo que Sena ditara até ao momento, era impossível acreditar que o poeta irlandês apenas escrevera poemas sem introduzir entre as linhas dos versos muita da informação sobre ocultismo que aprendera ao longo de décadas de prática. Para quem lê o trabalho intelectual de Yeats sem estar preocupado com essa dupla condição do autor, o que lhe aparece é o confronto com a beleza de uma paisagem, o torcer das palavras para quando é necessário rimar e a expressão de sentimentos amorosos. Alertado pelos textos em posse do meu anfitrião e que eu espiara, não poderia ser mais essa a minha posição perante a sua poesia. Não considerava, no entanto, que isso fosse bom para um leitor como eu. Porque abandonava a contemplação das palavras a troco da sua desconstrução e preocupava-me mais em estar a fazer uma busca por significados diferentes daquele que uma leitura ingénua ofereceria da obra.

Talvez para evitar este erro interpretativo, revi os poemas que lera nos dias anteriores. Vi imediatamente que os significados que tinham desapareceram com a violência que provocaria uma onda gigante no areal desprotegido de uma praia. Só que esse choque era contra mim e o resultado fazia com que as palavras dos poemas perdessem o norte. Como se a minha bússola de leitura estivesse mais desorientada do que eu próprio nesta investigação e me obrigasse a repensar que o facto de saber ler nas entrelinhas não seria o meu maior desafio neste momento. Não seria por acaso, pensei também, que o escritor recebera o Prémio Nobel... Nem a Academia Sueca estaria ao abrigo de certas poderes ocultos que andavam por esse mundo fora, bem a coberto da literatura e do trabalho de poetas como Yeats...

O que o meu trabalho para Sena mostrava de um modo muito claro é que nada era o que parecia, realidade que as anotações que eu viera fazer para o Freixo confirmavam. Afinal, qualquer segredo desapareceria se fosse bem investigado ou, por outro lado, ganharia uma carapaça mística que o faria bem mais misterioso do que aquela que já possuía. Não era necessário pensar muito sobre esta verdade que me surgia cada vez mais clara, nem ser um grande entendido para ficar a perceber que o ocultismo em que estes poetas se apoiavam tinham um objetivo muito maior do que aquele que o cidadão poderia compreender. O leitor era um recetor, nada mais do que isso, que servia uma causa que lhe passava ao lado mas que, ao partilhar do prazer de certas leituras, transformava-se em seu divulgador.

Tive a tarde toda para mim. Ainda fiz uma revisão à cronologia e passei a limpo a folha que estava em piores condições para ser apresentada. A lista de datas e os eventos da vida do poeta ocupavam uma dúzia de folhas, confirmando que esta fora a sessão de trabalho mais produtiva desde que iniciáramos a colaboração e que bem merecera o almoço que se seguiu. A jovem que me fizera companhia durante a ausência do meu anfitrião e da sua empregada desaparecera e ainda estive para questionar a mulher que me servia agora a refeição sobre a razão da sua ausência. Seria definitivo o seu desaparecimento; voltaria a perguntar-me se a desejava - responderia imediatamente que sim -, ou regressaria ao meu convívio mal a dupla partisse para outra viagem? Resolvi que não faria qualquer pergunta sobre a jovem e que o consolo sexual que me proporcionara durante os dias anteriores seria com certeza suportável, ou não estivesse eu acostumado a longas ausências de um corpo feminino na minha vida. Fora um presente dos deuses ter alguém que satisfizesse o meu apetite sexual como uma escrava. Ainda pensei, tudo o que é bom tem um fim.

Era isto que estava na minha cabeça enquanto me ocupava com outras questões menos filosóficas. Tal com o gosto da carne da perna de porco que me fora posta à frente e do resto do peito de pato que sobrara do jantar do dia anterior, que eu excluíra da refeição por ser impossível devorar tanta comida como a que me fora oferecida. Desconfiei, no entanto, que estes pensamentos sobre a jovem ausente só tenham surgido após a empregada me ter perguntado se eu preferia perna ou peito, palavras que me remetiam sem escrúpulos para aquele corpo.

Antes de terminar a refeição, ainda olhei pela janela aberta de par em par para o jardim. Não se via o gazebo desta sala, por isso imaginei como seria bom aproveitar o resto do sol enquanto fosse de tarde, para me aquecer durante a leitura de alguns poemas de Yeats dos livros que Sena me entregara para melhor compreender o protagonista do trabalho agora em curso. Escolhi para aprofundar o meu conhecimento da poesia de Yeats um dos seus mais famosos poemas do início de carreira. Intitulava-se "A Ilha do Lago de Innisfree" e fazia parte dos que publicara em 1893 no livro A Rosa.

Confesso que, apesar de apreciar o género literário, não sou grande leitor de poesia. Não sei se me falta alguma sensibilidade para ler a inteireza dos versos ou se me escapa a profundidade dos sentimentos? Desconheço o que me acontece enquanto estou em frente às linhas da poesia e porque passo tão rapidamente as páginas desses livros, já por si habitualmente pouco espessos. Até porque, quando era mais novo, também escrevera alguns poemas e esforçara-me para que tivessem sentido, como que nascidos de uma alma no estado mais puro possível. Só que não sendo capaz de atingir esse grau de pureza tão necessário à expressão do que sentia, acabei por procurar outras formas de confissão humana. E, não tendo sido capaz de criar mais do que umas poucas dezenas de poemas, que se podem educadamente definir como bem elaborados, achei que só me restava guardá-los numa pasta e deixá-los adormecer entre as outras recordações da infância e da adolescência.

O poema de Yeats era direto: "Sim, partirei já, partirei para Innisfree, / E aí uma pequena cabana edificarei, uma cabana de argila e canas: / Plantarei nove renques de feijão e haverá uma colmeia, / E solitário entre o rumor das abelhas viverei." Confrontado com as minhas anteriores experiências poéticas, perguntei a mim mesmo se não seria capaz de escrever algo semelhante? A auto-repreensão veio em poucos segundos, justificando o deslize com a desculpa de que é fácil criticar os outros e difícil ter o seu sucesso. Afinal, mesmo que Yeats estivesse mais ou menos com a minha idade quando escrevera o poema e publicado o livro, eu só realizara a primeira destas situações - e nem fora capaz de aceitar o resultado como bom -, coisa que o irlandês conseguira e que repetira tantas vezes até que recebera o Prémio Nobel.

Como o livro era bilingue, decidi ler a versão original para confirmar se era mais profundo ou se apenas continuava a rasar a minha insensibilidade, sem fazer qualquer corte nesta pele dura e incapaz de provocar a gota de sangue ou de dor merecida. Fui à quinta linha e li: "And I shall have some peace there, for peace comes dropping slow, / Dropping from the veils of the morning to where the cricket sings; / There midnight"s all a glimmer, and noon a purple glow, / And evening full of the linnet"s wings." Interrompi a leitura porque o último raio de sol desapareceu no horizonte e fiquei com frio.

Reabrir o livro de Yeats que continuava sem sobrecapa foi o procedimento habitual de Sena nos dias que seguiram. Ultrapassada a fase da cronologia, começara a ditar um relato onde as personagens eram as que estavam nesse livro. A primeira era o poeta Ezra Pound, de quem Yeats referia que produzia uma arte que estava nos antípodas da sua e na qual elogiava o que para si era mais condenável. Sena escolhera, para refazer à sua maneira, um texto em que o irlandês descrevia um encontro com Pound: Passámos esta última hora sentados no terraço que é também um jardim, a discutir esse imenso poema...

- O que Ezra Pound estava a escrever!

... de que ainda só foram publicados vinte e sete cantos...

- Que Ezra Pound pretendia que tivesse uma estrutura semelhante a uma fuga de Bach!

... onde não haverá enredo, nem crónica de acontecimentos, nem lógica de discurso, mas sim dois temas, a Descida ao Hades segundo Homero, uma Metamorfose segundo Ovídio e, entretecidas neles, personagens históricas medievais ou modernas...

- Que tivesse uma estrutura do género matemático!

... em que a associação onírica de palavras e imagens resulte num poema de que nada possa ser retirado e analisado, no qual nada haja que não faça parte do próprio poema...

- O Yeats contava que ia passear com o Pound e que este levava os bolsos cheios de comida para dar aos gatos da rua. Conhecia bem cada bicho que encontrava durante o passeio e diferenciava-os sem dificuldade, mesmo que fosse de noite - quando todos os gatos são pardos, não é? - como era o caso de um, que pertencia ao dono de um hotel e não aceitava o que os restantes comiam com sofreguidão.

Sena esquecera-se do que estávamos a fazer e divergira para as histórias sobre gatos, como prenúncio do fim da manhã de trabalho.

- O Yeats achava que Pound não gostava dos gatos em geral, mesmo se mantivesse aquela sua atitude de matar a fome aos bichos durante os passeios que ambos davam após o jantar. Até o acusava de privilegiar uns em desfavor dos outros.

Com o passar dos dias, cada vez mais e novas personagens iam desfilando, apanhadas nos raciocínios que Sena me ditava. Não existia, no entanto, um método científico para a sua investigação, antes ia somando informações que encontrava em Uma Visão para achar as pistas que Yeats deixara na sua obra para os que no futuro tivessem interesse em as encontrar. Sena descobria-as, ditava frases e codificava essas informações por uma segunda vez. O método de trabalho alterara-se em relação ao que fizera com o poeta Pessoa e essa situação parecia desagradar-lhe, por muito esotérico que se achasse perante mim ou fosse por absoluta exigência do tema que envolviam estas suas pesquisas.

Reparava nessa irritação ao vê-lo folhear o livro de capa branca para a frente e para trás, amarrotando-o um pouco mais a cada dia. Sentia que estava a perder tempo com Yeats, apesar de o poeta ser fundamental para o trabalho que pretendia executar através de mim. É certo que ainda não fora totalmente explícito no objetivo para que me usava mas, pouco a pouco, eu gostava de pensar que ia entender o que de mim se esperava. Bastava-me ser paciente e observador como Newton que a maçã haveria de cair e descobrir-se a explicação para a gravidade.

Pensava que a mim, que era um mero reprodutor de frases para o papel, seria suficiente a esperteza popular - onde não eram precisos pressupostos filosóficos - para encontrar em breve a verdadeira razão de ser da minha presença no Freixo. Enquanto isso, assistia impassível a este frenesi de Sena e divertia-me com as frases que mandava reproduzir sobre as novas personagens:

- pensemos em Verlaine oscilando entre a igreja e o bordel;

- Napoleão vê-se a si próprio como um Alexandre;

- Anatole France afirma que Flaubert não era inteligente;

- Rembrandt descobrirá o seu Cristo através da curiosidade anatómica;

- Hegel identifica a Ásia com a Natureza;

- César e Jesus estão sempre frente a frente na nossa imaginação:

- Anaximandro considerava existirem dois infinitos;

- Tolstói, na Guerra e Paz, ainda tinha preferências.

Platão também mereceu uma citação, a maior e mais cabalística:

- Há na República de Platão certos números, certos cálculos obscuros cujo propósito é sugerir e ocultar os métodos adotados pelos filósofos governantes para assegurar que os pais certos geram os filhos certos, e prevê-se que quando esses números e cálculos forem esquecidos a República decairá.

Refletir sobre estas frases poderia ter sido um bom soporífero para adormecer nessa noite, mas preferi esquecer os desvarios da manhã de trabalho. Até cheguei a pensar que estava com saudades do protagonismo de a Besta nas primeiras semanas, devido à sua relação pouco honesta com Fernando Pessoa. Talvez devesse ter pensado mais cedo nessa personagem pois, ao entrar no escritório, o nome dela foi a primeira a ser proferida por Sena, com um sorriso trocista e um pouco alarve até.

- A Besta, vamos voltar a ele!

Ainda me perguntei se o meu anfitrião seria capaz de ler os meus pensamentos. Rapidamente vi que não, bastou-me reparar no risco grosso que sublinhava o nome verdadeiro de a Besta numa das folhas do livro de capa branca que estava pousado sobre a secretária. Na página 267 destacava-se, por via de um traço sob a palavra, o apelido da Besta, naquela que seria a única inscrição em Uma Visão do nome do autor que transmitira vários ensinamentos ao poeta irlandês por altura do conhecimento mútuo.

- Yeats deu os seus primeiros passos no mundo dos magos quando se intrometeu nas reuniões da Ordem Teosófica. Depois, avançou na busca de conhecimentos e foi numa outra ordem que os encontrou, a Ordem Hermética da Aurora Dourada. Durante vinte e oito anos andou por lá e, quando se casou em 1917, o desânimo com essa relação conjugal fê-lo procurar os efeitos da magia no corpo humano. Há quem diga que a poesia foi o escape para Yeats superar a frustração do casamento e a ausência de grande prazer físico, situação que já tinha vivenciado com outra musa anterior, uma mulher que também se dedicava às artes do oculto. Esta recusara as insistentes declarações de amor do poeta e preferira casar-se com um militar. A partir desse momento, nenhum dos dois foi feliz, nem quando o militar morreu e Yeats achou que poderia sonhar com um reencontro.

Sena parou de ditar e fez uma confidência que eu não esperava ouvir de si.

- Esta musa era tão endiabrada que, tendo tido uma filha desse casamento fracassado, ao ver a menina morrer cedo decidiu engravidar novamente. Seduziu o marido, de quem já estava separada, durante o velório da filha e, dentro da própria igreja, obrigou-o a manter as relações sexuais que, por sorte, a fecundaram e lhe deram uma segunda maternidade. A Besta, a quem nada escapava, teve conhecimento desta história macabra e usou-a como argumento para um romance que escreveu em seguida, com o título Moonchild.

O relato de Sena foi interrompido pelo chamamento da empregada para o almoço. O meu anfitrião convidou-me para a refeição e eu aceitei o convite com a intenção de saber mais sobre Yeats e, principalmente, tentar conhecer pormenores sobre a viagem à Irlanda que ainda não contara. Por norma, Sena não almoçava na sua mansão. Esta exceção vinha mesmo a calhar porque, pareceu-me, estava em maré de confidências. Decerto que a ligação entre o poeta irlandês e a Besta não eram muito do seu agrado e daí estes desabafos inesperados. A forma que encontrei para introduzir o assunto foi pregar-lhe uma rasteira, perguntando-lhe se tinha ido a Roquebrune visitar a campa de Yeats, que eu sabia ter sido trasladada para Sligo posteriormente.

- Yeats repousa em Sligo, numa campa discreta onde só uma lápide em mármore cinzento confirma que é aí o lugar do seu eterno descanso.

A resposta de Sena confirmou que a minha artimanha não estava a funcionar.

- Descreverei essa minha visita no que lhe vou ditar amanhã. Tenha um pouco de paciência e, agora, aproveite para saborear este bolo delicioso.

Caiu o silêncio entre nós e o único ruído que lhe ouvi foi o de sorver o chá de forma um pouco ofegante, como se precisasse de queimar as entranhas.

"William Butler Yeats teve, se assim se pode dizer, dez anos depois de ter sido sepultado em Sligo, uma boa notícia: a fundação de uma instituição cujos estatutos previam homenagear a sua memória e difundir o conhecimento da sua obra. É fácil descobrir o edifício que abriga o Memorial Yeats porque está construído no centro da localidade e é bastante digno na sua arquitetura; forrado com tijolos outrora vermelhos, que o tempo escureceu e situado bem perto do rio Garavogue. Há sempre uma exposição sobre Yeats e os interessados podem participar em muitos dos cursos que aí se realizam, bem como consultar a biblioteca e fazer as investigações que desejarem sobre o poeta. Mas não era isso que eu pretendia, até porque os funcionários não vão para além das repostas triviais e dentro dos limites do que a memória do celebrado exige. Dificilmente alguém responderá a uma pergunta sobre a relação entre Yeats e a Besta, só se a fizermos a um irlandês indiscreto que queira beber uma cerveja à nossa conta. Por isso, o que fiz foi dirigir-me à região onde teve início a conquista normanda da Irlanda, zona onde os invasores construíram uma série de torres de defesa contra os celtas que teimavam em recuperar o terreno perdido. Yeats comprou uma destas construções, a Torre Ballylee, também conhecida como Castelo Ballylee, onde fez grandes obras de restauração apesar de nunca as ter conseguido acabar como era o seu plano, nem habitar a residência como era o seu desejo. Durante três anos insistiu na recuperação da Torre e fixou a data do equinócio de 21 de setembro de 1918 como o limite para o fim das obras, altura em que se deveria realizar o primeiro ritual de magia, dos vários que se tiveram lugar na propriedade. Se Yeats registou o fracasso da sessão no diário reservado aos relatos de atividades mágicas, houve alguém que decidiu transformar o facto numa história bastante romanceada. Fora a Besta, devido à animosidade que mantinha com o poeta por causa da rivalidade entre ambos por um papel na Ordem Hermética, que fixou para sempre o fracasso da sessão ao sugerir a morte de um participante, que se despenharia do telhado do castelo. Publicou essa invenção no seu livro Equinox, num capítulo intitulado "Os crápulas meus contemporâneos", páginas onde criticava Yeats abertamente e deitava por terra a sua poesia. O certo é que Yeats ganhou o Nobel, mesmo que a Besta o tenha superado em todas as atividades do ocultismo. O que se passou na Torre é prova disso, mesmo que agora ninguém queira falar muito sobre o assunto, o que torna uma viagem à Irlanda para apurar esses acontecimentos uma frustração."

Foi este o relato de Sena sobre a sua viagem à terra de Yeats.

Li mais umas páginas do livro de capa branca de Yeats e alguns poemas que me despertaram a atenção após o relato de Sena sobre a expedição irlandesa...

A prosa: "Certos espiritistas de Londres guarnecem, de há alguns anos a esta parte, uma Árvore de Natal com presentes, cada qual com o nome de uma criança morta".

O poema: "Eu, o poeta William Yeats, / Com velhas tábuas de moinho e lousas verde-mar, / E ferro forjado na forja de Gort, / Restaurei esta torre para a minha esposa George; / Possam estes sinais permanecer / Quando tudo for ruínas outra vez.

... até que Sena chegou, de rosto sério, desejoso de avançar no trabalho.

- Este Yeats cada vez me interessa menos. Ele não se deixou enganar tão credulamente pela Besta como muitos outros e, por isso, temos de encerrar o seu capítulo o mais rápido possível para podermos avançar naquilo que realmente é preciso.

O meu anfitrião estava nervoso. A ida à Irlanda não o tinha ajudado na sua investigação e queria fechar depressa o relato sobre este poeta que fora ludibriado pela Besta. Como os acontecimentos que envolveram Yeats e a Besta já tinham mais de um século de existência, encontrara muito pouca documentação sobre a relação. Sabia-se que se tinham conhecido na Ordem Hermética em 1899, onde o poeta fizera questão de não valorizar a Besta. Este, como paga, escrevera nas suas notas que o que mais magoara Yeats era o facto de "ter consciência da sua incomparável inferioridade no que respeita aos conhecimentos". Uma cisão na Ordem acabara por colocá-los em fações opostas, seguindo-se um processo que envolvera pragas, feitiços e ameaças físicas. A Besta não desanimou e oito anos mais tarde anunciou a criação de um novo movimento, a Ordem da Estrela de Prata, após um intervalo de tempo em que parecia ter desistido da magia. Nesse entretanto, fez uma escalada a um dos picos dos Himalaias, que não foi totalmente conseguida. No meio destas diatribes todas, a Besta proclamou-se como a reencarnação de um ocultista que falecera no ano em que tinha nascido, após ter sido noutras vidas o fundador do Rito Maçom Egípcio, um Papa e um vidente. Da relação com Yeats, nada mais ficara para a história a não serem especulações nessas memórias.

E Sena desistiu de continuar a ditar frases sobre a Besta no dia seguinte. Informou-me que ainda teria uns apontamentos finais para eu escrever - seria coisa de uma hora. Era só para ficarem registados porque poderiam vir a ter algum interesse após a investigação sobre o próximo escritor que também fora preso nas malhas das maquinações de a Besta. Ainda lhe perguntei quem era, mas não referiu o nome do próximo protagonista.

- Prefiro que seja uma surpresa!

E saiu porta fora, depois de termos almoçado mais uma vez.

Durante a refeição, perguntara se eu tinha roupas que aguentassem mais frio pois no destino que nos aguardava as temperaturas estavam muito baixas e a última coisa que desejava era que eu ficasse doente e sem poder trabalhar. Talvez para fazer conversa, questionou como é que tinham decorrido as minhas visitas aos moradores do Freixo. Contei-lhe, parcialmente, as minhas impressões, às quais ele acrescentou alguns comentários antes de dar a última garfada no prato confecionado pela empregada. Ainda comeu uma pera mergulhada em vinho e fez mais um comentário sobre as residências que eu ainda não visitara:

- Está a perder uma oportunidade única de conhecer pessoas muito interessantes.

Sena, enquanto passava o guardanapo sobre a boca, ainda sugeriu que eu aproveitasse a tarde para visitar mais alguns moradores da terra e comunicou-me que já escrevera mais umas cartas de apresentação que, com certeza, me abririam as portas.

- Se fosse a si, em vez de ficar a perder tempo aqui em casa, ia passear.

Enquanto saboreava a pera embebida em vinho tinto que me calhou ainda ponderei fazer uma caminhada até uma das casas, mas a preguiça dominou-me e considerei que o melhor a fazer era instalar-me no gazebo e dormitar um pouco. Se ainda fosse dia, quando acordasse, talvez me pusesse ao caminho. Antes de atravessar o jardim até ao pavilhão, passei pelo escritório de Sena para ver que cartas de apresentação me deixara. Havia duas, com o endereço dos palacetes onde habitavam os outros dois moradores da mesma condição social que Sena.

Yeats voltou pela última vez ao nosso convívio três dias depois. Entretanto, toda a população do Freixo esteve com o pensamento num evento que para mim era inesperado mas que para eles não. Uma trupe de artistas de circo chegou à terra para fazer um conjunto de representações que lhe tinham sido encomendadas. Não havia público suficiente para encher o teatro caseiro que existia num dos palacetes - que aproveitei para visitar -, mas as sessões verificaram-se na mesma. Alguém colocara manequins como se pessoas fossem na maior parte das cadeiras e a sala ficara com um ar composto, pelo menos o suficiente para que os artistas não desanimassem. A representação era a mesma ao longo do trio de sessões mas os espectadores, também sempre os mesmos, não ficaram incomodados por esse facto. Pelo contrário, à segunda vez já se riam por antecipação das graças dos palhaços ou enervavam-se com os saltos mortais dos trapezistas. Sena tinha um camarote privilegiado, um dos três individuais que existiam na sala, de onde observava os espetáculos e parecia partilhar da felicidade dos restantes habitantes.

Quando voltámos a trabalhar, ditou-me uma confissão do poeta sobre uma atividade da sua mulher que, dizia na introdução a Uma Visão, aperfeiçoara em muito a sua própria escrita poética: Na tarde de 24 de outubro de 1917, quatro dias depois do meu casamento, a minha mulher surpreendeu-me ao fazer uma tentativa de escrita automática. O que lhe saiu das mãos, em frases desconexas de uma caligrafia quase ilegível, era tão promissor, às vezes tão profundo, que a convenci a consagrar todos os dias uma ou duas horas ao escritor desconhecido. Após uma meia dúzia dessas horas ofereci-me para gastar o resto da minha vida a explicar e conjugar entre si essas frases soltas.

Foi após ditar estas frases que Sena disse o seguinte:

- É mais ou menos isto que eu e você estamos a fazer.

O remoque de Sena não me preocupou por aí além, pelo contrário, deu-me finalmente uma pista sobre o método de trabalho que o meu anfitrião escolhera para me dar a ganhar a vida. O pior aconteceu quando fui ler o resto da introdução, é que Yeats contabilizara cinquenta cadernos transmitidos pela mulher nesta situação de escrita automática. Pior ainda fiquei quando entendi que uma parte destes cadernos foram escritos por Yeats, sentado ao lado da mulher, enquanto ela dormia e os comunicava em voz alta. Esperar-me-ia alguma coisa deste género?

Ian Fleming também foi enganado por Aleister Crowley

O clima do Freixo, conforme me tinha sido possível sentir até ao momento, parecia ser ameno. Foi a tempestade que se formou de um momento para o outro que demonstrou que estávamos numa parte da Terra como qualquer outra, onde a chuva caía sobre a povoação e a trovoada se mantinha por horas, com relâmpagos que cruzavam intensamente o céu negro. Sena informou-me que de vez em quando acontecia um temporal destes e o que havia a fazer era esperar. Sugeriu que fosse ocupando o tempo a fazer a mala pois, como alertara dias antes, estávamos de partida. Para Londres, acrescentou.

Não me disse exatamente o que iríamos lá fazer, mas passou-me um livro para a mão que deveria ter a ver com o tema. Não entendi bem porquê, pois era um policial de Ian Fleming, um género de literatura que em pouco se assemelhava aos autores poetas que até agora tinham estado em causa no nosso trabalho. O livro intitulava-se Casino Royale e fora publicado pela primeira vez a 13 de abril de 1953 por uma editora britânica. Dentro do volume, que era uma primeira edição, encontrava-se um conjunto de fotocópias dobradas que historiavam o livro e o autor. Fiquei, por isso, a saber uma quantidade de vulgaridades, como a de que dois anos mais tarde o livro tinha sido publicado nos Estados Unidos com um outro título - The Double-O Agent and The Deadly Gamble e que Casino Royale passara a subtítulo; que James Bond também fora conhecido como Jimmy Bond nos Estados Unidos; que ninguém esperava o enorme sucesso destas aventuras e que por essa razão só tinham sido impressos 4728 exemplares, e que a imagem de marca do agente de Sua Majestade só iria aparecer um ano depois, decalcada de uma fotografia de um ator americano.

O mais curioso que encontrei nesse pequeno maço de fotocópias estava escrito em três páginas. Uma crítica que saíra no jornal The New York Times e que dizia: O estilo sugestivo de Fleming mostra de uma forma muito clara como se joga o baccarat, até para quem nunca o fez, e descreve a mais entusiasmante sequência que eu jamais observei. Só que, a partir desse momento, decide transformar o livro numa sucessão de clichés e de situações que não surpreende ninguém a não ser o agente 007. O leitor deve ler o início do livro mas não se preocupe se o largar após o jogo de baccarat terminar.

Esta recensão literária quase que me fez abandonar a leitura supérflua das fotocópias e passar à da, dita, fabulosa sequência de baccarat. Não o fiz!

A segunda fotocópia relatava o modo como Ian Fleming escrevera o livro. Durante dois meses, na Jamaica, enquanto não chegava o dia do seu casamento com a noiva já grávida, como se se estivesse a despedir dos últimos tempos de liberdade e a esgotar as suas últimas semanas de irresponsabilidade familiar na redação de um romance de espionagem, em que colocava vários pormenores e passagens da sua própria vida. O texto de onde depreendi esta questão dos pormenores e de passagens pessoais dizia o seguinte: Fleming afirmou que Casino Royale era inspirado em episódios verdadeiros que se verificaram na sua carreira enquanto membro da Divisão de Inteligência Naval. O primeiro, e o que mais influenciou o romance, foi uma viagem a Lisboa durante a II Guerra Mundial, numa paragem de uma viagem até aos Estados Unidos. Ele e o diretor do departamento estiveram no Casino Estoril onde, devido ao estatuto de neutralidade de Portugal, encontrou muitos espiões de vários países. Enquanto jogava Chemin de Fer numa das mesas, o principal espião da Alemanha venceu-o claramente. A cena da tentativa de assassinato de James Bond, que se segue no livro, também foi inspirada num facto real, que lhe foi descrito por um embaixador de Hitler.

A terceira fotocópia fazia o histórico da primeira adaptação realizada nos EUA e adiantava-me um pouco como seria o livro de Ian Fleming, que eu ainda não lera: Bond era um agente americano e a personagem Le Chiffre tinha perdido 80 mil francos que pertenciam aos soviéticos no baccarat e tentava agora recuperar a quantia num jogo que para si era de vida ou de morte. Eu ainda não sabia, mas era esta personagem Le Chiffre a razão que nos fazia ir até Londres. Fiquei entretido a ler o primeiro romance de James Bond durante algumas horas. Preferia tê-lo feito no gazebo mas o temporal mantinha-se forte e o calor da lareira eliminava qualquer desejo em abandonar a sala.

Sena estivera desaparecido durante todo o dia e só se tornara visível à hora do lanche, altura em que me perguntou a minha opinião sobre o Casino Royale. Não tinha nada de especial a responder e usei a crítica do norte-americano, no que dizia respeito à perfeita cena do baccarat, para suportar o parecer sobre o livro durante alguns segundos.

- Já viu o rio?

A pergunta do meu anfitrião apanhou-me de surpresa. Um rio? Que rio?

- O que está a correr à nossa porta.

Fui até à janela ver o que estava a acontecer e deparei-me com um leito de água enlameada sobre o chão da única rua do Freixo.

- Acontece quase todos os anos, mas desta vez é mesmo a valer.

Sena gostou da surpresa que provocara e convidou-me para lanchar consigo enquanto explicava o que se estava a passar. Foi assim que fiquei a saber que raro era o ano em que as chuvadas a norte não engrossavam o caudal do ribeiro que passava próximo do Freixo e que, ao transbordar das margens, refaziam este leito antigo, que eu tomara apenas por uma estrada. Só agora estava explicada a razão de todas as habitações serem edificadas a uma relativa distância da rua e sobre colinas. Ainda me contou que, como acontecia este ano, com o degelo das neves cantábricas o volume do leito era ainda maior do que o normal e que duraria vários dias até secar.

- Isso não nos impedirá de partimos para Londres conforme planeado. Espera-nos lá muito trabalho e, talvez, a chave de segredos que até agora não consegui descobrir.

Fiquei a saber que partiríamos dentro de dois dias e que não era preciso levar muita roupa para vestir.

- Apenas o essencial para a viagem porque não teremos espaço na cabina para mais do que aquilo que será extremamente necessário levar. Lá chegados, haverá muita roupa para vestir.

Mais uma vez não entendi o que se passava. Dizia-me que não era preciso levar roupa para Londres! Dera-me para ler uma aventura de Ian Fleming, como trabalho de casa antes de partir! Se isto tudo já era estranho, o que pensar sobre o que aconteceu quando chegámos à estação onde iríamos apanhar o comboio e deparar-me com a empregada e a jovem que dormira comigo durante a anterior ausência do meu anfitrião na Irlanda. A minha companheira sorriu-me e até fez uma pequena vénia, enquanto a sua empregada pusera-se imediatamente a caminhar em direção às carruagens que estavam uma centena de metros à frente.

Sena parecia enervado com o nosso atraso porque o comboio preparava-se para partir a qualquer instante, conforme se pressentia pelo fumo que saía da chaminé da locomotiva. Não era um meio de transporte muito moderno, antes parecia ser dos primórdios dos caminhos-de-ferro, não me preocupando com questões de segurança porque apenas seguiríamos nele até à estação principal. Aí, continuaríamos no comboio internacional que nos levaria até Paris e, da capital francesa, seguiríamos num bastante mais moderno até Londres. Foi esse o programa que Sena elencou antes de me fazer subir para a pequena carruagem que estava engatada às restantes que faziam parte do comboio. Era a nossa, particular, um pequeno privilégio concedido pela companhia ferroviária a Sena.

- Desde há muitos anos que vou do Freixo até à estação principal assim. Ficou escrito no contrato desde que adquiri esta carruagem presidencial e que paguei do meu bolso a sua restauração. Recuperado o património, eles permitem que circule em carruagem própria nas vias férreas secundárias. Podemos percorrer quase todo o país nela, se o desejarmos.

A viagem até à estação principal iria demorar grande parte da noite. Como a empregada não trouxera lanche para bordo, ficou decidido que cada "casal" iria à vez até à carruagem-restaurante. Sena e a sua companheira foram os primeiros e eu fiquei na carruagem com a minha. De imediato confirmei que ela continuava às minhas ordens por inteiro, pois ao sentir o meu olhar de desejo fixado no seu corpo ofereceu-se para o que eu quisesse com a seguinte frase:

-Eles costumam sempre demorar uma hora. Temos tempo para o que quiser, senhor.

A jovem continuava a sorrir e, reparei, o vestido vaporoso que usava deixava qualquer homem a sonhar. Eu poderia, para além de imaginar, concretizar esses sonhos e foi o que fizemos enquanto Sena e a empregada jantavam. Quando regressaram, já estávamos recompostos e como que a aguardar a nossa vez. Saímos pela porta que ligava as duas carruagens e fomos atravessando as restantes plataformas e corredores até ao restaurante.

Durante o jantar tentei saber algo mais desta viagem a Londres pela jovem mas, mais uma vez, nada consegui. Nunca fora à capital britânica, apesar de já ter acompanhado Sena e a empregada noutras viagens. Mesmo as perguntas que lhe voltei a fazer sobre si própria mantinham-se sem resposta, desviando o assunto ou a minha atenção para qualquer coisa que estivesse a acontecer. Não me preocupei com a situação, afinal havia um contrato a cumprir e até ao momento nada acontecera de desagradável.

Quando regressámos à carruagem privada de Sena, o silêncio era quase total. Ouvia-se a leve respiração de quem já dormia por entre o barulho das rodas metálicas do comboio sobre os carris e em poucos minutos estava eu também profundamente a dormir. À jovem, que se deitara no beliche sobre o meu, aconteceu o mesmo. Antes de adormecer ainda tentei fazer uma súmula da experiência que estava a viver com Sena, mas não demorei muito tempo a perder-me nos sonhos.

A chegada à estação principal ocorreu ao fim da madrugada. Uma forte travagem fez-nos acordar a todos e o silvo do apito de uma locomotiva, que se ouviu claramente, despertou-nos definitivamente. A empregada olhou pela janela e avisou que faltavam apenas uns minutos para se entrar na gare. Como dormíramos vestidos, rapidamente o quarteto estava a postos e, logo que as composições se imobilizaram na estação, saímos em direção ao cais onde o comboio internacional já aguardava pelos passageiros. Neste, não havia carruagem privada de Sena atrelada mas, mesmo assim, notei imediatamente que os nossos aposentos para as próximas 24 horas eram também de exceção e qualidade.

Foi a presença de Úrsula que marcou a diferença em relação à normalidade do grupo que vinha do Freixo, mesmo que só algumas horas após a partida é que tenha compreendido que ela seria o quinto elemento da expedição londrina. Folheava o Casino Royale quando reparei nela, sentada num dos bancos da fila a seguir à nossa, tendo-se juntado ao grupo aquando do lanche. A partir desse encontro, tanto a empregada como a jovem passaram a sentar-se lado a lado, enquanto Úrsula fazia companhia a Sena e eu ficava na fila dos lugares individuais. Falava de modo suficientemente alto para que eu ouvisse o que relatava ao meu anfitrião: a história de Ian Fleming. Nascera no bairro de Mayfair; o pai foi membro do parlamento e o ator Christopher Lee, o dos filmes de terror, ainda era seu familiar; estudou no Eton College, na Real Academia Militar em Sandhurst e aprendeu alemão numa escola austríaca, de modo a poder prestar provas para o Ministério dos Negócios Estrangeiros; como não foi selecionado, enveredou pelo jornalismo e tornou-se correspondente da Agência Reuters em Moscovo, até que o recrutaram para a Marinha britânica.

Depois de relatar mais alguns dados biográficos, Úrsula disse: É a partir daqui que vem o que mais lhe interessa Doutor Sena. E continuou: Fleming planeou uma operação para se descobrir as cifras secretas do codificador Enigma, que envolvia o falso despenhar de um avião alemão - onde estariam ingleses disfarçados de alemães para roubar os códigos - ao serem socorridos por um barco da Alemanha. A operação, no entanto, não avançou. Úrsula ainda contou especificações de outras operações em que Fleming esteve envolvido, como a Goldeneye, a Mincemeat e histórias dos tempos em que comandou a 30.ª Unidade de Assalto. Falou durante toda a tarde e anoitecer, mas só quando baixaram o nível da iluminação da carruagem para facilitar o sono dos passageiros é que chegou ao ponto que me interessava: a ligação à Besta...

Rudolf Hess era o ponto de união entre Fleming e a Besta. Antes de o escritor de policiais conceber uma operação que pretendia fazer reunir o nazi com Winston Churchill na Escócia para que, sem Hitler saber, negociar um pacto de paz anglo-germânico em 1941. Fleming tinha tentado fazer com que a Besta servisse de isco a Hess ainda numa outra armadilha. Úrsula introduzia muitos pormenores nas suas explicações e, para apimentar o relato, contava frequentemente detalhes inesperados.

- Sabe que foi a Besta quem sugeriu a Winston Churchill que fizesse aquele gesto do "V" da vitória com os dedos que tanta popularidade lhe deu!

Sena não entendeu e foi preciso que Úrsula imitasse o gesto para dizer "Ah esse!" Não é que Sena fosse ignorante mas, decididamente, o seu mundo era outro e privado de certas mundanidades que faziam parte das de outras pessoas. Se ela contasse que um dos Led Zeppelin fora colecionador de tudo o que dissesse respeito à Besta, Sena dificilmente saberia que não se estava a falar de um dirigível mas de um músico de uma banda musical.

- Sabe que os livros de Fleming pouco vendiam nos Estados Unidos até que o presidente John Kennedy os incluiu numa lista das suas leituras preferidas?

Desta vez, Úrsula não apanhou Sena na ignorância:

- Sim sabia. O livro que o Kennedy referia era o Da Rússia Com Amor.

Sena fez questão de explicar que em tempos fizera uma investigação sobre leituras presidenciais.

Estive tentado a dar a minha colaboração nestas curiosidades e dizer que quando fizeram o filme desse livro, Ian Fleming também fora figurante por segundos ao aparecer como passageiro do comboio Oriente-Expresso, mas achei que ia manter-me silencioso nestes apartes e escutar discretamente o diálogo. Preferi continuar a contar as vezes em que Úrsula começava as frases por um "sabe que".

O comboio internacional manteve-se em alta velocidade durante toda a noite e só ao aproximar-se de Paris é que abrandou docemente, até se imobilizar na estação. Consegui dormir algumas horas a partir do momento em que Úrsula e Sena foram conversar para a carruagem-restaurante. Como estava mais desperto do que a dupla, à chegada fui eu que descobri o senhor Andress, um típico francês que nos esperava com os bilhetes numa das mãos, a sem luva, e que nos encaminhou até à plataforma da Gare du Nord onde se encontrava o TGV que nos levaria até ao destino final, Londres. Andress deu instruções específicas a Úrsula sobre o que fazer ao chegarmos à estação londrina e, antes de se despedir, entregou a Sena um envelope que tinha sempre mantido na mão coberta pela luva.

Mantivemos a mesma disposição dos lugares durante a travessia subterrânea do Canal da Mancha, só que desta vez fiz questão de não estar atento à conversa entre Úrsula e Sena. Antes li o panfleto sobre a viagem posto nas costas do banco que estava à minha frente e, confirmando se era verdade o que dizia sobre a paisagem que passava por mim a 300 km/hora, fui acompanhando o itinerário que nos fazia desaparecer da face da Terra em Calais por um túnel monótono sob o mar...

Houve, no entanto, uma frase que me despertou a atenção na conversa que decorria ao meu lado, em que apareceram o nome de Ian Fleming e a palavra ocultismo. Quando Fleming quis aprender a língua alemã, escolheu fazer uma tradução sobre um trabalho de Carl Jung que discorria sobre alquimia, porque este gostava de astrologia e era um profundo conhecedor de tarot... Depois, voltou a falar-se de Rudolf Hess e de a Besta: enquanto esteve preso na Inglaterra, o alemão achava que o drogavam através da comida porque era cozinhada com muitas especiarias. Tal como alguns amigos de a Besta suspeitavam dos temperos que este colocava na comida servida em banquetes na sua casa, que terminavam por várias vezes em confissões inesperadas e orgias... E ainda comentaram as amizades de Fleming: a Besta era muito íntimo da mulher de um amigo do escritor que se suicidou devido a uma chantagem que aquele lhe fizera... E que um companheiro de Fleming escreveu sob pseudónimo uma biografia do mago John Dee: de quem a Besta se dizia ser a reencarnação...

Enquanto escutava estas frases à solta numa conversa em voz baixa, aguardava pelo reaparecimento da natureza exterior na localidade de Ashford e o convite sonoro para sair do comboio dentro de poucos minutos. Aí, estaríamos já mais perto de Londres! Mas esse momento tardava e, quando olhava para o relógio, parecia-me que os ponteiros não se moviam à velocidade habitual. Perguntava-me o porquê de sentir um torpor que me envolvia num sono leve, que se ia tornando bastante mais profundo a cada quilómetro percorrido. Ainda me lembro de estar bem consciente durante a leitura do panfleto e do momento em que descobri que com os passageiros do comboio também podiam viajar cães. Mas já me sentia muito menos consciente quando me apercebi que também era permitido viajar com cavalos nas carruagens de carga! Não sei dizer se chegámos à estação londrina, porque não recordo pormenor algum desse momento, nem de qualquer outra situação real na estada na capital britânica. No entanto, se me perguntarem o que fiz nesses dias londrinos tenho uma história para contar e num relato sem hesitações. Será verdadeiro?

A estação estava ao rubro. Centenas de pessoas movimentavam-se sobre as plataformas onde os comboios descarregavam outras centenas de passageiros, como era o caso do nosso TGV. Sena descera primeiro que todos os outros e, a partir desse momento, nunca mais deixou de liderar o quinteto pelas ruas da cidade. Encaminhara-nos para a porta de saída como se fosse um seu trajeto habitual e fizera sinal ao primeiro táxi estacionado na paragem para que nos viesse buscar ao outro lado da rua. Daí, seguimos para o grande armazém Harrod"s, onde nos dividimos em dois grupos. Homens num e mulheres noutro, ambos em busca de um guarda-roupa condigno para a semana que se previa durar a estada em Londres e, também, para os acontecimentos sociais em que deveríamos participar.

Sena pediu às mulheres para comprar vestidos para três jantares formais, um lanche importante e dois serões sociais. Úrsula recomendou às duas empregadas que, para além destas ocasiões, deveriam adquirir "aquela roupa". Não percebi o que teria esse evento de especial para que o trio de mulheres se vestisse de um modo específico, mas também não foi situação que me preocupasse. Quanto a nós, homens, Sena mais uma vez não hesitou e, pegando-me na mão, levou-me para o piso superior, onde um alfaiate nos sugeriu três fatos negros e meia dúzia de camisas a condizer. O meu anfitrião pediu para que, após os acertos de costura necessários às nossas alturas e barrigas - no seu caso -, a roupa fosse entregue no hotel até ao fim da tarde, local onde pagaria de imediato a despesa.

Voltou a pegar-me na mão e levou-me em direção à saída mais próxima da rua que ia dar ao Museu de História Natural, a algumas centenas de metros de distância do Harrod"s.

- Vamos passear um pouco por lá enquanto não temos roupa para vestir. Com o cheiro dos animais empalhados ninguém notará o nosso!

O lanche decorreu quase em silêncio quando comparado com a sua tagarelice com Úrsula durante a viagem de comboio. Mal nos sentámos à mesa do restaurante do museu, Sena perguntou-me se eu tinha prestado atenção ao que ele e a nossa nova companheira falaram:

- É muito importante que tenha presente na sua cabeça muitos daqueles pormenores para podermos redigir mais este capítulo sobre a vida de a Besta e de como foi enganando os escritores de quem se aproximou. Ela deu-nos pistas muito boas.

Gostava de lhe dizer que sim mas não fui capaz. Optei pelo silêncio, porque continuava a sentir-me como se estivesse ainda dentro do túnel sob o Canal da Mancha. Ouvia um zumbido constante e tudo o que via era nublado por uma névoa que persistia em manter-se nos meus olhos. A única visão que recordava desde que entrara no museu era a do enorme dinossauro que estava no salão de entrada, um esqueleto que me pareceu até ter vida quando o olhei. Era culpa do ruído provocado por centenas de estudantes que visitavam a instituição; deixara-me ainda mais atarantado, tanto assim que ao passar numa ala onde estava pendurada no teto uma enorme baleia achei que estava no interior de um gigantesco aquário.

O que se passara naquele túnel, de onde ainda não conseguira sair por completo? Teria sido drogado por ordem do Sena para não poder testemunhar algo que estava para acontecer? Seria cansaço após uma viagem de muitas horas e em vários comboios? Ou estaria a aproximar-me perigosamente de a Besta e esta era a forma de me defenderem? Estava nestes pensamentos quando chegaram as três mulheres, no preciso momento em que nos levantávamos da mesa para nos encaminharmos para assistir à sessão de lançamento de uma biografia sobre o escritor de policiais que nos interessava estudar e cujo autor estava nessa tarde no auditório do museu. O livro sobre Ian Fleming tinha um título muito comprido e, mal o autor começou a falar do seu trabalho, distraí-me com os pássaros que ouvia chilrear através da janela.

Mesmo distraído ainda ouvi algumas das palavras de quem escrevera sobre Fleming. Mas o mais interessante foi o momento em que o autor, um senhor de nome Gardiner, respondeu às várias questões de um jornalista, que se dizia chamar Mad, sobre o escritor de policiais.

- O seu livro aponta uma série de noções cabalísticas e místicas escondidas nos últimos livros de James Bond. Fleming, perito em criptografia, foi contemporâneo de a Besta e também esteve envolvido em práticas ocultas. Acha que os livros as escondem?

- Ian Fleming esteve certamente interessado em investigações sobre o ocultismo, até porque muitos dos seus amigos o praticavam. Desde os 19 anos que Fleming se interessava pelo mundo esotérico e trocou correspondência com a Besta. Foi com os seus conhecimentos de ocultismo que pretendeu criar um grupo na Divisão Naval dedicado à Inteligência Negra, o G6.

- Diz que a personagem Bond foi inspirada em John Dee, um astrólogo e astrónomo da corte de Isabel I, que viveu no século XVI, praticante de filosofias herméticas e um das mais importantes ocultistas da época, que se correspondia com a rainha sob o nome 007. É a prova de que os livros de Fleming escondem elementos simbólicos?

- Claro. Dee é considerado o fundador dos Rosa-cruzes e há muitas influências desta seita nos policiais de Fleming. O mestre rosa-cruz era chamado de M, como se chama a chefe de James Bond. Quanto a pergunta se foi possível que Bond fosse inspirado em John Dee, só posso dizer que já temos duas coincidências: o 007 e o M.

Como a sessão ainda continuou por mais de meia-hora, deixei de prestar atenção à algaraviada de suposições que um e outro faziam sobre o ocultismo e o ocultado nos romances policiais do agente secreto. Em tudo, pensei, se pode encontrar significados que nos escapam à primeira vista porque apenas achamos que estamos a ler ficção. E foi assim que passei a dar mais importância à busca do meu anfitrião.

Após terminar a visita ao museu, Sena voltou a pegar no meu braço e a levar-me sempre a seu lado. O quinteto estava reunido, os eventos da tarde dados por encerrados e restava-nos uma noite de descanso pela frente.

- Amanhã, há que levantar muito cedo minhas senhoras. O dia vai ser longo!

Sena comandava o grupo com mão de ferro e achei melhor pedir-lhe autorização para dar um passeio. Sena respondeu negativamente ao meu pedido.

- Vê-se que está muito cansado. Essas olheiras debaixo dos olhos assustam qualquer um.

Não me olhei ao espelho para confirmar a afirmação, decerto seria verdade.

- A vossa roupa deve estar nos quartos. Amanhã, usem o traje marcado com o número 1.

Ainda pensei sair do quarto discretamente e ir passear, mas não me foi possível dar mais do que os passos necessários até à cama. O túnel continuava a perseguir-me e cada vez mais parecia-me que ainda não saíra de dentro dele. Durante a noite, sonhei que as águas do Canal da Mancha embatiam furiosamente contra as paredes do túnel e que, ao encontrarem uma brecha no cimento, iam danificando a estrutura e preparavam-se para o inundar. Ainda me tentei convencer que de noite todos os receios ultrapassam a realidade, quanto mais não fosse porque o túnel estava construído sob o fundo do mar e as ondas não podiam embater contra as suas paredes. Por mais que me tentasse acalmar, os sonhos mantiveram-se durante a noite toda. A dado momento da madrugada, estendi a mão sobre a cama e reparei que a jovem não tinha vindo dormir comigo. Ainda esperei uns minutos, pois poderia ter ido à casa de banho, mas como não apareceu, adormeci a perguntar porque é que ela teria vindo se não era para me fazer companhia.

A jovem desaparecera nessa noite e assim continuou por mais duas. O mesmo aconteceu a Úrsula e à empregada, ambas também fora da minha vista durante o mesmo período. Não me apercebi de imediato do facto, porque essa seria a menor das minhas preocupações nas próximas 48 horas.

Ao acordar, recordei o aviso de Sena para vestirmos o traje número 1 e assim fiz. Quando me olhei ao espelho confirmei o que já previa enquanto ia envergando as várias peças que compunham a vestimenta. Estava pronto para me fazer notado mesmo que as ruas fossem as de Londres, onde não era assim tão improvável cruzar com homens vestidos de fraque e cartola. O meu anfitrião veio entretanto confirmar se eu tinha sabido vestir-me e, após alguns acertos seus, saímos do hotel.

Sena disse o destino ao motorista do táxi, mas não compreendi o seu inglês nem o da resposta. O veículo andou pelas ruas do centro da cidade como se percorresse um círculo até que entrou numa avenida larga, atravessou várias ruas perpendiculares e paralelas, desembocando num beco sem saída. Sena pagou ao taxista e levou-me em direção a um muro de tijolos sujos que vedavam qualquer saída. Na parede estava uma portinhola que abriu com uma chave, tornando visível uma espécie de torneira, cujo manípulo rodou. Então, algumas dúzias de tijolos afastaram-se e deixaram em aberto o espaço suficiente para passarmos um de cada vez. Demos mais uns passos, ultrapassámos uma curva e deparámo-nos com um extenso jardim onde, lá bem a fundo, estava um gazebo muito parecido com o que existia na propriedade do meu anfitrião. Continuámos a caminhada até ao pavilhão e daí até uma fábrica decrépita no exterior que passada a porta de entrada, se apresentava em excelentes condições.

No centro da fábrica estavam duas casinhas iguais, uma pintada de preto e outra de branco. Sena fez-me entrar na de cor clara e fechou a porta. Ele, creio, enfiou-se na de cor escura. Fiquei uns instantes sem saber onde me encontrava devido à escuridão, até que os meus olhos se acostumaram à pouca luz. Reparei então num enorme espelho onde via o meu reflexo e ri-me da minha figura. Muito direito e parecido com um gigante, devido à cartola que me proporcionava mais uns vinte centímetros para além do meu verdadeiro tamanho. Tal como acontecia em filmes policiais, não duvidei que estava a ser observado do outro lado do espelho.

O ar parecia ir ficando cada vez mais rarefeito conforme o tempo passava. Já estava cansado de manter-me de pé, sempre na mesma posição, mas não queria deixar o estado de elegância que me fora solicitado. Lembrei-me da tortura da estátua com que seviciavam os presos políticos e sorri porque esse não era o meu caso. A sensação de falta de oxigénio começava a incomodar e a fazer-me arfar, tinha vontade de bater no espelho e pedir por socorro. Mais uma vez sentia-me como se ainda não tivesse saído do túnel que ligava a França à Inglaterra por debaixo do Canal da Mancha. Sensação que não me abandonara até ao momento e, cada vez que o meu olhar se virava à esquerda ou à direita, era como se continuasse a ver as paredes do túnel. Fazia um esforço contínuo para manter os olhos direcionados para a frente. Sentia-me como se tivessem posto umas baias para me obrigarem a ver apenas o que estava adiante, mas não deixava de ouvir um assobio do que deveria ser o ruído provocado pela deslocação do comboio dentro do túnel. Foi no momento em que mudei de posição que vi que o espelho deixara de me refletir e se transformara num vidro que permitia ver o que se passava do lado de lá. Onde uma fumaça esbatia os contornos da decoração e deixava reconhecer um pentagrama desenhado no interior de um círculo pintado sobre o chão da divisão negra.

Quando acordei, senti que estava dentro de uns lençóis conhecidos, os da minha cama do hotel. O meu corpo estava distendido e morno; os sentidos também, mas suficientemente atentos para escutarem partes da conversa que Sena mantinha ao longe ao telefone. Ele estava no seu quarto e eu no meu, mas a porta de comunicação entre ambas as divisões encontrava-se aberta. Ouvi o seguinte: ... superou... cerca de uma hora... causou muito boa impressão... sempre na casa branca... efeito das drogas... não poderíamos encontrar melhor duplo... Voltei a adormecer apesar de querer muito ouvir a conversa. Acreditava que falavam sobre mim e que a expressão "efeito das drogas" descrevia o que estavam a administrar-me para que pudesse ser o tal "duplo". O que seria esta representação? Qual o meu papel?

O Freixo apareceu como desaparecera uns dias antes. Le Chiffre desapareceu como aparecera uns dias antes. E as anotações finais sobre Ian Fleming ficaram registadas em pouco mais de uma hora, de modo a que Sena pudesse ir lanchar como era seu desejo. O que me ditou desta vez de pouco ou nada adiantou para esclarecer o que se tinha passado comigo na viagem a Londres, nem para entender se o que me tinha acontecido fora real ou fruto da febre que, alegadamente, me atingira.

- Tome atenção ao que lhe vou ditar em seguida porque é a razão da nossa próxima investigação: Em Abril de 1953, depois de ler Casino Royale, o escritor Somerset Maugham escreveu uma carta a Ian Fleming para lhe dizer o quanto tinha gostado do seu livro. Dizia o seguinte: "em particular, apreciei a batalha no casino entre o seu herói e Le Chiffre. Conseguiu criar uma tensão do mais alto nível para o leitor". É muito provável que Maugham não soubesse que algumas das características de Le Chiffre eram inspiradas na Besta que, curiosamente, Somerset já utilizara como modelo para a personagem Oliver Haddo, do seu livro O Mágico. Também ele conhecera a Besta em tempos.

Como nasce o romance O Mágico de Somerset Maugham?

Oliver Haddo foi um nome que me provocou imediata curiosidade. Principalmente, devido ao facto de a Besta ser inspiração para dois escritores que viviam separados pelo Oceano Atlântico e cuja literatura era de estilos tão opostos como as suas personalidades. Mesmo assim, com tanto mar a afastar Fleming e Maugham, a Besta ligara-os. Era, realmente, uma personalidade satânica esta!

Reencontrei Sena ao jantar dois dias após nos termos apeado da sua carruagem particular do comboio. Úrsula ficara na estação principal e dela, creio, não vou ouvir falar mais. O meu anfitrião estava bem-disposto e serviu-me ele próprio de uma travessa onde jaziam quatro pequenas perdizes estufadas enquanto comunicava que iria dar-me uma semana inteira de folga. A razão era simples, precisava de fazer umas pequenas investigações antes de voltar a ditar. Não foi coisa que me preocupasse, principalmente após a jovem ter voltado a preencher o vazio que ficara na casa a seguir ao desaparecimento de Sena e daquela funcionária irritante. Desconheço o destino de ambos, nem o soube pela reservada jovem que me cabia em companhia cada vez que se ausentavam. Ficou o silêncio no grande palacete de Sena e um corpo magnífico para eu desfrutar enquanto iria ler O Mágico e apanhar sol no gazebo do jardim.

A jovem mantinha-se em silêncio e raramente respondia às minhas perguntas ou dialogava. Não é que isso me incomodasse muito, visto que estava bem no papel para que foi contratada e mantínhamos uma relação perfeita. Mesmo assim eu insistia para que falasse e, no primeiro dia em que voltámos a ficar sós, obriguei-a a sentar-se à mesa para conversar comigo. Fomos trocando palavras mas era como se me ignorasse com o seu silêncio, mesmo que ao fim de alguns dias lhe notasse vontade de falar. Alguma coisa a calava por certo e até cheguei a perguntar-lhe se havia razão sem que tivesse obtido qualquer informação. Não fiquei muito preocupado com o facto, porque já estava acostumado a esta forma de ser e ao seu comportamento pouco comunicativo. Nada que numa das manhãs seguintes não tivesse mudado, permitindo-me ouvir mais do que aquelas palavras que pronunciava, também, em quase silêncio enquanto fazíamos amor.

Estávamos ambos a ler no jardim. Eu, O Mágico do Somerset, sentado à sombra do telhado do gazebo. Ela, um livro encapado que não me permitia decifrar o título ou o autor, deitada sobre a relva. Enquanto eu me distraía a olhar para mancha branca do seu vestido a contrastar com o verde do jardim, ela parecia concentrada na leitura. Folheava página a página demoradamente, apreendendo bem o que nelas estava escrito. A jovem distraía-me da minha leitura com o seu corpo espalhado pela relva de forma harmoniosa e pouco discreta. De vez em quando dobrava uma das pernas e levantava o pé no ar; depois, voltava-se de barriga para cima e dobrava os joelhos ou, então, encolhia-se toda como se fosse um feto no ventre da mãe. Não é que estivesse inquieta, porque esta diversidade de posições iam acontecendo ao longo do dia e permanecendo em cada uma por um bom par de horas.

Certo é que o livro que estava a ler a entusiasmava bastante mais do que o meu a mim. O tal Haddo de pouco me interessava, era um livro que escolhera por obrigação, enquanto o dela - parecia-me - entranhava-se no próprio corpo. Tentei adivinhar qual seria o livro, mas não consegui que as suas posições físicas denunciassem a intriga ou as personagens. Ainda esperei que se levantasse para ir buscar alguma coisa, deixando o livro por ali, mas isso nunca aconteceu. O livro encapado andava sempre entre as suas mãos, como se fosse um bem precioso ou tivesse vergonha do que lia. Quando o sol se punha guardava-o em lugar a que eu não tinha acesso, para só o voltar a mostrar à hora de novo banho de sol.

Reparei que não a afetava estar sob a camada de raios solares que cobria quase todo o seu corpo durante a maior parte do dia. Ora de perna dobrada para cima ora para baixo e sempre por perto do gazebo aonde eu me protegia. Reparei que o seu corpo ia ficando bronzeado quando uma ou outra alça caía do ombro e deixava ver a pele mais clara. Perguntei-lhe se não ia pôr creme protetor, ao que respondeu que o sol ainda estava muito fraco e que não havia perigo.

O sol, no entanto, não estava assim tão fraco, mas só ao terceiro ou quarto dia, quando as nuvens desapareceram, é que a jovem decidiu proteger-se com uma camada de creme. Parecia uma ginasta a contorcer-se para cobrir todo o corpo quando reparei no que fazia. Imediatamente a substituí no ato e esfreguei as minhas mãos por todo o seu corpo numa demorada espécie de massagem. Comecei pelos ombros, desci pelas costas, ancas e até à ponta dos pés. Aí, imitei-a. Espetei-lhe o pé para cima e espalhei o creme na metade da perna aonde não tinha chegado. Demorei-me algum tempo na planta dos pés, numa outra espécie de massagem; fiz o mesmo nos braços e só então virei o seu corpo para besuntar de creme a parte da frente do corpo, tendo demorado um pouco mais do que o necessário junto ao peito. Baixei-lhe as alças e apliquei com todo o empenho a proteção nessa parte dos ombros que ficara por cobrir e, em seguida, destapei um pouco mais de pele para deixar protegida com creme essa sua bonita parte do corpo.

Quando dei por acabada a tarefa, ela voltou-se de barriga para baixo e entregou-se de novo à leitura, com a perna direita levantada no ar. Tentei outra vez ver que livro seria o que estava a ler mas, sem querer ou querendo, a leitora não permitia que eu identificasse o título. Já o tentara decifrar enquanto passara o creme, tropeçando docemente com um dos pés no volume para que ele se abrisse, mas fora uma tentativa falhada. Achei que não haveria problema em perguntar qual seria a sua escolha, mas o facto de estar encapado fez-me pensar que seria de propósito e, portanto, não o fiz. E ela, mantendo o silêncio que lhe era habitual, também nada disse. Talvez nem soubesse que estava curioso sobre o título do livro que lia!

A ignorância sobre o título começou, contudo, a enervar-me. Principalmente porque me parecia que a jovem transparecia maneiras que me sugeriam que absorvia algum do seu conteúdo. Por isso, perdi a vergonha e perguntei-lhe qual era o livro que estava a ler.

- Um romance de Vladimir Nabokov.

Não disse mais nada. Designadamente o que me interessava: o título. Solucionara parte do problema mas, confesso, que essa revelação ainda aguçava mais a minha curiosidade. Poderia - e deveria - ter insistido e perguntado qual era o título. Não o fiz, creio que estava a armadilhar uma situação que não teria nada de especial. O problema existia apenas na minha cabeça, decerto, e bastaria fazer nova pergunta para saber qual era o livro do russo que gostava de caçar borboletas. Sem conseguir concentrar-me no que estava a ler, passei o resto do dia a tentar adivinhar que livro seria? Ao fim de algum tempo decidi-me pelo sedutor Lolita. Só poderia ser esse face aos sinais que o seu corpo dava, iguais aos que a adolescente do romance fazia.

Ia tentando esclarecer ao observar milimetricamente todos os seus gestos. Se ficava com um ar sério, eu pensava que o senhor Humbert tinha sido apanhado pela mãe da menina a espreitá-la com demasiada atenção! Se sorria, eu achava que ele já conseguira retirá-la do campo de férias e que a levara para o hotel! Se dobrava a perna esquerda, eu considerava que era a parte onde ambos fugiam! Se se virava de costas, eu acreditava que se estava num momento de briga! Punha-se de costas para baixo e eu imaginava que chegara à parte em que Humbert descobria que não era o seu primeiro homem! Se contraía as pernas com força, imaginava que lia a passagem em que a adolescente lhe envia uma carta a pedir dinheiro!...

Ao fim da tarde, após a série de tentativas para identificar que livro seria aquele através das suas reações físicas, dei comigo a imaginar que a jovem estava a ler este livro encapado porque viveria a mesma situação: Sena seria Humbert; a funcionária, a mãe e ela Lolita. A suspeita afetou-me profundamente durante o resto do dia, enquanto continuava a contorcer-se para ler não sei qual Nabokov. Ao deitar-me na mesma cama onde a jovem esperava por mim - eu ficara na sala a ler o livro sobre Oliver Haddo com a sofreguidão possível -, achei que esta minha inquietação seria um disparate. A jovem estava comigo; só, ninguém a pressionava; podia falar à vontade e pedir ajuda se estivesse numa situação de perigo. Não o parecia estar, nem abria a boca para lançar uma sugestão sobre um rapto indesejado ou de mal-estar por ser "escrava" de Sena e da funcionária. Nem parecia estar a ler o livro para saber como é que a personagem fugira ao jugo do protagonista. Nada, nem um franzir de testa quando eu abria uma porta na conversa para que pudesse confessar o problema em que estava metida. Não, a jovem sentia-se bem, tudo indicava que sim, até pelo modo como se enfiava dentro dos lençóis da cama sem questionar qualquer desejo meu. Parecia feliz, sem sinal de uma crise como a que fizera Dolores fugir de Humbert, mal pudera para os braços de outro que a engravidara e, assim, provocara a sua morte prematura num parto no dia de Natal.

Tão embrenhado estava nestes pensamentos que prescindi dos favores sexuais da jovem, adormecida precocemente ao meu lado após ter passado mais uma tarde a esturricar ao sol e a devorar aquele livro. Fui colocando várias hipóteses para a sua situação, até que cheguei à mais delirante já de madrugada. E, todos sabem como durante a noite as situações que nos preocupam ficam ainda mais graves. Seria esta a questão: a jovem era prisioneira há muito tempo de Sena? Tanto que deveria já ser velha, até teria a mesma idade dele. Era obrigada a fazer tudo o que ele queria e nunca poderia afastar-se do palacete do Freixo sob pena de morrer imediatamente.

Diga-se que eu vira isto num filme há muito tempo, onde as pessoas viviam num paraíso perdido nos Himalaias e eram eternamente jovens devido a um elixir da juventude. Um dia, surgem os sobreviventes de um desastre de avião; um deles apaixona-se por uma das mulheres que moram no local e acreditam que podem fugir sem pagar um preço. Mal ela passa o túnel da montanha que os devolve à liberdade, morre de velhice nos braços do homem. Cansado da insónia, esqueci que a jovem seria vítima de alguma maquinação e abracei-me a ela. O calor do seu corpo e a paz do seu espírito adormeceram-me imediatamente.

O dia que se seguiu reservava-me uma grande surpresa. A jovem decidira começar a falar como se se tivesse quebrado algum encanto e fê-lo suavemente quando a meio da tarde me obrigou a acordar.

- Está um dia lindo e eu já acabei o livro. Posso dar-lhe mais atenção a partir de agora.

Não esperava este volte-face. Abri um olho e depois o outro - creio que foi isso que aconteceu - e vi os seus dois olhos bem perto dos meus. Raiados de uma cor de mel, como seria o sabor da sua boca momentos depois, e tão diferentes do que eu pensava serem. Ela estava diferente.

- Gostas de mim assim?

Não lhe disse nada, porque nem conseguia responder tão distraído que estava a saborear o seu corpo, como se fosse um peixe a abrir e a fechar a boca num aquário. Era assim que eu me veria se estivesse à distância de um metro e a observar o que se passava naquela cama. Também veria que a sua pele tão branca até o sol a tornar cor-de-rosa deixava agora ver melhor as veias azuis que escondia. Que faziam linhas retas e pequenos círculos ao longo do seu corpo. Afastei-me para a ver melhor e - espantado - entender que aquelas veias desenhavam breves cenas da minha vida. Não partes conhecidas mas outras, as que estavam para acontecer ainda e que o seu corpo rosado revelava como se fossem antevisões.

- Gostas do que estás a ler?

Ia responder-lhe que não, que o livro do Maugham era um pouco aborrecido, mas não cheguei a pronunciar a resposta porque entendi que se referia às cenas da minha vida que se espalhavam sobre o seu corpo. Não lhe respondi, porque ainda me encontrava entre o deslumbramento da descoberta, a impaciência da leitura e o receio sobre o que iria saber de mim próprio ao ler aquele corpo do princípio ao fim. Folhei-a rapidamente perna a perna; braço a braço; estômago a costas; ventre a ancas e, cansado de tanta ilustração, afundei-me preocupado seio a seio, como que a ganhar coragem para a leitura das veias que iriam sangrar a minha vida futura. Fiquei entre o seu peito alguns minutos, a tentar convencer-me de que ainda tinha muito sono e que poderia adormecer o tempo suficiente para que a cor rosa da sua pele regressasse ao branco anterior e a corrente sanguínea deixasse de ser reveladora. Curioso, no entanto, ia espreitando a própria pele dos seios que me aconchegavam para ver que tipo de imagens o sangue criara naquelas partes que agora eram tão rosa ao longo da colina como no pico.

Vamos chamar-lhes tatuagens porque pensar que eram as veias a fazer esses desenhos impressionava-me para além do que era capaz de aceitar no corpo de uma pessoa. A primeira tatuagem não era tão estranha como algumas das outras que veria a seguir. Pelo canto do olho, observara o entrelaçar das veias a desenharem-me no ato longínquo de mamar: um pequeno bebé de volta do seio minúsculo, de onde tentava sugar o leite.

Após ter lido na pele cor-de-rosa da jovem algumas histórias da minha vida, o meu primeiro desejo foi mais uma vez afastar-me. Não só da jovem, mas também do Freixo e de todas as loucuras que Sena me obrigava a viver há alguns meses. A culpa deste frenesi de experiências estava, pensei mais uma vez, no facto de eu ter assinado um contrato de prestação de serviços por um ano, a que não poderia negar-me a completar pois a verba que continuava a depositar na minha conta bancária era bastante necessária - repetia esta situação frequentemente para não a esquecer. Quanto muito poderia prescindir de uns dois ou três salários lá para o final...

Dias depois, Sena mandou chamar-me para jantarmos juntos. Estivera sem o ver durante esse tempo, apesar de ter reparado na sua silhueta quase sempre presente no escritório. Era capaz de o observar numa catividade frenética, intervalando longas horas sentado à secretária com buscas intensas nas prateleiras da biblioteca.

O convite para o jantar tinha um único propósito mas, antes de chegar esse momento, o meu anfitrião fez questão de efetuar um balanço do nosso trabalho.

- Estou satisfeito com as minhas descobertas e creio finalmente que vou chegar a algum lado desta vez. Quanto a si, tem sido uma ajuda preciosa. Até digo mais, nenhum dos seus antecessores tinha sido tão cooperante ou colaborado de um modo positivo. Por isso, e porque tenho absoluta confiança em si, gostaria de lhe pedir um favor. Creio que será capaz de o executar, para além de que terá todos os meios para ser bem-sucedido.

Depois de fazer estas afirmações, Sena calou-se. Fiquei à espera que me revelasse o pedido que pretendia fazer, mas tal não se verificou de imediato. Pelo contrário, saboreámos as febras de um peito de pato que estavam desfiadas dentro de um arroz que tinha ido ao forno e ficado bem tostado à superfície. Entretanto, a funcionária levantou os pratos sujos e trouxe os de sobremesa, tendo servido um gelado de limão que arrepiava a língua de tão ácido. Esta particularidade não seria um descuido da mulher, mas antes o modo como o meu anfitrião gostava a que aquela iguaria soubesse. Em seguida, levou-me até ao salão e, finalmente, revelou-me o que pretendia que eu fizesse.

- Sabe que vai haver um leilão na capital, onde estará um documento que gostaria de comprar.

Disse-lhe que desconhecia o facto, até porque ninguém me escrevia para o Freixo; já deixara de comprar jornais e revistas, e como em casa não existia rádio ou televisão, eram poucas as novidades que recebia do exterior.

- Isso não lhe faz mal! Provavelmente será essa a principal razão do seu bom desempenho.

Quando parecia que ia, finalmente, revelar o seu pedido voltou ao silêncio e a bebericar o licor que servira a ambos. Talvez este silêncio fosse forçado pela ponderação a que Sena se obrigava. Como entendi a seguir à revelação, o seu pedido era extra-contrato e interrompia a letargia em que me encontrava desde que chegara ao Freixo. Além disso, ainda faltava terminar o capítulo relativo a Somerset Maugham - "Muito pouco", esclareceu - antes de chegar o momento propício à tarefa que me propunha fazer.

Inesperadamente, Sena decidiu incluir extratos de uma pequena biografia que lera sobre Somerset Maugham: Em 1927, abandonou definitivamente a Inglaterra, após um escândalo em que se envolvera devido a ser homossexual e, estando casado com uma mulher, ter mantido durante toda esta relação um relacionamento com um americano. Mudou-se para a Riviera Francesa, onde comprou uma casa em Cap Ferrat, na qual dava festas sumptuosas e que quem as frequentou definiu como inesquecíveis. Somerset continuou a escrever várias horas todas as manhãs e sempre que podia viajava. Durante a II Guerra Mundial mudou-se para os Estados Unidos e tornou-se muito popular em Hollywood, após o que regressou à sua mansão francesa, onde ficou até morrer aos 91 anos.

Chegado o fim-de-semana, Sena voltou a chamar-me para dar desenvolvimento ao seu pedido. Escolheu mais uma vez a hora do jantar e, entre uma suculenta carne de javali e o habitual sorvete de limão ácido, expôs-me o plano. Que era simples e agradava-me bastante. Foi nessa altura que eu decidi fazer-lhe um pedido também. Reparara que na garagem do palacete estava estacionado um carro grande e antigo que, para além da poeira que o cobria. Recebi autorização para reparar o veículo abandonado e, gentilmente, Sena até me disse que se eu o conseguisse oferecer-me-ia o carro.

- Se ao terminar o contrato, o Chrysler estiver a andar, pode montar-se nele e regressar a casa. Faça bom proveito dessa geringonça velha.

Também me informara que ao oferecer a possibilidade de reparar o carro não me estava a conceder mais tempo livre do que aquele estipulado no nosso acordo.

- Primeiro a investigação, só depois a mecânica!

O carro era um Chrysler Imperial, com a matrícula HE-10-32, e já tinha sido usado numa fuga de presos políticos de uma prisão de alta segurança. O que o deixaram bastante destruído na parte da frente, depois de o carro ter servido de arriete contra o portão da cadeia e de lhes ter aberto as portas da liberdade. Sena acabara por o adquirir e mandado consertar com peças sobressalentes vindas da fábrica, ficando conforme o modelo original. Ao ver os quilómetros que estavam no contador, apercebi-me que o automóvel pouco circulara durante toda a sua vida. Ou seja, estava pronto para mudar de dono e levar-me a passear por onde eu quisesse, desde que cumprisse este último desejo de Sena. Aguardei que me desse informações mais detalhadas sobre as suas intenções - revelara-as de um momento para o outro, inopinadamente - no que respeitava ao documento que pretendia que eu licitasse no leilão aonde deveria comparecer brevemente.

Numa fuga de informação, que me pareceu controlada, Sena acrescentara posteriormente que, para além do documento, talvez me pedisse para licitar uma peça de mobiliário que também estaria no espólio à venda nesse leilão. Como era seu hábito, pouco mais revelou sobre o tema, tendo desviado o assunto para o carro.

- Vou só ler-lhe um relato que foi publicado num jornal desse partido sobre a fuga realizada neste carro que pretende consertar!

Procurou um recorte dentro de um álbum sobre carros antigos blindados e leu uns parágrafos: As portas fecharam-se com estrondo. Cerram-se os vidros inquebráveis. E o pesado carro investe. O guarda do túnel, instintivamente, de olhos arregalados, afasta-se. É apenas atingido num pé. Ainda no chão, abre fogo. Está dado o alarme. Percorremos o túnel. Ultrapassamos a casa da guarda. Desembocamos na parada. Atirámo-nos como um bólide contra o portão verde da saída. Este voou em estilhaços. Após uma curva apertada, houve que percorrer, debaixo do fogo, toda a estrada de acesso. Tudo corre bem, apesar de uma janela mal cerrada. As balas limitam se a riscar a chapa e o vidro.

- E, lá foram eles, causando um prejuízo danado na reputação da polícia política do ditador, a quem o carro também pertencia.

O meu anfitrião resolveu surpreender-me na manhã seguinte, mandando a funcionária acordar-me cedo. Bastante ensonado, e quase certo de poder ainda encontrar várias estrelas no céu, encaminhei-me até ao seu escritório com a máxima rapidez que pude. Não se tratava da necessidade de ditar apontamentos, como pude ver pela vestimenta que envergava - uma espécie de armadura de guerreiro medieval -, mas de me fazer reviver um momento da História.

- Bom dia! Decidi oferecer-lhe um presente excecional. Está pronto para viajar no tempo?

Respondi-lhe que sim, ainda com a voz entaramelada e o corpo desajeitado nos seus passos.

- Então, ponha esta armadura sobre o corpo e partamos.

As vestes que me obrigou a usar eram muito pesadas e dificultavam qualquer movimento físico. Um simples mexer do braço exigia um esforço para além do que o meu corpo pouco ginasticado estava habituado, mas não me deixei ir abaixo pois via Sena bastante à vontade dentro do seu fato metálico de cavaleiro medieval. Ele olhava-me de dentro do capacete que lhe cobria a cabeça, podendo ver pela fresta como os seus olhinhos brilhavam de gozo face à minha incapacidade. Não fez qualquer comentário, facto que me exigia um comportamento à altura. Afinal, estávamos a comparar um velho e um jovem e, não acreditava que ele me tivesse enfiado dentro de uma armadura perra e para si escolhesse uma bem oleada. A ambos, confirmei logo em seguida, a malha de ferro e os arneses de metal que completavam a armadura pesavam sobre os ombros e atrasavam o passo no caminho por entre as árvores das traseiras da mansão de Sena até que darmos entrada num campo aberto.

Sena caminhava à minha frente e só parou à entrada desse campo, que fora há séculos o de uma grande guerra. Olhou para a frente, em seguida para os lados, como que a sentir o peso da herança desses terrenos por onde teria passado parte importante da História do país e que agora estavam vazios. Disse-me que os mantinha como deveriam ter sido no antigamente, que mandara plantar novas árvores onde as crónicas reais afirmavam ter existido as que foram abatidas para construir armadilhas contra o exército desafiador, e que pagara do seu próprio bolso a escavação arqueológica nas quais encontrara novos argumentos para refazer a geografia de uma violenta batalha campal.

Informou-me que o governo também mandara fazer ali novas buscas arqueológicas mas, tendo realizado os trabalhos, estas de pouco acrescentaram aos argumentos com que os historiadores pretendiam esclarecer pormenores ainda ignorados. Dava estas explicações sentado numa pedra que parecia estar ali colocada de propósito para as suas palestras sobre a antiga batalha, tendo-me à sua frente e de costas voltadas para o campo de batalha. Creio que o fazia de propósito deste modo para que, ao mandar voltar o ouvinte na direção de onde tudo decorrera, obtivesse dele o pasmo que correspondia ao epílogo da sua narrativa.

Sem retirarmos os capacetes metálicos, Sena ordenou que eu deixasse as mãos livres das luvas feitas de malha de ferro, que protegeram em tempos os combatentes do gume afiado de espadas, e que observasse as ilustrações que, de mãos livres também, ia colocando num tripé posto à minha frente. Era um conjunto de imagens que mostravam como o combate se realizara ali onde estávamos, a meio de um agosto de boa memória para os seus antepassados. A primeira imagem que colocou sobre o encaixe de madeira que encimava o tripé mostrava uma fotografia de satélite tirada recentemente. Era muito clara e detalhada nos pormenores que exibia: árvores, colinas, rochas e o campo limpo de mato onde tudo teria acontecido. Em seguida, um desenho do mesmo local como se pensava ser há vários séculos: com o mesmo género de árvores, colinas, rochas e um campo minado de armadilhas para o exército inimigo.

Sena foi mostrando mais ilustrações e, a cada gesto, ouvia-se o barulho da sua armadura interromper o silêncio no antigo campo de batalha, como o ressoar do ruído metálico que teria sido de vitória para os vencedores naqueles dois dias de enfrentamento entre as hostes dos dois países e insuportável nos dias seguintes para os vencidos que, contam as lendas, teriam sido em número de milhares. Havia mesmo textos de um cronista estrangeiro, que vinha com o exército invasor, que referia em mais de cinco mil o número de vítimas deixadas mortas ou à morte neste campo onde estávamos agora a reviver esse combate e que foram comidas durante anos por aves de rapina e cães, após serem saqueadas de tudo o que traziam por populares que moravam nas redondezas.

Nessa série de imagens pintadas como se fossem da própria época da batalha, Sena escolhera as mais importantes para acompanhar com breves explicações enquanto noutras se estendia no comentário até à exaustão. Eu não tinha qualquer dificuldade em compreender o paralelismo que Sena fazia questão de me mostrar ao comparar as guerras do presente com as do passado, designadamente porque estar à torreira do sol dentro da armadura que me mandara vestir já era suficiente para sentir a alteração dos tempos e o esforço que teria sido necessário aos militares de então.

Após ter mostrado todas as ilustrações, Sena mandou-me pôr de pé e atirou-me uma espada para a mão.

- Vamos agora à parte prática! Ponha as luvas para não lhe decepar uma mão...

Não sei de onde ele tirou, como se de um passe de mágica se tratasse, aquelas duas armas. Também não tive muito tempo para pensar no assunto pois, mal escondi as mãos debaixo da cota metálica, já sentia a sua espada a bater-me no antebraço e, repetidas vezes, ouvi o silvo do instrumento a passar perto. No fim desta simulação, ordenou que retirasse o capacete e obrigou-me a deitar no chão, de ouvido sobre a terra. E disse apenas:

- Ouça o passado enterrado sob o chão que está a pisar.

Foi o que fiz, mesmo que não tenha sido capaz de escutar um ruído sequer que ainda ecoasse daquela batalha sangrenta.

Quando terminou a encenação bélica de Sena, regressámos a casa. O que precisava era de tomar um banho mas o meu anfitrião não o deixou fazer. Queria entregar-me a missão já anunciada e foi o que fez ao encaminhar-se para o escritório, onde só aceitou que retirássemos os capacetes, de modo a podermos falar, e as luvas, para poder entregar-me um envelope. O documento estava selado com um lacre e não pude ler o seu conteúdo, tendo recebido as instruções de viva voz. O modo como o fez manteve a estranheza da maioria dos hábitos de Sena. De pé, com as armaduras postas, esticando a sua mão para a minha e passando o testemunho como se revivêssemos uma cena medieval! A situação não era estranha - nunca o era com ele -, mas o que se seguiu teve esse lado, pois Sena obrigou-me a jurar que cumpriria todos os preceitos que estavam nos textos e, avisou, que só após o cumprimento destas ordens é que terminaria o nosso contrato.

- Se não o fizer, não ordenarei a transferência dos próximos salários nem lhe oferecerei o carro conforme prometi!

Sena fazia estas afirmações de cara bastante séria, talvez a mais dura que já lhe observara em todos os meses em que fora seu empregado de escrita. Confirmei-lhe a intenção de cumprir as instruções, tendo dito apenas que confiava que fossem legais. Não cumprir a lei seria a única objeção, salvaguardei, para o caso de estar a meter-me nalgum imbróglio.

- Quanto a isso não se preocupe. Sou o primeiro a respeitar a lei e, portanto, não o obrigaria a fazer algo que eu próprio não aceitaria.

Apesar de o ter pressionado a revelar a missão que me dava, o meu anfitrião negou-se a desvendar qualquer pormenor do que me esperava. Pelo contrário, repetiu que só poderia abrir o primeiro envelope quando saísse do Freixo e que me seria depositada a verba necessária para pagar o serviço logo que partisse. Entregue a missão, Sena aceitou que retirássemos o resto da armadura e nos puséssemos à vontade. Assim fiz, deixando-a sobre o chão de madeira, após o que fui para o meu quarto preparar-me para a partida que se verificaria na manhã seguinte. Enquanto caminhava, segurava bem o envelope e questionava-me se o manteria selado até à manhã seguinte. Mas achei por bem fazê-lo, não fosse Sena apanhar-me em incumprimento.

Um leilão e um espólio polémicos

Lembro-me que Sena me dissera estar a morrer e que essa foi uma das razões pelo qual eu aceitei este emprego - mas nunca o vi doente.

Lembro-me de me ter mandado escrever "A besta tinha 55 anos quando desembarcou em Lisboa" - mas nunca revelou quem era a verdadeira personagem sobre o qual tanto investigava.

Lembro-me de existir apenas uma única rua no Freixo - mas de jamais ter sentido falta de paisagem.

Lembro-me do prazer em descansar no gazebo - que era uma réplica do que George Washington construíra em Mount Vernon.

Lembro-me de copiar o Hino a Pã - e de o ter achado uma verdadeira alucinação poética-mística.

Lembro-me de como sofri até acostumar o corpo às molas soltas do colchão - que nunca foi mudado apesar de o ter solicitado.

Lembro-me da funcionária vir perguntar-me que tipo de mulher eu queria à minha disposição - e de ter optado por uma que tivesse bom físico.

Lembro-me de equacionar quem seria aquela jovem silenciosa que me guardava enquanto os dois viajavam - e de não ter tido uma resposta.

Lembro-me de ter tido vontade de fugir daquele sítio - mas de nunca o ter feito.

Lembrei-me de tantas coisas, que a viagem até à capital passou num instante e nem pensei em abrir o envelope para saber qual seria exatamente a missão de que estava encarregado. Sentir a liberdade envolver-me de novo, pode dizer-se, fez-me perder os sentidos.

O meu regresso à capital fez-me reencontrar com o mundo que deixara há uns bons meses. Principalmente, obrigou-me a constatar que estava sem teto pois cancelara o aluguer do apartamento onde vivia. A primeira pergunta que fiz quando pisei a estação final foi: onde é que iria habitar nos próximos tempos? Para encontrar uma resposta, sentei-me num dos bancos da gare ferroviária a pensar. Só então é que me lembrei do envelope selado com instruções... Abri a mala, retirei a carta do seu interior e escarafunchei o lacre para o quebrar. Estava suficientemente rígido para só se partir com uma pancada certeira numa das tábuas de madeira do banco.

Dentro do envelope encontravam-se várias cartas de tamanho menor, todas iguais umas às outras. Brancas também, com outros lacres a selar a intimidade de cada uma delas. Pensei que teria de quebrar os selos postos no verso para ordenar as várias cartas mas ao ver uma folha manuscrita a acompanhá-la, entendi que Sena tinha pensado em tudo. Na folha estava o meu nome, precedido de um Excelentíssimo Senhor Doutor; seguido de vários parágrafos de um texto orientador, onde existiam números que ordenavam a abertura de cada envelope com um determinado encandeamento. Por agora só deveria violar o que tinha escrito o número 1 - Sena escrevera a palavra "violar", não é de minha autoria - para saber como proceder.

Após ler o bilhete manuscrito, abri o primeiro envelope. Que indicava um nome a contactar e uma direção aonde me dirigir: o nome era Peres e a direção o Observatório Astronómico. Estavam tomadas por mim as decisões iniciais, face ao que abandonei a gare e entrei no primeiro táxi parado na fila que onde vários aguardavam pelos passageiros dos comboios. Disse ao motorista qual o endereço e lá parti, reconhecendo a cidade que fora minha até ao momento em que embarcara nesta aventura a soldo de Sena.

À minha espera não estava ninguém. Nem o senhor Peres, nem um substituto. Passados alguns minutos, o funcionário da recepção do Observatório Astronómico informou que dentro de alguns minutos o cientista viria ao meu encontro. Sorri-lhe e agradeci a rápida resolução do impasse, enquanto questionava quem seria o Peres. Cientista, era para já o primeiro dado da sua identidade que conhecia! Realmente, poucos minutos depois, o homem veio até mim. Sem pressa, pois coxeava e a idade não lhe permitiria andar mais depressa, como era fácil observar a cada passo que dava e que diminuía a distância entre nós. Senti a tentação de ir ao seu encontro mas, reparando na situação, o funcionário da recepção referiu em voz baixa para que eu esperasse onde estava.

- Bem-vindo! Não sabia quando chegaria e por isso esqueci-me de dizer ao rececionista que se poderia apresentar por aqui num destes dias. Peço-lhe desculpa pelo facto, mas estou certo que o recompensarei por esta falta. Siga-me, eu próprio o levarei aos seus aposentos.

Segui-o passo a passo, lentos, enquanto pensava que Peres poderia andar devagar mas na conversa era veloz. Não me tendo visto até esse momento, imediatamente me integrava no ambiente. De um modo bastante diferente do que era o seu amigo - e a funcionária -, que me tinha hospedado nos últimos tempos. Percorremos alguns corredores do Observatório Astronómico até chegarmos ao exterior do edifício, espaço no qual existia uma pequena casa. Peres apontou a sua bengala nessa direção e disse-me que poderia utilizá-la durante o tempo necessário à minha missão.

- Não tenha acanhamento, ponha-se à-vontade e como se estivesse na sua própria casa. É pequena, não tem cozinha mas possui uma casa de banho moderna. Quanto às refeições, faça como todos nós, use a cozinha do Observatório Astronómico. Se precisar da minha ajuda, não hesite em contactar-me.

A receção de Peres deixou-me "à-vontade", expressão que o cientista introduzira nas duas deixas da conversa que teve comigo. Enquanto ele se afastava, fiquei especado a olhar para a cúpula branca - e também um pouco suja - do Observatório Astronómico. Só tinha visto uma coisa destas em filmes e fotografias, nunca entrara numa pelo meu pé ou decisão própria. Realmente, a minha vida mudara bastante desde que aceitara este novo emprego!

Os meus dias confundiram-se uns com os outros durante um certo tempo. Peres tornara-se uma bem-disposta companhia, apesar da nossa grande diferença de idades e, talvez por ninguém ter paciência para o seu feitio, ganhei a sua preferência. Contou-me que tinha sido astrónomo a vida toda, numa época em que esta ciência dava grandes passos devido à evolução dos telescópios. A história que mais gostava de contar era a da sua tentativa de observar um eclipse do Sol ocorrido num dia 29 de maio no século passado. Nessa altura estava em África e fez todos os esforços para poder acompanhar uma expedição de um astrónomo britânico à ilha do Príncipe, que pretendia provar a veracidade da Teoria da Relatividade de Albert Einstein.

Como era muito didático, Peres questionou-me se eu conhecia esta lei da física, à qual disse sim, mesmo que não conseguisse dar uma resposta com mais substância do que reproduzir a famosa fórmula do e=mc2. Ele riu-se perante o meu esforço e logo deu início a uma aula: O Einstein concebeu a sua Teoria Especial da Relatividade no ano de 1905 mas levou mais uma década a resolver questões sobre gravidade e aceleração que não encaixavam na sua fórmula. Ele defendia que a luz nem sempre se propagava em linha reta e que devido a forças gravitacionais poderia ser curva, mas não tinha forma de provar essa teoria. Para se o fazer, Einstein adiantou três maneiras, uma das quais era observar as estrelas durante um eclipse solar. Aí, dizia, se a teoria estivesse correta a mesma estrela estaria em lugares diferentes se observada durante as fases clara e escura provocadas pelo eclipse, devido à força gravitacional do Sol.

Era aí que a sua própria história se cruzava com a de um colega inglês. Ao saber da expedição que este iria fazer com vista a provar a teoria de Einstein, quis também ir até ao local para a acompanhar, só que nunca obteve autorização dos seus superiores hierárquicos e ficou impossibilitado de realizar a viagem.

- O Arthur Eddington foi até à ilha do Príncipe com a sua equipa e fotografou o mesmo campo de estrelas antes, durante e depois do eclipse e confirmou que a sua posição se alterara, tal como o físico previra. Só em 1960 é que uma nova experiência voltou a confirmar a teoria de Einstein.

O meu interesse pelo tema foi tão grande que Peres emprestou-me um livro do astrónomo britânico e uma pasta com dados biográficos da expedição à ilha do Príncipe que contava os pormenores não científicos. Estes de pouco lhe interessavam, mas a mim despertaram curiosidade: que uma cratera da Lua recebera o seu nome, tal como o asteroide 2761 Eddington; que popularizou algum dos acontecimentos em livros menos científicos e que gostava de espicaçar os leitores com frases como esta: se um exército de macacos soubesse datilografar, poderiam escrever todos os livros da biblioteca do Museu Britânico. Também havia uma brincadeira nestes documentos, esta de Einstein a responder a um jornalista sobre como teria sido a sua reação ao facto de a expedição poder antes ter provado que a sua teoria estava errada: "Então, Deus estaria enganado!"

Mas o que mais me interessou foi mesmo o relato da expedição para confirmar a Teoria da Relatividade. Como o céu estava meio encoberto e a manhã chuvosa na ilha, a equipa do astrónomo teve alguma dificuldade em registar tudo o que desejava: A chuva parou entre o meio-dia e as 13.30 e observámos uma parte do Sol. Tirámos as fotografias na esperança de que corresse bem. Nem vi o eclipse, tão ocupado estava a mudar as chapas, exceto num breve olhar para confirmar que o eclipse começara e que era visível por entre as nuvens. Tirámos dezasseis fotografias. Estão perfeitas na reprodução do Sol, mostrando uma boa clareza, mesmo que uma nuvem tenha interferido com a captura das estrelas. As últimas fotografias mostram uma série de imagens que espero nos deem as provas necessárias... No entanto, uma segunda equipa encontrava-se na América do Sul, onde as condições da meteorologia eram magníficas e puderam ser fotografadas todas as fases do eclipse e obter as duplas imagens do campo de estrelas diurno e noturno que provavam a existência de uma deflexão da luz em 1,98". Mais tarde, o próprio astrónomo desenvolveu a sua teoria sobre a estrutura interna das estrelas e criou uma série de coincidências matemáticas sobre o universo, que revelavam o seu espírito místico para além do científico.

Andei assim distraído durante alguns dias até que o rececionista alertou para o facto de estar na hora de abrir o segundo envelope. Nunca mais me lembrara da missão de que Sena me encarregara! Regressei à casa onde estava hospedado e peguei no envelope número 2. Abri-o e li atentamente as instruções. Felizmente, estava a tempo de as cumprir antes de a data ser ultrapassada - o dia seguinte - e foi assim que entendi que o meu anfitrião mantinha o seu interesse em Fernando Pessoa. Tal como estava escrito no bilhete, telefonei para os descendentes do poeta e pedi que me recebessem o mais rápido possível. A sobrinha, era esse o grau de parentesco, questionou-me sobre as minhas razões e expliquei-lhe que preferia comunicar-lhas pessoalmente, situação que lhe provocou um trocadilho:

- Claro, se quer falar de Pessoa deverá fazê-lo pessoalmente...

Fiquei surpreso pela sua galhofa e contra-ataquei com a marcação da hora. Se poderia ser logo de manhã? Concordou, dando-me a morada e aconselhando tocar um pouco mais do que seria normal pois nem sempre o botão da campainha funcionava na perfeição. Apesar de ter andado distraído durante dias, o facto de ter sido o rececionista a lembrar-me da abertura do segundo envelope não me passou despercebido. Era o sinal de que o braço de Sena pairava sobre mim, mesmo que a esta distância do Freixo...

Na manhã seguinte, à hora marcada, lá toquei demoradamente à campainha. Em poucos segundos a porta de entrada do prédio foi aberta, tendo subido até ao andar indicado pela sobrinha do poeta. Enquanto percorria a altura do poço do elevador, ia crescendo em mim a emoção por estar a chegar mais perto do que nunca ao reino mais privado do poeta sobre quem Sena tanto me havia ditado. Finalmente, iria conhecer parte do seu mundo, mesmo que muitas décadas após a sua morte. Era a primeira vez que tal acontecia e, suspeitava, que também deveria ser a última. Afinal, na folha de instruções escrita pela mão de Sena, pressentia-se no seu tom que a tarefa a executar não era fácil nem, talvez, do interesse dos descendentes.

A sobrinha recebeu-me educadamente, levando-me para uma sala incaracterística e onde, a não ser uma foto do tio, pouco mais o assinalava. De qualquer modo não tive muito tempo para reparar em pormenores pessoanos, tanto pelos nervos que me afetavam como pela rápida pergunta da senhora sobre o objetivo da minha visita. Contei-lhe, então, que estava interessado em adquirir dois bens do poeta que pertenciam - até ao momento - aos seus descendentes. Não referi que representava Sena, a conselho do próprio, mas antes que era eu o interessado.

- Sabe... Recebi-o por uma questão de educação e porque me pareceu uma pessoa honesta na breve conversa que tivemos ao telefone... No entanto, quanto ao seu desejo de pouco lhe posso valer porque o que pretende consta de um lote já entregue a uma leiloeira para ser vendido... Terá que fazer como os restantes interessados...

Mais rápida a pôr-me fora de casa não poderia ter sido. Não é que se tivesse levantado após a longa resposta, entrecortada por algumas hesitações, apenas colocara um ponto final nas minhas pretensões. Mesmo assim disse-lhe que poderíamos chegar a um entendimento que interessasse a ambos e que pagaria o que pudesse vir a ser oferecido no referido leilão.

- Não... Isso não pode ser assim porque já me comprometi... Além de que esses dois artigos são os que mais poderão chamar clientes ao leilão... Serão eles o chamariz para as restantes peças do lote... Não seria uma boa ideia... Recomendo-lhe que faça como os outros interessados e as licite... E, se como diz, pode pagar o melhor preço, não lhe será difícil ficar com aquilo que deseja...

Foi fácil compreender que não iria demover a sobrinha. Levantei-me e despedi-me, avisando-a de que lhe voltaria a telefonar. Tive, no entanto, que me voltar a sentar. A sobrinha permanecera sentada e não parecia interessada na minha saída imediata. Não entendi logo o porquê desse comportamento, mas as perguntas que fez questão de me colocar enquanto servia um matinal café forte mostravam que estava interessada em conhecer melhor os meus propósitos. Também, rapidamente, compreendi que não iria mudar de opinião, mesmo que tivesse sido a própria a encetar uma conversa inesperada sobre o poeta.

- Sabe... Até gostaria de nada vender deste património que me foi legado... No entanto, ao longo de muitos e muitos anos tenho feito tudo o que está ao meu alcance para o manter unido e manifestado o desejo de o transferir para a guarda das autoridades competentes... O Estado, ou posso antes dizer, os sucessivos organismos que me têm contactado nunca conseguiram propor-me outra situação além de lhes oferecer todo o espólio de forma gratuita... Aliás, ao longo de décadas tenho facultado tudo o que me têm pedido... Deixado consultar... Cedido para exposições e eventos, mas nunca alguém tomou a atitude correta... E honesta, como a de negociar com os descendentes... Vejo-me, portanto, na obrigação de ser eu a resolver o caso antes de o meu fim chegar e o problema ser colocado a quem não deve ter a ver com a questão... Está a compreender?

Após este sermão, não lhe poderia dizer outra coisa senão que era dona da razão. Voltei a afirmar o meu interesse e que o preço que estaria disposto a pagar a compensaria destes incómodos que duravam há anos. Ela sorriu e voltou a falar.

- Quanto à sua proposta, agradeço mas não vale a pena voltar a falar dela... Está decidido deste modo e não voltarei atrás... São muitos anos a tomar conta das coisas do meu tio e é necessário encontrar uma solução definitiva... Esta foi aquela a que me obrigaram... Também gostaria que fosse de outra maneira, mas já não me iludo com promessas... Acho que não terá problema em conseguir o que deseja no leilão... Estou certa disso...

Voltou a oferecer-me mais uma chávena do matinal café forte e, em seguida, pediu-me que a acompanhasse a uma outra divisão da casa.

- Está aqui uma das peças que pretende comprar... Em perfeito estado de conservação... Tenho tido todo o cuidado na sua preservação, como pode ver... Quanto ao documento, esse está por aí...

Desci no elevador até ao rés-do-chão e encaminhei-me para a rua. Queria pensar na situação em que me encontrava e fazer o seu ponto. Dirigi-me para o jardim que se avistava da porta do prédio e procurei um banco para me sentar. A seguir, retirei a folha manuscrita de Sena com as instruções para a missão e li a que se seguiria. A solução era simples, se a proposta incluída no segundo envelope não fosse aceite, passaria ao terceiro passo, descrito na carta número 3. Como não a tinha comigo, fiquei a imaginar o que teria a fazer em seguida. Não valia a pena tentar adivinhar porque, se até aqui nunca conseguira prever os desejos de Sena, dificilmente seria desta vez.

Fui até ao quiosque em frente e comprei o jornal. Não tinha pressa e pus-me a esquadrinhá-lo página a página e artigo a artigo para ocupar o tempo. Não estava com vontade de regressar já ao Observatório Astronómico, nem de passear ou fazer qualquer outra coisa. Ler seria o melhor remédio e foi o que fiz. Coincidência das coincidências, o jornal continha um artigo que retomava o tema do leilão a que a sobrinha se referira na nossa conversa, só que com um teor de polémica que ela não revelara. Dizia o artigo que estava já marcada a data para o leilão do espólio do poeta e que existia uma tentativa para impedir a sua realização. Recordei que lera em tempos um artigo sobre este mesmo assunto, facto que me provocou mais curiosidade ainda. Continuei a ler a notícia e entendi que a polémica crescera, pois desta vez o lote incluía documentos considerados fundamentais para a história de Pessoa. Foi após esta leitura que entendi melhor qual seria a minha missão! No leilão iriam estar textos que relatavam o conhecimento entre o poeta e a Besta, e não eram poucos: uma pasta contendo toda a troca de correspondência entre ambos e o manuscrito da novela policial que Pessoa escrevera baseado no alegado desaparecimento de a Besta na Boca do Inferno. No artigo fazia-se ainda um aviso, de que estes documentos eram facilmente vendáveis para o estrangeiro, destino da maioria dos objetos que a empresa costumava leiloar; também que em tempos o sobrinho do poeta editara um livro com a reprodução da maior parte do texto da referida novela policial...

Tentei continuar a ler o jornal, mas a notícia sobre o leilão de mais uma parte do espólio de Pessoa não me deixava prestar atenção. Antes, contudo, havia duas coisas que eu precisava de fazer imediatamente: comprar o livro referido na notícia e abrir o terceiro envelope. Por esta ordem mesmo.

A busca pelo livro foi infrutífera, apesar de ter visitado várias livrarias. Numa delas, indicaram-me um alfarrabista onde talvez pudesse encontrar o volume organizado pelo sobrinho do poeta. Fui até à morada indicada, mas não o consegui adquirir porque a loja estava fechada. Ainda pensei que era a hora do almoço mas, ao ler um pequeno recorte de papel preto preso num canto da porta, verifiquei que também não valeria a pena esperar. Era o anúncio necrológico da morte do proprietário, com data de mais de há um ano. Ao olhar para os livros expostos na montra, confirmei que este seria o alfarrabista certo pois lá estava o que eu tanto queria ler. A capa estava amarelecida pelos raios solares, mas via-se bem o grafismo com os rostos do poeta e de a Besta, um virado para cima e o outro para baixo. Fui ao alfarrabista mais próximo - naquela rua existiam vários - e perguntei-lhe se teria o livro. A resposta foi imediata: não. Ainda disse que não valia a pena procurar tal volume porque o único local onde poderia encontrá-lo seria no estabelecimento do lojista morto.

Quis caminhar um pouco para me distrair e reconhecer a cidade de onde me ausentara há alguns meses. Dei uma volta pelo jardim, desci a avenida para a parte baixa da capital e fui observando com curiosidade as lojas e as pessoas enquanto andava. Não estava muito diferente da cidade que eu tão bem conhecia, mesmo que o tempo passado fora me proporcionasse um olhar de maior distância em relação à pessoa que eu já fora. Não tinha dúvidas que era alguém que chegara diferente do que partira! Caminhei até não poder mais. Quanto mais não fosse porque o sapato do pé direito me magoava o suficiente para não poder continuar a marcha. Parei para ver o que me fazia doer o pé e descobri que a parte interior da sola estava a desfazer-se de velha. Pensei que com todo o dinheiro que acumulava no meu novo emprego bem poderia comprar um novo par de sapatos sem prejudicar a poupança mensal. Pela primeira vez na minha vida tinha dinheiro para gastar! Entrava naquela fase de maturidade em que o saldo das despesas era inferior ao das receitas e tudo isto se devia a Sena. Ou seja, deveria comportar-me corretamente para não regredir até à que fora a minha situação anterior. A solução era simples, submeter-me de forma disciplinada às suas ordens e manter-me-ia à tona da água a nível financeiro. Ainda por cima, se cumprisse esta missão, decerto seria premiado com o velho Chrysler e, então, estaria à beira de o poder trocar por uma bela soma de dinheiro. Para além do seu valor histórico, seria com toda a certeza o tipo de automóvel que qualquer colecionador desejaria ter entre os seus devaneios.

O sapato estragado nada mais era do que uma chamada de atenção para a minha situação pessoal, poderia até considerá-lo como um aviso para o modo como me deveria comportar e o tipo de conduta a manter. Mesmo tendo dinheiro para comprar outros sapatos, deveria resistir a supérfluos até ao fim do contrato e, nessa altura, poderia fazer a despesa. Continuei o passeio por mais algumas ruas, coxeando ligeiramente do pé direito, enquanto não fiquei suficientemente cansado para regressar e confirmar o terceiro passo da minha missão. No entretanto, ia pensando se deveria ou não voltar a falar a sobrinha, de forma a poder ganhar alguns pontos perante a opinião de Sena...

Estava a fazer-se noite e sentia já alguma fome. Fui até à cozinha do Observatório Astronómico na esperança de me cruzar com Peres mas tive azar. Ele tinha-se sentido indisposto e fora para casa mais cedo. Em sua substituição, estava nessa noite um astrónomo muito mais novo, que fez questão de entabular conversa comigo. Talvez para ocupar o tempo enquanto não caía a noite e tivesse trabalho para fazer!

- Sabe que o Peres escreveu um dos primeiros tratados científicos sobre a Teoria da Relatividade do Einstein?

Disparou aquela informação sem mais nem menos, que era ao mesmo tempo uma pergunta, quase fazendo com que eu deixasse cair no chão o ovo que ia estrelar. Baixei a chama do bico do fogão que estava a utilizar e respondi-lhe - possuído por alguma curiosidade - com um simples "Ai sim?"

- Ele tem o manuscrito guardado há décadas numa gaveta da sua secretária. Nunca o publicou, apesar de que o que escreveu na época sobre o assunto ser bastante inovador.

O astrónomo informou-me que já perguntara várias vezes a Peres porque nunca o fizera e que este sempre evitara responder à questão. O máximo que lhe tinha arrancado é que no momento em que o estava a escrever fora publicado um livro semelhante e que, quando estava a terminar, o mesmo autor voltara a publicar um novo trabalho, situação que o forçara a desistir do seu.

- Já não era oportuno, foi a única justificação que me deu!

Afinal, apesar de todas as minhas conversas com Peres, pouco ficara a conhecer da sua história pessoal. Acabada a refeição, o astrónomo convidou-me a passar a noite na cúpula com ele e a acompanhá-lo nas observações que estavam programadas. Rapidamente disse que sim, porque - usando uma metáfora que me parecia desapropriada - apesar de estar no centro do vulcão ainda não tinha visto a erupção acontecer!

Este colega de Peres era um astrónomo interessado na grandes questões sobre o universo e, desde o início, que desejou testar os meus conhecimentos sobre a matéria. Confesso que as questões do Big-bang, da expansão do universo, do busão de Higgs, da Teoria das Supercordas, entre muitos outros conceitos que ia trazendo à conversa, não me eram totalmente desconhecidos. Já lera o suficiente e vira programas de conteúdo científico na televisão - em noites de insónia - para conseguir acompanhá-lo numa conversa como a que queria manter comigo durante essa noite. Desde cedo compreendi que existia um mal-entendido no que respeitava à minha pessoa pois pensava que eu era desta área de estudos e que estaria ali a estagiar. Não desfiz essa impressão porque não sabia o modo como Peres me tinha posto no interior das fronteiras do Observatório Astronómico, podendo deixá-lo ficar mal se se descobrisse que a minha missão era a de comprar partes do espólio de Pessoa em vez de adquirir conhecimento científico.

É certo que o poeta também fora muito dado às estrelas, mesmo que sob o aspeto astrológico. E fora-o com grande mestria, praticando para se conhecer a si próprio, aos heterónimos e a outros ao longo de grande parte da sua vida. Nos muitos textos que deixou como legado, existem aproximadamente trinta mil sobre este tema, facto que um estudioso desta sua arte referira como sendo um dos traços da personalidade do signo Gémeos. Encontrara esse conhecimento num estudo sobre o poeta e a astrologia que estava entre os livros de uma pilha pousados sobre a mesa de trabalho de Peres. Que ele mesmo me aconselhara a folhear pois teria coisas - foi a expressão que utilizou - muito curiosas. Não terá sido por acaso que Peres terá feito este aconselhamento, desconfiava, porque tudo o que tivesse a ver com Pessoa parecia ter sempre uma origem na recôndita povoação do Freixo.

Uma das teses interessantes era a de que o poeta se dedicara com afinco ao estudo da astrologia também para ter a perceção da dimensão da sua própria vida. São muitos os cálculos astrológicos que fez para determinar a data da sua própria morte e até acabou por assassinar o seu heterónimo Alberto Caeiro para a confirmar. Aliás, os seus heterónimos pertenciam cada um a uma das casas do horóscopo, sendo o próprio Pessoa Água; Caeiro Fogo; Álvaro de Campos Terra, e Ricardo Reis Ar. Sob um outro pseudónimo, o de Raphael Baldaya, foi ainda autor de muitos trabalhos astrológicos e até fez propostas para uma nova teoria dos períodos astrológicos.

A rotina noturna tinha do astrónomo sido alterada para cumprir uma missão cujo objetivo era o de encontrar meteoritos cuja rota pudesse ser de colisão com o nosso planeta. Explicou que esta não era a tarefa habitual do Observatório Astronómico mas que a recente queda de um meteorito na Antártida os obrigara a participar numa colaboração externa por um determinado período de tempo nesta busca. Era uma fase em que os observatórios que participavam do projeto esquadrinhavam uma ínfima parte de alguns milhões dos quilómetros quadrados durante um mês, período após o qual voltariam às suas tarefas normais.

- Peres não concordou com esta colaboração a nível global por achar que é uma perda de tempo e que não nos competia, mas como recebeu instruções específicas nesse sentido por parte de quem nos paga o salário não teve outra solução a não ser justificar a sua ausência por motivos de doença.

O astrónomo, no entanto, não parecia preocupado com esta situação e até se divertia com a localização de meteoritos que lhe estava atribuída. Foi assim que observei alguns destes corpos que percorrem o universo como uma nitidez que de outro modo me seria impossível ver. Quando lhe perguntei o que queria dizer com a recente queda do meteorito - uma semana? -, ele rira-se e respondera que a palavra "recente" significava 11 mil anos antes de Cristo, mas que a sua descoberta só se dera há duas décadas. Como o meteorito trazia marcas de hipotéticas formas de vida em Marte de há três mil milhões de anos, decidira-se estudá-lo com muita atenção.

- É claro que muitos cientistas não acreditam que essas marcas de uma provável vida em Marte sejam verdadeiras - podem resultar de outros fenómenos! - mas como é das melhores provas que temos, a comunidade científica ainda não desistiu do asteroide ALH84001.

Coloquei-lhe, então, a minha grande pergunta: se estamos sós no universo? Ele retirou o olho do monóculo do telescópio, virou o rosto para mim e riu-se, acrescentando que essa é a pergunta de um milhão de dólares! Mas, após pensar um pouco, respondeu.

- Acredito que sim. Dificilmente teremos companhia neste imenso universo e, a existir, está a uma distância tão gigantesca que a nossa solidão se manterá eterna.

Depois desta afirmação estranhamente perentória para um cientista, o astrónomo voltou à observação do espaço e eu fiquei a vogar como um pequeno meteorito na minha ignorância. Enquanto ele esquadrinhava o espaço, eu pensava no astrólogo Fernando Pessoa a desenhar os seus mapas celestiais para as muitas cartas astrológicas que fez. O observatório tinha um telescópio com uma potência que os seus antecessores jamais imaginariam ser possível existir para realizar estes estudos, tal como os astrólogos contemporâneos possuíam tecnologia para dar a conhecer os desígnios do zodíaco com uma facilidade muito superior aos que os antecederam.

Ao olhar para a dedicação integral do astrónomo no que estava a fazer, comparava este seu estado com o do poeta. Que conjugava o estudo da astrologia com anotações nas mesmas folhas de papel onde estavam escritas frases ou versos que lhe vinham à inspiração. Ou mesmo observações sobre o seu lado esotérico, como aquelas que fizeram com que a própria Besta viesse fisicamente ao seu encontro. Pessoa escrevera até uma carta ao editor de uma revista inglesa em que se comparara a Shakespeare e a Francis Bacon na capacidade de escrever de modos diferentes para uma única pessoa: "Eu possuo essa característica, sou um autor que sempre considerou ser impossível escrever segundo a sua própria personalidade; tenho assumido, consciente ou inconscientemente, a personalidade de alguém que não existe, através do qual em conformidade escrevo".

O astrónomo, após o que me revelara sobre a sua posição em relação ao Homem e ao universo, também me parecia deslocado no que estava a fazer esta noite. É certo que ele fora muito claro no que respeita a cumprir as obrigações porque só assim receberia o ordenado ao fim do mês, mas decerto teria outros interesses no seu trabalho científico. Tais como os que revelara antes daquela minha pergunta fatal para a nossa conversa - sobre se estamos sós no mundo -, como era o caso da noção de assimetria do universo; o que se passara naquele 0,000000000001 de segundo depois de se ter dado o Bang, bem como a sua razão de ser. Nesta última situação, recorrera à resposta que o matemático Laplace dera a Napoleão sobre o papel de Deus nesta criação: "Majestade, não tenho necessidade dessa hipótese".

Eu estava perante um viajante das estrelas que, tal como o próprio universo, ainda estava num período de expansão de perguntas e respostas para o seu saber. Só desejei é que, ao contrário de Peres, não guardasse os seus estudos numa gaveta só porque outros publicavam livros sobre o mesmo tema.

A noite passada com o astrónomo e o interesse de Pessoa em Shakespeare fizeram-me voltar ao livro do cientista britânico que medira os campos de estrelas durante o eclipse de 19 de maio. Porque na frase impressa na página inicial do volume estava, por coincidência, uma frase do mais famoso escritor inglês, que tanto interessara ao poeta português, e que dizia: "Senhores, vou-vos contar maravilhas... Mas não me perguntem quais são elas". Também no prefácio, Eddington fizera afirmações que o astrónomo repetira como suas mas que já preocupavam estes cientistas desde o início do século XX: Adoto esta maneira de ver neste momento da atualidade, e que é admissível numa espécie de ensaio, de que o universo material das estrelas e das galáxias estelares se dispersam em conjunto. Mas esta perceção, não a vejo como um fim em si próprio. Na linguagem policial, ela seria a pista e não o criminoso. A "mão misteriosa" da minha história, é a constante cósmica.

É claro que ao ler e ouvir tanta informação sobre temas que não me diziam respeito, nem eram os principais que me preocupavam na vida, como estava a acontecer desde que dera início ao contrato com Sena, senti-me um pouco perdido face ao meu próprio lugar no planeta. Desci à Terra com o anúncio definitivo da realização do leilão do espólio de Fernando Pessoa. Soubera da data através das notícias dos jornais porque a polémica continuava acesa e a crítica à venda de documentos era cada vez maior. Se por um lado, os descendentes do poeta mantinham a sua decisão e a leiloeira não desmarcava a sessão, por outro, surgia uma contestação organizada contra a venda dos pertences do poeta. Este debate nos jornais era diário e deveria manter-se assim até que se realizasse o leilão, situação que me preocupava pois preferiria participar nele de uma forma discreta. As peças que Sena mandara comprar eram importantes e, mal as arrematasse, deveria ser pasto de perguntas dos jornalistas que estivessem a fazer a cobertura do evento.

Discrição era uma realidade com que não deveria contar, mas era aquela que o meu anfitrião desejava que existisse na minha conduta. Soube-o, quando abri o quarto envelope, onde estavam instruções muito precisas quanto ao meu comportamento no leilão. A primeira era a de adquirir logo que possível o catálogo oficial para me familiarizar com o número dos lotes que pretendia arrematar. Para tal, estavam dentro do envelope fotografias da peça e do dossier que interessava adquirir. A segunda, remetia para o meu comportamento. Nem uma palavra antes, durante ou depois. Apresentar-me de fato e gravata para não levantar suspeitas de credibilidade financeira. Retirar-me logo que licitasse e fornecesse o nome aos responsáveis da firma.

O próximo envelope, o quinto só deveria ser aberto após o leilão. Assim sendo, ainda tinha cerca de três semanas livres até à noite em que se realizaria a sessão.

Certamente, Sena não confiava na minha capacidade para cumprir a missão. Foi essa a razão em que pensei como sendo a mais válida quando o reencontrei inesperadamente no Observatório Astronómico. Se soubesse de antemão que o meu anfitrião estaria ali, teria entendido o semblante do porteiro ao dizer-me bem-vindo. Havia no seu olhar uma certa dependência para com o patrão, apesar de Sena não pertencer à mobília administrativa da instituição.

Estava deitado na minha cama, sonolento, mas desperto o suficiente para se aperceber da minha entrada no quarto. Decidira vir até à capital acompanhar de perto a operação montada para adquirir no leilão as coisas que queria de Fernando Pessoa.

- Confio em si, pode acreditar, mas não me sentia bem em o soltar às feras sozinho.

Ainda acrescentou um "por isso cá estou", a justificar a sua presença inesperada, enquanto explicava que não iria partilhar o quarto comigo.

- Quanto menos formos vistos juntos melhor.

Ainda acrescentou que pensava mais além nesta questão e que não deveríamos mesmo ser vistos juntos fosse em que situação fosse.

- Ninguém deverá ser capaz de nos ligar um ao outro!

Estive quase para lhe dizer "que grande mistério" mas, pelo que já conhecia da personalidade de Sena, achei por bem não fazer este tipo de afirmações. Não gostava de intimidades, nem que lhe respondessem, preferindo ser sempre o autor da última frase da conversa. Informou-me que no dia seguinte aconteceria a abertura do leilão e que durante dois dias se podia observar o que estava em licitação. Explicou-me que iria ele próprio visitar o salão e tomar nota dos números das peças que eu deveria comprar três dias depois para que não houvesse engano, certificando-se de que o seu número corresponderia aos que estavam impressos no catálogo oficial. Vendo a minha surpresa perante a sua anunciada visita ao local do leilão, esclareceu-me.

- Não pense que me vão descobrir, irei bem disfarçado!

Adormeci a pensar qual seria o traje com que Sena iria antever os bens do poeta que desejava para si, coisa que não deveria ter feito pois dificultou-me o sono, tais eram as hipóteses que se me colocavam. Ao despertar, o primeiro pensamento foi novamente para a indumentária de Sena. Usaria um bigode falso? Coxearia para disfarçar? Levaria uma gabardina? Um chapéu enterrado pela cabeça a baixo? Iria vestido de mulher? Tudo era possível acontecer com alguém que não aceitaria perder sob qualquer hipótese a posse destas peças à venda. Sabedor da situação, aprontei-me rapidamente para poder assistir à entrada de Sena no salão. Era-me imperdível esse momento! Ainda ponderei se deveria disfarçar-me também, mas decidi não o fazer pois faltar-me-ia a justificação para este ato e até poderia ser entendido como uma brincadeira de mau gosto pelo meu anfitrião.

Sena entrou discretamente, impossível de ser reconhecido até pelos mais atentos. E havia várias pessoas que estavam alerta para este tipo de situações naquele salão onde ele se movimentava em passos lentos mas decididos. Começou por dar uma volta à divisão onde estava exposta a parte principal das peças do lote à venda e deteve-se, só por instantes, perto das que lhe interessava. Quem olhasse para o seu disfarce de burguês muito bem-posto num fato cinzento claro jamais o identificaria como o futuro dono da parte mais importante em causa naquele leilão.

Mantive-me sempre por perto e, por várias vezes, cruzámo-nos nas voltas ao redor do material que outrora pertencera a Pessoa. Havia de tudo dentro das estantes de vidro que facilitavam a apreciação e, ao mesmo tempo, também as isolavam de qualquer contacto. Quando um pretendente estava mais interessado numa das peças, mesmo que só se notasse por um olhar mais prolongado, surgia imediatamente um funcionário que se oferecia para dar explicações. Sena, que observara atentamente os seus interesses, nunca sofreu uma dessas aproximações, o que provava uma conduta inteligente no reconhecimento que efetuava. Até utilizava, como parte do disfarce, aqueles tiques próprios de quem observa o produto no seu global e muito pouco no seu particular, ora cofiando o bigode postiço farfalhudo, ora folheando o catálogo de costas para a peça em causa. Era um mestre do disfarce, tão especialista que ponderei até que ponto eu não fora vigiado por ele sem me aperceber.

Reconhecera-o facilmente entre tanta gente porque sabia que iria estar ali, de outro modo passaria por ele sem o saber. O único toque de vestuário que o poderia denunciar era o uso de um laço em vez de uma gravata, uma vez que mais ninguém usava um adereço desses! Mas, ao longo do dia, decerto que outros apareceriam assim, ou não fizesse aquela clientela um género muito próprio. O meu anfitrião ainda demorou umas boas duas horas naquele seu passeio em torno das peças, disfarçando sempre bem o grande interesse e, provavelmente, o prazer antecipado quanto ao que iria adquirir

No momento em que se preparava para partir, houve um rebuliço que o fez ficar um pouco mais. Tratava-se do anúncio de um esclarecimento sobre o Lote 21, relativamente ao qual o funcionário informou os presentes que iria ser retirado do leilão. Ainda perguntaram ao responsável da empresa a razão, mas este não respondeu a nenhum dos que o interrogavam, apenas abriu a portinhola do escaparate e pegou na contracapa de um livro. Ao meu lado, duas pessoas comentaram a razão: que estaria a ser disputada pela Câmara de Lisboa, que teria anteriormente comprado o resto do volume para o acervo da Casa Fernando Pessoa. Sena observou de longe o pequeno momento de confusão e, terminado o espetáculo, partiu.

Eu fiquei mais umas horas, depreendendo que era esse o seu desejo por um olhar que me fez. Curioso com o facto daquela retirada de parte do espólio se verificar mesmo em cima da hora, decidi intrometer-me na conversa entre dois prováveis interessados que pouco antes me tinham esclarecido sobre o mistério da ausência da contracapa no pregão e perguntei-lhes sem rodeios se iria haver mais alguma polémica. Tinha algum receio em dar nas vistas com esta pergunta mas tal não aconteceu, pelo contrário, os dois homens fizeram questão de me explicar muito do que se estava a passar nos bastidores deste leilão. Um deles começou por referir que os sobrinhos do poeta estavam em conflito com as autoridades, que consideravam que eles não tinham direito de se desfazer de tantos bens do antepassado e que estes deveriam ser oferecidos à casa que honrava a memória de Pessoa. Após esta introdução, entendi que o outro senhor tinha uma posição contrária porque contrapunha haver sempre gente interessada em se beneficiar do espólio, uma situação já com décadas, e que a família também teria os seus direitos sobre esta propriedade. O primeiro replicou que o correto era fazer como nos anos 80, quando negociaram diretamente com a Câmara; ao que o segundo respondeu que seria bem mais difícil pois o Estado estava há muito tempo despreocupado com o que ainda restava em posse dos sobrinhos e que estes teriam feito vários avisos sobre a sua intenção de vender o património. Para explicar melhor a sua tese, o segundo ainda lembrou que no anterior leilão já tinha havido bronca com a capa do livro As Doutrinas Anarquistas e garantiu que teria bastado um pequeno sinal do Estado para que tivesse sido retirado do leilão e em vez de terem posto uma providência cautelar para inviabilizar o negócio...

Achei que se desejava - e deveria - saber algo mais sobre estas polémicas era o momento certo, pois estava perante dois especialistas que defendiam posições extremadas. Não foi preciso fazer-me de ignorante porque, na realidade, desconhecia estas particularidades - para além das notícias que lera - que há meses acompanhavam os leilões do espólio de Pessoa. Bastava ir lançando umas achas para a fogueira da discussão estabelecida entre os dois homens para ficar a saber de tudo, entendi. Assim sendo, apenas perguntei quem é que estava a portar-se corretamente para entender o que estava em causa. O primeiro homem alegou que a atitude da família mudara muito nos últimos tempos e o segundo perguntou imediatamente, com um "querias que continuassem a dar a todos os arrivistas a hipótese de lucrar com o que é deles?" Aí, foi a vez de o primeiro voltar a defender o seu ponto de vista: "Vejo que já sabes da carta dos sobrinhos!" Perante o meu olhar de desentendido, ambos explicaram que andava por aí a circular uma carta onde a família se defendia dessas acusações. De um momento para o outro, o segundo retirou do bolso do casaco uma folha com uma fotocópia da tal carta, intitulada "Esclarecimento sobre as calúnias à família Fernando Pessoa", onde se escrevia que havia vários investigadores pessoanos - os tais "arrivistas" - que os acusavam de não ter vendido em finais de 1988 todo o espólio à Câmara e que o contrato fora apenas para, confirmava a família na carta, "dois lotes de livros que o poeta deixara em duas estantes" e que diziam respeito a, leu cuidadosamente, "uma estante com livros encadernados (327) e outra com 777 livros." Ou seja, invocou o primeiro homem lendo a referida carta, a família "vendeu o que foi objeto de um contrato e não tudo o que, na altura, os sobrinhos do poeta pudessem possuir relativo ao tio."

Perante toda esta confusão entre bens e direitos, perante a qual nem os dois especialistas em espólio de Pessoa se conseguiam entender, coloquei a questão de porquê continuar a família a leiloar os bens no país em vez de o fazer no estrangeiro? Se eu soubesse o debate que iria provocar logo em seguida, teria ficado calado! O segundo homem barafustou e disse que os descendentes sempre foram claros nas suas intenções e que poderiam tê-lo feito porque não havia legislação que o impedisse; ao que o primeiro homem lembrou a venda em leilão na Inglaterra das cartas do poeta para a sua amada Ofélia ainda há poucos anos.

Só pensei no que aconteceria se soubessem com quem estavam a falar, o testa de ferro para os planos de Sena no que respeita a duas das peças mais importantes em leilão... Deixei-os a debater a imbricada questão do espólio de Pessoa e voltei ao Observatório Astronómico. Questionei-me sobre se deveria relatar a Sena a polémica entre os dois homens, mas decidi que era melhor ficar calado.

O que se passou na noite do leilão foi uma verdadeira comédia, como se o salão onde ia decorrer o evento se transformasse num palco e os funcionários fossem as personagens de uma peça teatral. Tudo começou minutos antes da hora marcada para o início, quando um representante camarário exibiu a anunciada providência cautelar sobre vinte e cinco do total dos lotes. Em seguida, com o leilão em risco de não se realizar, uma segunda decisão judicial retirou poder à primeira e a sessão começou. Com medo do que poderia acontecer, ninguém licitou a contracapa do livro que a autarquia reclamava como sua, nem contrariaram o representante da Câmara ao exercer o direito de opção sobre o contrato de arrendamento da casa onde o poeta vivera, na Rua Coelho da Rocha. No final, o responsável da empresa fizera um escândalo e acusara o Estado de estar a influenciar o mercado devido à ingerência e de lhe causar prejuízos avultados, bem como aos herdeiros, por provocar receio nos compradores através de notícias publicadas na comunicação social.

A situação era tão complexa que eu fiquei sem saber se iria poder licitar as peças que Sena pretendia? Só após receber uma mensagem telefónica sua é que confirmei que a minha hesitação tinha razão de ser, pois havia uma mudança de planos. Eu já não faria as duas compras, apenas iria participar no leilão que envolvia a arca de Fernando Pessoa, o objeto mais mítico que se encontrava entre todos os que ali estavam. Quanto à segunda licitação, o tal dossier que continha a troca de correspondência entre o poeta e a Besta, Sena disse-me que seria tratado de outra forma - mas não avançou qual.

Quando chegou o momento de ser licitada a arca senti suores frios por todo o corpo porque, para além de ser a minha primeira vez a atuar num leilão, era incapaz de desviar o meu olhar de dezenas de pares de olhos que na fase final observavam a concorrência entre os meus lances e os de outro interessado no móvel. A parada ia subindo entre ambos e os olhares aumentavam de intensidade, até que se focaram todos em mim, o último a rematar com um valor mais alto. Mesmo nervoso, já tinha entendido que o meu adversário estava a fraquejar cada vez que eu adiantava novo valor e, rapidamente, percebi que Sena iria ser o feliz proprietário da arca. O pior foi quando se ouviu a pancada final do martelo do leiloeiro e ele apontou para mim, dizendo: "A arca de Fernando Pessoa vai para aquele senhor", momento em que os jornalistas me rodearam para saber qual era a razão em adquirir o móvel e quem eu era? Não podendo dizer a verdade, inventei uma desculpa e balbuciei que não me queria identificar, apenas revelava que era do Norte e que ia oferecer a peça ao meu pai, que era um grande colecionador de objetos de Pessoa.

Quanto ao dossier, só ao reencontrar-me com Sena é que soube o que acontecera a este bem que ele tanto queria adquirir. Sena fizera os seus lances por telefone mas, a dado momento, fora informado de que a Biblioteca Nacional estava interessado no lote de documentos e que teria prioridade na aquisição.

- Não é um problema, tenho amigos na Biblioteca que em breve me darão cópia de todo o conteúdo!

Sena já estava a dormir quando cheguei e, como não o quis acordar para satisfazer a minha curiosidade, só ao pequeno-almoço é que fiquei a saber o que acontecera com o dossier. Como no leilão se dissera que tinha sido arrematado por telefone, e ido para um comprador que não se queria identificar, achei que teria sido ele.

- A operação correu bem.

Foi assim que fechou a conversa, informando que estava na hora de voltarmos ao Freixo, onde havia muito trabalho para fazer.

- Informe-se sobre se pode levantar a arca ainda esta tarde, porque eu terei mesmo que partir antes do anoitecer e gostava de a levar comigo.

A resposta, no entanto, foi negativa. Só ao fim de uma semana é que a poderia receber, disseram da leiloeira, alertando-me para o facto de poder haver alguma reviravolta nas aquisições porque a Câmara criara uma situação que ainda não estava completamente esclarecida. Ao transmitir a resposta a Sena, vi a sua testa franzir-se como até esse momento nunca observara.

- Bem, esperemos que tudo corra bem. Vai ficar aqui à espera que essas complicações se esclareçam e, logo que saiba o dia e a hora em que pode ir buscar a arca, avise-me.

Avisá-lo era comunicar ao porteiro do Observatório Astronómico, que se encarregaria de me dizer como se efetuaria o regresso ao Freixo. Acenei que sim e despedimo-nos. Sena voltava à terra e eu ao quarto, onde queria sossegar por umas horas e acalmar os nervos que ainda estavam em franja após tanta excitação, a par do medo de não estar à altura da Operação Arca estabelecida pelo meu anfitrião.

O regresso ao Freixo não foi tão simples como eu imaginaria e, tal como no leilão, também aqui me vi envolvido numa espécie de comédia teatral. É que após ler as notícias sobre o leilão, Sena ficara muito receoso sobre se a entrega da arca seria ao comprador ou se esta ainda poderia ser requisitada pelo Estado. Reparava também que o porteiro me observava de soslaio, num olhar continuado e sempre sem deixar de me prestar atenção. Cada passo que dava fora do espaço do quarto era controlado e se queria passear fora do recinto, ele aparecia logo para se informar da razão e do destino da saída. Mas ainda faltava uma semana para levantar o móvel e Sena desobrigara-me de qualquer responsabilidade que não fosse a de recuperar a arca logo que o pudesse fazer. Deixei passar três dias e, a partir daí, insistia diariamente com a leiloeira para saber quando é que poderia ir buscar o móvel que guardara o espólio de Pessoa durante várias décadas.

Entretanto, decidi ir conhecer as marcas de Fernando Pessoa que existiam na cidade onde vivera a maior parte da vida e na qual morrera de cirrose. Tinha comprado um guia que indicava esses lugares na cidade por onde a pessoa do poeta andara. Eram muitos, os suficientes para me ocupar os dias em falta. Comecei pela casa onde nascera, no Largo de S. Carlos, N.º 4, 4.º andar esquerdo. Em seguida, visitei no Chiado a Igreja dos Mártires, onde fora batizado a 21 de Julho de 1888. Fiz uma boa caminhada até à casa para onde a mãe se mudara após a morte do marido, em 1893, na Rua de S. Marçal, N.º 104, 3.º andar. E ao 3.º andar esquerdo da Avenida D. Carlos I, no qual morara algum tempo, entre as estadas na África do Sul e o 2.º andar esquerdo do prédio n.º 98 da Rua de S. Bento, aonde Pessoa ficou a viver com a sua tia em 1905, após regressar de Durban definitivamente. Daqui, subi até à Calçada da Estrela, n.º 100, para ver o primeiro andar onde voltara a reunir-se com a família e o padrasto, em 1906. Logo a seguir, percorri a cidade até a um outro primeiro andar, o do n.º 17 da Rua da Bela Vista à Lapa, para onde fora morar com as tias-avós da mãe, no ano seguinte. O Largo do Carmo, no qual ficava o quarto que alugara no 1.º andar esquerdo do número 18 foi o próximo destino. Ainda tive força para caminhar até à Rua Coelho da Rocha, onde no número 16, ficava o primeiro andar direito que lhe servira de morada nos últimos quinze anos de vida. Quando cheguei ao fim deste roteiro, estava suficientemente cansado para não calcorrear mais a cidade em busca dos lugares relacionados com o poeta nas suas primeiras décadas de vida.

Pensei continuar o passeio no dia seguinte tal era a curiosidade que ainda me dominava, só que desta vez para realizar o percurso das empresas onde trabalhara. Não foi isso que veio a acontecer, pois a curiosidade - de novo ela! - fez-me entrar no prédio da Rua Coelho da Rocha, aonde agora existia a Casa com o nome do poeta. A porta estava aberta e a primeira coisa em que reparei foi a sua carta astrológica pintada no chão da entrada, bem como numa escada em mármore que ligava a uma outra em madeira, que permitia o acesso aos pisos superiores. À esquerda existia um salão que decidi não o visitar de imediato, antes subiria diretamente ao primeiro andar, local onde se encontrava a reprodução do último quarto onde o poeta vivera. Antes de entrar, li algumas informações para os visitantes. Como esta: "A Casa Fernando Pessoa possui um tesouro único no mundo: a biblioteca particular desta figura maior da literatura. É muito raro conseguir-se encontrar a biblioteca inteira de um escritor com a dimensão universal de Pessoa. Os livros tendem a mover-se muito depressa: emprestam-se, perdem-se, vendem-se. Pessoa também vendeu alguns - mas deixou-nos 1142 volumes, de todos os géneros e em vários idiomas, densamente anotados e manuscritos."

Mas o que mais me surpreendeu foi o que estava escrito numa outra informação dada ao visitante sobre o quarto do poeta: "Encontra-se reconstituído tal como era em vida do poeta, com alguns móveis que lhe pertenceram e que o acompanharam ao longo de uma vida de mudanças de habitação - dezasseis no total. Neste quarto encontra-se a cómoda onde Fernando Pessoa terá escrito, na noite de 8 de Março de 1914, três dos seus poemas maiores: O Guardador de Rebanhos, de Alberto Caeiro; A Chuva Oblíqua, de Fernando Pessoa, e a Ode Triunfal, de Álvaro de Campos. Encontra-se ainda a máquina de escrever que pertenceu a um dos escritórios onde Pessoa trabalhou como tradutor. Foi nela que Fernando Pessoa escreveu grande parte dos poemas do seu heterónimo Álvaro de Campos." Num rápido olhar, procurei entre esses móveis se estava a arca que eu arrematara no leilão!...

Por momentos assustei-me. O que faria ali a arca por que Sena esperava no Freixo e pela qual eu aguardava autorização de levantar na leiloeira? Sem hesitar, desci à recepção e questionei o funcionário sobre o móvel. Se era o verdadeiro? A resposta fez-me parar o suor frio que já cobria todo o meu corpo: era uma réplica. Explicou que não sendo possível adquirir a arca original, a Casa tinha pedido a um marceneiro para fazer uma igual em tudo para poder estar ali exposta. Tentei parecer mais calmo do que deveria estar no momento em que fizera a pergunta e peguei nuns folhetos sobre a instituição para completar o disfarce.

O funcionário ainda me deu outras informações, designadamente sobre a biblioteca que se encontrava no quarto de Pessoa. Como ainda estavam frescas as notícias pela disputa da arca, comentou que se perdera a esperança de ter o móvel original após o último leilão. Explicou que alguém o comprara porque a Casa não tinha orçamento para cobrir o lance e que o Estado fizera orelhas moucas a uma obrigação que lhe era devida. Não dei seguimento à conversa porque não me sentia à-vontade para o fazer, afinal fora eu a protagonizar aquela traição, ao adquirir a pedido de Sena um património que deveria ter vindo para este prédio em vez de estar para lhe ser entregue. Interrompi bruscamente a conversa e voltei a subir as escadas que levavam ao quarto de Pessoa. Designadamente, observei atentamente a arca de todos os ângulos possíveis e imaginei-me a regressar ao Freixo de posse dela. Desejava ardentemente terminar esta missão e aguardar pacificamente pelo fim dos dias que faltavam para terminar o contrato estabelecido com o meu anfitrião.

O quarto era amplo e, para além da biblioteca, continha os móveis referidos no texto que lera há pouco, como era o caso da cómoda onde o poeta escrevera aqueles três magníficos poemas. Olhei para a cama e imaginei como seria interessante deitar-me nela e tentar sentir uma parte dos pensamentos e sensações que o poeta ali tivera e sentira. Estava só naquele piso e não ouvia passos por perto, situação que me levou a pensar fazer essa coisa proibida: deitar-me naquela cama. Inspecionei as divisões próximas e confirmei que continuava sozinho. Regressei ao quarto e iniciei os passos para executar o meu desejo, sem pensar no que me poderia acontecer se fosse apanhado deitado sobre o colchão que acomodara Pessoa.

O colchão não era mole como eu imaginava, talvez porque estivesse demasiado velho e com as molas perras ou as penas gastas. Passada essa primeira impressão, ignorando a situação de perigo em que me pusera, comecei a divagar. Primeiro, recordei um parágrafo de um conto que a Besta escrevera, porque a ação decorria também numa cama. Era assim: "Edgar Rolles sentou-se enrolado à maneira hindu em cima da cama. A lamparina sagrada ainda assobiava. Ida estava deitada ao seu lado, com os braços esticados e dando ao corpo a forma de um crucifixo. Ela mal respirava; não havia qualquer cor no seu rosto. Dir-se-ia o cadáver de uma virgem martirizada. Sobre o corpo branco, a sua própria pureza pairava como um véu." Em seguida, imaginei as vezes em o poeta pensara na sua namorada Ofélia e como teria sido a sensação de estar apaixonado sob aquele teto. Um amor que tinha existido durante dois terços da sua vivência naquele quarto, apesar de ter sido dividido entre um pequeno namoro em 1920 e outro nove anos depois. O que representaria esta mulher para o poeta? Seria um corpo branco como o da Ida que a Besta descrevia no conto e também sem cores no rosto? No conto, seguia-se uma parte em que Rolles delirava. Será que o poeta também delirara por Ofélia, ou só lhe interessara a poesia? O que representara o amor para ele? Parecia-me que Ofélia valia muito menos do que o interesse pelo esoterismo, pelo desígnio nacional do V Império e por uns copos de vinho que emborcava, como mostrava uma fotografia tirada numa tasca fina, que enviara à namorada dizendo que tinha sido apanhado em "flagrante delitro"! O que sentira ela ao ser trocada por um tinto numa fotografia em vez de um momento em que a imagem retratasse os dois num passeio romântico por um jardim? Esse seria, sem dúvida, o presente de que teria gostado e guardado como prova de um amor que o poeta jamais lhe proporcionara.

Estava nestes devaneios quando uma mão me abanou e me sobressaltou. Era a mão de uma criança que passeava pela Casa, adiantado aos seus pais que ainda observavam atentamente a divisão anterior ao quarto do poeta onde eu me encontrava em situação proibida. Quis sorrir-lhe para não a assustar, mas não tive a presença de espírito suficiente para o fazer, levantando-me de um pulo só para não ser apanhado pelos adultos que já ouvia aproximarem-se. Pus o dedo em frente à boca, pedindo à criança segredo sobre o que vira, e disfarcei o melhor que pude a minha presença. Dirigi-me até à biblioteca e fiz que olhava para os livros, ocupando o tempo até que o casal de curiosos se fosse embora. Decerto que a criança iria contar aos pais a situação em que me apanhara, mas isso de pouco me importava agora que estava a pensar um plano mais obscuro e ilegal do que o aquele que empreendera nos últimos minutos. Até que ponto eu conseguiria esconder-me na Casa e passar a noite deitado na cama do poeta?

Se bem o pensara, melhor o executei. Olhei para o relógio e vi que se aproximava a hora do fecho da Casa. Se me escondesse em algum lugar que permitisse passar despercebido, talvez conseguisse realizar o meu projeto. Explorei o espaço mais próximo, pois não queria fazer-me notado se descesse até ao piso da entrada, e descobri uma dependência para arrumos que me poderia servir de esconderijo. Quem é que iria vistoriar aquele espaço? Ninguém, convenci-me a mim próprio, enquanto me esgueirava para o seu interior e fechava a porta. Acalmei o bater do coração sentando-me num banco que ali existia e deixei de ouvir qualquer ruído por parte de quem trabalhava no edifício. Uma hora depois, marcada pelo relógio, achei que já deveria ter passado o tempo suficiente para que todos se tivessem ido embora. A minha única dúvida é se existiria algum funcionário destacado para vigiar a Casa durante a noite? O melhor a fazer seria testar alguma outra presença e, se fosse apanhado, arranjaria uma desculpa que evitasse problemas maiores. Olhei à minha volta e vi que estava sobre uma estante um pesado catálogo. Peguei nele e deixei-o cair ao chão com algum estrondo. Aguardei pelos passos em minha direção mas não ouvi nada. Ou seja, estava mesmo só na Casa do Fernando Pessoa. Voltei ao quarto e reparei que a marca do meu corpo ainda estava bem visível sobre a colcha que cobria a cama. Esta era uma pista que não deveria deixar na manhã seguinte, evitando a todo o custo deixar provas da minha noite passada em casa de outros.

Apesar da escuridão da noite que ia caindo sobre a cidade, conseguia ver de forma clara o interior da Casa. Procurei descobrir de onde vinha essa luz e notei que era através das portadas de uma janela que estavam abertas. Teria de ter cuidado para não ser visto por algum vizinho! Mas, mesmo sendo cedo para me preocupar, o que mais me perturbava era a forma como eu iria sair da Casa na manhã seguinte. Essa era ainda uma estratégia a ponderar e para a qual, decerto, encontraria uma solução. Quanto mais não fosse, abandonaria a Casa ostensivamente e punha-me a correr pela Rua Coelho da Rocha, com a velocidade suficiente para não ser apanhado. Essa seria uma preocupação posterior e agora o que deveria fazer era aproveitar a noite no quarto e na cama do poeta, antes de o cansaço provocado pelo passeio na cidade em busca das suas várias moradas me vergar.

Comecei por analisar os livros existentes na biblioteca particular de Pessoa, tendo acabado por adormecer entretido na consulta de um volume que não tinha sido comprado pelo poeta. Tratava-se de um ensaio de um tal Severino sobre a vida do jovem Pessoa na África do Sul, onde se escreviam coisas inesperadas. Antes de adormecer, pensei na coincidência de o poeta ter vivido quase sempre em primeiros andares e do lado esquerdo... Não foi uma noite que ficasse para a história, tal foi a velocidade a que adormeci e o sono pesado me manteve colado à cama do poeta durante essas horas. A única coisa de que me lembro foi de ter pensado num pequeno trocadilho sobre o seu poema O Guardador de Rebanhos: será que o tinha escrito numa noite em que não conseguia adormecer em vez de ficar a contar carneiros?

A noite passou rápida e de manhã houve que sair em passo rápido. Atravessei-me à frente do primeiro funcionário que chegou à Casa do poeta e fugi em direção às ruas mais esconsas do bairro, perante o seu olhar de pânico. A fuga pela Rua Coelho da Rocha devolveu-me à cidade, mesmo que não soubesse bem em que direção caminhava. Apenas tentava escapar dali o mais depressa possível para evitar ser interrogado pelo funcionário estupefacto, que ainda tentou prender-me pelo braço mas não o conseguiu devido à rapidez com que me esquivei. À minha frente estava um emaranhado de ruas desconhecidas e a única solução foi correr sempre por aquelas que desciam, sabendo que assim iria dar à parte mais antiga da cidade, onde seria mais um entre os turistas que por aí passeavam. Devo ter corrido durante mais de meia hora e andado num passo muito apressado na meia hora seguinte, altura em que achei que teria despistado qualquer um que me perseguisse. Atravessei ainda as ruas próximas sempre em passo acelerado, até que a inclinação da própria rua me fez diminuir a corrida e iniciar aquilo a que poderia chamar de passear. Após mais uma rua que descia, voltei à esquerda e dei comigo em frente à Brasileira, o café onde o poeta se sentou a escrever durante uma época da sua vida. Esta era a velha Brazileira do Chiado e não a outra, a do Rossio, onde também se sentara para escrever, como referira em cartas ao seu amigo poeta Mário de Sá-Carneiro.

Sentei-me um pouco no café, a observar cuidadosamente as pessoas que circulavam, sempre preocupado se o funcionário da Casa seria um deles. Poderia ter-me seguido e estar à espera de um passo em falso para me apanhar! Estive atento por vários minutos até que a sucessão de turistas que se sentavam para tirar fotografias na cadeira que fazia parte da estátua em homenagem ao poeta me distraiu de uma hipotética perseguição. Era curioso observar o corrupio de estrangeiros que faziam questão de levar uma recordação de Pessoa e do velho café que ele frequentara em tempos. Era graças a esta concorrida sessão de fotografias que a estátua se mantinha limpa, como se as roupas de gente vinda de todo o mundo servissem para polir o cobre de que era feito a imagem do poeta. Enquanto pensava nesta particularidade de autoconservação do monumento, pedi uma bica para confirmar se ainda teria o sabor que tornara o estabelecimento famoso no princípio do século XX, e reparei na ementa pousada sobre a mesa. Onde havia uma foto antiga que mostrava a vitrina do estabelecimento e, nela, um cartaz a referir que servia o "genuíno café do Brazil" e também outros produtos tropicais, como a goiabada, a farinha de tapioca e temperos menos conhecidos.

Arca e manuscritos de Pessoa para formar heterónimo Vicente Guedes

O Observatório Astronómico parecia aguardar pela minha chegada, tal era o movimento que aí se verificava. Uma estranha concentração de meia-dúzia de carros ocupava a praça em frente ao edifício e vários homens estavam encostados aos veículos, como que a aguardar por uma ordem. Afinal, esperavam-me mesmo. Eles e o porteiro enervado que, mal me viu, correu na minha direção para informar que a arca já estava à minha disposição. Quanto aos homens ali reunidos, explicou-me, eram os ocupantes dos carros que iriam acompanhar-me até à leiloeira e que, após a recolha do móvel, seriam responsáveis pelo meu regresso ao Freixo em segurança. Achei que era gente a mais, que ainda por cima davam nas vistas, mas nada disse. Sabia que o porteiro obedecia a ordens de Sena e não valeria a pena questionar os procedimentos. Assim sendo, reuni os meus pertences num instante e pouco depois partia com os membros do grupo que me iria escoltar no regresso até à casa de Sena. Ainda tentei conversar com o trio que me conduziu até à leiloeira, mas nenhum deles deu qualquer resposta às minhas tentativas de diálogo. Imitei-lhes o silêncio e fui espreitando a paisagem citadina enquanto ela ainda existia.

A entrega do móvel foi rápida e em poucos minutos estávamos de volta à cidade, que atravessámos de um lado ao outro até entrarmos na autoestrada em direção ao interior do país. Considerei o trajeto estranho porque não era o mais direto e, mais uma vez, perguntei-lhes o que se passava. De novo se mantiveram em silêncio e assim seguimos durante um par de horas, até que reparei que já estávamos a ser acompanhados pelos outros carros que antes me aguardavam à porta do Observatório Astronómico. Então, aquele que parecia ser o chefe entregou-me um envelope, igual aos que Sena enviava as suas instruções. Era de poucas frases, somente informava que devido ao perigo que a arca corria, eu seria acompanhado por este grupo de pessoas de sua confiança até ao Freixo. A terminar o bilhete, informava-me de que deveria seguir todas as ordens que me fossem dadas porque eram suas. Despedia-se com cumprimentos e nem mais uma palavra.

O que descobri nas horas seguintes era digno de um argumento de um filme, de tão irreal e impensável. Sena decidira que eu regressaria com a arca fazendo parte de uma caravana de ciganos. Só então entendi porque é que também me pedia na carta para não fazer a barba! A intenção, penso, era dificultar a localização do móvel por parte de eventuais ladrões interessados nele. Mas, pensei, também não era poderia ser só o receio perante um vulgar assaltante que me escolhesse como alvo da sua atividade, temeria sim que houvesse outros interessados na arca e que se tentassem apoderar dela. Ou até, creio que esta era a justificação mais razoável, que o inimigo pertencesse a alguma das sociedades secretas ligadas à Besta e que desejasse arrebatar a arca por alguma razão que desconheço. Então, desconfiado de situações que na sua cabeça seriam muito fáceis de vir a acontecer, Sena decidiu encobrir o transporte sob a capa de uma caravana de ciganos em mudança de acampamento. Já não estranhava o que me acontecia e, assim sendo, limitei-me a cumprir as instruções que estavam dentro do envelope.

O segundo grupo de ciganos esperava-nos mais à frente, onde o desmontar do acampamento onde estavam a viver se aproximava do fim. Em menos de meia hora, já a caravana estava em movimento em direção às bandas do Freixo. Se me perguntassem como é que imaginava que fosse o grupo, diria aquilo que é apropriado aos mitos e visões mais habituais sobre esta etnia, mas bastou-me esses minutos de azáfama no desmontar do acampamento para ver que estes ciganos tinham particularidades bem diferentes das descrições habituais sobre o povo nómada. Que me foram explicadas por um elemento que também pouco tinha a ver com a caravana, ou seja, um investigador que andava a estudar a população cigana para escrever uma tese de doutoramento.

Ao princípio não notei diferenças físicas ou de vestuário entre o acompanhante e os membros daquela comunidade. Nem mesmo quando ele veio falar comigo fui capaz de ver qualquer diferença! Só lá para o terceiro dia de caminhada é que ele se apresentou e revelou o que fazia. Não me surpreendeu o facto de haver um professor entre ciganos pois, já o disse, cada vez estranhava menos o ambiente com que me confrontava desde que estava a mando do meu anfitrião. Aliás, ao saber que regressaria numa caravana de nómadas, pensara-me integrado num cordão de carroças puxadas por cavalos e burros, com alguns animais domésticos presos aos veículos por cordas, mas não fora nada disto que acontecera. Estes ciganos eram motorizados e já tinham deixado o tempo das carruagens há bastante, faziam-se transportar em carros e carrinhas, mesmo que atafulhados de mercadorias para comercializar e de outros pertences próprios da vida de quem anda sempre a mudar de habitação.

Adolfo, era como se chamava o investigador, tinha reparado em mim logo ao início e sentira-se tentado a saber quem seria o novo passageiro, até porque era pouco frequente o grupo levar alguém consigo que não fizesse parte da comunidade. Confessou-me que não o fizera logo porque pressentira que, ao satisfazer essa sua curiosidade, iria desgostar os ciganos que o tinham recebido um pouco contrariados. Fora bem difícil conquistar-lhes o à-vontade com que agora convivia com todos e que lhe permitia realizar os estudos necessários para o trabalho universitário que tinha em curso, a observação de comportamentos e de recolha de tradições. Adolfo era falador e ao fim de poucas horas já me tinha transmitido muito do seu saber sociológico sobre a escolta que se comprometera a entregar a arca - e a mim - a Sena. Fez as suas explicações de uma forma muito diferente do que quando falava sobre coisas extracurriculares, momento em que não adotava a personalidade de professor.

Já conversáramos sobre o seu projeto de estudos o suficiente para eu adivinhar que, se lhe contasse a minha aventura desde que estava contratado por Sena, ele ficaria seduzido pela ideia de investigar cientificamente uma comunidade como a do Freixo. Onde nada acontecia também às claras, como se verificava com esta dos ciganos que me conduziam há vários dias por locais inóspitos e desertos. É que a terra do meu anfitrião ficava a poucas horas da capital e não a tantos dias como os que já contava esta viagem. Havia algo de estranho no percurso, até porque o país não tinha dimensão física para este tempo de caminhada em carros. Ninguém parecia achar esta demora estranha, nem o próprio investigador, e também ninguém era capaz de me dar uma explicação sobre uma distância impossível de existir. Por vezes pensei que teríamos saído do país e atravessávamos parte do continente europeu, mas o meu conhecimento geográfico e paisagístico mostrava que isso era quase impossível. Havia sim um número inusitado de subidas e de descidas para a quantidade de montanhas que separavam a capital e a aldeia, tantas que a dado momento até essa questão deixou de me incomodar por ser incompreensível. Sabia que eles não falhariam o compromisso com Sena, portanto estaria no bom caminho, fosse ele qual fosse.

De qualquer modo, para que não pudesse ser culpado de algum desleixo, todos os dias e por várias vezes verificava se a arca ainda fazia parte da carga da caravana. O cigano que parecia ser o chefe estranhava esta minha obstinação diária, mas jamais me contrariou, talvez por achar que eu tivesse muito mais importância junto da hierarquia que dependia de Sena do que na verdade possuía. A arca lá estava, escondida debaixo de uns tapetes persas, só que com um pouco mais empoeirada do que quando me fora entregue pela leiloeira.

Entre os factos estudados pelo investigador estavam temas sobre os quais eu nunca pensaria ter interesse mas, confrontado com certos hábitos da minha escolta, até passei a achá-los curiosos. Tal como o de não ser fácil identificar a comunidade cigana no nosso país porque provinham de muitas origens geográficas, uma situação que criava um problema de diferenciação social que gerava bastantes conflitos. Depois disse-me que o número da população que vivia na Europa era pequeno, apenas 150 mil ciganos, e que tinham vindo para a Península Ibérica no século XIV e que era a comunidade que partilhava o território há mais tempo com os seus habitantes naturais. Ia-me contando estas particularidades enquanto sentados no banco de trás da carrinha que nos transportava, em tom de voz baixo e para não ser ouvido pelos ciganos que iam no da frente. Ainda lhe perguntei a razão de demorarmos tanto tempo a chegar ao destino, mas foi uma questão a que não me soube responder. Apenas confirmou o que eu já compreendera: o tempo passado entre os ciganos arrastava-se para além do imaginável.

Não foi sem surpresa que, ao fim de mais uns dias, reconheci a única rua da povoação onde Sena morava e que desentorpeci as pernas ao subir as escadas para anunciar a chegada ao meu anfitrião. Quem nos recebeu foi a jovem, já que Sena e a outra mulher estavam ausentes. Ela tinha um novo envelope com instruções, que eu li. O seu conteúdo não referia nada em especial, apenas que deveria acompanhar detalhadamente o depósito da arca numa divisão da casa que a empregada indicaria, e agradecer ao responsável da caravana o favor que fizera a Sena. Assim fiz, assistindo ao transporte do móvel; fechando a porta da salinha onde ficara; acompanhando os ciganos de volta à carrinha; despedindo-me deles com a mensagem que Sena mandara dar; e abraçado o investigador, que continuaria a viagem interminável exigida pelos seus estudos. Não posso dizer que o Freixo estava diferente. Nada existia de palpável para eu chegar a esta conclusão, mas não tinha dúvida de que assim era.

A chegada de Sena apanhou-me no quarto com a jovem ao meu dispor. Depois daquele primeiro fim de tarde, amá-la em sessões contínuas fora a minha ocupação. Quando refiro o verbo amar, não estou a utilizá-lo no verdadeiro sentido, apenas a tentar dar um sentido mais romântico à atividade que me ocupara durante os dias de folga entre o regresso ao Freixo e a chegada do meu anfitrião. Amor era uma definição impossível entre nós, quanto mais não seja porque a jovem oferecia-se em corpo mas jamais de forma emocional. Imitava bem, confirmo, o sentimento de estar apaixonada pelo modo como se entregava às práticas físicas. Sussurrava, esgatanhava, contorcia-se e cansava-se entre as paredes do quarto mas, para lá da porta, a jovem adquiria outra personalidade. Se tivesse de a descrever, era como se se transformasse numa sacerdotisa de comportamentos imaculados!

Nenhuma das suas formas de ser me espantava, afinal os meses que levava como empregado de Sena mostravam-me que à sua volta o mundo era bastante diferente do do exterior - o meu. Mesmo sendo tão díspares os dois mundos, cada vez me sentia menos desenraizado neste modo de vida, tanto que se o meu anfitrião me convidasse a iniciar uma nova etapa da minha vida no Freixo talvez me sentisse tentado a dizer que sim. Viver parecia muito mais fácil quando se estava na dependência dele, com os cheques a serem depositados na minha conta, um emprego de trabalho fácil, viagens, cama e mesa. O que mais poderia querer um professor?

Mas o facto é que a chegada de Sena obrigou-me a um despertar violento, que exigiu rapidez e boa compostura em segundos. Fora o próprio que pusera à disposição o corpo da jovem, mas eu sabia que ele não desejava ser confrontado com essa oferta carnal com que me seduzira e amaciara para estar à sua disposição por inteiro.

- Vamos ver a arca!

Esta foi a ordem que proferiu mal me apresentei à sua frente. Decerto que Sena desejava ser recompensado pelo esforço que fizera para adquirir aquela peça do legado do poeta observando-a o mais rapidamente possível. Assim aconteceu mal abriu a porta da divisão onde os ciganos a tinham descarregado. Bem no centro da salinha, lá estava a arca, aguardando pelo toque das mãos de Sena que se seguiu mal entrou na divisão. Ajoelhou-se em frente ao móvel e sentiu a dureza da madeira que tinha sido trabalhada há muitas décadas por um carpinteiro habilidoso. Deslizou as mãos sobre os cantos, arrepiou-se com o frio da fechadura e das dobradiças e apalpou toda a madeira da arca até se decidir abri-la. Enquanto se divertia a tocar na sua aquisição, eu imaginava qual teria sido o prazer de quem um dia a abrira e se surpreendera com a descoberta de um tesouro de papéis com versos e prosa, que iriam fazer famoso o nome de Pessoa. Infelizmente, Sena não teria a sorte de, mediante a fórmula mágica de um abracadabra, fazer com que a arca se enchesse de páginas. Nem toda a influência e riqueza de um homem permitiria recriar um momento como teria sido o da vez anterior, mesmo que fosse esse o seu último desejo na vida. Disso estava eu certo quando chegou o momento solene de destapar aquele meio metro cúbico de vazio.

Fiquei confuso com o que se seguiu... Sabia da capacidade de Sena para baralhar a realidade, mas jamais acreditei que fosse brilhante o suficiente para possuir a ilusão que mais desejava. Eu ouvira e lera a decisão sobre o destino do lote que continha o dossier com a relação entre o poeta e a Besta; sabia que tinha sido adquirido pela Biblioteca Nacional ao fazer prevalecer o seu direito de propriedade sobre esta parte do legado; e entendera o desgosto que essa disputa perdida lhe causara... Por isso, agora dificilmente acreditaria que ao ajoelhar-se em frente à arca, acontecesse o milagre que os meus olhos viram: Sena estava de posse do dossier que lhe fora proibido comprar no leilão.

Com a determinação dos primeiros dias de trabalho, Sena só me disse:

- A Besta! Voltemos à Besta.

Recordava-me destas palavras como se tivessem sido pronunciadas há minutos e não há vários meses. O meu anfitrião recuperara o entusiasmo dos seus primeiros ditados e seguia à minha frente, com o dossier entre as mãos, e em passo rápido. Foram dias de muita escrita. Sena chamava-me sempre pela tarde e, ao fim de alguns dias, entendi que reservava a manhã para ler os documentos do dossier. Como já tinha preparado o trabalho, ditava com mais rapidez do que era habitual e focava o seu interesse na correspondência trocada entre Pessoa e a Besta. Foi assim que fiquei a saber que antes de este contactar o poeta teria mantido conversas com um outro escritor, Raul Leal, também seu conhecido. Pelo que entendi, a Besta depressa percebeu que Pessoa seria muito mais crente nos temas do ocultismo e, portanto, mais fácil de iludir. O facto de Pessoa ter descoberto o erro no horóscopo de a Besta ter-lhe-ia mostrado que se uniam no poeta a crendice e o desejo de protagonismo numa circunstância que lhe seria favorável. E, mesmo que o poeta tenha evitado as primeiras tentativas de a Besta para marcar um encontro pessoal, até com a sugestão de se deslocar a Londres, depressa compreendeu que lhe seria impossível evitar conhecerem-se.

Não tendo acontecido a viagem à capital inglesa, um telegrama informou-o de que a Besta chegaria ao cais de Alcântara a 2 de Setembro, o que se verificou; acompanhado da sua jovem amante de 19 anos; que muito impressionou o poeta e o fez escrever quatro quadras profundamente eróticas, em que referia: "Seu corpo meio maduro", no quarto verso, e, nos que se seguiam, "Seus seios altos / (Se ella estivesse deitada) / Dois montinhos que amanhecem / Sem ter que haver madrugada", para terminar de um modo um pouco desbocado: "Appetece como um barco / Tem qualquer coisa de gnomo / Desejo, quando é que eu embarco? / Ó fome, quando é que eu como?"; o fez servir de criado à Besta, indo buscar correspondência para o casal e fazendo de relações públicas para com os interesses de a Besta; lhe permitiu saber da natureza muito sexual dos relacionamentos com mulheres de qualquer idade do seu visitante; o obrigou a ser detetive para observar os passos de a Besta pela sua terra... Até que um dia, este desapareceu na Boca do Inferno, deixando um bilhete dado a muitas leituras e especulações ao fingirem um suicídio, para reaparecer dias depois em Berlim.

Não estava preparado para digerir tantas informações como as que Sena me ditava, mesmo que algumas parecessem esclarecer partes dos apontamentos dos primeiros tempos. A novidade estava nos pormenores da correspondência entre Pessoa e a Besta a propósito da preparação do alegado suicídio do mago e na confirmação - por via de cartas e telegramas trocados entre ambos - de que houvera uma simulação no ato desesperado do estrangeiro. Outra novidade era o provável livro que o poeta queria escrever baseado no suicídio e na investigação posterior conduzida pela polícia, sobre o que ainda redigiu algum texto a coberto da pretensa autoria de um detetive britânico que nunca terá existido e com o único objetivo de ganhar umas centenas de libras com a sua publicação.

Sena não opinava, apenas ditava, mas a minha curiosidade residia nas razões que levaram o poeta a pactuar com esta encenação na Boca do Inferno que, ainda por cima, fora coisa bastante noticiada nos jornais portugueses, franceses e ingleses de então. Demasiado curioso, decidi questionar Sena sobre essas razões. Ele, apesar de surpreendido com a minha interrupção, respondeu que Pessoa era muito dado a mistérios e até gostava de escrever guiões para filmes de aventuras policiais. Depois desta resposta, interrompeu as notas e voltou às suas leituras. Antes de me dispensar, entregou-me umas quantas folhas e mandou ler um texto intitulado "Nota para um thriller disparatado ou para um filme", onde Pessoa escrevera: "X., o milionário que tem vivido numa espécie de retiro algures no interior da América vem à Europa com a sua fabulosa coleção de diamantes (? ou de valores semelhantes). Sabe-se que vai viajar no Cantábria e diversas quadrilhas de vigaristas estão no seu encalce (...). O navio parte e uma rapariga pertencente a uma das quadrilhas de vigaristas enceta uma calorosa amizade com o milionário. Esta confidencia-lhe que pensa conseguir transportar os diamantes para a Europa sem perigo (...). No final, X nunca esteve a bordo e os diamantes nunca estiveram a bordo (...)"

- Essa parvoíce foi escrita por ele. Era muito dado a acreditar no que lhe quisessem impingir, coitado!

Concordei com Sena quando acabei de ler o pretenso guião que o poeta escrevera com objetivo de servir de argumento para um filme.

Quando acordei na manhã seguinte, tinha na mesa-de-cabeceira um outro molho de folhas sobre as aventuras literárias do poeta. Não sei porque é que Sena me estava a proporcionar este tipo de leituras, procedimento pouco habitual nos seus modos, mais adeptos do segredo do que da banalização de certos conhecimentos. Como não seria chamado antes da tarde para trabalhar, entretive-me a ler esses apontamentos. Tratava-se de quatro esboços de histórias policiais, um tema que afinal interessava bastante a Pessoa, como fiquei a perceber após a leitura de alguns parágrafos de uma personagem de policiais que o poeta criara - Quaresma, Decifrador:

- "Causou-me, há meses, dolorosa impressão encontrar, no meu jornal da manhã, no fim da necrologia, a notícia de haver falecido em Nova Iorque, "onde estava de passagem" o cidadão português Dr. Ambrósio Quaresma. Sonhador sempre, fechado no seu alcoolismo impenitente e no seu raciocínio já quase automatizado."

- "Charadas, problemas de xadrez, quebra-cabeças geométricos e matemáticos - alimentava-se destas coisas e vivia com elas como com uma mulher. O raciocínio aplicado era o seu harém abstrato. Aquele quarto no 3. Andar da Rua dos Fanqueiros, a que ele era tão fiel como à sua renúncia à vida, conheceu orgias de compreensão e solução que nenhum orgíaco da carne poderia acompanhar na sua experiência."

- " O sr. julga que as minhas investigações são investigações por assim dizer físicas, que sigo gente, e examino o local do crime, e tomo medidas do chão. Não é nada disso. Eu resolvo os problemas, em geral, sentado numa cadeira, em minha casa ou noutra parte qualquer onde me possa encostar confortavelmente, fumando os meus charutos Peraltas, e aplicando ao estudo do crime praticado aquele raciocínio de natureza abstrata que foi o triunfo dos escolásticos e é a glória bizantina dos homens que argumentam sobre puras futilidades."

- "Amargou-me na alma isto de um homem como Quaresma nem um dia ter de fama. Bem sabia eu que ele não a buscara nunca - sonhador sempre, fechado no seu alcoolismo impenitente e no seu raciocínio já quase automatizado. Mas a justiça segredava-me, não sem intimativa na sua voz secreta, que essa fama era devida, que não a ter ele buscado nada tinha com o ser justo tê-la."

Eu, que pouco percebo de policiais, compreendi que a palavra raciocínio se repetia demasiadas vezes para que o detetive Quaresma, cognominado de o Decifrador, pudesse ter tido aquele sucesso com que o poeta sonhara e que só uma narrativa decalcada da pretensa morte de a Besta o poderia inspirar sem ser de forma abstrata e impenitente!

Sena ainda me convocou mais duas tardes. A operação de vasculhar o dossier estava quase no fim tal era a rapidez com que trabalhava, apesar de sentir alguma estranheza em relação ao pouco sumo que resultava da leitura de tantas páginas, bem como do tão grande esforço para arrebatar este lote no leilão. Desconfiava que as centenas de páginas conteriam muitas mais informações do que aquelas que me foram ditadas, mas nada podia fazer em relação a isso, pois não era da minha competência a investigação. Ao fim da segunda tarde, avisou que as anotações que me ditava iam terminar e, esquecendo o tema de trabalho, disparou-me uma pergunta que iria alterar a rotina dos nossos próximos dias.

- Acha-se capaz de conduzir o Chrysler?

Demorei alguns segundos a compreender o alcance da sua questão, a que respondi que sim, de tão esquecido que estava do velho carro guardado na garagem. Aquele que há uns meses prometera oferecer-me no final do contrato. Então, compreendi que Sena estava a poucas horas de me libertar do contrato que nos ligava.

- Ainda faltam umas semanas para terminar a nossa ligação, mas por agora não vou precisar mais de si. Creio mesmo que não nos veremos mais.

Após alguns minutos de silêncio, o meu anfitrião fez questão de informar que eu receberia os honorários estabelecidos até ao fim. Tive uma sensação de vazio a crescer em mim e que era incapaz de eliminar na forma como se expressava: angústia. Decidi, então, procurar um hotel onde ficar, já que não tinha ninguém a quem bater à porta para me dar dormida.

Uma 'arca' com espólio de Fernando Pessoa no arquivo do Diário de Notícias

A fórmula que encontrei para interromper a invasão do vazio foi cumprir à minha maneira e até ao fim o contrato entretanto rescindido com Sena. Procurei uma forma que pudesse dar-me essa sensação de continuar ainda a trabalhar na investigação durante as semanas que faltavam e, no dia seguinte, já decidira o que fazer para expulsar o vazio. Iria ao arquivo do jornal que noticiara o suicídio de a Besta na Boca do Inferno ler as edições dessa época e saber como tudo acontecera com mais pormenores.

Não foi difícil conseguir autorização para consultar as notícias que desejava ver nas edições antigas do jornal, designadamente nos exemplares que noticiavam o desaparecimento de a Besta na Boca do Inferno. Esta parte da investigação era a que me despertava mais curiosidade por considerar ser uma peça fundamental para compreender o caso, apesar da pouca importância que o meu anfitrião lhe dera. O meu trabalho foi simplificado com a atenção que o responsável pelo arquivo do jornal me deu logo que soube do tema que me interessava, porque também o estudara em tempos e até tinha criado uma pasta especial com vários documentos sobre o assunto. Mas, principalmente, foi o facto de me ter apresentado a um descendente do jornalista que escrevera as notícias do desaparecimento de a Besta na Boca do Inferno que tornou a minha visita aos arquivos mais interessante e esclarecedora.

Após a primeira conversa com o descendente do jornalista Ferreira Gomes, este ofereceu-se para me guiar no mistério em que o seu antepassado se intrometera em alegado conluio com o poeta para mascarar o desaparecimento fictício de a Besta. Também ele tinha uma pasta especial sobre o assunto que me prometeu facultar no dia seguinte, visto que a tinha guardado em sua casa. No entanto, não deixou de aguçar a minha curiosidade ao revelar a existência de um arquivo onde estariam várias cartas de Pessoa que, disse, me poderiam abrir os olhos para a sua personalidade e capacidade de elaborar situações pouco condizentes com a realidade. Antes mesmo de ver os documentos que o descendente me queria mostrar, perguntei-lhe se punha em dúvida o que se passara, bem como se considerava sem crédito o trabalho de investigação do seu antepassado. Não respondeu de forma afirmativa ou negativa, antes referiu que já perdera muito tempo com esse assunto e, por razões de ordem familiar, não conseguira obter uma resposta suficientemente clara. Interroguei-o, então, diretamente sobre a sua opinião, mas a resposta continuou dúbia. Preferiu apontar-me a leitura dessa correspondência do poeta como trabalho preparatório à leitura dos recortes que me traria no dia seguinte.

Rapidamente entendi que não estava disposto a conversar sobre o tema, mas mesmo assim tentei fazê-lo falar um pouco mais sobre o assunto. Para isso, convidei-o a acompanhar-me até a um café nas redondezas, desculpando-me com a necessidade de comer alguma coisa. Disse-lhe que tinha vindo para o jornal sem tomar o pequeno-almoço, porque não acordara com o despertador e tinha hora marcada com o responsável do arquivo. Ao pronunciar estas palavras, entendi que o descendente se surpreendeu com o caminho que a conversa tomava, o que me fez perguntar se ele via algum problema em ter contactado o responsável do arquivo. A resposta não se ouviu, antes compreendi que desviava o tema da conversa. Mais uma vez senti que existia uma barreira em torno desta investigação que iniciava por minha conta, a exemplo de outros entraves que observara enquanto trabalhava sob as ordens diretas de Sena. No entanto, aceitou o meu convite e fez-me companhia durante uma meia hora. Mesmo que o assunto da conversa tenha sido outro que não o que eu desejava, à despedida senti que teria feito uma descoberta que poderia dar-me a resposta que procurava.

O descendente já trabalhava no jornal há uns bons anos e era um profundo conhecedor do arquivo. Confessou que passara muitas horas do seu emprego na cave onde se guardavam os documentos mais antigos e que a dimensão do arquivo era muito maior do que aquela que era visitável. Questionei-o sobre o significado dessa afirmação mas, mais uma vez, o descendente rumou noutro sentido. Fiquei com a sensação de que um dia destes ele iria mostrar-me a razão de ser das suas palavras e esclarecer o seu significado, até porque me parecia uma pessoa sensata, pouco dada a elucubrações sobre mistérios ou dono de uma personalidade gabarola. De qualquer modo saí deste pequeno-almoço tardio consciente de que tinha encontrado alguém que, pela primeira vez em todo o trabalho com o meu anfitrião, poderia fornecer explicações honestas e fazer-me acreditar que não estava a mergulhar nos logros habituais.

Senti-o porque o descendente fazia questão de ser sucinto e claro nos seus argumentos, utilizando sempre atalhos na conversa que pretendiam evitar os caminhos mais longos, aqueles onde a imaginação fazia nascer opções menos concretas. Para ele, compreendi-o no decurso dos nossos encontros seguintes, o que se passara naquele ano de 1930 entre o seu antepassado e o poeta Pessoa fora algo que ficara por deslindar. Não era o único que o tentara mas, afirmou-o com um ar bastante carrancudo, fora ele apenas quem tentara encarar os factos sem embarcar nos duplos sentidos que acabavam sempre por se apresentar a quem tratava do assunto da Boca do Inferno.

Quanto à questão da "dimensão do arquivo", o descendente não quis fazer muitos mais comentários. Preferiu avisar-me sobre o modo em como o responsável do arquivo iria tentar conduzir-me se continuasse interessado no assunto. A palavra que usou em relação ao seu colega de jornal era "manipular", acrescentando que não era a primeira vez que tal acontecia. Para me convencer das suas dúvidas sobre a pessoa em causa, referiu que desde o tempo em que o responsável fora contratado, a maior parte dos documentos sobre o caso deixaram de estar disponíveis para consulta e, por outro lado, surgiram mais notícias do que nunca em diversos jornais e revistas. O objetivo, sugeriu, era mais o de criar uma cortina de fumo em relação ao mistério da Boca do Inferno do que esclarecê-lo através da publicação de novos artigos. Quanto ao porquê dessa atitude, que foi a minha pergunta, o descendente nada quis dizer. "Não diga depois que eu não o alertei", foi só o que avisou antes de nos despedirmos.

A pasta especial que o responsável do arquivo me queria disponibilizar já estava sobre a mesa que me fora destinada quando cheguei no dia seguinte às instalações do jornal. O responsável estava ausente, segundo informou a funcionária que me levou até à cave e indicou o lugar onde deveria sentar-me. Acrescentou que o seu chefe lhe transmitira que eu começaria pela leitura da pasta e que tinha ordens para trazer, quando eu desejasse, os jornais da época. Educadamente perguntou se queria que fosse assim ou pretendia que os jornais fossem trazidos imediatamente. Respondi-lhe que manteríamos o programa sugerido e que, após o intervalo que pensava fazer para almoço, iniciaria a consulta dos jornais.

Deu meia volta e desapareceu, deixando-me só na cave. Assim fiquei durante as horas que se seguiram, apaixonado pelo que estava a ler e, ao mesmo tempo, impressionado com o aspeto soturno da divisão onde me encontrava. Estava de frente para uma parede que já fora branca e de costas para uma longa fila de estantes, onde se enfileiravam milhares de jornais encadernados por semestres. Pelo menos essa era a visão que eu tinha do que estava imediatamente por trás de mim, já que o que exatamente se encontraria após as primeiras filas de prateleiras era-me desconhecido. A funcionária só tinha deixado acesas as lâmpadas do espaço onde eu me encontrava, tendo ficado o restante espaço em total escuridão. Tive vontade de descobrir o que estaria lá para o fundo mas achei que se fosse apanhado a satisfazer a minha curiosidade logo no primeiro dia poderia ser proibido de voltar à cave. Ainda dei alguns passos pelo corredor onde se iniciavam as estantes, mas a escuridão era tanta que preferi regressar à salinha onde me tinham colocado. De qualquer modo, estava certo de que as prateleiras não poderiam estar apenas preenchidas por coleções de jornais, mesmo sendo o jornal uma publicação mais do que centenária. Fiz as contas mentalmente e, somado o número de edições - tendo em conta o volume que estava a consultar -, o espaço da cave parecia-me demasiado grande para conter apenas o que observava atrás das minhas costas. Decerto, existiriam outros documentos ali arquivados, muitas folhas de papel contendo anotações, fotografias e tudo o mais que um jornal tão antigo acumularia ao fim de décadas de existência.

Passei a manhã às voltas com a pasta especial. O que mais me chamou a atenção foi um artigo de um jornal chamado Girassol - estranho nome! - onde se relatava o desaparecimento de a Besta e o envolvimento do poeta na questão da Boca do Inferno. Datava de Novembro de 1930, tinha o título especulativo "A Besta foi assassinada" e fazia a súmula dos acontecimentos assim: "Deve estar ainda na memória de todos, porque foi largamente tratado no Diário de Notícias, e ainda mais largamente, com ampla reportagem fotográfica, no Notícias Ilustrado, o estranho caso do desaparecimento em Portugal do poeta, ocultista e "homem de mistério" inglês, que se sumiu por completo, deixando na Boca do Inferno, onde foi achada em 25 de Setembro, uma carta em linguagem misteriosa, de onde parecia depreender-se um suicídio.

Mais tarde surgiu, não entre o grande público, mas nos meios restritíssimos dos cafés, a hipótese de uma "blague", cuja base parece ter sido apenas a circunstância insuficiente de o achador da carta ser jornalista e amigo pessoal de Fernando Pessoa, o indivíduo que mais lidara com a Besta aqui em Portugal. Se o suicídio nunca deveras se provou (só o aparecimento do cadáver, como bem pensou a nossa Polícia, o poderia provar), também ninguém pôde provar que houvesse "blague". E o caso, em boa verdade, ficou sempre misterioso.

Começou agora a saber-se, ou a constar, mais coisas, vindas de fora de Portugal, e o caso, que parecia em princípio não ter outra explicação senão um suicídio ou uma "blague", tende a assumir aspetos acentuadamente mais sinistros. Há já tempo que se sabe, por exemplo, que logo que constou no estrangeiro o desaparecimento de a Besta, um agente da polícia inglesa apareceu na redação do Détective, de Paris, a comprar um exemplar de um número de Maio de 1929, onde vinha um extenso artigo sobre a Besta e sobre a sua atividade de espionagem (nunca se soube bem a favor de quem), durante a Grande Guerra. E o que é certo é que o Détective, logo que soube que estava em Paris o sr. Ferreira Gomes, achador da carta na Boca do Inferno, se apressou a entrevistá-lo dedicando uma boa parte do seu número de 30 de Outubro a um extenso relato do acontecimento.

Agora constou em Lisboa, sem dúvida por uma daquelas inconfidências que seguem, como sombras, o passo de todos os segredos, que a polícia inglesa tinha chegado à conclusão de que a Besta havia sido assassinada."

Ao ler esta entrevista entendi o perigo das más interpretações para que o descendente de Ferreira Gomes me tinha alertado. Se bem que fosse uma peça jornalística que parecia fidedigna, até porque tinha no cabeçalho a indicação de que fazia parte do espólio do poeta à guarda da Casa Fernando Pessoa, o seu conteúdo era pouco factual e poderia fazer parte de uma brincadeira. Continuei a ler a notícia: "Ora nós sabíamos que tinha sido o sr. Fernando Pessoa quem tinha estado em contacto mais constante com a Besta, aquando da estada dele em Portugal, e sabíamos também por lho termos ouvido contar que estava em contacto com entidades estrangeiras, amigos e conhecidos de a Besta, que se lhe dirigiram, pedindo informações logo que o desaparecimento constou nos jornais lá de fora. Concluímos, portanto, que, se alguém soubesse alguma coisa do assunto, seria o antigo director do "Orpheu". E, sem medo de "blagues" a ele nos dirigimos.

- Não - diz-nos Fernando Pessoa - não há o que v. chama "notícias" de a Besta."

- E v. sabe alguma coisa das conclusões a que chegaram esses investigadores?

- De oficial, nada; nem tenho, exceto por dedução, a certeza da existência dele, que aliás relaciono com essa história do outro agente oficial que visitou o Détective em Paris. Do "professor de línguas" não só tenho a certeza visual e lógica, mas consegui saber, por favor especial, três resultados das suas investigações. Sei que ele conseguiu "levar a sua investigação a bom fim", ou que, pelo menos, supõe que o fez; sei que nem admite a hipótese do suicídio nem a hipótese da "blague"; e sei que, desde o primeiro dia da investigação, me "riscou do caso", com o fundamento, que me deixa perplexo, de que entre a Besta e os jornais havia um elemento de ligação "muito mais íntimo e valioso" do que eu.

- Mas uma coisa que não é suicídio nem "blague", o que é que pode ser senão um assassinato?

- É, com efeito, o que ocorre; e é por isso que eu lhe disse que, embora sejam novos para mim, não me espantam os boatos sinistros que v. me contou. Posso admitir que quisessem assassinar a Besta, mas admiti-lo-ia com mais facilidade se pudesse compreender que um indivíduo, antes de ser assassinado, se desse ao trabalho de escrever uma carta (incontestavelmente autentica), dizendo que se suicidava. É ser boa vítima demais..."

Entendi que o poeta era hábil nas respostas e que o artigo continha todos os ingredientes que à época faria as delícias dos leitores, mesmo que a Besta não fosse uma personalidade assim tão conhecida no país que escolhera para representar mais um ato da sua vida espetacular. Regressei à leitura: "De repente, Fernando Pessoa sorri, leva a mão à carteira, e tira dela um recorte de jornal.

- Olhe, já que fala de assassínio, vou-lhe ler um documento curioso. Isto é um recorte do diário inglês Oxford Mail, de 15 de Outubro; é de notar que a Besta era muito conhecido e admirado em Oxford, embora seja Cambridge a sua universidade. O título do artigo é "A Besta assassinado", "Revelações Espíritas a um Médium de Londres", "Empurrado dos Rochedos Abaixo". É um telegrama ou telefonema de Londres, do correspondente do jornal. É do próprio dia, e diz assim: "Num quarto pequeno e mal iluminado em Bloomsbury, a noite passada, o sr. A. V. Peters, médium londrino, entrou em transe para se obterem algumas indicações sobre o paradeiro de a Besta, escritor e mago. De a Besta, cuja projectada conferência sobre "Um Mago Medieval" fora proibida em Oxford, em Fevereiro, não tem havido notícias desde que uma carta dele se encontrou nos rochedos chamados Boca do Inferno, a 23 milhas de Lisboa, há quinze dias.

O sr. Peters declarou que, durante o transe, lhe tinha sido indicado que a Besta estava morta, e que "tinha sido empurrado dos rochedos abaixo por um agente da Igreja Católica Romana". "Os católicos já anteriormente tinham atentado contra a vida de a Besta", disse o sr. Peters, "e ele estava à espera de ser atacado". Descreveu o lugar como sendo "redondo" como "uma cratera de vulcão", e o sr. Peters acrescentou que "era nas montanhas, ao pé de água". Grande parte da sessão foi ocupada em obter detalhes pessoais sobre o aspeto, ocupações e saúde de a Besta, "para fins de verificação".

- E o que se conclui disso? - perguntámos.

- Que eu saiba, nada. Pessoalmente, nada tenho contra nem a favor das visões desta ordem. Mas é curioso, não é, depois dos boatos que me trouxe e das conclusões a que ninguém chegou?"

Enquanto lia o texto pensava nas folhas que o descendente pedira para eu ler antes de - foram estas as suas palavras - "ser intoxicado por contra-informação". O que me chamou à atenção foram as palavras médium e transe. Tratava-se de uma carta de Pessoa à sua tia Anica, onde o poeta revelava as suas capacidades de vidente num parágrafo confessional: "Vamos agora ao caso misterioso que a interessa e que a tia Anica diz não poder calcular o que seja. Sim, não calcula, decerto eu próprio é o que menos esperaria. O facto é o seguinte. Aí por fins de Março (se não me engano) comecei a ser médium. Imagine! Eu, que (como deve recordar-se) era um elemento atrasador nas sessões semiespíritas que fazíamos, comecei, de repente, com a escrita automática. Estava uma vez em casa, de noite, tendo vindo da Brasileira, quando senti a vontade de, literalmente, pegar numa caneta e pô-la sobre o papel. É claro que depois é que dei por o facto de que tinha sido esse impulso. No momento, não reparei no facto, tomei-o como o facto, natural em quem está distraído, de pegar numa pena para fazer rabiscos. Nessa primeira sessão comecei por a assinatura (bem conhecida de mim) «Manuel Gualdino da Cunha». Eu nem de longe estava pensando no tio Cunha. Depois escrevi mais umas cousas, sem relevo, nem interesse nem importância.

De vez em quando, umas vezes voluntariamente, outras obrigado, escrevo. Mas raras vezes são «comunicações» compreensíveis. Certas frases percebem-se. E há sobretudo uma cousa curiosíssima - uma tendência irritante para me responder a perguntas com números; assim como há a tendência para desenhar. Não são desenhos de cousas, mas de sinais cabalísticos e maçónicos, símbolos do ocultismo e cousas assim que me perturbam um pouco. Não é nada que se pareça com a escrita automática da Tia Anica ou da Maria - uma narrativa, uma série de respostas em linguagem coerente. É assim mais imperfeito, mas muito mais misterioso.

Mando-lhe, junta, uma amostra simples, que não é preciso devolver-me. Nesta há números e rabiscos, mas quase que não há desenhos. É o que tenho aqui à mão. É para verem como é o aspeto das minhas comunicações.

É singular que, apesar de eu não perceber nada de tais números, consultei um amigo meu, ocultista e magnetizador (uma criatura muito curiosa e interessante, além de ser um excelente amigo) e ele disse-me cousas singulares. Explicou-me que esse facto de eu escrever números era prova da autenticidade da minha escrita automática - isto é, de que não era autossugestão, mas mediunidade legítima. Os espíritos - diz ele - fazem essas comunicações para dar essa garantia; e essas comunicações são, por isso mesmo, incompreensíveis ao médium, e de ordem que mesmo o inconsciente dele era incapaz de imaginar (?)."

Antes de passar à leitura de mais uma folha que o descendente me forneceu ainda li mais uma parte da carta à tia Anica: "Perguntará a Tia Anica em que é que isto me perturba, e em que é que estes fenómenos - aliás ainda tão rudimentares - me incomodam? Não é o susto. Há mais curiosidade do que susto, ainda que haja às vezes cousas que metem um certo respeito, como quando, várias vezes, olhando para o espelho, a minha cara desaparece e me surge um fácies de homem de barbas, ou um outro qualquer (são quatro, ao todo, os que assim me aparecem).

O que me incomoda um pouco é que eu sei pouco mais ou menos o que isto significa. Não julgue que é a loucura. Não é: dá-se até o facto curioso de, em matéria de equilíbrio mental, eu estar bem como nunca estive. É que tudo isto não é o vulgar desenvolvimento de qualidades de médium. Já sei o bastante das ciências ocultas para reconhecer que estão sendo acordados em mim os sentidos chamados superiores para um fim qualquer que o Mestre desconhecido, que assim me vai iniciando, ao impor-me essa existência superior, me vai dar um sofrimento muito maior do que até aqui tenho tido, e aquele desgosto profundo de tudo que vem com a aquisição destas altas faculdades. Além disso, já o próprio alvorecer dessas faculdades é acompanhado duma misteriosa sensação de isolamento e de abandono que enche de amargura até ao fundo da alma.

Enfim, será o que tiver de ser."

Ao terminar a leitura da carta senti um arrepio de medo e, ao mesmo tempo, ouvi um ruído. Virei-me para trás e observei a escuridão da cave em busca de alguma presença. Olhei e reolhei mas ninguém ou nada me apareceu. Seria apenas um estado sugestão face às parvoíces que estava a ler. Decidi ir almoçar, ver a luz do dia e deixar para trás a dualidade de opiniões contida nas pastas especiais que tanto o responsável do arquivo como o descendente do jornalista Ferreira Gomes me deram. Mas, antes de subir as escadas, ainda folheei a carta que o poeta enviara, a 10 de Junho de 1919, aos psiquiatras franceses Hector e Henry Durville para completar o retrato de Pessoa: "Eu quero desenvolver, tanto quanto possível, o que possa ter de magnetismo pessoal, e quero desenvolvê-lo para dar, se isso for possível, uma direção coordenada exterior à minha vida... Do ponto de vista psiquiátrico, eu sou um histériconeurasténico, mas felizmente a minha neuropsicose é bastante fraca; o elemento neurasténico domina o elemento histérico, e isso faz com que não tenha sintomas histéricos exteriores - nem nenhuma necessidade da mentira, qualquer instabilidade mórbida no meu relacionamento com os outros... Eu não sou um cadáver consciente. Mas a minha vontade de agir é insuficiente..." Estava na hora de ir almoçar e ver a luz do dia.

Correram os dias de duas semanas, ou diria as noites por estar sempre tão escuro na cave, até que consegui analisar toda a documentação que me fora entregue, bem como aquela que descobrira sobre o desaparecimento de a Besta na Boca do Inferno e a participação do poeta. Posso definir estes dias como de uma severa monotonia, aquela que deve fazer companhia aos investigadores de arquivos e bibliotecas. Talvez por essa razão, tendo em conta a minha situação de abandono, não estranhasse que o descendente se divertisse ao chamar-me de rato de biblioteca.

Era isso mesmo que eu fazia, uma vida de rato! E, como um bom rato, não resisti a portar-me mal a partir de uma certa altura. Ou seja, ultrapassar a fronteira do espaço que estava autorizado a ocupar, entrando na escuridão que se encontrava por detrás das minhas costas. Não era apenas por curiosidade, confesso que certas deixas do descendente sobre o que poderia estar escondido para lá dos volumes que guardavam as encadernações de cento e muitos anos de jornal foram a causa principal deste desvio de comportamento. Era verdade o que me dissera, que após as estantes empilhavam-se vários caixotes de todo o tipo de tamanhos. O que conteriam foi a pergunta que se me pôs enquanto queimava as pontas dos dedos com os fósforos que acendia nesta peregrinação proibida. Seria mais fácil se acendesse as luzes, afinal os interruptores estavam mesmo ao lado da secretária onde eu trabalhava, mas não me atrevera a fazê-lo com receio de que algum funcionário do arquivo descobrisse o que estava a acontecer. Entrar no setor proibido foi o desafio que fiz, nada que exigisse muita coragem visto que eu tinha sido abandonado nas catacumbas do edifício e poucas vezes era interrompido no meu trabalho solitário. À exceção de uma visita do responsável do arquivo para saber se estava tudo a correr bem, durante a qual me pareceu fazer sugestões para inquinar a minha investigação, só terei tido companhia rápida por umas três vezes. Nessas alturas, discretamente, eu mapeava a cave para lá das minhas costas e apontava no meu cérebro os caminhos entre as estantes, preparando-me para invadir esse labirinto que mantinham em segredo.

Notava-se que não eram manuseadas há bastante tempo devido à camada de pó que as cobriam, tendo descoberto que a minha curiosidade fizera-me imaginar tesouros que ali não existiam, já que o conteúdo das caixas dizia apenas respeito a temas que já tinham sido notícia. Eram arquivos mortos, alguns muito desorganizados e outros que estavam mais disciplinados e que se via serem de consulta frequente. Mesmo assim passei grande parte dessa manhã a ler os rótulos dos arquivos. Como estavam organizadas por ordem alfabética, ainda me dirigi à letra F do primeiro nome do poeta, bem como à letra P do apelido, para ver se existia alguma caixa que lhe fosse dedicada. Não descobri nenhuma, situação que me fez perguntar como é que o arquivo passava ao lado de uma das maiores figuras da literatura tão despudoradamente? Até porque me cruzei com outros escritores, bem fornecidos de material dentro das caixas em que eram arrumados. Ainda me questionei sobre se todo o material que me fora posto à disposição não seria a totalidade do que existiria sobre o poeta, mas rapidamente pus essa hipótese de parte. Quanto mais não fosse, porque o responsável do arquivo era um interessado em Pessoa! Haveria, com toda a certeza, uma caixa especial para o poeta que, muito provavelmente, estaria fechada a sete chaves na caixa-forte. Descobrir como entrar nesse templo seria o meu próximo passo.

Uma casa-forte deveria ser impenetrável, pensei, mas não era o que se passava com esta. Uma situação que descobri noutra das caminhadas proibidas pelo labirinto de estantes quando ao aproximar-me dela notei que a porta estava entreaberta. Ou o funcionário se esquecera de a encerrar ou, desconfiei, fora deixada assim de propósito... De novo senti nascer em mim a personalidade de um rato de biblioteca, só que desta vez eu era vítima de uma artimanha como a que fazem para caçar esses animais. Quem estivesse interessado na minha intrusão na casa-forte teria deixado a armadilha preparada e a porta aberta era como o bocado de queijo para atrair o rato. Se o bicho não cederia à tentação do cheiro do queijo, eu também não evitaria a tentação, teriam pensado!

Se foi uma situação preparada, quem montou a armadilha deve ter-se sentido satisfeito com o resultado pois não hesitei um segundo em entrar na casa-forte e espiar o seu conteúdo. Mexia-me em silêncio, com um ouvido sempre à escuta de um ruído que anunciasse a presença de um funcionário, e de olhos quase fora de órbita, em busca da caixa onde estariam encerrados os segredos sobre Pessoa. Não foi difícil encontrá-la, bastava seguir a ordem alfabética da arrumação de arquivos e, na letra P, lá estava o Fernando Pessoa encaixotado. Ainda questionei se agora que já sabia onde procurar não deveria voltar ao meu lugar e evitar ser apanhado com a boca no queijo? Mas, pensei, a minha investigação naquela cave estava no fim e não teria uma segunda hipótese tão boa como a que se me apresentava agora. Em silêncio, levantei a tampa da caixa para descobrir o que estava no seu interior.

O que primeiro me despertou a atenção foram as fotografias. Eram muitas, mais do que aquelas que se têm conhecimento existir do poeta; das quais, muitas retratavam aspetos da sua vida social, designadamente imagens onde aparecia rodeado de personalidades do mundo artístico da época. Seriam fotografias tiradas a essas mesmas pessoas e não ao poeta, parecia-me, mas eram imagens onde ele surgia fisicamente. Observei-as com mais atenção para verificar se seriam falsas, fotomontagens que recriassem os círculos culturais de então que Pessoa poderia ter frequentado, apesar de se saber que ele era avesso à mundanidade. Não ofereciam grandes dúvidas quanto à sua veracidade, o que me fez perguntar a razão de nunca terem sido publicadas?

Mas havia muitos mais testemunhos inéditos nesta caixa. Principalmente documentos que, após uma breve passagem de olhos, deixariam Sena bastante entusiasmado se os possuísse. Ou os estudiosos de Pessoa! Continuei a bisbilhotar a caixa e o que ia descobrindo no seu interior deixava-me surpreso. Havia datiloscritos inéditos, manuscritos rasurados e muitas mais fotografias e desenhos que retratavam o poeta. Como se algum seu contemporâneo tivesse adivinhado que Pessoa iria ser famoso o suficiente para necessitar de ficar bem documentado para a história.

Entre os documentos houve um que me obrigou a uma leitura mais demorada, mesmo que o receio de ser apanhado dificultasse a concentração necessária para entender a profundidade do seu significado. Dizia o seguinte: "O meu sentido interior de tal modo predomina sobre os meus cinco sentidos que - estou convencido - vejo as coisas desta vida de modo diferente do dos outros homens. Existe para mim - existia - um tesouro de significado numa coisa tão ridícula como uma chave, um prego na parede, os bigodes de um gato. Encontro toda uma plenitude de sugestão espiritual no espetáculo de uma ave doméstica com os seus pintainhos que, com ar pimpão, atravessam a rua. Encontro um significado mais profundo do que os terrores humanos no aroma do sândalo, nas latas velhas jazendo numa montureira, numa caixa de fósforos caída na valeta, em dois papéis sujos que, num dia ventoso, rolam e se perseguem rua abaixo. E que poesia é espanto, admiração, como de um ser tombado dos céus em plena consciência da sua queda, atónito com as coisas. Como de alguém que conhecesse a alma das coisas e se esforçasse por rememorar esse conhecimento, lembrando-se de que não era assim que as conhecia, não com estas formas e nestas condições, mas de nada mais se recordando."

O maior espanto aconteceu com uma carta manuscrita do poeta para a namorada de a Besta, aquela que o acompanhara durante a viagem em que ele se encontrara com Pessoa. Já sabia que o poeta tinha sido flechado por Cupido quando a vira; que até escrevera um poema sobre as sensações que o seu corpo lhe provocara, mas nesta carta - que nunca deveria ter sido enviada -, o poeta abria-se desordenadamente, como pude ler: "A verdade? É uma coisa exterior? Não posso ter a certeza dela, porque não é uma sensação minha, e eu só destas tenho a certeza. Uma sensação minha? De quê? Procurar o sonho é pois procurar a verdade, visto que a única verdade para mim, sou eu próprio. Isolar-se tanto quanto possível dos outros é respeitar a verdade."

A carta escrita para Hanni Jaeger arrebatou-me. Para além de a data em que foi escrita coincidir com o reatar do namoro entre Ofélia e o poeta, ponderei sobre o modo em como as suas personalidades se atrairiam. Já lera a confissão de Pessoa sobre o que pensava da sua própria personalidade sob o ângulo psiquiátrico, onde se definia como histérico, característica que também definiria a namorada de a Besta. Não fora por acaso que a jovem de 19 anos fizera uma cena que os expulsara do hotel onde pernoitavam e partira, abandonando a Besta no país de Pessoa!

Estava neste transe quando ouvi passos a ressoar na cave e alguém a perguntar por mim. Não duvidei que estava na antecâmara de um enxovalho gigantesco se fosse o responsável do arquivo quem me chamava. Imitando mais uma vez a personalidade de um rato, encolhi-me enquanto arrumava o mais depressa possível a caixa que estivera a consultar, de modo a que ninguém notasse que tinha sido remexida. Em seguida, mantive o silêncio como resposta a mais duas chamadas pelo meu nome e esperei que a pessoa se fosse embora. O meu desejo era o de que quem quer que fosse que me queria ver não percorresse o labirinto dos corredores até à casa-forte, o que felizmente não aconteceu. Talvez por eu ter previsto esta hipótese e ter deixado a iluminação desligada no meu rasto.

Aguardei mais uns minutos até sentir que estava novamente solitário na cave, apaguei a luz da casa-forte e caminhei veloz até à secretária de onde não era autorizado sair. Sentei-me e tentei acalmar os nervos que causavam suores frios por todo o meu corpo. Limpei o rosto com as costas da mão, encostado à cadeira, sem forças para reagir a um novo susto. Só esperava que nos próximos minutos ninguém descesse as escadas até ao buraco onde me encontrava e que pudesse regressar à pulsação normal para, mal estivesse recomposto, poder fugir do jornal.

Na manhã seguinte descobri que fora o jornalista quem tinha ido procurar-me à cave. Descobri-o da pior maneira, através de uma página no jornal que noticiava a morte do meu anfitrião do Freixo! Ferreira Gomes fora destacado para fazer a cobertura de um suicídio na Boca do Inferno e, ao ligar para as autoridades locais, soubera o nome da vítima. Conhecendo o meu interesse pelo assunto, quis levar-me consigo. Não sabia ele que eu trabalhara com Sena durante vários meses e que o meu interesse pela relação entre Pessoa e a Besta derivava desse contrato interrompido poucas semanas antes do seu final.

Estava na cave a ler a notícia quando ouvi os seus passos a descer a escada. Trazia o jornal na mão e tinha um ar afogueado, de quem correra até mim para me dar a novidade. Ao ver que eu já tinha um exemplar na mão, perguntou-me se sabia do que acontecera, ao que lhe respondi afirmativamente. Mas Ferreira Gomes tinha pormenores que não foram impressos a pedido da polícia na edição que saíra nessa manhã, entre os quais a existência de um saco deixado por Sena na borda do buraco do rochedo. Descreveu-me o seu conteúdo e rapidamente entendi que continha todo o trabalho para o qual eu fora contratado. Era uma pilha de folhas cor-de-rosa, disse, com anotações sobre a Besta. Acrescentou que a polícia afirmara que esta era a única pista que tinha para entender as razões do que acontecera e que através das folhas poderiam deslindar o que sucedera.

Não foi só isto que Ferreira Gomes me contou, mas esta intenção da polícia em descobrir por via da pilha de folhas cor-de-rosa as razões do suicídio deixaram-me preocupado, pois poderia acabar por me envolver no caso sem ter alguma coisa a ver com ele. Afinal, eu era o escritor daquelas páginas e poderiam investigar de forma tão eficiente que me ligariam ao acontecimento. Tal como acontecera ao poeta com o alegado suicídio de a Besta, com a diferença de que eu não queria o protagonismo que Pessoa desejara, nem iria colaborar numa farsa como ele fizera.

Também suspeitei que a vinda em passo de corrida do jornalista até mim, com o exemplar a abanar nas suas mãos, poderia ter uma outra intenção que não a de me relatar apenas a notícia. Afinal, não houvera um outro jornalista que em 1930 prolongara a história do suicídio de a Besta com versões de detetives franceses, polícias ingleses e uma entrevista ao poeta? Eu não estava interessado nesta situação e, apesar de o jornalista não estar ainda a tentar repetir a novela policial de há décadas, também nada apontava para que fosse totalmente desconhecedor do meu envolvimento com Sena durante os meses passados no Freixo. Havia que aguardar pelo desenrolar dos acontecimentos.

Esperar ou não calmamente pelas novidades era a hesitação perante a qual me encontrava após o jornalista regressar à redação. O que contribuiu para agravar as minhas suspeitas sobre os seus interesses em relação a mim fora o facto de me ter convidado a acompanhá-lo até à Boca do Inferno na sua busca por mais informação.

- Há que explorar este filão, até porque Sena não é um desconhecido mas antes um ilustre desconhecido. Com toda a certeza que o que deixou à beira do buraco é a pista para se descobrir o que aconteceu. Alguém estará por trás de tudo isto e aquelas folhas podem levar-me até essa pessoa.

Estas palavras deixaram-me gelado e confirmavam os meus receios. O jornalista estava determinado a obter qualquer pista com aquelas anotações e se começasse a investigar a sério acabaria por chegar até mim. Ainda ponderei se lhe o comunicaria imediatamente, situação que poderia evitar-me futuros problemas, explicando-lhe que aquele conteúdo guardado dentro de um saco de plástico era o resultado das sessões com Sena. No entanto, achei que não o deveria fazer pois dificilmente acreditaria na linearidade da minha contratação para o trabalho. E, se pensasse bem, que testemunhas poderiam abonar em meu favor? A jovem, a funcionária ou o porteiro... Todas elas pessoas de confiança de Sena, provavelmente agastadas com o que lhe sucedera. Felizmente, o jornalista não insistiu no seu convite para o acompanhar ao local do suicídio. Felizmente, até ao momento ninguém falava em crime, coisa que na edição de amanhã já poderia ser uma hipótese, pois tanto a polícia como o redator tinham que mostrar trabalho. E, pelo que lera no jornal, Sena não era uma figura assim tão desconhecida como sempre me dera a entender.

Bastou-me ler o obituário impresso no jornal para adivinhar que a morte de Sena não iria ser esquecida nos próximos dias. Um pequeno artigo, entre os que descreviam a morte com todas as desinformações possíveis, dominava a página da secção de crime, fomentando nas entrelinhas suspeitas sobre um não suicídio mas antes uma morte com razões por esclarecer. Mais, uma testemunha dera um depoimento que garantia que o meu anfitrião não estava sozinho no momento em que se aproximara da borda fatídica. Mas o que mais me assustara fora a repetição das assinaturas do jornalista que escrevera o artigo sobre as mortes de a Besta há décadas e a de Sena agora: eram a mesma. É que o descendente de Ferreira Gomes, ao fim de tantos anos, utilizava a mesma assinatura! Se a mim me parecia um dejá vu, imagine-se os leitores quando o escândalo fosse servido numa bandeja de factos e coincidências bem cozinhadas.

Estava certo de que este Ferreira Gomes não ficaria atrás do outro Ferreira Gomes quanto à intenção de agarrar a notícia com as duas mãos, afinal ainda o corpo não estava frio e já o descendente regressava ao local da morte com o intuito de armar uma história que tivesse um paralelo com a do passado. E tinha todos os condimentos para o conseguir, dado tudo aquilo que estava escrito nas páginas cor-de-rosa com a minha letra, desde o nome profusamente repetido de a Besta, à presença do poeta, passando por toda a investigação de pessoas que o anterior suicida enganara durante as atividades esotéricas ao longo da sua vida. O que poderia querer o descendente para além destas situações pouco claras como achas para uma fogueira noticiosa que lhe dariam material infindável para uma sucessão de artigos tão ao gosto popular?

Na minha cabeça ainda estava o pedido para lhe devolver a pasta especial que me emprestara, contendo os recortes do falso suicídio de a Besta, porque iria precisar deles quase de certeza. Outra ideia começou imediatamente a germinar em mim, a de que também este poderia ser um suicídio não verdadeiro - mais uma vez não fora encontrado o corpo - e que a pilha de folhas cor-de-rosa por mim escritas mais não seriam que o substituto do bilhete que a Besta deixara na sua farsa noutros tempos. Até que ponto este Ferreira Gomes estava envolvido na fabricação de um desaparecimento como o seu antepassado estivera? Foi esta a pergunta que me fez agir.

Antes de tomar uma decisão sobre o que fazer para evitar problemas com o caso Sena, li a biografia publicada no obituário. Que também era escrita por Ferreira Gomes e, para além de muito estranha e coincidente com episódios da vida de a Besta, era suficientemente vaga para dar azo a todas as interpretações e contribuir para a polémicas em artigos sucessivos. O descendente do jornalista resumira a vida de Sena com pormenores que eu nunca imaginara existirem na sua vida: "Teve uma vida aventurosa, sendo-lhe conhecidas vários casamentos com mulheres que elevou ao grau de sacerdotisas. Hábil jogador de xadrez, foi praticante de montanhismo, tendo subido aos mais altos picos de todo o mundo e viajado por vários países. O alegado suicídio de A.E. Sena na turística paisagem de a Boca do Inferno, em Cascais, ainda por explicar, dá por terminada uma vida sempre distante da ribalta, sendo até desconhecido o local onde residia nos últimos anos."

Outra coisa que me chamou à atenção na página sobre a morte de Sena era o destaque que o descendente dava a uns versos de Pessoa, encontrados sobre os maços de folhas cor-de-rosa na borda da Boca do Inferno: "O diabo é o limite / A creação é divina / como coisa e diabólica / como limite d"essa coisa." Surpreendi-me com a citação poética no artigo do jornal porque, além de que quando os escrevera nas folhas de apontamentos ditados por Sena os ter achado estranhos, os versos surgiam com a clara intenção de levantar uma suspeita sobre o caráter satânico do suicídio.

A curiosidade sobre o local onde Sena se suicidara acabou por me dominar nas horas seguintes. Apesar de a Boca do Inferno ter estado muitas vezes presente nas anotações que fiz, desconhecia o sítio que tanto marcara a relação entre a Besta e o poeta. Não foi preciso passarem mais minutos para decidir ir até ao local, apenas deixei correr o tempo suficiente para não me cruzar com o descendente e, fruto desse encontro, poder ser logo arrolado como suspeito pelas autoridades. Afinal, diz a máxima que o criminoso volta sempre ao lugar do crime! Aproveitei para arejar o Chrysler e pôr o seu motor a trabalhar, visto que estava estacionado na garagem desde que terminara o contrato com o meu anfitrião. Escolhi a marginal à beira-mar para fazer o percurso, evitando a autoestrada onde os carros são obrigados a deslocar-se a maior velocidade. Como a temperatura estava agradável, baixei o vidro da janela e fui de cabelos ao vento durante todo o percurso.

Passei uma e outra vez pelo local do suicídio antes de estacionar. Estava a anoitecer mas ainda havia uma concentração de pessoas junto à Boca do Inferno, a maior parte visivelmente turistas. No entanto, era fácil descobrir um ajuntamento de polícias no local do alegado suicídio. Bastou um pouco de atenção para descobrir que o descendente estava entre eles, confirmação de que deveria esperar mais um pouco para ir até ao local. Ele teria que regressar à redação; os polícias não iriam passar ali a noite com toda a certeza, e eu não tinha pressa. A minha intenção era, também, dar um fim ao meu contrato com Sena ao visitar o local onde desaparecera. Era a última tarefa que considerava ter em falta para com ele e que daria por encerrada esta colaboração. Nada mais havia em a Besta que me interessasse.

O descendente só partiu cerca de uma hora depois da minha chegada. Ao abandonar o local passou perto de mim e olhou com atenção para o carro. Fiquei em dúvida se o fazia por curiosidade, como todas as outras pessoas, ou se o seu faro jornalístico lhe permitia cheirar alguma ligação entre o veículo e Sena? Olhou com curiosidade durante alguns segundos, enquanto eu me escondia atrás dos vidros fumados, até que se foi embora a olhar para os seus apontamentos. Pareceu-me que ainda acrescentou uma nota nas páginas do caderno, mas se o fez disfarçou-o bem. Decerto que teria memorizado a matrícula e que iria investigar o nome do proprietário. Isso era algo que neste momento já não me preocupava, queria era fechar o meu contrato e ir-me embora. Estava certo de que haveria uma outra vida à minha espera e eu queria entrar rapidamente nela.

Pouco depois, foi a vez de os polícias abandonarem o local também. E aí, a Boca do inferno ficou só. Chegara a minha vez! Abri a porta do Chrysler e caminhei até local onde a Besta saltara para o buraco negro em 1930 e, numa repetição inesperada, há dois dias Sena fizera o mesmo. Nada me garantia que mais uma vez tivesse acontecido um suicídio, até porque a Besta fora avistada poucos dias depois em Berlim e Sena ainda tinha o futuro para reaparecer. Enquanto me aproximava da Boca do Inferno pensava nas razões que levariam dois homens adultos e inteligentes, sem motivos aparentes para se suicidarem, a encenarem tal atitude. Decerto que haveria uma explicação simples para terem tomado tal decisão...

Não foi preciso pensar muito para, vendo as suas vidas passarem como um filme no meu pensamento, me aperceber que ambos procuravam uma purificação que só aquele buraco negro lhes poderia dar. Estava certo de que haveria uma explicação para o facto de saltarem para um destino desconhecido se não soubessem ao que iam. Tinha a certeza que ambos saberiam muito bem o que estavam a fazer e que não teriam escolhido esse destino sem terem acautelado uma vida posterior. Nem a Besta nem Sena eram desapegados da vida como muitas outras pessoas que ali se suicidaram, nem estavam numa etapa das suas vidas em que morrer fosse uma solução.

Os fotogramas do filme das suas vidas continuavam a projetar-se no meu pensamento e foi então que, numa inspiração sem fundamento, entendi a razão para o salto que deram para dentro das profundezas da Boca do Inferno. Nesse momento, senti também uma vontade irresistível de me atirar, plenamente consciente de que não morreria afogado na água que existia no fundo do buraco rochoso, nem seria desfeito pelas ondas contra as escarpas afiadas que haveria até lá em baixo. Se a Besta e Sena escaparam - eu estava certo de que o meu anfitrião reapareceria um dia destes -, porque é que eu morreria?

Não hesitei mais do que uns segundos e saltei também.

Da Boca do Inferno sai Vicente Guedes

Entre as várias descrições sobre o inferno, Dante terá escrito a mais fantasiosa no poema A Divina Comédia. Gostaria de não poder confirmar esta afirmação mas, ao atirar-me para o buraco negro da Boca do Inferno, a memória que me atravessou a mente, a par de um frio húmido que esfriou as extremidades do meu corpo expostas às correntes de ar que rodopiavam no seu interior, foi a desse poema. Os poucos segundos passados entre o momento em que perdi o pé e aquele em que me afundei na água foram os suficientes para reler a Comédia até ao penúltimo dos seus nove cantos, aquele que Dante intitulou como Fraude. Não terá sido por acaso que cheguei até esta parte da obra, afinal o nome destacava-se entre os outros oito cantos: Limbo, Luxúria, Gula, Inveja, Raiva, Heresia, Violência e Traição. Talvez porque o meu pensamento sobre a Besta e Sena contivesse mais a sensação de que estas duas pessoas eram as que melhor representavam a Fraude do que qualquer outro dos comportamentos descritos no poema. Talvez se a queda tivesse demorado mais alguns segundos eu mudasse de opinião e encontrasse um paralelo para Traição em relação às duas personagens ou até para Heresia. Mas o peso do meu corpo e o efeito da gravidade não o permitiram.

Na Divina Comédia, Dante iniciava o seu inferno desorientado e perdia-se. É o poeta romano Virgílio que vai guiar a sua alma até Deus, reconhecendo e rejeitando o pecado. No canto até aonde cheguei, o tema é a consciência da fraude e chega-se lá também por um caminho descendente como era o meu. Sobre o dorso de um monstro alado com três cabeças e corpos interligados, que representam a natureza humana, a besta e o réptil. Ao terminar o percurso, Dante e Virgílio deparam-se com um ser que tem uma cabeça de homem honesto num corpo de um ser mitológico e, em seguida, confronta-se com os pecadores que conhecem bem a mentira e a maldade. Ou seja, estão perante os que deliberadamente cometeram todos os erros possíveis à natureza humana.

Não terá sido por acaso, se quero acreditar no acaso, que atingi esse oitavo canto do poema. Era o capítulo que me interessava para compreender a situação em que me colocara ao atirar-me por vontade própria para a Boca do Inferno, após um ano de pecados vivido a soldo do meu anfitrião. Eu estava na posição de Dante, se me é permitido fazer esta comparação, quando se põe como protagonista do seu poema. Tínhamos ambos 35 anos e estávamos a meio do tempo bíblico para a duração da vida humana. Também estava perdido e sem encontrar a ansiada via correta que conduzisse à salvação - no meu caso, uma procura diferente da do poeta. Estávamos, no entanto, conscientes no protagonizar de um momento negro das nossas condutas, que nos deixava perdidos.

Mas Dante tem uma esperança, já que Beatriz pede a Virgílio que o conduza pela caverna perigosa e confia que a justiça poética o salve, enquanto eu não tenho a mesma sorte. Nem existe uma mulher apaixonada por mim, nem um poeta romano para me estender a mão e salvar do castigo que tenho pela frente por me ter atirado para dentro da garganta negra da Boca do Inferno. E se na Divina Comédia era claro o aviso de que quem utilizava expedientes errados perdia em consciência o direito ao futuro, ou não era por acaso - se o acaso existe - que à entrada do inferno estava uma inscrição que alertava os que ali entravam para abandonarem toda e qualquer esperança.

A grande diferença entre nós é que em 1300, a data em que o poema se passa, Dante não podia desafiar as crenças, mas ultrapassado o ano 2000, esse era um desafio bem mais fácil. Mesmo que a minha situação não fosse invejável noutros seres humanos, já que todos os que se tinham atirado para o interior da Boca do Inferno aí tinham ficado. Não fora o caso de a Besta porque simulara um suicídio. Fora o caso de Sena, visto que ainda não se descobrira o que lhe acontecera, apesar de nenhum corpo ter aparecido para confirmar a sua morte. No meu caso, que era o mais importante neste momento, o meu corpo ainda estava em queda livre e eu, inesperadamente, aproveitava os últimos momentos de vida para recordar um antigo poema.

O mergulho na água que esperava por mim no fundo da Boca do Inferno veio interromper todos estes pensamentos. Estava fria, podia mesmo dizer-se que a noite gelara a água que esperava pela queda do meu corpo. Mesmo assim tivera sorte porque as correntes de vento não me empurraram contra as paredes rochosas e permanecia sem uma única ferida. Também porque a maré estava alta e a viagem fora menor do que em hora de maré baixa, o choque contra a superfície da água não me partiu um osso sequer. Foi percetível o momento exato em que senti o mar entrar em mim e eu a entrar nele, porque deixei de ver as estrelas no céu. A partir desse instante era a escuridão e o frio que dominavam os sentidos em alerta, segundos em que nem tentei mexer os braços para vir à superfície. Antes de saltar decidira que o que ia fazer estava para além do meu controlo e, portanto, cabia-me aguardar pelos acontecimentos sem intervir neles.

Tudo se passou mais depressa do que alguma vez poderia imaginar. Uma vaga vinda do mar entrou pela Boca do Inferno com bastante violência e levou-me consigo. Fez-me ascender os metros que antes tinham sido de queda livre e, como se fosse uma mão, atirou-me de volta ao lugar de onde eu me atirara antes numa fração mínima de tempo. Caí de pé e cambaleei, sem saber o que estava a acontecer, só compreendendo que ficara fora de perigo porque revia as estrelas por entre os fios de água que escorriam dos cabelos pela cara e de todo o corpo para o chão.

Sentei-me sobre a poça de água salgada e sorri o quanto era possível num rosto a tremer de frio. Tinha sobrevivido! Logo que me foi possível, pus-me de pé e fugi em direção ao carro a passo de corrida, deixando a Boca do Inferno para trás. A minha grande dúvida era o que significava tudo isto. O que me acontecera? Qual o próximo passo a dar? Contar ou silenciar o milagre se verificara?

Não foi difícil entender que havia uma razão para o milagre e que existia alguém para o explicar. A jovem que me satisfizera sexualmente no Freixo estava sentada ao volante do Chrysler, como que a aguardar por mim e soubesse que eu estaria para aparecer-lhe. Perante o meu espanto, ainda tive a capacidade de pensar que havia mais uma semelhança entre mim e Dante: Beatriz. Era assim que também se chamava a jovem de quem eu nunca soubera o nome e que ao ver-me sorriu e apresentou-se.

Após ter ensopado a pequena manta com a água salgada que me fazia tremer de frio deu-me um casaco. Em seguida, Beatriz conduziu-me de volta a Lisboa. Não falou muito durante a viagem, tão concentrada estava a conduzir o carro enorme. E eu imitava-a, ocupado com os pensamentos sobre o que acontecera na Boca do Inferno. Ainda não estava refeito do que se passara, até que as suas palavras me fizeram regressar ao momento que vivíamos.

- Preparado para viver a segunda vida que lhe foi dada?

Seria isso que tanto a Besta como Sena procuravam ao ter saltado para dentro da gruta negra, perguntei-me durante os momentos de silêncio que se seguiram. Beatriz guiava agora com mais velocidade, pois deixara a marginal e entrara na autoestrada, mesmo que mantivesse toda a atenção na condução.

- Não me responde?

Ela aguardava por uma resposta, mas eu ainda estava incapaz de a dar. As sensações eram superiores à realidade e o frio que ainda me fazia tremer não me permitia recuperar o sangue-frio assim tão rapidamente. Para ela seria fácil dominar qualquer efeito perante a surpresa que eu vivera, já que parecia conhecer o guião do que me acontecera nas últimas horas. Daí, ter-lhe perguntado se não preferia ser ela a falar, clarificando o que estava a acontecer em vez de me deixar submergir pelas perguntas que me assaltavam.

Beatriz nada respondeu, mantendo a sua atenção no trânsito que crescia conforme entrávamos na cidade e que continuou intenso até chegarmos ao local pretendido. Um hotel, o velho Francfort, era o nosso destino. O estabelecimento onde a milionária Peggy Gugenheim tinha pernoitado por umas poucas noites durante a sua estada de dois meses em Portugal e no qual o pintor Max Ernst tinha permanecido hospedado o tempo suficiente para obter os documentos que lhe permitissem fugir para os Estados Unidos desde uma Europa perigosa para os perseguidos pelo regime de Hitler. Perguntei-lhe o porquê de ficarmos no Hotel Francfort e a resposta surgiu-lhe rápida, se bem que com um sorriso de alguma malícia. Disse-me que ambos, Peggy e Max, tinham feito amor junto à Boca do Inferno num tempo em que o local era menos turístico e as sombras suficientes para os sexos de ambos se trespassarem sem serem vistos por olhares curiosos.

- Como não o poderíamos fazer na Boca do Inferno, escolhi o hotel deles para o nosso reencontro. Não foi uma boa ideia?

Esta Beatriz não perdia tempo em conversas vagas como acontecia com outras mulheres, nem em silêncios incómodos como os que mantinha antes no Freixo. Conduziu-me para a receção mal estacionou o veículo perto da porta do hotel, não sem antes pendurar a pequena manta molhada no puxador da porta para ficar a secar. Era uma mulher organizada, via-se, aquela que me acompanhava nesta segunda parte da minha vida. Pediu a chave do quarto que já reservara e, com ela numa mão e a minha mão na outra, percorremos os corredores até ao quarto.

Era uma divisão não muito grande, de onde se poderia ver o Rossio se ela não tivesse corrido a cortina, despido as minhas roupas ainda molhadas e atirado os nossos corpos sobre a cama, com a doçura possível a um casal dominado por uma excitação sexual em crescendo. A sombra em que o quarto ficara era ainda suficiente para que ao despir o seu vestido eu recordasse o corpo que me coubera durante o ano anterior em casa do meu anfitrião. Estava igual, não fosse mantê-lo em parte escondido por um corpete que lhe aumentava o tamanho do peito enquanto deixava a descoberto o ventre. Ainda reparei que essa parte de baixo do corpo estava diferente, pois Beatriz fizera uma depilação e exibia-se como fora em menina. Nada que me perturbasse o desejo por ela, mesmo que fosse uma situação que eu desconhecia em mulheres adultas até esse momento.

- É a última moda. Gostas assim?

Claro que lhe respondi afirmativamente, enquanto sentia o calor do seu corpo a aquecer o meu. De pouco me importavam agora certas particularidades no seu corpo, teria tempo para me debruçar nessas questões se houvesse necessidade em as questionar. Agora, o que eu estava era necessitado de esquecer o frio que se entranhara fundo nos ossos após o mergulho nas águas atlânticas!

Se a sua pergunta, sobre se me importava com a ausência daqueles pelos, não me causara qualquer questão, o mesmo não acontecia com a onda de calor que o corpo de Beatriz devolvia ao meu. Antes de me conseguir entregar por completo ao seu processo de aquecimento, lembrei-me que estava a viver uma situação parecida como uma que lera há muito num romance, onde existia um capítulo no qual o escritor relatava a história de uma judia que era utilizada para reanimar paraquedistas que caiam no mar gelado durante operações militares. Os alemães testavam até que ponto era irreversível a morte dos seus soldados experimentando o processo com prisioneiros que enfiavam dentro de tanques de água gelada, retirando-os no momento limite e obrigando a personagem feminina a abraçá-los nua, reanimando-os com o calor do seu corpo. E se alguns desses prisioneiros morriam, os que voltavam à vida - essa era a parte pior do relato - acabavam por violar a mulher que os salvara.

A minha situação não fora até ao limite daquela que era relatada no livro. Não desmaiara com o frio, nem violava a mulher que me aquecia, era antes ela que exagerava a dimensão dos efeitos do meu mergulho numa quase encenação literária. Essa recordação de um livro lido há muito ainda permaneceu no meu cérebro por alguns segundos, mas depressa desapareceu, substituída pela imaginação de como teria sido se Beatriz tivesse resolvido imitar a ousadia sexual de Peggy na própria Boca do Inferno... Depois da sessão de reanimação, encaixámo-nos o corpo um no outro, meio-acordados, até que o ruído da cidade que entrava pelas janelas de madeira velhas se ter tornado trivial.

- Sentes saudades do Freixo?

Acordei com Beatriz a olhar para mim e, mal viu os meus olhos abrirem-se, a fazer-me essa pergunta. Não sabia o que lhe responder, nem estava preparado para uma interrogação assim. Afinal, o Freixo tinha sido um período obscuro na minha vida e sobre o qual eu ainda desejava descortinar as razões para ter acontecido. Mesmo estremunhado, pensei que ela estaria a abrir a porta para dar as explicações que me faltavam, ou não tivesse sido ela também cúmplice naquela continuada farsa do meu anfitrião. Não a indaguei imediatamente, nem lhe respondi à pergunta sobre o Freixo. Se Beatriz tinha jogado a carta da mudez durante aqueles tempos, era agora a minha vez de retribuir.

Tal como eu previra, o meu silêncio espicaçou-a. Havia em Beatriz vontade de contar a sua própria história e em devolver-se à realidade ocultada por Sena tão cuidadosamente. Pedi-lhe antes que me falasse de Peggy Gugenheim e da sua passagem por Lisboa, que tão bem parecia conhecer. E foi ao som das suas informações, ditas num tom de quem lera enciclopedicamente sobre o assunto e as repetia, que fui acordando: "Terá sido a época mais cosmopolita de Lisboa, o porto de onde todos queriam escapar do inferno nazi em direção a Nova Iorque. O escritor Antoine Saint-Exupéry hospedou-se no Estoril, tornou-se notado por ter dado duas conferências, nas quais partilhou o seu sofrimento com a plateia, mas mal pôde partiu, partilhando o camarote com o realizador Jean Renoir, que voara para cá desde o norte de África; o pintor Marc Chagall ficou menos de um mês na capital e pouco revelou sobre esses tempos; o escritor Arthur Koestler fez um romance autobiográfico, inspirado nos seus passeios entre a pensão rasca onde dormia, a Leiriense, e o café Chave D"Ouro, no Rossio. O fotógrafo Man Ray ainda tirou fotografias a mulheres portuguesas numa feira, que nunca foram vistas porque lhe roubaram a máquina durante a viagem transatlântica. E a Peggy namoriscou com o amante e futuro marido, Max Ernst, divertindo-se com loucuras que a distraíam neste exílio português e numa atitude libertina que a tornavam alvo do interesse da polícia política. Na vez em que fez amor com o Max na Boca do Inferno, tomaram banho à meia-noite, ela nua e ele preocupado se ela se afogava no mar e o deixava abandonado à sua sorte. Nas suas memórias, a Peggy ainda confessou que essa sua época fora bastante estranha." No fim do discurso enciclopédico, Beatriz perguntou-me se no futuro algum de nós iria escrever as suas memórias e fazer confissões do género de "aqueles dias no Hotel Francfort foram bastante estranhos".

O nosso dia começou tarde e o salão onde serviam o pequeno-almoço já estava fechado. A fome obrigou-nos a abandonar o hotel e a procurar um restaurante para almoçar. Beatriz estava com apetite e eu não lhe ficava atrás, tendo ambos decidido que uma torrada e um café não seria o suficiente para nos matar a fome e recompor as energias. Mas não nos apetecia ficar por perto, antes fazer a refeição num lugar mais romântico e onde pudéssemos passear.

- Sintra, era o ideal!

Pensei que não suportaríamos a distância de estômago vazio e alertei-a para o facto. Entendi que queria mesmo ir até lá.

- Esta conversa de expatriados deu-me vontade de os imitar e Sintra é o lugar mais indicado para nos sentirmos como turistas.

Não lhe pude dizer que estava errada porque mentiria ou que dificilmente não chegaríamos famintos ao destino porque era uma verdade que não tinha interesse em escutar. Ainda por cima, Beatriz recusou ir no Chrysler, dizendo que estava na hora de passarmos despercebidos e que viajar nele seria um erro fatal. Alertou-me ainda para o facto de que ao encontrar-me a viver uma segunda vida, seria de bom tom cortar com o passado. Tinha razão, concordei, pois o carro era a minha maior ligação a Sena. Não pensei sequer se deveria desfazer do veículo, pois haveria nesse definitivo corte umbilical com o Freixo algo que me preocupava e que não poderia executar sem avaliar bem os prós e contras. Não é que desconfiasse das intenções da minha companheira, mas a decisão do meu anfitrião ao oferecer-me o Chrysler acarretaria uma implicação que eu ainda desconhecia. Aliás, ao ouvir o nome dele, pensei em como haveria muito para questionar Beatriz e demasiados mistérios para serem esclarecidos. Não teria sido casual a pergunta sobre se sentia saudades do Freixo que fizera ao despertar, nem inocente o desvio posterior de qualquer tema de conversa sobre a localidade. Claro que eu gostava de ouvir as histórias da Peggy e dos seus amigos, mas preferia ser informado sobre a sua ligação a Sena e as razões que estavam por trás da minha contratação. Sobre isso, Beatriz não deixava escapar uma única palavra! Para além de que já referira por duas vezes que eu ganhara uma "segunda vida", e também nada explicara sobre tal benesse. O que significaria esta "segunda vida" e qual seria o custo de ressuscitar? Ao pensar neste vácuo de informações que me interessava preencher, concordei que um almoço na típica Sintra seria o destino ideal e o momento certo para dar início à troca de informações que eu tanto precisava.

Beatriz pegou na minha mão e encaminhou-me para a estação de comboios do Rossio.

Disse-lhe que a viagem era longa, o suficiente para me contar a sua vida.

- Não é tão longa assim a viagem!

Expliquei-lhe que poderia começar pela infância, já que nenhuma era assim tão grande que não coubesse entre as estações de partida e de chegada do caminho-de-ferro que íamos percorrer.

- Tens razão, mesmo que a minha infância seja a parte mais melancólica da minha existência.

Perguntei-lhe qual era a menos melancólica.

- Com toda a certeza, a dos últimos três anos, desde que Sena entrou nela.

Pedi-lhe, então, que começasse por aí.

- Se te contar a partir do fim, nunca entenderás certas coisas.

Disse-lhe que nunca desistira de ler um livro só porque conhecia o desfecho.

- Então, assim será.

O comboio partiu e enfiou-se logo no túnel escuro de algumas centenas de metros, que eu olhei curioso e atento, dando-lhe algum tempo de vantagem para organizar a história.

- Nem sei por onde iniciar.

Continuei perdido na observação do túnel que ligava o centro histórico da cidade aos bairros mais modernos, ouvindo o chiar das rodas metálicas a rolar sobre os carris, produzindo algumas faíscas de tempos a tempos que iluminavam o percurso.

- Haverá por aqui fantasmas?

Será que ela tentava atrasar o início da sua história ou acreditava realmente que essas criaturas pudessem existir no túnel escuro? Uma coisa é certa, ninguém trabalharia para Sena se não tivesse dotes superiores em relação aos outros seres humanos no que toca a questões do oculto. Beatriz não seria diferente, até porque fora uma peça fundamental para o meu anfitrião me prender no Freixo. Ou seja, a sua história interessava-me cada vez mais.

- Já vês alguma luz ao fundo do túnel?

Que pergunta mais vulgar, mesmo que filosófica! Quase acreditei que ela estava com medo da travessia subterrânea e que demorava a principiar a sua história por essa razão. Que diabo, Beatriz parecia tão dona de si!

- Posso pedir-te para não te desvendar a minha vida hoje? Prometo que o farei em breve. E estou tão faminta...

O que poderia eu responder se não um sim, mesmo que contrariado.

A viagem decorria normalmente quando dei por mim a escrever um poema no bloco que retirara da mesa-de-cabeceira do Hotel Francfort. Era a primeira vez que sentia vontade de expressar o que pensava pela via literária, sob um género que só utilizara - como todos os jovens - quando era mais novo. Escrevera os meus versos, palavras para expressar o que me era incompreensível e desabafos de amor, frases sem grande préstimo e de que há muito me desfizera. Enquanto o comboio marchava, pensei em como teria sido bom ter vindo no carro e com direito a outra paisagem que não a de arrabaldes citadinos sem interesse algum. Ao volante do carro poderia fazer desvios e procurar vistas mais bonitas. Ser mais dono da viagem e descobrir velhos casebres perdidos entre as florestas onde tenham morado pessoas há muito ou observar a lua quando ela se elevasse por detrás das árvores. Como teria gostado de guiar o Chrysler por esta estrada tão cheia de curvas e cheirar os aromas dos bosques que surgiam de repente, após voltar à direita ou à esquerda, por entre os muros que ladeavam o asfalto. Meter à pressa uma mudança mais baixa para enfrentar a subida ou reduzir a velocidade da descida, acelerar e sentir o vento a rasar a cara. Fazer deste percurso sinuoso uma réplica da minha vida, com as alegrias e as tristezas que tinha na memória. Reparar nas coisas que me fizeram ser assim e tornar romântico aquilo que desse sentimento nada tinha, bem como sorrir aos pastores à beira da rua e ver os vestidos garridos das mulheres. Gostar de ser prisioneiro de um caminho que era apertado para o carro e que precisava de ser feito com todo o cuidado, como se fosse uma alegoria da vida real. Conduzir como um doido para fugir das regras do código e ser o eu que tantas vezes me escapava, com raparigas a olhar invejosas da minha habilidade ao volante e rever-me nos miúdos que espreitavam o carro em grande velocidade. Travar para chegar só de noite, quando estava menos distante dos outros e mais perto de mim, sem me sentir só e distante das vidas normais. Foram todas estas sensações que me caíram em cima e que iam sendo passadas ao papel sem o ter previsto, enquanto era obrigado a seguir um caminho-de-ferro que não permitia procurar outros destinos que não o pré-determinado pelos carris paralelos, presos há muito tempo às tábuas de madeira que os suportavam sobre uma estrada de pedra...

Os versos que escrevi foram estes: "Ao volante do Chrysler pela estrada de Sintra, / Ao luar e ao sonho, na estrada deserta, / Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco / Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça, / Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo, / Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter, / Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir? / Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa, / Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa. / Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem consequência, / Sempre, sempre, sempre, / Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma, / Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida... / Maleável aos meus movimentos subconscientes do volante, / Galga sob mim comigo o automóvel que me emprestaram. / Sorrio do símbolo, ao pensar nele, e ao virar à direita. / Em quantas coisas que me emprestaram guio como minhas! / Quanto me emprestaram, ai de mim!, eu próprio sou! / À esquerda o casebre - sim, o casebre - à beira da estrada. / À direita o campo aberto, com a lua ao longe. / O automóvel, que parecia há pouco dar-me liberdade, / É agora uma coisa onde estou fechado, / Que só posso conduzir se nele estiver fechado, / Que só domino se me incluir nele, se ele me incluir a mim. / À esquerda lá para trás o casebre modesto, mais que modesto. / A vida ali deve ser feliz, só porque não é a minha. / Se alguém me viu da janela do casebre, sonhará: Aquele é que é feliz. / Talvez à criança espreitando pelos vidros da janela do andar que está em cima / Fiquei (com o automóvel emprestado) como um sonho, uma fada real. / Talvez à rapariga que olhou, ouvindo o motor, pela janela da cozinha / No pavimento térreo, / Sou qualquer coisa do príncipe de todo o coração de rapariga, / E ela me olhará de esguelha, pelos vidros, até à curva em que me perdi. / Deixarei sonhos atrás de mim, ou é o automóvel que os deixa? / Eu, guiador do automóvel emprestado, ou o automóvel emprestado que eu guio? / Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a noite, / Guiando o Chrysler emprestado desconsoladamente, / Perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço, / E, num desejo terrível, súbito, violento, inconcebível, / Acelero... / Mas o meu coração ficou no monte de pedras, de que me desviei ao vê-lo sem vê-lo, / À porta do casebre, / O meu coração vazio, / O meu coração insatisfeito, / O meu coração mais humano do que eu, mais exato que a vida. / Na estrada de Sintra, perto da meia-noite, ao luar, ao volante, /Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação, / Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra, / Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim..."

A minha companheira de viagem olhava discretamente para o que estava a escrever e eu sentia que, se lhe fosse possível, leria cada letra e palavra ao mesmo tempo que as desenhava sobre as folhas de papel. Mas mantinha-se ao meu lado como se nada se passasse, a fazer-se distraída e evitando distrair-me, e nem quando eu dei por terminado o poema ela me pediu o ver. Consciente da sua curiosidade, perguntei-lhe se queria ler os versos que escrevera antes de chegarmos à estação ferroviária de Sintra ou se preferia que eu os mostrasse num local menos popular do que a carruagem em que viajávamos.

- Talvez o melhor local fosse o Palácio da Pena. Sim, era aí que eu gostaria de ler o que escreveste.

A intimidade entre mim e Beatriz crescia a olhos vistos. Se já abandonara o seu irritante comportamento de silêncio no Freixo, e tentara várias vezes tratar-me de um modo mais informal, foi a partir deste momento que a senti mais próxima. Gostei de a ouvir dizer "o que escreveste" em vez de uma outra fórmula que mostrasse menos proximidade entre dois amantes de cama. Rapidamente entendi que essa alteração no seu comportamento não se devia ao acaso e que iria ser na esplanada do palácio, de onde se via uma paisagem a perder de vista, que ela passaria da dissimulação à ação.

Enquanto escolhia o almoço, ela leu o poema que eu escrevera no comboio. Leu-o com toda a atenção e tomou até algumas notas... Reparei nesta sua atitude enquanto consultava as especialidades à disposição dos visitantes do Palácio da Pena, numa lista que incluía desde as simples sanduíches até a um mais complexo Bacalhau à Gomes de Sá ou um bife com batatas fritas, o que escolhi para ambos... Depois, consultou um livro que estava dentro da sua bolsa e sorriu... Foi aí que lhe perguntei o que se passava e que, não tendo obtido uma resposta imediata mas apenas um sorriso, ela continuou a ler o meu escrito com toda a atenção... Espreitei disfarçadamente e confirmei que enquanto lia o poema o cotejava com um outro impresso no livro que retirara da mala há pouco... Manteve-se assim por mais alguns minutos, até que o sorriso sóbrio da leitora atenta se transformou num mais rasgado e ouvi-a fazer um breve e estranho comentário.

- Estamos a ir no bom caminho. Sena tinha toda a razão!

Fomos interrompidos pela chegada dos bifes e, sem qualquer feminilidade, Beatriz atirou-se à comida com toda a voracidade. Entre uma e outra batata frita e bocados de bife, perguntei a Beatriz se iria partilhar comigo os seus pensamentos. Principalmente, questionei o que queria dizer com a afirmação "Sena tinha toda a razão". Não me respondeu à pergunta, antes desviou o tema da conversa para a beleza de Sintra e de como ela tinha impressionado o poeta Lord Byron - "Ai de mim! Qual a pena ou pincel pode reproduzir metade das suas belezas" - e o compositor Richard Strauss - "Conheço a Itália, a Sicília, a Grécia, o Egito, e nunca vi nada que valha a Pena" -, entre outras citações que foram atrasando a resposta.

Quando a refeição chegava ao fim, reafirmei a minha curiosidade e critiquei a constante ausência das suas respostas. Disse-lhe que se negara a contar-me parte da sua vida quando iniciáramos a viagem de comboio mas, mesmo assim, eu mostrara-lhe o poema. Que o examinara com todo o cuidado é verdade, mas mesmo assim não fizera comentários sobre o meu trabalho poético. Que era sempre eu a falar, e mesmo sabendo que era falso, disse-lhe que parecíamos estar a voltar aos tempos da jovem do Freixo em vez de avançarmos na relação. Estas acusações não a preocuparam, pelo contrário, riu-se de mim.

- É sempre tão apressado!

E acrescentou, para me irritar:

- Não tratava assim o Sena!

Achei que o nome do meu anfitrião estava a vir demasiadas à conversa e acusei-a de manter entre nós a sombra do desaparecido na Boca do Inferno. Alertei-a também de que tinha voltado a tratar-me na terceira pessoa e que isso não era bom sinal. Até lhe disse que se não desejasse a minha companhia, poderíamos regressar cada um por sua vez e que eu procuraria outro hotel para dormir nessa noite.

- É tão divertido vê-lo assim enervado! Acalme-se, não vê que temos muito para falar e é-me difícil começar assim de um momento para o outro.

Ainda explicou que o sorriso que me incomodava era mais um sinal do seu próprio nervoso do que uma atitude contra mim.

- Deixe-me só acabar o bife. Estava mesmo cheia de apetite e a fome não é boa conselheira.

Comi o que restava no meu prato e perdi o olhar na paisagem que, com o bom tempo que fazia, se podia observar do Palácio da Pena até bem distante. Após termos tomado o café, Beatriz deu-me a mão e convidou-me a passear. Ainda a avisei que estava em falta nas explicações que lhe pedira, respondendo-me que falaria tudo o que eu desejasse enquanto passeávamos pela floresta, no caminho em direção à vila.

Após ter ouvido as suas explicações durante esse passeio fiquei sem saber se deveria ter pressionado tanto Beatriz ou se teria preferido escutá-las quando estivesse mais preparado para saber o significado de Sena ter razão e de eu ter tido direito a uma segunda vida. De mão dada, deixámos o palácio pelo Vale das Camélias e entrámos no Parque da Pena, passeando entre várias árvores - principalmente araucárias imbricata excelsa e brasiliensis -, pinheiros de várias espécies e outros arvoredos e plantas, até chegarmos à Fonte dos Passarinhos. Foi aí que me revelou o que eu pensava querer saber e que resumo deste modo: "Inicialmente, o seu contrato com Sena tinha por objetivo ajudá-lo nas pesquisas sobre a Besta. Apesar de muito culto, Sena não tem grande capacidade para transpor as suas investigações sob forma literária. Daí ter procurado alguém que fosse capaz e o tivesse escolhido por sugestão de algum seu conhecido - não sei quem foi! Quando lá chegou, Sena apreciou o seu trabalho mas, mais do que isso, achou-o muito parecido a nível físico com o Fernando Pessoa. Com o passar do tempo, foi mais longe e percebeu que a sua mente não era assim tão diferente da do conturbado poeta. Só desconhecia era se tinha uma verve poética e um espírito perturbado como Pessoa, situação necessária para a missão a que Sena se tinha obrigado nas últimas décadas e para a qual tanto trabalhou. Mesmo não sabendo se era compatível - desculpe esta palavra - com a diversidade heteronímica do poeta, ele considerou-o apto no fim do contrato para fazer um teste que o tornaria sucessor de Fernando Pessoa. E não o fez sem ponderar bastante se estava à altura da reencarnação pessoana, tendo criado várias situações para aferir as suas capacidades mentais e criativas. Pelas quais foi passando sem problemas de maior e sempre superando as expectativas do próprio Sena."

Enquanto ouvia estas explicações, o meu cérebro praticamente paralisou de tão escandalosas que as considerava. Queriam dizer que todo o meu trabalho junto de Sena não fora mais do que um teste para saber se eu era parecido com Fernando Pessoa? Que loucura! Se já considerava que o meu anfitrião era estranho, tal como tudo no Freixo, depois de ouvir estas primeiras palavras ainda mais perplexo ficava. Mas Beatriz não me deixou fazer completar o balanço e continuou a debitar revelações: "Se fizer um regresso ao que foi o seu ano junto de Sena vai reconhecer que aconteceram muitas coisas estranhas. Dou-lhe um exemplo, o seu primeiro teste: a viagem a Londres. Foi nessa cidade que Sena confirmou os seus dotes psíquicos através de uma iniciação dentro do túnel que atravessa o fundo do rio Tamisa. E saiu-se bem, mesmo que depois não se recordasse do que verdadeiramente lhe acontecera. Não se deve lembrar porque na maior parte do tempo em que esteve junto de Sena, ele mantinha-o hipnotizado e fazia-o ouvir os relatos sobre a vida e a obra do Fernando Pessoa, inserindo-os na sua mente como se estivesse a programar um computador. O mesmo aconteceu com as sessões em que a funcionária de Sena, imitando a mulher o W.B. Yeats, lhe ditou dezenas de páginas com testemunhos de atos de magia negra e de parapsicologia acontecidos no passado para lhe incorporar o sentimento de mediunidade que Pessoa jurava ter... Por fim, mesmo que ainda falte muito para lhe contar tudo o que lhe fizeram, não foi por acidente que Sena o encarregou da recuperação da arca no leilão, é que ele queria torná-lo responsável pelo espólio do poeta e introduzir-lhe a vontade de revelar ao mundo originais que nunca viram a luz do dia e que estão na sua posse."

Ouvia as sucessivas confissões de Beatriz e cada vez ficava mais espantado com o que me tinham feito sem conhecimento e autorização durante um ano. Mas a revelação do objetivo da minha missão ainda estava para ser anunciado: "O que Sena pretende é fazê-lo passar por Fernando Pessoa." Ao escutar este desígnio, não consegui deixar de rir até me engasgar. Após ter recuperado a serenidade possível, para o que contribuiu em muito estar junto à plácida Fonte dos Passarinhos, perguntei a Beatriz se acreditava no que me estava a relatar? Ela respondeu que sim. Questionei-a sobre se alguma vez admitiram que eu não quisesse representar esse papel? Ainda acrescentei outra pergunta, se acreditavam que essa mistificação seria aceite pelas pessoas - para além dos especialistas pessoanos - quando fosse revelada ao mundo?

- Para isso é que eu cá estou! Essa é a minha missão.

Fiquei estupefacto e calei-me. Achei que era melhor deixar a conversa continuar e ouvir tudo o que Beatriz tinha sido incumbida pelo meu anfitrião de me comunicar: "Se não sabe, informo-o de que os seres humanos são muito crentes. E, temos a certeza, que após a perplexidade inicial, as pessoas acabarão por acreditar. Aliás, até começarei por lhe mostrar a si mesmo que já é o Fernando Pessoa. Diga-me porque é que escreveu durante a viagem de comboio um poema sobre a sua viagem a Sintra. Há quanto tempo não fazia versos? Não achou estranho esse desejo?"

Beatriz pegou no bloco e abriu-o nas páginas onde eu tinha escrito o poema. Perguntou se eu já alguma vez tinha lido esse poema antes? Respondi-lhe que não, que o inventara horas antes, não sabendo sequer como viera a inspiração. Ela continuou: "Foi essa súbita vontade de compor um poema que confirma que as artes ocultas de Sena funcionaram como ele garantia que iriam acontecer. Sabe que o Fernando Pessoa escreveu um quase igual em 1928, assinado pelo heterónimo Álvaro de Campos? Comparei-o com o original e confirmei que é igualzinho palavra por palavra, à exceção de que ao escrevê-lo cometeu um único erro: o poema chama-se Ao Volante do Chevrolet pela Estrada de Sintra e não Ao Volante do Chrysler pela Estrada de Sintra. Mas, essa confusão deve-se a ter um Chrysler e ainda não ter cristalizado todos os ensinamentos que lhe foram transmitidos por Sena. O que será apenas uma questão de dias, garanto-lhe."

Não queria acreditar no que Beatriz estava a contar. Só que ao ver o livro onde estava o poema escrito por Álvaro de Campos fiquei sem argumentos. Realmente, eu escrevera uma poesia em tudo igual à da do heterónimo de Pessoa! E tinha a certeza de que nunca lera tal poema, nem jamais seria capaz de fixar verso a verso o que outros escreveram para o reproduzir como meus.

Beatriz olhou-me e viu como eu estava baralhado. Abraçou-me e repetiu que estava junto de mim para me ajudar a cumprir a missão.

- Não será difícil. Todos gostariam que Fernando Pessoa tivesse uma segunda vida e vão ficar tão satisfeitos que o reconhecerão como tal.

Ainda havia algo mais para eu saber, já que a revelação estava incompleta. Por mim, tão espantado estava, teria ficado satisfeito com o que me fora dito: "Como seria pouco crível que se intitulasse Fernando Pessoa, ou qualquer um dos heterónimos mais famosos, como Álvaro de Campos, Ricardo Reis ou Bernardo Soares, Sena decidiu escolher um que ficou pelo caminho: Vicente Guedes. Para que não se sinta diminuído, informo-o de que foi a este heterónimo que Fernando Pessoa atribuiu primeiramente a autoria do Livro do Desassossego em 1915 e que só em 1929 é que o entregou a Bernardo Soares."

Como querendo criar uma metáfora para o meu (re)nascimento, Beatriz enfiou a mão na água da fonte e disse:

- Eu te batizo Vicente Guedes, herdeiro de Fernando Pessoa.

Abraçou-se a mim e sussurrou o meu novo diminutivo.

- Vicentinho... Tens tantos poemas originais à tua espera que não precisarás de copiar os dos outros heterónimos. Vais ser tão famoso!

Antes de me desabraçar, sussurrou de novo o meu diminutivo, acrescentando um pedido.

- Vicentinho... Gostava que deixasses crescer o bigode e passasses a usar um chapéu.

E não é que Beatriz tinha razão. A cada manhã que acordava na cama do Hotel Francfort era mais um dia em que me sentia menos eu e mais o poeta. Ela dera-me uma coleção de textos onde Pessoa descrevia o heterónimo enquanto acreditara na sua força criativa e eu ia apreendendo a nova personalidade. Diziam assim: "O meu conhecimento com Vicente Guedes formou-se de um modo inteiramente casual. Encontrávamo-nos muitas vezes no mesmo restaurante retirado e barato. Conhecíamo-nos de vista; descaímos, naturalmente, no cumprimento silencioso. Uma vez, que nos encontrámos à mesma mesa, tendo o acaso proporcionado que trocássemos duas frases, a conversa seguiu-se. Passámos a encontrarmo-nos ali todos os dias, ao almoço e ao jantar. Por vezes saíamos juntos, depois do jantar, e passeávamos um pouco, conversando. Vicente Guedes suportava aquela vida nula com uma indiferença de mestre. Um estoicismo de fraco alicerçava toda a sua atitude mental. A constituição do seu espírito condenava-o a todas as ânsias; a do seu destino a abandoná-las a todas. Nunca encontrei alma, de quem pasmasse tanto. Sem ser por um ascetismo qualquer, este homem abdicara de todos os fins, a que a sua natureza o havia destinado. Naturalmente construído para a ambição, gozava lentamente o não ter ambições nenhumas. (...) ...este livro suave. É quanto resta e restará duma das almas mais subtis na inércia, mais debochadas no puro sonho que tem visto este mundo. Nunca - eu o creio - houve criatura por fora humana que mais complexamente vivesse a sua consciência de si própria. Dandy no espírito, passeou a arte de sonhar através do acaso de existir. Este livro é a biografia de alguém que nunca teve vida... De Vicente Guedes não se sabe nem quem era, nem o que fazia, nem (...) Este livro não é dele: é ele. Mas lembremo-nos sempre do que, por detrás de tudo quanto aqui está dito, coleia na sombra, misterioso. Para Vicente Guedes ter consciência de si foi uma arte e uma moral; sonhar foi uma religião. Ele criou definitivamente a aristocracia interior, aquela atitude de alma que mais se parece com a própria atitude de corpo de um aristocrata completo. (...) As misérias de um homem que sente o tédio da vida do terraço da sua vila rica são uma coisa; são outra coisa as misérias de quem, como eu, tem que contemplar a paisagem do meu quarto num 4.° andar da Baixa, e sem poder esquecer que é ajudante de guarda-livros. «Tout notaire a rêvé des sultanes»... Tenho um prazer íntimo, da ironia do ridículo imerecido, quando, sem que alguém estranhe, declaro, nos atos oficiais, em que é preciso dizer a profissão: empregado no comércio. Não sei como inserto o meu nome vem assim no Anuário Comercial.

[assinado]

Guedes (Vicente), empregado no comércio, Rua dos Retroseiros, 17 - 4.°"

A minha rotina alterara-se radicalmente. Agora, enquanto deixava crescer o bigode, e de chapéu sempre sobre a cabeça, ia sentar-me no Martinho da Arcada. Havia quem nem reparasse, mas eram muitos os que se divertiam com a minha presença ali, tão parecido que era com o poeta que frequentara o estabelecimento várias décadas antes. Escolhera aquele local para beber um licor de absinto e ser apanhado em flagrante delitro, situação que não desagradava aos proprietários do café. Pelo contrário, apadrinhavam a minha presença porque lhes gerava alguns lucros extra. Aliás, quando se aperceberam que a minha presença os colocava em rivalidade direta com a Brazileira, onde uma manada de turistas desembocava diariamente e de propósito para tirar fotografias junto à réplica metálica do poeta, passaram a oferecer-me o absinto e a manter reservada uma mesa estrategicamente colocada. Não me incomodavam por passar longas horas ali sentado, nem quando nada bebia do cálice e da garrafa que eram logo postos à minha disposição. A única pergunta que me foi feita era a de se não preferiria beber antes um vinho tinto, decerto porque era mais condizente com o passado do poeta. Respondi-lhes somente que Vicente Guedes optara pelo licor em vez do vinho.

O meu interesse ao sentar-me no Martinho da Arcada era apenas um, ter uma paisagem para pensar. Enquanto observava o rio em frente ao Cais das Colunas, pensava a minha nova existência e intervalava esta ocupação com a leitura de alguns trabalhos ensaísticos sobre Fernando Pessoa e a sua obra, bem como a dos heterónimos e ortónimos. Não lia esses livros sem os encapar com uma folha de jornal, evitando assim que quem passasse soubesse o que eu estava a fazer. Queria conhecer-me melhor, saber o que sobreviera ao tempo em que o meu heterónimo fora importante para o poeta e criar o esqueleto que suportasse a nova personagem.

Acreditava que a minha missão seria bem-sucedida, visto que a minha presença era desejada por todos os que me descobriam no café, mesmo que ao princípio pensassem que eu era mais um dos artistas que enchiam a vizinha Rua Augusta com imitações de figuras conhecidas ou em performances que lhes garantiam o sustento. Cheguei mesmo a falar com alguns desses artistas enquanto caminhava entre o Hotel Francfort e o Martinho da Arcada, já que esses - os mais receosos sobre a concorrência - chamavam-me e questionavam se a minha vida estava a correr bem com a imitação que fazia do poeta. A todos dizia que sim, trocando algumas palavras desinteressadas, mas sem esclarecer que não era um dos da sua espécie. Afinal, eu era o Poeta.

Na maior parte dos dias, sentava-me bem cedo à minha mesa. A meio da manhã, chegava Beatriz, que me fazia companhia durante algumas horas. Almoçávamos qualquer coisa e ela partia, enquanto eu ficava a remoer o Vicente Guedes. Quando esgotei o que havia de bibliografia e deixei de encontrar particularidades na paisagem que ainda fossem desconhecidas, perguntei-lhe o que se seguiria?

- A vida é sua. Está tudo nas suas mãos.

Fiquei satisfeito com a resposta, até porque queria iniciar esta segunda vida que me tinha dada, e ao poeta também, mas fiz-lhe ver que sem me entregar o conteúdo da arca com os inéditos do Fernando Pessoa eu nada poderia fazer. Já lhe dissera que escrever poemas de minha autoria seria uma empresa quase impossível e que copiar ou adulterar poesias de outros não estava nos meus planos.

- Claro, até porque não era esse o plano de Sena.

Ao ouvir da sua boca a palavra "era" sobre a vontade do meu anfitrião, decidi ganhar coragem e perguntar-lhe pela situação de Sena.

- Ele não teve a mesma sorte que o Vicente. Ao atirar-se para a Boca do Inferno aconteceu-lhe o que era previsível: morreu.

Um primeiro arrepio percorreu-me a espinha e, logo a seguir, um segundo calafrio repetiu essa sensação muito física. Ganhei consciência da minha situação, de que neste momento estava nas mãos dela e que, se fosse honesta, tudo correria de acordo com o plano pensado por Sena. Mas, se o não fosse, tornar-me-ia uma marioneta dos seus caprichos! O conhecimento que tinha de Beatriz fez pender a minha crença para a primeira opção, a de que seria fiel aos desejos do falecido.

- Volto a dizer-lhe que está tudo nas suas mãos. Diga-me o que pretende fazer e eu dir-lhe-ei se é possível executar de acordo com a sua vontade.

Mais uma vez ouvia-a falar comigo como o senhor isto e o senhor aquilo em vez de me tratar por tu ou pela forma carinhosa de Vicentinho. Deveria significar que estávamos a tratar de assuntos importantes e que se exigia a si própria algum distanciamento. Sugeri-lhe, então, que me desse 24 horas para pensar no próximo passo e que no dia seguinte acertaríamos as nossas vidas.

Quando eu lhe disse que "acertaríamos as nossas vidas", expressava-me assim porque estava plenamente consciente de que Beatriz estaria ligada durante bastante tempo à minha vida e que Vicente Guedes só se emanciparia quando estivesse a cem por cento induzido da personalidade do heterónimo. Recordei uma parte da biografia que Pessoa escrevera sobre esta sua personalidade para me certificar dos próximos passos, aquela em que diz: "As misérias de um homem que sente o tédio da vida do terraço da sua vila rica são uma coisa; são outra coisa as misérias de quem, como eu, tem que contemplar a paisagem do meu quarto num 4.° andar da Baixa, e sem poder esquecer que é ajudante de guarda-livros."

Era um parágrafo que me esclarecia bem o facto de ser necessário esvaziar-me da minha vidinha de ajudante de guarda-livros - mesmo que na vida real tivesse sido professor até há bem pouco tempo - e da necessidade de dar o salto. Olhei o Tejo e pensei no poema que conhecia desde pequeno e que dizia que "O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia. Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia. Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia". Ora, eu estava mesmo em frente ao Tejo, mas não era este o rio que eu queria ver correr, antes o da minha aldeia! Ou seja, disse para mim próprio, repetindo o tom amoroso de Beatriz: Vicentinho, chegou o momento de ires ver o rio que corre pela tua aldeia e deixares de ficar a observar o rio dos lisboetas.

Foi, então, que olhei olhos nos olhos Beatriz e lhe disse que estava na hora de darmos início à nossa viagem.

- O que quer dizer com isso?

Mesmo que perturbado com esta continuada forma de se me dirigir, principalmente numa altura em que eu mais do que nunca necessitava do seu apoio, respondi-lhe com o pensamento que elaborara sobre o Tejo e a minha aldeia. Como Beatriz não alcançou o significado da metáfora, pois escutara os versos com o peso poético do poeta e não com o significado que eu lhe quisera dar, fui mais direto e expliquei-lhe que iríamos viajar por algum tempo. Até ser o tempo de voltar e assumir o Vicente Guedes de forma clara, deixando-me de copos de absinto no Martinho da Arcada e de leituras sobre as várias facetas do poeta.

A jovem ficou a olhar para mim e pediu-me que trocasse por miúdos as minhas intenções. Sentindo que era o momento de a chantagear, de modo a saber um pouco mais da vida de Beatriz, coisa que tanto eu desejava, só lhe disse que faria a revelação depois de ela se me desvendar.

- O Vicentinho gosta de se aproveitar das situações, mas olhe que eu não sou nenhuma pateta.

E acrescentou que contaria a história que eu tanto queria ouvir logo que partíssemos. Não era agora, explicou, o momento para estar a falar de pormenores quando se preparava o lançamento da minha segunda vida.

- Como creio que vamos viajar, terei tempo para lhe contar tudo.

Em seguida, disparou a pergunta essencial: o destino. Tive que lhe confessar que ainda não o pensaram mas que o poderíamos decidir imediatamente se fosse essa a sua maior curiosidade.

- E não seria também a sua se fosse eu a dizer-lhe que estávamos de partida?

Tinha razão, mesmo que a estada no Freixo me tivesse congelado a vontade de fazer perguntas sobre o meu futuro e que, desde a experiência de quase um ano a trabalhar para Sena, aguardasse mais por ordens de outros do que de mim. Mas chegara o momento de ser eu a tomar a iniciativa e, assim sendo, decidi iniciar essa nova fase convidando-a a até ao lugar aonde eu anunciaria o nosso destino.

Após olhar uma última vez para a mesa onde me detivera tantos dias, encaminhámo-nos para a Rua Augusta. Percorremos a rua até ao fim, atravessámos o Rossio e metemo-nos pelas Rua das Portas de Santo Antão, até chegarmos à porta que dava entrada na Sociedade de Geografia de Lisboa. Dirigi-me à receção e perguntei-lhes se tinham um globo terrestre? O funcionário olhou-me com alguma estranheza, talvez por não esperar a visita de Fernando Pessoa em pessoa, mas rapidamente recuperou, levando-nos até ao salão contíguo, onde se encontrava a reprodução esférica do planeta que eu procurava.

Beatriz ficou a olhar atentamente para todos os meus gestos. Experimentei rodar o globo e este suavemente se pôs às voltas. Funcionava bem, pensei, o que facilitaria a tarefa. Então, disse a Beatriz o que se iria passar: eu faria rodar o globo e, de olhos fechados, ela poria o dedo sobre a superfície e a terra que calhasse seria o nosso destino. Olhou-me incrédula e foi preciso que eu insistisse para aceitar o desafio.

O processo de escolher o nosso destino poderia não ser o mais sensato mas eu era incapaz de decidir por mim o próximo passo a dar. Antes de Beatriz aceitar partilhar o seu papel neste meu pedido, disse-lhe que Fernando Pessoa jamais o faria; talvez Bernardo Soares tivesse dificuldade em se decidir; Álvaro de Campos duvidasse do método e Ricardo Reis nunca avançasse numa loucura destas, mas seria como Vicente Guedes agiria. Pelo menos o Vicente Guedes que eu estou a criar e que estava cansado de ser o empregado comercial que Pessoa obrigara a viver num quarto andar do número 17 da Rua dos Retroseiros. Esse merdoso vai ser um herói e, como os nossos grandes heróis, vai abandonar o país e reencontrar-se. Depois, voltará e será reconhecido. É assim que gostam, é isso que lhes vou dar.

- Se é o seu desejo Vicentinho, vou apontar o dedo sobre o globo e o diabo que escolha!

Antes de pôr a bola terrestre a rodar, com Beatriz de dedo espetado, reparei que o salão da Sociedade de Geografia de Lisboa se enchera de pessoas vindas de outras divisões do edifício, curiosas sobre o que estava a acontecer. Notei que acompanhavam tudo o que dizíamos e fazíamos e, fundamentalmente, pretendiam conhecer em primeira mão o desfecho de uma escolha feita de modo muito pouco habitual. Houve mesmo um velho militar que disse em voz alta que desde os tempos do Serpa Pinto e do Capelo Ivens que não se assistia na Sociedade a uma atitude tão corajosa como a que presenciava. Achei que estava a exagerar, mesmo que a idade do senhor lhe permitisse fazer essa afirmação com alguma verdade histórica... Aliás, foi ele que minutos depois de se ter sabido o nosso destino fez questão de nos entregar um opúsculo, com um ar bem antigo, que continha a descrição detalhada do local para onde iríamos.

A bola rodou a grande velocidade tão forte foi o empurrão que lhe dei. Beatriz mantinha-se especada e de dedo pronto a apontar mal o globo diminuísse a corrida em que eu o pusera. Exigi-lhe que fechasse os olhos e encaminhei-a para bem próximo da Terra em rotação, sentindo nas minhas mãos a erótica sensação das suas costas. Beatriz mantinha-me o desejo pelo seu corpo sempre vivo, fosse ela a mulher submissa quando entrara na minha vida e se pusera à disposição como uma escrava, fosse agora como uma igual. O corpo da mulher que eu encaminhava em direção ao globo era o mesmo que se despira as vezes que eu sugerira no quarto da casa do meu anfitrião e me satisfizera como nunca outro antes fizera, só que numa postura diferente. Já me perguntara se a preferia na versão anterior ou nesta algumas vezes, e encontrara respostas diferentes conforme a ocasião em que me questionara. Por um lado, gostava de lhe dizer faça isto ou aquilo e não sentir qualquer indecisão. Por outro lado, apreciava esta sua atitude madura que encontraria em qualquer relacionamento normal, mesmo que mantivesse muitos dos resquícios de escravidão sexual. Acreditava que ainda a iria reencontrar numa outra versão um dia destes e, talvez, essa terceira fase surgisse dentro de momentos com a indicação do lugar para onde iríamos. Talvez...

Empurrei-a até à distância suficiente para que o esticar da sua mão permitisse ao dedo apontar o nosso destino geográfico. Ao ver que o globo já rodava a menos velocidade, disse-lhe para manter os olhos fechados e estar preparada para o gesto final. Segundos depois, fi-la sentir a pressão dos meus dedos nas suas costas e ela espetou o dedo sobre a superfície do globo. Foi a vez de trocarmos de situações, enquanto ela abria os olhos eu os fechava, porque queria ser surpreendido pela sua escolha aleatória, sem antecipar o continente ou o país que a menor velocidade da esfera permitiria adivinhar.

- Vicente! O nosso destino é a Baía da Traição.

O nome que anunciou nada me dizia. Baía da Traição? Onde fica? O que é?

Todos no mesmo barco: Proust, Joyce, Hemingway, Torga...

O navio que aguardava pelos passageiros no cais era enorme e elegante. Bem diferente dos velhos paquetes atarracados, ressaltando logo à primeira vista as suas linhas aerodinâmicas próprias dos grandes navios modernos. Passada a burocracia do cais com a confirmação das passagens e identidade dos viajantes, demos por nós a passear no convés do 13.º andar, onde uma pista para os passageiros se exercitarem percorria toda borda desse piso do navio numa longa elipse. E nós fizemo-nos a ela em passo lento, mesmo antes de ir ver o camarote que nos teria calhado. Era um procedimento estranho porque a maior parte dos que entravam neste porto optaram por ir conhecer as acomodações, mas Beatriz preferira ver a vista primeiro, pois sabia que o quarto era bom e isso não a preocupava. Creio que o receio dela era mais em relação ao gigantismo do navio do que à comodidade do camarote, não sem alguma razão pois seguir-se-iam vários dias de viagem transatlântica ali presos e essa situação preocuparia qualquer viajante na sua primeira travessia.

Ainda não tínhamos percorrido meio navio quando deparámos com um passageiro que nos pareceu conhecido. Estava vestido de um modo excêntrico e cofiava um bigode maior do que o meu, de extremos capilares compridos e afiados, enquanto observava a cidade atentamente. Abrandámos o ritmo do passeio e ficámos a olhá-lo, tentando identificar a personagem que mais parecia saída do princípio do século anterior do que deste. Havia nele alguma coisa de Eça de Queiroz, se bem que o escritor português fosse mais baixo e magro do que aquele que nos chamava a atenção. Diga-se que este meu reparo era um pouco deslocado, visto que a minha adaptação à personagem de Fernando Pessoa também me transportava para um tempo mais antigo do que aquele em que realmente vivia e o meu bigode não cumpria os cânones exigidos pela moda. Retomámos o nosso andamento e continuámos a descoberta do navio até regressarmos ao mesmo local, onde ainda se mantinha o homem, na mesma situação e a olhar para Lisboa. Só alterara a sua atitude, porque em vez de estar apenas em observação, apercebemo-nos disso enquanto os aproximávamos dele, rabiscava algo num bloco que retirara do bolso do seu casaco. Sugeri a Beatriz que o interrompêssemos nas suas observações e que lhe perguntássemos diretamente quem era? Ela não estava tão curiosa como eu, mas aceitou estabelecer o primeiro conhecimento com um passageiro, até porque teríamos de conviver com gente desconhecida mal o navio zarpasse da capital e assim sendo - disse - não havia uma razão racional para não se o fazer com o navio ainda atracado.

Não nos aproximámos imediatamente de quem decidíramos que iria ser a nossa primeira amizade no navio tal era o afã do passageiro em tomar notas. O sujeito andaria pelos trinta e poucos anos, era decididamente elegante e - apostámos - seria francês. Tudo o indicava, se bem que houvesse nele uma característica percetível de judeu e alguma afetação pouco masculina nos seus modos, coisas que - concordámos - seriam normais num cidadão de França. Também tudo indicava que seria dado às letras ou ao desenho, já que continuava a exercitar uma destas artes no referido bloco há bastantes minutos, os suficientes para termos dado uma segunda volta ao enorme convés do navio antes de nova aproximação ao passageiro.

- Deve ser bastante mimado, daqueles que não adormecia sem um beijo da mãe!

A declaração de Beatriz surpreendeu-me por ser inesperada. Como é que ela era capaz de deduzir ou desdenhar uma situação destas, tão pessoal, só de o olhar durante uns minutos.

- Até aposto que a mãe deverá ser o modelo para a sua vida emocional. Provavelmente, estará a fazer um desenho ou a escrever uns versos para enviar à sua mamã e não vai deixar partir o navio sem enviar a lembrança para França dentro de uma carta perfumada.

Continuava cáustica. Ainda me disse que com toda a certeza o francês iria obrigar um funcionário do navio a ir até ao posto dos correios mais próximo e atrasaria a partida. Expliquei-lhe que este tipo de navios não espera um minuto sequer e que se a largada estava marcada para as cinco da tarde, era exatamente nessa hora que partiríamos.

- Ora, veremos. Dá mais uns minutos.

Quis contrariar a sina que Beatriz tinha imposto àquele passageiro e, pegando-lhe no braço, levei-nos até ao homem. Fiz um ruído com a boca para que reparasse em nós e apresentei-me: Beatriz e Vicente Guedes. O homem - confirmámos que escrevia uns versos na folha onde já desenhara uma flor - ficou surpreendido mas rapidamente recuperou.

- Boa tarde. Conhecemo-nos?

Respondi-lhe que não, mas como iríamos partilhar o navio queríamos apresentar-nos.

- Com todo o prazer. Sou Marcel Proust... Escritor.

Fiquei imóvel e sem reação durante uns segundos, os suficientes para me recompor e, no entretanto, recuperar as memórias que tinha do autor de Em Busca do Tempo Perdido. Revi mentalmente algumas fotografias que o retratavam em mais velho e acreditei que se não estava perante o famoso Proust, só poderia tratar-se de uma boa réplica. E seguiu-se da nossa parte aquilo que os escritores estão cansados de ouvir, alegar que apreciávamos muito a sua obra e, para dar um tom mais real, de que este era um encontro inesperado.

- Tem toda a razão e até lhe posso dizer que se me perguntasse há seis meses se pensava fazer esta travessia do Atlântico responderia que estava bem enganado.

Visivelmente apressado, pediu-nos desculpa por se ter de ausentar mas necessitava de entregar na receção do navio uma carta que acabara de escrever, de modo a que seguisse o mais breve possível. Beatriz sorriu com esta resposta.

- Acredito que nos vamos ver dentro de poucos minutos, mas vou-vos apresentar um nosso companheiro de viagem, com quem poderão conversar até que eu regresse.

Olhámos para trás e confirmámos que alguém se aproximava, com um discreto sorriso a formar-se forçadamente debaixo de um outro bigode. Mais uma vez tive a sensação de reconhecer o vulto que se dirigia para o alegado Marcel Proust, mas duvidei da sua possibilidade. O francês apresentou-nos e, antes de virar costas para entregar a correspondência ao funcionário do navio, o recém-chegado deu um beijo a Beatriz e esticou o braço para me dar um aperto de mão.

- Muito prazer em vos conhecer. Sou James Joyce... Escritor.

A minha suspeita confirmava-se! Após a surpresa causada pela presença a bordo do importante autor francês era a vez de uma outra, a do importante irlandês. Não resisti a dizer-lhe que já lera o seu Ulisses e que gostara muito.

- Já vi que está adiantado no meu próprio tempo. Eu ainda não escrevi essa obra mas sei que a vou escrever logo após terminar o Retrato do Artista Quando Jovem. Estou mesmo a acabar este livro, talvez o deixe pronto durante a viagem se me derem tempo suficiente para rever algumas partes que não contêm a irreverência necessária que lhes quero impor.

Tão estranha conversa manteve-se durante mais alguns minutos, até que Joyce se desculpou com compromissos inadiáveis para se ausentar.

- Mas deixo-vos em boa companhia. Virginia encaminha-se para nós. Vão ver que é uma pessoa extremamente interessante, apesar de não ser muito faladora enquanto não vos conhecer melhor.

Realmente, ou era Virginia Woolf ou o diabo por ela. Aquela cara ossuda e o cabelo comprido apanhado num rabo-de-cavalo que a tornavam inconfundível em qualquer antro de escritores ou rua londrina de outros tempos... Uma época em que dissera que para uma mulher se tornar escritora "necessitava de ter dinheiro e de possuir um espaço só seu". Também conhecia os seus livros, até porque lera O Farol antes de ir para o Freixo, um romance que se passava num cenário autobiográfico de umas férias de verão em meio a crises de depressão que a levariam mais tarde ao suicídio! E aqui estava ela, sorrindo nervosamente perante um casal que Joyce lhe pedira para entreter enquanto ele iria, talvez, continuar as revisões do seu Retrato a publicar brevemente.

Virginia Woolf praticamente não proferia palavra e fui eu a fazer a despesa da conversa, referindo algumas das suas obras, com destaque para a biografia que um cão lhe inspirara e que a tornou no primeiro escritor sério a escrever este género de livro.

- Desculpe-me, mas ainda não escrevi esses livros. Mas, já agora digo-lhe que a ideia do cão não é nada má!

Era a segunda vez que os viajantes com quem falávamos respondiam deste modo: ainda não tinham escrito os livros que os imortalizaram. O que me fez pensar em que ficção estaríamos envolvidos após a entrada neste navio? Enquanto procurava forma de continuar a conversa com a silenciosa escritora - via-se que não estava à vontade com os dois desconhecido a quem Joyce a entregara -, olhei para trás para confirmar se se aproximava alguma outra figura das letras, situação que se repetia desde que Proust iniciara o desfile de famosos da literatura. Principalmente, existia em mim curiosidade para saber se teria direito a conversar com o grande amigo de Virginia Woolf, o polémico Lytton Strachey, e se seria ele o próximo membro deste carrossel literário a aparecer no convés do navio. Não, não se vislumbrava personagem alguma famosa, a não ser uma silhueta de mulher que vinha ainda distante o suficiente para ser reconhecida como Virginia Woolf.

- Vou ter que ir até ao camarote preparar a toilete para o jantar. Não se importam que eu vos apresente uma amiga que também viaja connosco?

Não, era a única resposta a dar-lhe, até porque, além de curiosos sobre a próxima personagem, compreendíamos que Marcel Proust colocara os outros escritores perante a responsabilidade inconveniente de nos entreterem. Uma situação que mesmo não lhes competindo, se tornara atraente para nós! Com um pé já de fugida, Virginia Woolf passou a tarefa para outra escritora, que surgira a coberto de uma capa negra que lhe cobria os cabelos e uma camisa que lhe descobria um pouco o contorno do peito cada vez que a écharpe revolteava com a brisa.

- Eis Jane Austen, decerto que gostarão de a conhecer.

Neste caso, eu fazia par com Beatriz, que até agora não reconhecera fisicamente qualquer das personagens que nos eram apresentadas. Apertámos as mãos e fiz um trocadilho com um dos seus primeiros livros, evitando a resposta já ouvida de "ainda não escrevi esse romance", dizendo-lhe que era com orgulho e sem preconceito que a cumprimentava. Austen, após digerir a sonoridade do meu inglês, sorriu delicadamente com a brincadeira que eu fizera com o título do seu livro Orgulho e Preconceito. Em seguida questionei-a sobre se tinha tido tempo de descer do navio e percorrer algumas avenidas de Lisboa que, enfatizei, seriam muito do seu agrado. Acrescentei que tinha conhecimento de que as capitais não lhe eram os locais mais apetecíveis para conhecer mas que Lisboa era bastante diferente da Londres que em tempos tanto criticara nos seus livros.

- Infelizmente, não estou em condições de passear porque o meu médico proibiu-me de expor a qualquer corrente de ar ou temperaturas baixas. Se o destino do navio não fossem os trópicos, decerto que teria permanecido em casa a terminar o meu próximo romance, The Elliots.

Via-se que Jane Austen estava fraca, daí que educadamente tenha sido eu a devolvê-la à paz do seu camarote. Afinal, deveria ter vindo apenas respirar um pouco de ar puro e ver o possível da paisagem lisboeta enquanto as amarras não eram largadas. Após Austen nos ter abandonado, confessei a Beatriz que não entendia o que acontecera nos últimos instantes e o que significava este círculo de personagens famosas que desfilavam perante nós. Beatriz, que estava de costas viradas para o cais, anteviu que a situação ainda não terminara.

- Se desejas uma explicação para isto, Marcel Proust está de regresso. Podes perguntar-lhe o que se passa neste navio.

Realmente, Marcel Proust caminhava em nossa direção, interpretando a sua composição de dandy enigmático na perfeição. Deveria ter conseguido que lhe enviassem a carta para a mãe antes de o navio partir e essa sensação de felicidade transparecia-lhe na cara. Afiava as pontas do bigode do lado esquerdo enquanto olhava a paisagem e, em paz, aproximou-se de nós.

- É muito bonita esta cidade!

Não disse mais nada nos muitos segundos que seguiram, até decidir comentar um pormenor sobre a saúde de Jane Austen.

- Ela não sabe bem do que sofre mas vai-lhe ser fatal. Nem sei se conseguirá viver o tempo suficiente para ver o seu próximo livro publicado! Segundo me disse um amigo meu que é conhecido do seu médico, Austen poderá ter um linfoma de Hodgkin ou, pateticamente, ter contraído uma gripe bovina através do leite... Coitada, deixará por completar um livro, mesmo que ainda consiga escrever uma dúzia de capítulos...

Proust falava aos soluços, deixando a interpretação de situações futuras ao bel-prazer de cada um. Pelo que disse a seguir, talvez considerasse que Beatriz e eu fazíamos parte do grupo de escritores que se reuniam no navio.

- É o único escolhido em Lisboa ou terá companhia de outros escritores?

Fiquei sem saber o que responder a Marcel Proust. "O único escolhido?" Era então isso que estava a acontecer neste transatlântico, uma reunião de "escolhidos"? Foi Beatriz que decidiu pedir explicações ao francês sobre o filme em que estávamos metidos, tendo feito uma pergunta que, entretanto, Marcel Proust interrompeu sem qualquer educação.

- Aí vem uma pessoa que devem conhecer. É o nosso mestre-de-cerimónias! Infelizmente viaja sem a mulher, que nos divertiria ainda muito mais. Meus senhores: F. Scott Fitzgerald.

Olhámos para trás e confrontámo-nos com o escritor norte-americano. Decididamente, a situação estava a descontrolar-se mesmo se eu, que me autonomeara Vicente Guedes e sucessor de Fernando Pessoa, não tivesse autoridade moral para fazer qualquer julgamento sobre este desfile de estrelas que ia fazer-se ao mar dentro de instantes. Pensei para mim que estaríamos a entrar num campo de concentração marítimo para escritores famosos e que haveria uma explicação plausível para o que acontecia que não nos fora adiantada. Até porque Proust deu a mão a Fitzgerald, assobiou como se estivesse a chamar os outros, que de um momento para o outro surgiram no convés, e partiram num animado grupo em direção ao salão onde seria servido o jantar.

- Esperamo-los na mesa 24 do Salão Nobre para jantarem connosco.

Ainda faltavam duas horas para honrar o convite, tempo que utilizámos para assistir à partida do navio. Enquanto olhávamos para a cidade a ficar para trás, evitámos comentar o que tinha acontecido desde que decidíramos ir passear pelo convés superior e nos tínhamos confrontado com a aparição de um bando de escritores já falecidos. Decerto que haveria uma explicação para esta situação e que não faria parte do sobrenatural, afinal os dotes mágicos de Sena foram afogados na Boca do Inferno - não esquecer os de A Besta com a sua morte natural -, e Beatriz era despojada de tais capacidades. Aliás, ela própria encontrava-se mais surpreendida do que eu e queria que lhe desse uma explicação.

- O Vicente conhecia-os a todos e até fez conversa com cada um.

Lá estava Beatriz a tratar-me por senhor! E de novo um velho pensamento atravessou-me o cérebro, de que poderia ter chegado o momento de a chantagear outra vez para saber a história da sua vida. Se estava assim tão ansiosa por saber o que se passava com este erguer das campas de tantos escritores, eu poderia prometer-lhe um esclarecimento desde que me fizesse a sua própria revelação. Era o momento apropriado para tal e desafiei-a a fazê-lo.

- Não é muito educado da sua parte fazer-me isto logo agora. Não sei se aceitarei esta manipulação...

Vi que tinha acertado no seu ponto mais fraco: a curiosidade. Beatriz desviou o olhar de mim e ficou por vários minutos a ver a cidade que se ia embrulhando numa certa neblina de fim de tarde. Imitei-a na observação de Lisboa a desaparecer, certo de que Beatriz iria contar-me um pouco da sua história. Mas Beatriz permaneceu muda e parecia não estar disposta a denunciar-se. O seu olhar vazio manteve-se durante mais algum tempo até recuperar e desafiar-me.

- Preferiria fazer amor com o Vicente no nosso camarote do que estar com conversas parvas.

E, para aguçar o meu desejo, acrescentou.

- Se não o deixar satisfeito, obrigo-me a contar tudo neste mesmo convés amanhã após tomarmos o pequeno-almoço. Juro!

Dei-lhe o braço e fomos conhecer o nosso quarto com vista para o mar. Mais uma vez, Beatriz adiara a revelação.

O jantar não nos poderia surpreender mais do que imagináramos, mas foi isso que aconteceu. Apesar de F. Scott Fitzgerald estar sem a companhia da mulher Zelda, a sua capacidade inventiva mantinha-se e a festa que se seguiu à refeição só terminou a altas horas da noite, depois de muito se dançar na pista do bar no último andar do navio. Foi nessa noite que conheci mais um pouco de Beatriz porque, a exemplo de todos os membros do grupo de escritores mortos, também foi para além do nível de ingestão de bebidas que suportava e embebedou-se ferozmente. Incapaz de a acompanhar na frenética atividade do grupo, que ora dançava na pista interior, ora o fazia no convés ao ar livre, enquanto um ou outro aproveitava para vomitar, Beatriz acabou por me esquecer e acabar entre as mãos atentas de Ezra Pound e de um enciumado T.S. Elliot, que a disputava ao poeta modernista norte-americano. Não me preocupei com a entrega de Beatriz a estes devaneios, até porque havia tanto dela que eu desconhecia e esta seria uma boa forma de tomar conhecimento da personalidade que escondia com o seu comportamento sempre tão regular.

Reparei que alguém se sentara ao meu lado no balcão do bar e olhei para ver quem seria a figura que abandonara o grupo. Nada menos do que Ernest Hemingway! Fiquei sem saber se se sentara perto de mim para conversar ou se porque esse lugar era o único vazio. Fosse qual fosse a razão, ele meteu conversa comigo, querendo saber o que fazia no navio.

- Você não embarcou connosco em Portsmouth?

Respondi-lhe que não, que embarcara em Lisboa, sendo o meu destino o Brasil.

- Desculpe a pergunta que lhe fiz, mas o Scott apresentou-o como um nome e você disse que tinha outro. Fiquei curioso sobre quem realmente era, pois não entendi patavina da explicação.

Realmente assim acontecera. F. Scott Fitzgerald levara-me até ao topo da mesa, onde era o seu lugar, e dissera em alta voz: "Senhores e senhoras, temos a honra de receber um dos mais importantes poetas da literatura mundial: Fernando Pessoa. Ficara tão surpreendido com o anúncio que demorei alguns segundos a digerir o olhar maravilhado dos convivas à mesa, mas logo corrigi que era Vicente Guedes. A reação que se seguiu fora de surpresa, tendo sido a intervenção de Marcel Proust que esclareceu a dúvida que se instalou em que um se interessara por mim: "Para os que não sabem, Fernando Pessoa criou vários heterónimos e este nosso amigo é um deles." O americano ficara curioso sobre a invenção heteronímica de Fernando Pessoa, de quem nunca ouvira falar apesar de ter andado pela Península Ibérica durante alguns tempos. Disse-me que, principalmente bebia uns copos no intervalo das touradas a que assistia e que fizera um conjunto de reportagens para justificar o dinheiro que recebia por esse trabalho.

- Foi uma época maravilhosa, daquelas que um homem só tem a sorte de encontrar uma vez na vida. Eu fui uma exceção, porque depois da Guerra Civil espanhola ainda apanhei pela frente a Guerra Mundial. Grandes tempos!

Achei que a sua curiosidade sobre mim desvanecera-se mal se lembrou de quem era. Contou-me mais umas histórias da sua passagem pela península e, entre dois copos, lembrou-se da razão que o fizera sentar-se.

- Confesse lá, é muito difícil ser mais do que uma pessoa?

Esta era o género de questão que um sóbrio teria bastante dificuldade em explicar a um embriagado, mas mesmo assim tentei. Afinal, era Hemingway que me perguntava! Ainda comecei a fazer o enquadramento histórico mas o americano rapidamente se perdeu na minha exposição e ficou de olhar perdido a ver o que o grupo fazia nesse momento.

- A sua companheira é muito bonita. Amam-se?

Vi que a conversa de bêbados imperava e que a profusão de personalidades de Pessoa já pouco interessava ao escritor.

- Eu também amei uma mulher perdidamente...

E ficou calado por uns instantes.

- Sabe que conheci um poeta em Espanha que me impressionou muito, frequentávamos um café... Foi morto pelos fascistas...

Deveria referir-se a Lorca. Contei-lhe umas coisas sobre o espanhol para ver se o interessava por Pessoa, mas os olhos de Hemingway mostravam que o homem se pusera a chorar. Decidi calar-me e deixá-lo falar quando se recompusesse. Bebi de uma vez só o gole de whisky que pedi ao empregado e tentei manter-me direito no banco, apoiando com mais força os cotovelos sobre o balcão pois o navio começara a balançar um pouco mais do que era normal. Hemingway ficou a chorar por mais um bocado, depois abraçou-me e desejou-me boa sorte. Antes de regressar ao convés, onde o grupo dançava ainda mais freneticamente do que antes com a ajuda das ondas, repetiu-se.

- Eu também amei...

O lugar não ficou vazio por muito tempo. Alguém se sentou nele e pediu ao empregado um cálice de Vinho do Porto. Quem seria o conviva que pedia uma bebida do meu país? O álcool que bebera de um trago fazia um efeito que, conjugado com o balanço do navio, dificultava os meus movimentos. Mesmo assim, virei-me em sua direção e vi um rosto que me parecia conhecido. As feições do homem pareciam talhadas na pedra de tão duras que eram, mesmo que só o visse de perfil. O novo ocupante do lugar olhava em frente, não sei se a mirar-se no espelho ou apenas a comportar-se como seria normal em si. Imitei-lhe o pedido quando o empregado voltou com o seu Porto, pensando que seria uma boa forma de meter conversa com o vizinho.

- Isto é uma zurrapa mas pelo menos sabe um pouco a casa!

Dito isto, ficou de novo em silêncio. Uns minutos mais tarde, enquanto saboreava o que ele definira como uma zurrapa e reparava que ele falara em português, reconheci quem era a personagem que se sentara ao meu lado: Miguel Torga! Foi então que o álcool me fez confessar, em voz alta para que ele me ouvisse, que mais parecia estar num cemitério do que num navio, tal era o número de mortos que me rodeavam.

- Mortos e vivos! Aqui, neste navio, ninguém está morto mas também ninguém está vivo. E o senhor o que faz aqui disfarçado de Fernando Pessoa, ou de Vicente Guedes como se anunciou à mesa?

Era a pergunta mais direta que me faziam desde que entrara no paquete e dera com um bando literário da mais fina escolha. Mas, já um pouco embriagado, respondi à Hemingway, calando a resposta com soluços.

- Bem, já vi que alguma coisa lhe fez mal. Vamos até ao convés apanhar ar e falar um pouco. Já tinha a língua enferrujada de falar tanto english e franciú. Venha, não lhe fará mal algum!

Levantei-me e acompanhei-o até ao exterior do barco. Torga procurou um local onde estivéssemos mais em paz mas que ao mesmo tempo permitisse observar o nosso grupo em festa.

- Como se divertem. Tem sido sempre assim desde que estou com eles, e logo eu que não tenho paciência para isto.

Enquanto o ouvia, olhava para a felicidade de Beatriz, agora a dançar com o Hemingway. Fiquei com alguns ciúmes, mas a voz seca do meu novo amigo chamou-me à realidade.

- Se não fosse estarem a pagar-me a viagem, teria ficado em casa.

O sujeito apresentou-se, como Miguel Torga: poeta, escritor e também médico na vida real.

- Mas creio que isso já sabia porque me reconheceu.

Disse-lhe que sim, tentando focar a a minha atenção no que ele estava a dizer, mesmo que a imagem de Beatriz tão divertida se impusesse mais do que queria neste princípio de conversa. No entanto, achei que esta seria a oportunidade para esclarecer o que se passava a bordo e foi sobre isso que lhe fiz várias perguntas sem mais demoras.

- O que quer saber é uma longa história, mas posso ser conciso. Trata-se de um espetáculo de sósias de escritores importantes que está numa digressão mundial. A América do Sul é o próximo destino e começa pelo Brasil.

E calou-se. Posso dizer que lhe tinha pedido uma explicação sucinta mas que não precisava de o ser tanto. Fiz-lhe mais algumas perguntas, às quais respondeu sem o poder de síntese anterior. Fiquei assim a compreender o que se passava neste navio: todos os escritores famosos com quem falara eram sósias e representavam determinados períodos da vida de cada um, de acordo com a parte que lhes cabia na peça. Quanto a Torga, passava-se o mesmo, representando a única personagem portuguesa.

- Espero que a sua parecença física com o Pessoa não os leve a despedirem-me e a contratá-lo. Não me faria isso, pois não?

Descansei-o, confirmando-lhe que o meu interesse estava para além da representação teatral e que a minha intenção era cumprir um desígnio nacional em vez de ser ator. Daí que estivesse a caminho do Brasil, onde pretendia absorver em sossego o Pessoa que existia em mim.

- Não me venha com aquelas histórias do V Império...

Garanti-lhe que Vicente Guedes não era mais o heterónimo que Fernando Pessoa criara e que abandonara em nome de outro que mais o seduzira. Este vinha para ficar e tinha a intenção de dar mais poesia e prosa ao mundo do que aquela que já lhe fora oferecida. Que achava mesmo que o Livro do Desassossego, de que em tempos fui autor, seria um pouco ensombrado com o que por aí vier quando eu me assumir. Tudo isto o ator Torga ouviu em silêncio.

- Vejo que está convencido do que quer, mesmo que me pareça estar a representar mais um papel na sua vida do que eu neste teatro.

Antes de continuarmos por outras conversas, disse-me que tinha no seu camarote um livro que me poderia interessar se desejasse saber mais sobre o verdadeiro Torga e a sua vida no Brasil. Pedi-lhe que fosse buscar quanto antes o tal livro pois a minha noite ia ser longa - a diversão de Beatriz era a razão - e gostaria de ter com que me distrair. Torga partiu em direção ao camarote e, enquanto estive só, fiquei a ver como o grupo de atores se divertia. Principalmente, interessava-me olhar para Marcel Proust e observar o seu comportamento. Havia alguma coisa que nos aproximava, talvez por ser aquele que mais tinha consciência do que representava o seu papel de ator fictício e do seu impacto junto dos passageiros. Já confirmara que toda a trupe era objeto de curiosidade entre os que viajavam e, ao mesmo tempo, que nem todos eles se preocupavam com o efeito que provocavam em quem reconhecia nos atores os seus escritores favoritos. Proust não era assim, nunca abandonava a personagem, pelo contrário confundia-se com o verdadeiro escritor em todos os gestos e poses. Enquanto o fazia, eu reparava mentalmente nos pormenores de um ator que pela sua perfeição parecia isolar-se dos restantes no palco da estranha atuação que me era dada a assistir.

Ao entrar no navio jamais imaginara que iria estar perante outras réplicas de escritores, numa situação em que as pessoas sem informação sobre o meu verdadeiro estatuto também me incluiriam como fazendo parte do referido grupo de artistas. Não fora por acaso que eu tinha sido incorporado naquele batalhão sem demoras e em que já não se fazia qualquer distinção entre o facto de eles estarem a ganhar a vida como profissionais e de eu ser a profissão. Talvez Marcel Proust entendesse esta minha duplicidade melhor do que ninguém, pois parecia encarnar o famoso escritor francês com um prazer que ia para além do simples ato de subir a um palco e debitar as deixas que algum argumentista lhe teria escrito. Não seria por acaso que se isolava no convés de uma festa em que os seus companheiros estavam empenhados e que o seu rosto mostrava encontrar-se a muitas milhas de distância. Por momentos passou-me pela cabeça que, se se esforçasse um pouco mais, o homem por trás deste Marcel Proust em navegação no meio do Oceano Atlântico, poderia roubar a identidade do verdadeiro. Até fui mais longe nesta hipótese, ao admitir que se houvesse possibilidade de alterar a perceção das pessoas sobre o ano em que estávamos, poderia reviver o papel sem que essa aventura pudesse ser posta em causa. Mesmo assim, pelo que observava, sabia que o meu companheiro não seria jamais capaz de ultrapassar o guião, coisa que a mim não me preocupava porque eu escrevia as minhas próprias deixas.

O regresso de Torga interrompeu a observação que eu executava como se fosse um detetive em busca do tempo perdido. O livro que ele trouxera, explicou, era um relato em que o escritor se autobiografara, mesmo que se assemelhasse a um romance escrito na primeira pessoa sobre um protagonista fictício. Considerava que pouco do que ali estava escrito deveria ser inventado, até porque a vida do escritor era suficiente para encher muitas páginas.

- Não sei se sabe, mas o Torga gostava muito de si. No seu Diário até tem uma entrada para o dia em que se soube da sua morte, onde escreve que ao saber da notícia abandonou o consultório e enfiou-se pelo meio da natureza para o chorar.

As palavras deste Torga provocaram-me um arrepio. Ele falava de mim como se eu estivesse morto, ignorando que até este dia só se conhecia a história de um único Homem que ressuscitara! Não era o meu caso, nem jamais o seria, mas foi nesse momento que entendi que haveria necessidade de criar uma separação entre o meu criador e a sua criatura quando aparecesse ao mundo. É claro, pensei, que o facto de me apresentar como Vicente Guedes retiraria uma parte ao problema e que a situação que provocaria o maior sobressalto seria a minha grande parecença física com o poeta. Essa era a grande novidade do meu ressurgimento, pois o criador e a criatura eram um mesmo corpo e não, como se verificaria daqui a uns meses, a formulação etérea de um heterónimo sem ossos nem carne, sem um olhar e uma sensibilidade e até com os tiques que o tornaria mais humano. Eu sei que pretendia ser Vicente Guedes, mas não abandonaria o meu corpo, em todo igual ao do poeta, ao que só faltara o bigode - que entretanto deixara crescer - para ser a sua cara chapada. E foi sobre estas questões de dupla personalidade que o livro trazido por Torga acabou por se tornar nos dias de viagem que se seguiram um guia de soluções e de respostas, já que o seu autor vivera toda a vida de adulto a combinar essas duas realidades e morrera entroncado entre a criatura e a criação, sem ser nem um nem outro.

Se estivesse em terra eu poderia acompanhar a maré subir e descer, mas no meio do oceano não nos apercebemos desse movimento. Talvez o mar tivesse subido uma dúzia de vezes e descido igual número, mas não foi essa a minha preocupação a partir da manhã que se seguiu. Preferi antes preocupar-me com as minhas dúvidas e partilhar a leitura do livro e as conversas com Marcel Proust nos seus tempos livres. Até porque Torga desaparecera após a madrugada, depois de me facultar o romance, provavelmente convencido de que pouco me tinha a explicar sobre os temas que eu lhe perguntara porque no volume que me dera estavam as respostas.

E havia algumas, designadamente no seu relato sobre a chegada ao Brasil, onde um tio o esperava e que, depois de o vestir com a dignidade necessária a uma criança vinda de uma terriola onde a pobreza era a normalidade, e de modo a poderem ser vistos em companhia um do outro, o entregou a um empregado para o levar até à casa onde iria morar. O percurso foi percorrido pelo tio num cavalo, com a justificação de que estava com pressa, e por ele e pelo empregado numa carroça puxada por bois. O condutor era tão negro como a noite que foi caindo e, quando o jovem se deparou com o silêncio da caminhada só cortado pelo chiar das rodas, começou a chorar. Fiquei a pensar como seriam justas as suas lágrimas, de tão novo e por estar distante do berço neste corte com a vida do passado. Afinal, abandonara a tal terriola transmontana por uma no interior do Rio de Janeiro, em tudo diferente.

Mais uma vez caíam-me nas mãos relatos em que se escrevia sobre cortes radicais na vida de uma pessoa e sobre ritos de passagem como os que se aproximavam a correr de mim. Coincidência ou não, o jovem do livro começara a escrever uns versos, ou seja, caíam-me nas mãos relatos sobre a minha futura atividade literária, de novo a lembrarem-me que havia uma missão a cumprir. Relatos que me diziam respeito também, já que Fernando Pessoa fora ainda muito jovem viver para a África do Sul, e lá suportara as mesmas dores de crescimento que o protagonista deste livro, onde também escrevera os seus versos e se preparara para outras criações poéticas. O que a leitura do livro ia fazendo nascer em mim era a sensação de que uma nova pele se sobrepunha à que me cobrira toda a vida. Talvez fosse do ar salgado, que branqueava a minha pele ao mesmo tempo que o sol do equador a ia avermelhando.

Essa mudança que em mim decorria em bom andamento lembrava-me os dois rapazes tímidos, sobre os quais ninguém poderia adivinhar situações que os tornariam tão diferentes da maioria. O miúdo Torga obrigara-se a crescer na fazenda do tio, mesmo que viesse com a disposição de voltar para se formar em Coimbra. Já o miúdo Pessoa perdera a hipótese de ganhar uma bolsa para estudar em Oxford porque a deram a um inglês, apesar de ter tido melhores notas, o que acabou por ser benéfico visto que o poeta optou pela língua portuguesa em vez de se lhe abrir uma porta para a inglesa. Isso fez-me pensar como eu ficara sem histórias para contar de quando eu era miúdo porque tivera uma vida escolar sem percalços. Não possuía recordações brasileiras ou sul-africanas para integrarem o meu currículo, nem pudera dar o destaque com que ambos conotavam certos pormenores obrigatórios nas biografias, mesmo que fossem situações que qualquer um que pudesse possuir. No caso do poeta, tivera a sorte de estar a viver em Durban no momento em que o futuro primeiro-ministro Winston Churchill foi vitoriosamente recebido após uma fuga espetacular da batalha onde exército britânico fora derrotado na Guerra dos Bóeres - deveria ter sido um entre as centenas de alunos que foram levados até ao cais para o vitoriar. Se não fosse a sua timidez, até poderia aparecer nas fotografias tiradas a Churchill e que foram publicadas no dia seguinte numa grande reportagem incluída na edição do jornal da cidade, o Natal Mercury. Jornal onde, mais tarde, o poeta veria impressos alguns dos seus primeiros versos e as charadas que tanto gostava de fazer a coberto dos primeiros heterónimos que criou, como o de Alexander Search. Ou a inspiração para o de Ricardo Reis que era, segundo a biografia física criada por Pessoa, "de um vago moreno mate", à semelhança de um seu professor hispano-irlandês da Durban High School.

A viagem marítima de Torga fora tudo menos agradável. Enjoara entre os passageiros da terceira classe do navio Arlanza, que esmoreciam perante o balanço do mar durante a maior parte dos dias. Enjoara também pelo terror que imaginava como certo para a sua próxima vida. Já quanto a Pessoa, o jovem que embarcara no Herzog, também fora sozinho. Mais uma coincidência entre ambos, só que o poeta não deixara rastos nas suas escritas sobre esta travessia até à África do Sul como o outro iria registar. O que teria pensado um rapaz tão novo durante os dias de viagem, ele que já escrevera alguns poemas, um deles sobre um naufrágio provocado por um ciclone?

Enquanto olhava para o que antigamente chamavam de mar oceano, porque nunca tinha um fim estivessem quantas horas estivessem a olhar para a sua imensidão, o que eu procurava eram estas respostas. Porque eu estava na mesma situação que um e outro - só que bem mais velho -, e esta viagem era o intervalo do filme em que eu seria o protagonista da segunda parte. Perguntava-me também se a ideia de ter posto um globo a rodar na Sociedade de Geografia para escolher aleatoriamente um lugar para onde ir teria sido boa?

Original fora, pelo menos, mesmo que eu não tivesse revelado até agora a verdadeira razão para o ter feito como vou fazer agora. Enquanto estava no Martinho da Arcada passou uma cigana que fez questão de me ler a sina. Primeiro pensei que queria ganhar dinheiro à custa da minha credulidade mas, imediatamente, me disse que nada cobraria e nem um tostão aceitaria mesmo que eu quisesse pagar. Avisei-a de que eu - o Fernando Pessoa - sabia fazer cartas astrológicas e que poderia ler o meu próprio futuro. Apenas sorriu, contrapondo que nunca ninguém saberia ler melhor um destino do que ela e que queria fazer-me esse favor. Era mais por mim que o fazia, que se via bem-estar necessitado de uma resposta, do que por ela, que tinha esta profissão como modo de vida e que podia ganhar dinheiro com outros em vez de trabalhar de graça como já dissera que iria acontecer.

- Deixe-me lá ler a sua mão e faça o que o destino lhe mandar.

O calor ia aumentando todos os dias e mostrava-me que nos aproximávamos do destino. Aliás, quem me fez pensar no assunto foi o escritor Proust nas suas conversas de convés, lugar do navio onde eu passava a maior parte do tempo. O camarote começara a sufocar-me de tão pequeno que era, principalmente quando abria a porta para a pequena varanda que dava para o mar e o ar quente entrava a toda a força. Adormecera algumas vezes nas espreguiçadeiras que estavam à disposição dos viajantes na proa do navio, após passar parte da noite a observar as estrelas e a pensar-me. Dera agora para filosofar sobre a existência futura cada vez com mais intensidade e gostava de o fazer naquela zona da embarcação, onde a brisa morna que subia do oceano se tornava mais fresca do que à popa. Marcel Proust vinha fazer-me companhia, contando histórias sobre a vida a bordo de que eu desistira. Até de Beatriz me revelava pormenores que eu desconhecia, já que apenas nos cruzáramos no camarote uma meia-dúzia de vezes. Nada que me preocupasse, pois sabia que ao chegar a hora de voltar a tomar conta de mim se apresentaria como a habitual fiel depositária da missão que lhe fora entregue por Sena.

As conversas com Marcel Proust eram muito interessantes e começaram a tomar um tom mais memorialista quando lhe perguntei se as experiências vividas por dois dos membros da trupe, T. S. Eliot e Ezra Pound, poderiam ser comparadas às que mudaram a estrutura cerebral de Pessoa. Afinal, tanto um poeta como o outro tinham sofrido um choque cultural devido à mudança geográfica e o mesmo se passara com Pessoa ao ter ido para Durban. Proust defendia-se sobre o tema, afirmando que do poeta português desconhecia quase tudo enquanto dos outros dois nada lhe interessava. Em contrapartida, confessava o prazer de recordar como a sua formação feita às custas de uma mãe que lhe abria os cordões à bolsa sempre que necessitava - "para além da avultada herança inesperada que recebi!" -, lhe permitira colecionar uma série de objetos que de outro modo lhe tornaria a vida insípida.

Sentia que quando Proust vinha até mim facilitava o descomprimir das minhas preocupações. Ou porque o francês tornava as conversas que eu pretendia sérias em considerações levianas, ou porque encaminhava-as para si como se fosse o dono das grandes preocupações do mundo. Foi o caso de quando lhe perguntei como é que o desejo de escrever surgia numa pessoa e ele conduziu a conversa para o seu problema de saúde, dizendo que descobrira muito cedo que tinha asma e que isso marcara toda a sua vida: "Uma criança que desde o momento em que nascera nunca se preocupara com o facto de o ar, que nos entra tão discretamente no peito que nem reparamos, é essencial à totalidade da vida." Enquanto o ar quente do trópico a sul nos cercava nestas conversas entre espreguiçadeiras bem posicionadas no convés do navio, ele ia contado como a doença lhe barrara o acesso às atividades na natureza de que tanto gostava, como quando ia ver o florir os espinheiros - detestava perder essa altura do ano! - e era obrigado a deslocar-se num carro hermeticamente selado. Só ao terminar o relato de todas estas situações pessoais é que retomara o tópico da minha pergunta, o de como nasce o desejo de escrever. No seu caso, e fazia então a ligação à doença sobre a qual estivera a perorar, a asma permitira-lhe ter o tempo necessário para se dedicar à escrita, mas fora após a morte da avó que percebeu uma das orientações fundamentais para o sucesso desta arte, após ter feito uma viagem muito cansativa: "Tinha acabado de apreender, na minha memória, de costas curvadas pela fadiga, o rosto terno, preocupado e desapontado da minha avó como estava naquela primeira noite da nossa chegada, não era o rosto daquela avó que eu tinha ficado espantado e com remorsos de ter sentido tão pouco a falta e que nada tinha em comum com ela exceto o nome, mas da minha avó verdadeira, da qual, pela primeira vez desde a tarde do seu ataque nos Champs Elysées, eu recapturava agora a realidade viva numa completa e involuntária lembrança." Ou seja, explicou-me pausadamente, que a nossa memória não mistura todos os acontecimentos no mesmo baú e que existem gavetas que só podem ser abertas por via de sensações não desejadas, como a que um aroma pode provocar. E foi ao confrontar-se com essa verdade da memória involuntária que percebeu que tinha um grande romance para escrever.

Estávamos nestas conversas quando me lembrou que era a última noite antes de chegar a terra e que a minha presença era exigida na mesa 24 do Salão Nobre. Não pude dizer-lhe que me apetecia pouco socializar.

O lugar na mesa ao lado de Beatriz estava vazio e à minha espera. Sempre estivera assim, disseram-me, mesmo que a minha ausência se tivesse repetido ao longo das noites. Sentei-me e conversámos os dois durante um bom bocado, como se não tivéssemos estado cada um pelo seu lado nesta travessia atlântica. Em seguida, ouvi os assuntos que se discutiam naquela mesa, que eram bastante frívolos mesmo que ali estivesse reunida a nata de uma sociedade de escritores, pensadores e poetas. Fiquei a ouvi-los durante a maior parte da refeição, sempre a reparar em como Beatriz apreciava aquele ambiente. Com toda a certeza que a viagem lhe correra de forma bastante satisfatória e que por ela continuaria com aquela trupe divertida. O único conviva que se mantinha tão sorumbático como eu era o meu vizinho sentado à esquerda, um amante da natureza, que se chamava Thoreau. Apesar de me ser difícil pô-lo a falar, lá consegui que me contasse o que fazia na vida, tendo ficado bastante surpreendido com o que me disse.

Com o fim da refeição, continuámos a conversa num passeio que terá somado uma dúzia de voltas ao convés, até que o convidei a sentar-se nas espreguiçadeiras que eu tinha adotado como lugar preferido no navio. Ele disse-me que um dos seus principais prazeres era o de caminhar e que esta digressão o impedia de fazer esses passeios a que estava tão acostumado e citou: "Tornei-me vizinho dos pássaros, não por ter aprisionado um, mas por me ter engaiolado perto deles. Prefiro o pântano mais lamacento ao mais belo jardim para as minhas caminhadas."

Que sujeito mais peculiar foi a minha reação ao seu discurso, feito sem preocupações no que respeita à minha reação. Este Thoreau, para além de desconhecer com quem estava a falar, pouco se preocupava com delicadezas. Dizia o que pensava e disse-o durante as várias horas em que estive a escutá-lo, no único e último momento que já existia para trocarmos opiniões sobre temas que jamais me preocuparam mas que me deixaram muito curioso face às suas formulações. Tanto que só regressei ao meu camarote a tempo de tomar um banho e fazer uma revista para confirmar que não deixávamos nada esquecido. Chegávamos ao destino e era hora de observar o fim do caminho marítimo que nos deixava ainda longe da terra que Beatriz apontara no globo - a Baía da Traição -, de cotovelos apoiados na amurada do navio.

Uma revelação feita por um índio

Posto que o comandante do navio não iria escrever o relato da viagem nem do achamento desta terra para onde íamos, não deixarei também de dar conta de como foi como eu melhor puder. Tomem os leitores a ignorância por boa vontade e não porei aqui mais do que aquilo que vi e me pareceu: A partida de Lisboa foi na segunda-feira, depois passámos as Canárias e avistámos as ilhas de Cabo Verde. Seguimos o caminho por este mar, de longo, até que topamos alguns sinais de terra, os quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho, assim como outras a que dão o nome de rabo-de-asno e aves a que chamam fura-buxos. Quando houve vista de terra foi primeiramente dum grande monte, alto e redondo, e doutras serras mais baixas ao sul dele, bem como de terra chã, com grandes arvoredos.

Dali seguimos num veleiro até ao destino, a Baía da Traição, onde se fundeou ao largo um dia depois. O capitão mandou lançar o prumo a seis léguas da terra, onde permanecemos toda a noite. Pela manhã, fizemos vela e seguimos direitos à terra até meia légua de distância, onde lançámos âncora em frente à boca de um rio. Dali avistámos homens que andavam pela praia, mas não pôde deles haver fala, nem entendimento de proveito, por o mar quebrar na costa. Ventou tanto sueste com chuvaceiros que fez âncora e fazer vela ao longo da costa, para ver se achávamos alguma abrigada e bom pouso. E, velejando pela costa, obra de dez léguas do sítio donde tínhamos levantado ferro, achou-se um recife com um porto dentro, muito bom e muito seguro, com uma larga entrada. Esta terra tem, ao longo do mar, nalgumas partes, grandes barreiras, delas vermelhas, delas brancas; e a terra por cima toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. Pelo sertão pareceu, vista do mar, muito longa, de muito bons ares, e águas são muitas; infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo. Quanto aos habitantes, em muitos a feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem-feitos. Andam nus, sem nenhuma cobertura. Nem estimam de cobrir ou de mostrar suas vergonhas; e nisso têm tanta inocência como em mostrar o rosto.

A crónica de viagem poderia continuar em tom quase medieval se o que Beatriz e eu víamos fosse uma terra como a da descrição. Terá sido, mas agora estava ocupada por uma civilização, na qual as choupanas de antigamente deram lugar a casas e ruas substituíam os carreiros, mesmo que a enseada que dava nome à Baía da Traição se mantivesse semelhante. Ainda havia a linha de recifes a proteger o litoral, agora com um farol construído sobre uma ilhota afastada da costa a alertar os navegadores para os perigos das pedras. Do veleiro que nos trouxera até à embocadura do rio podia ver-se as construções mais antigas, mas o calado não permitia ir muito além do local onde a água doce e salgada se misturavam.

Talvez influenciado pela conversa do passageiro Thoreau, contrariei o desejo de Beatriz em ficar num dos pequenos hotéis da localidade e propus que nos instalássemos junto da comunidade indígena. Ela surpreendeu-se com a minha sugestão, talvez por pensar que iríamos morar em plena floresta, daí que lhe tenha mostrado o cartaz que me inspirara e onde se informava da possibilidade de viver com uma tribo dos Potiguaras. Aceitou. Creio que não se arrependeu desta experiência, nunca o perguntei, em que nos despojávamos de muito do conforto para viver de um modo mais frugal. Não seria tão selvagem e exigente como o escritor norte-americano defendia, mas era o mais próximo que se poderia encontrar.

O meu primeiro objetivo nos dias que se seguiam era poder estudar os textos inéditos de Pessoa. Queria ir mais longe e desejava também compor a personagem de Vicente Guedes de um modo diferente da que o poeta desenhara, fazendo-a rivalizar com o passado brasileiro de Ricardo Reis, simpatizando com a autobiografia sem factos de Bernardo Soares, destroçando o engenheiro sentimental que era Álvaro de Campos, suplantando o mestre ingénuo que pôs em Alberto Caeiro... Mesmo que este último se intrometesse no meu trabalho de um modo que antes de falar com Thoreau não pensasse poder vir a acontecer, afinal era quem se preocupava com as questões da natureza o sempre desejoso de me retirar o papel de guardador de rebanhos que vinha a construir na minha cabeça. De qualquer modo, o que eu desejava para estas férias na Baía da Traição era simplesmente apropriar-me dos heterónimos e abafar o próprio poeta, mostrando que a existência por si só é o mais importante.

Tentar abafar Pessoa não seria difícil, até porque foi ele o fez em vida, conforme lera numa carta que enviara ao investigador Casais Monteiro a propósito da publicação de Mensagem. Onde confessava que tinha sido um erro publicar um livro assinado por si antes de outros com autoria dos heterónimos: "Comecei por esse livro as minhas publicações pela simples razão de que foi o primeiro livro que consegui, não sei porquê, ter organizado e pronto. Como estava pronto, incitaram-me a que o publicasse: acedi." Para o poeta, a estreia não tinha sido feliz mas fora a melhor que conseguira, porque essa sua faceta nacionalista da personalidade nunca tinha sido suficientemente manifestada nas colaborações em revistas. Essa carta continha instruções, se é que se pode dizer deste modo, sobre o que deveria ser o futuro de Vicente Guedes. Um plano muito claro e que me interessava por ser inaudito, é que Pessoa considerava que por enquanto só deveria expor a obra que respeitava à sua própria assinatura, anunciando que - esta foi a minha grande surpresa - a dos heterónimos só teria existência após ser galardoado com o Prémio Nobel!

Reli bem esta parte da carta!... Depois de Mensagem, o poeta queria prosseguir a publicação do seu trabalho com uma versão remodelada do Banqueiro Anarquista, a editar simultaneamente em inglês, e em seguida reunir num grande volume os poemas pequenos assinados por Fernando Pessoa. Quanto aos heterónimos, confirmava com a releitura, a intenção era revelá-los apenas após a concessão do Nobel: "Não penso nada do Caeiro, do Ricardo Reis ou do Álvaro de Campos. Nada disso poderei fazer, no sentido de publicar, exceto quando me for dado o Prémio Nobel. E contudo - penso-o com tristeza - pus no Caeiro todo o meu poder de despersonalização dramática; pus em Ricardo Reis toda a minha disciplina mental, vestida da música que lhe é própria, e pus em Álvaro de Campos toda a emoção que não dou nem a mim nem à vida." Acrescentava: "Pensar que todos estes têm que ser, na prática da publicação, preteridos pelo Fernando Pessoa, impuro e simples! Mais planos não tenho, por enquanto." Nem valia a pena ter outros planos, já que a data em que a carta fora escrita era do dia 13 de janeiro de 1935 e não lhe restava mais do que alguns meses e uns dias até 30 de novembro, a data da sua morte.

A carta do poeta ao amigo era um quase testamento sobre o que pretendia deixar como herança a cada um dos heterónimos. Li o resto em diagonal e sem prestar muita atenção, porque preferia neste momento passar à vida real e aproveitar a beleza do local onde estava em vez de me perder em Pessoa. Estava certo de que para reconstruir Vicente Guedes teria que voltar, e com grande profundidade, a esta correspondência, mas só o faria após executar a limpeza da minha própria mente com a ajuda do tempo livre de que dispunha para me reencontrar na natureza. Não era por acaso que apontava a natureza como uma solução, decerto que era uma intuição associada às palavras de Thoreau, de que seria a paisagem primeiro e a leitura dos inéditos do poeta em seguida que me dariam alento para expor aos leitores e ao mundo as pretensões íntimas do poeta quanto à sua obra.

Beatriz adaptara-se facilmente aos hábitos da comunidade Potiguara onde estávamos a morar, às vezes até bem de mais para os locais, e eu sentia curiosidade em os conhecer melhor. Com as nossas duas vontades juntas no mesmo objetivo, os dias que se seguiram foram dos melhores na minha vida. Despi toda a roupa séria que levava, ignorando o chapéu e os sapatos, e vestindo-me da forma mais simples possível. Ela, que se antecipara à minha quase nudez, vestia também uns calções e acrescentara uma camisa folgada. Demos início a caminhadas diárias pela região e a um diálogo cada vez maior com a família indígena que nos alojava, conversas que se iam alargando aos seus conhecidos, até que nos sentimos perfeitamente integrados. Não sei se esse era sentimento dos índios com quem convivíamos mas, também, nunca nos fizeram sentir indesejados. Havia roteiros assinalados para os turistas mas houve quem nos informasse de outros caminhos menos concorridos e ainda mais bonitos. A Baía da Traição, concluímos rapidamente, era um desses cenários onde o homem e a natureza poderiam combater-se ou harmonizarem-se. No nosso caso, optámos pelo segundo.

Parece que nem sempre a harmonia fora a regra principal nesta terra, segundo nos contou no fim do percurso de uma das nossas caminhadas um índio, dos mais velhos que encontrámos no único estaleiro dedicado ainda à construção de canoas. O homem era empregado num posto de turismo mas raramente por lá parava, dizia que preferia procurar os visitantes em vez de esperar que fossem ter com ele. Tinha o discurso próprio do que se imagina serem povos nómadas ou pouco habituados a cumprir horários mas, como esta região era um dos protetorados da cultura indígena, ninguém o contrariava. Afinal ele era uma das atrações locais, tal como mais cinco mil índios que restava do tempo em que as naus portuguesas chegaram a este ponto do novo mundo.

O velhote gostava de contar histórias dessa História oficial enxertando-a o suficiente com a visão dos conquistados, de modo a não ter problemas quando divergia do relato fixado que lhe competia transmitir. Como que a mostrar-se cumpridor no seu emprego, quando o ouvimos pela primeira vez, retirou do bolso do colete um papel com o roteiro escrito por terceiros. Não é que precisasse de pegar na folha para recitar os dados porque decerto já os decorara, seria mais uma forma de mostrar que debitava palavras oficiais e que não eram suas. Daí que não tivesse sido difícil obter a sua visão mais pessoal sobre o passado mal lhe pedimos e que nos foi contando ao longo dos dias em que íamos ter com ele. Ambos apreciávamos o seu modo de contar a História, se bem que Beatriz mostrasse o seu encanto mais abertamente do que eu conseguia, devido às constantes passagens de Fernando Pessoa pelo meu pensamento.

Tanto podia ser um verso de Alberto Caeiro, que eu declamava em surdina enquanto o ouvia contar histórias da chegada dos portugueses: "Navio que partes para longe, / Por que é que, ao contrário dos outros, / Não fico, depois de desapareceres, com saudades de ti? / Porque quando te não vejo, deixaste de existir. / E se se tem saudades do eu não existe, Sinto-a em relação a causa nenhuma; / Não é do navio, é de nós que sentimos saudade"; como de Bernardo Soares, enquanto nos falava do panteão dos deuses indígenas: "Acima da verdade estão os deuses. / A nossa ciência é uma falhada cópia / Da certeza que eles / Sabem que há o Universo"; ou de Álvaro de Campos, que me retratava tão bem: "A liberdade, sim, a liberdade! / A verdadeira liberdade! / Pensar sem desejos nem convicções. / Ser dono de si mesmo sem influência de romances! / Existir sem Freud nem aeroplanos, / Sem cabarets, nem na alma, sem velocidades, nem no cansaço!"; e do próprio Pessoa, ao sentir-me em paz: Aqui está-se sossegado, / Longe do mundo e da vida, / Cheio de não ter passado, /Até o futuro se olvida"; como um poema de Ricardo Reis que me martelava a cabeça, por exigir-me mais ação do que aquela a que eu me entregara desde que chegara aqui: "Cada um cumpre o destino que lhe cumpre. / E deseja o destino que deseja; / Nem cumpre o que deseja, / Nem deseja o que cumpre". Regressava constantemente ao meu pensamento porque era obrigado a admitir que estava a perder tempo e a despreocupar-me demasiado com as minhas responsabilidades. Afinal, o poeta tinha tantos planos e acabara por morrer sem os realizar e, tendo sido eu o escolhido para cumprir o seu destino e o seu desejo, traía-o ao andar em passeios pela floresta e em conversas com um índio do posto de turismo!

Perguntei-lhe a razão de ser do nome Baía da Traição enquanto o velhote estava a contar uma das suas histórias a Beatriz e não pareceu satisfeito pela minha interrupção ou, quem sabe, pela minha questão. Ao fim de algum tempo respondeu dizendo que ninguém sabe bem a origem mas que o nome fora posto pelos colonizadores há muitos séculos.

- O dia em que batizaram esta terra desse modo tanto pode ser do ano de 1501, como de 1503 ou 1505, mas o que gerou esse nome foi sempre o mesmo motivo, o assassinato de portugueses e castelhanos pelos meus antepassados.

Recordou que existiam várias teses de historiadores sobre as chacinas. A primeira, logo quando Américo Vespúcio por ali passou e três tripulantes portugueses foram devorados após uma receção amigável; a segunda, quando outros náufragos também portugueses e castelhanos deram à costa e foram mortos em vez de ajudados; e a terceira, ao morrerem às mãos dos índios dois frades franciscanos. Uma coisa é certa, disse por outras palavras, em 1516 o nome da terra já aparecia num mapa com o topónimo que se mantém até hoje e a sua escolha deve-se ao facto de, por uma ou outra razão, os estrangeiros terem sido mortos pelos índios. Fez, no entanto, questão de dizer que eles não eram traiçoeiros, pelo contrário enfrentavam o inimigo na luta corpo a corpo e eram corajosos.

O velho índio aproveitou a deixa para interromper o relato sobre antigas traições naquela baía e começou a contar que os Potiguaras era o único grupo indígena que se mantinha na Baía da Traição e que a tradição obrigava que não se miscigenassem com quem não pertencesse à tribo; que quando chegaram os conquistadores existiam na região duas raças de índios, os Tupis e os Cariris; que os primeiros se dividiram entre os Tabajaras e os Potiguaras e eram inimigos; que os segundos diziam ter vindo de um grande lago e também se separaram em várias tribos. Ao ver-nos tão interessados no que contava, puxou do papel - era o hábito - e continuou o discurso, agora com a história oficial dos europeus. Que os franceses conseguiram o apoio dos índios contra a colonização portuguesa ainda no primeiro século de ocupação; que após a morte de milhares de indígenas, foi criada uma capitania; que, por terem ajudado os holandeses, os Potiguaras foram de novo massacrados...

Nesse dia, falou muito do passado, enquanto sobre o futuro foi menos conversador. Era claro que ao ver o turismo apreciar tanto a enseada, chegaria o momento em que os Potiguaras teriam uma última luta para vencer. Se sobre isso não queria conversar, tendo preferido ir mostrar um dos locais que considerava mais bonitos na região, o velho índio encaminhou-nos por uma sucessão de veredas, dunas e mangues até nos deixar à beira de uma lagoa. Disse que esta era a mais bonita e menos conhecida, que podíamos ficar por ali o tempo que desejássemos. Era realmente bela e a fonte de inspiração que eu procurava, tendo-lhe logo perguntado se era possível acampar nas suas margens por algum tempo. O índio sorriu e, como se estivesse a condescender num dos seus segredos, respondeu que poderíamos permanecer na sua palhota.

- Costumo vir para aqui várias vezes mas tenho assuntos para resolver na vila. Se quiserem, podem lá ficar.

Também avisou que não tinha alimentos mas possuía redes e uma cana de pesca que nos poderiam ajudar a procurar alimento.

- E nas árvores aqui à volta há muita comida.

Olhei para Beatriz que, novamente um pouco contrafeita, acabou por aceitar ficar no que eu considerava ser o verdadeiro paraíso que Álvaro de Campos escrevera nos versos, da verdadeira liberdade e de ser dono de si mesmo sem influência de romances, de Freud, aeroplanos e cabarets.

Encontrei um encaixe perfeito na areia para estudar os textos inéditos de Pessoa, ler a carta a Casais Monteiro e observar Beatriz nos seus banhos de sol e de lagoa. Na manhã seguinte à primeira noite dormida na lagoa, era ela que me atraía a atenção, só vindo os interesses atrás referidos a aparecer muito mais tarde e em ordem contrária à descrita. Não era por acaso que Beatriz se tornara o foco da minha atenção, é que ela deixara na palhota todas as suas roupas e andava o dia inteiro nua. Bela como era, fascinava-me admirar o seu corpo, vê-la a nadar ou a flutuar sobre a água doce na parte menos profunda da lagoa, que lhe cobria apenas meia altura do corpo deitado.

Ninguém aparecia por ali, sendo o cantar dos pássaros a única voz animal que ouvíamos e o ressoar das ondas contra as dunas que separavam esta água da do mar a outra sonoridade natural, para além das nossas falas. Evitara preparar o novo Vicente Guedes através dos documentos que nos acompanhavam, numa arca incomparavelmente menor se posta ao lado da do poeta, porque precisava desesperadamente de limpar o meu pensamento e encontrar espaço para o parto do herdeiro.

Beatriz não me fazia perguntas sobre o assunto, nem sobre qualquer outro tema. Parecia afinal ter ficado satisfeita por termos encontrado este albergue natural e crer que esta bolsa natural seria propícia ao desenvolvimento do feto poético que eu carregava. Invertia os papéis naturais do homem e da mulher, tornando-me a mãe do Vicentinho e ela com um comportamento de um pai pouco dedicado a estas coisas da gravidez. Isso não me incomodava, até porque o poeta tão poucas vezes fora vítima do amor que eu já lhe deveria ter ganho em tempo de paixão e de direito a corpo de uma mulher. Decerto, Pessoa infiltrara-se infinitas vezes menos do que eu em toda a sua vida entre as pernas do outro sexo mesmo que o seu Álvaro de Campos se arrependesse de não o ter feito com "a rapariga inglesa, uma loura, tão jovem, tão boa / que queria casar comigo", sendo-lhe mais fácil pensar que ela "já me deve ter esquecido" ou se me recorda é "com o quarto filho nos braços, debruçada sobre o Daily Mirror a ver a Pussy Maria". Ou que noutros versos mais violentos apostasse que "A alma humana é porca como um ânus / E a Vantagem dos caralhos pesa em muitas imaginações". E tudo isto atravessava o meu pensamento enquanto Beatriz se armava em sereia e dava tempo ao tempo para que eu me tornasse Pessoa.

Não ficávamos só por aquela zona, nem eu só pela radiografia do exterior do seu corpo. De mãos dadas, percorremos os areais e mergulhámos no oceano ao longo da costa, sem recear que o velho índio regressasse e perdêssemos o lugar na palhota. O seu corpo tornava-se diferente ao meu toque, penso que por ação do sol e do sal do mar sobre a pele, e eu beijava-o até ao milímetro mais escondido. Não coloquei jamais a hipótese de esquecer o meu destino, mesmo que o vazio das minhas obrigações para com o estudo do Poeta pesasse mais do que alguma vez pensei acontecer.

Mais uma vez pressionei Beatriz para me revelar os seus segredos, bem como os de Sena e os do Freixo. Estávamos deitados sobre a duna que separava a água doce da lagoa da salgada do mar e foi esse argumento que ela utilizou para me pedir que ficasse em ignorância.

- Nunca se devem misturar as águas.

Continuou dizendo que se eu tivesse uma ferida no pé e nadasse no mar a cicatrização nunca mais aconteceria, enquanto se a mergulhasse na lagoa não haveria problema. Não era uma metáfora difícil de entender, mesmo que a minha curiosidade fosse muita e quisesse saber as razões que, no fim de um longo caminho, me tinham trazido até esta duna que servia a Beatriz de fronteira. Respondi-lhe que nunca tivera problemas em atravessar fronteiras e que só no ano passado no Freixo é que deixara de mandar em mim. Vi no seu rosto que a vontade de revelar qualquer coisa era inexistente, bem como nas palavras que se seguiram.

- Não queres ser o Poeta?

Sim, respondi-lhe, acrescentando que o desejava mais do que nunca. Que acreditava no meu desígnio, mas que era importante saber o porquê.

- Às vezes é melhor não saber a verdade. Fica tudo mais fácil.

Fiquei em silêncio, a pensar no que dizia. Qual seria o significado deste seu segredo? O que me faria de mal se o soubesse? Principalmente, questionei porque é que se eu perguntara sobre o seu mistério, Beatriz acabara por unir o seu aos de Sena e do Freixo. Eu só queria conhecer o seu passado, nem imaginava que pudesse existir alguma ligação com o meu anfitrião ou com o local onde morara que impedisse a revelação. Se Beatriz caracterizava o seu segredo com um ar tenebroso para evitar contar-me a sua vida, lá deveria ter as suas razões.

Achei por bem calar em definitivo as perguntas sobre esta curiosidade e abandonar-me ao mundo que a Baía da Traição me proporcionava. Beatriz, após o meu silêncio continuado, já deixara de ter a testa franzida e abandonara-se também ao seu mundo.

... Depois, como se as palavras viessem do mar, Beatriz iniciou uma história sem nexo...

Era uma vez uma menina que estava abandonada numa floresta. Houve um pastor que ouviu o seu choro e procurou-a. Encontrou-a entre as árvores, sozinha e embrulhada em pano e cordas. Levou-a ao colo até à casa do senhor mais rico das imediações e entregou-a aos cuidados da sua mulher. Um ano depois, a menina estava bem mas a mulher morrera. Ninguém soubera explicar a morte da mulher do homem rico e a tristeza dominou a casa. Mandou chamar o pastor e perguntou-lhe como é que encontrara a criança. O homem lembrou-se de que a ouvira chorar. Também recordou que um dia antes vira passar um avião e que dele caíra uma coisa, tropeçando nas nuvens até pousar inteira no chão. Poderia ser a menina ou uma coincidência. O homem mandou também chamar uma bruxa e pediu-lhe para adivinhar o futuro da menina, encontrando as respostas para todas as suas dúvidas. Decidiu prendê-la no quarto onde a mulher morrera até que a menina se tornasse adulta...

Beatriz voltou ao silêncio e, mesmo que as ondas continuassem a bater na areia da duna, não vieram mais palavras. Enquanto esperava pela continuação da história, ponderei se o que ela me contava era uma história inventada e não a da sua vida. Nem o homem seria Sena, nem o quarto onde ficara fechada seria o da casa do Freixo! Enquanto procurava explicações na história contada por Beatriz senti, pelo ruído dos passos sobre a areia, que alguém se aproximava. Abri os olhos e vi que o velho índio caminhava à beira da lagoa. Estava de regresso, como que a anunciar que o nosso tempo de solidão ia terminar. Pensei também que não seria por acaso que voltava, era o sinal de que o passado não interessava e que eu deveria manter-me ignorante sobre tudo isso. O velho índio não se aproximou de nós. Foi até à sua palhota e deitou-se. Fiquei a olhá-lo por mais algum tempo até decidir acordar Beatriz com um beijo. Disse-lhe que já não estávamos sós e mergulhámos na lagoa uma última vez nus, como os antepassados do velho índio fariam antes de os jesuítas os obrigarem a cobrir-se cada vez que queriam tomar banho.

A nossa vida voltou a ter um ritmo civilizado! Contrariamente ao que seria de esperar da convivência com um indígena, o velho obrigou-me a trabalhar. Depois de ter dormido uma longa sesta, foi direto na sua pergunta ao interrogar-me sobre os meus estudos.

- Eu cedi-lhe a minha casa para que estivesse em paz e pudesse trabalhar. Não vai aproveitar a minha oferta?

Fiquei sem sabe o que lhe responder, até porque os dias passados a sós com Beatriz permitiram recuperar alguma lucidez e esvaziar o meu cérebro para o formatar com a estrutura mental de Vicente Guedes. Não seria por acaso que o homem me interpelava e exigia ação. Ainda por cima, decidiu que eu não poderia continuar a estudar os documentos encaixado naquela cova na areia à beira da lagoa.

- Assim não vai a lado algum! Vou construir-lhe uma mesa para trabalhar. Aproveite o resto do dia, amanhã terá que voltar ao trabalho.

Durante o resto do dia, o velho índio esteve atarefado em trabalhos de carpintaria, saindo das suas mãos uma espécie de púlpito onde eu teria que estar de pé. Ao olhar para a posição de trabalho, recordei imediatamente o parágrafo da carta de Pessoa ao Casais Monteiro, onde dizia: "Acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim."

Ainda perguntei ao índio porque é que fizera a construção assim, mas não me soube explicar.

- Foi o que me veio à ideia por ser mais fácil de fazer com as poucas ferramentas que tenho aqui.

Jantámos uma refeição preparada por ele e fomo-nos deitar mal o sol se pôs, de modo a aproveitar bem o dia seguinte.

A carta do poeta era um documento importante para eu compreender o modo como pensara a sua descendência heteronímica. Ele explicava nessas páginas datilografadas, de um fôlego, o que pretendia ser e o que sonhava para os três parceiros que escolhera entre todos os que criara ao longo da vida. Para os que ficavam de fora, não existiam grandes palavras, a não ser para o Chevalier de Pas, que inventara aos seis anos e por quem escrevia cartas que enviava para si mesmo. Contava que a origem mental dos heterónimos estava na sua tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação: "Não se manifestam na minha vida prática, exterior e de contacto com outros; fazem explosão para dentro e vivo os eu a sós comigo." Este sentimento de foro psiquiátrico levava-o a dizer que se fosse uma mulher dada a fenómenos histéricos, então cada poema de Álvaro de Campos - o mais histericamente histérico de si - seria um alarme para a vizinhança!

Registava que a dada altura pensara escrever uns poemas de índole pagã mas, não o tendo conseguido, abandonou o trabalho que mais tarde se veio a tornar a essência de Ricardo Reis. E contava que ao desejar criar o oposto, lhe surgiu Álvaro de Campos. Quanto a Alberto Caeiro, o seu nascimento devia-se à necessidade de inventar um poeta bucólico. Dadas estas explicações, o poeta questionava-se sobre como adquirira capacidade para escrever em nome dos três: "Caeiro, por pura e inesperada inspiração, sem saber ou sequer calcular que iria escrever. Ricardo Reis, depois de uma deliberação abstrata, que subitamente se concretiza numa ode. Campos, quando sinto um súbito impulso para escrever e não sei o quê." Em seguida, para esmiuçar as particularidades de cada invenção, explicava que o semi-heterónimo Bernardo Soares, que aliás em muitas coisas se parece com Álvaro de Campos, aparece sempre que estou cansado ou sonolento, de sorte que tenha um pouco suspensas as qualidades de raciocínio e de inibição; aquela prosa é um constante devaneio. É um semi-heterónimo porque, não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e a afetividade. A prosa, salvo o que o raciocínio dá de ténue à minha, é igual a esta, e o português perfeitamente igual; ao passo que Caeiro escrevia mal o português, Campos razoavelmente mas com lapsos como dizer «eu próprio» em vez de «eu mesmo», etc., Reis melhor do que eu, mas com um purismo que considero exagerado. O difícil para mim é escrever a prosa de Reis - ainda inédita - ou de Campos. A simulação é mais fácil, até porque é mais espontânea, em verso.

Não sei qual terá sido a reação de Casais Monteiro a estas páginas de uma carta que serviria para explicar a arte do poeta. Se hoje em dia se pode olhar para trás e compreender o percurso de Pessoa, à data desta correspondência seria bastante complexo receber uma confissão assim e difícil classificá-la. Se fosse o meu caso, até a definiria como que enviada por um lunático ou mais uma das charadas que o poeta em jovem tanto gostava de escrever. Certifiquei-me desta opinião ao continuar a ler a carta, designadamente a parte em que construía as biografias dos heterónimos: "Eu vejo diante de mim, no espaço incolor mas real do sonho, as caras, os gestos de Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Construi-lhes as idades e as vidas. Ricardo Reis nasceu em 1887 (não me lembro do dia e mês, mas tenho-os algures), no Porto, é médico e está presentemente no Brasil. Alberto Caeiro nasceu em 1889 e morreu em 1915; nasceu em Lisboa, mas viveu quase toda a sua vida no campo. Não teve profissão nem educação quase alguma. Álvaro de Campos nasceu em Tavira, no dia 15 de Outubro de 1890 (às 1.30 da tarde, diz-me o Ferreira Gomes; e é verdade, pois, feito o horóscopo para essa hora, está certo). Este, como sabe, é engenheiro naval (por Glasgow), mas agora está aqui em Lisboa em inatividade. Caeiro era de estatura média, e, embora realmente frágil (morreu tuberculoso), não parecia tão frágil como era. Ricardo Reis é um pouco, mas muito pouco, mais baixo, mais forte, mas seco. Álvaro de Campos é alto (1,75 m de altura, mais 2 cm do que eu), magro e um pouco tendente a curvar-se. Cara rapada todos - o Caeiro louro sem cor, olhos azuis; Reis de um vago moreno mate; Campos entre branco e moreno, tipo vagamente de judeu português, cabelo, porém, liso e normalmente apartado ao lado, monóculo. Caeiro, como disse, não teve mais educação que quase nenhuma - só instrução primária; morreram-lhe cedo o pai e a mãe, e deixou-se ficar em casa, vivendo de uns pequenos rendimentos. Vivia com uma tia velha, tia-avó. Ricardo Reis, educado num colégio de jesuítas, é, como disse, médico; vive no Brasil desde 1919, pois se expatriou espontaneamente por ser monárquico. É um latinista por educação alheia, e um semi-helenista por educação própria. Álvaro de Campos teve uma educação vulgar de liceu; depois foi mandado para a Escócia estudar engenharia, primeiro mecânica e depois naval. Numas férias fez a viagem ao Oriente de onde resultou o Opiário. Ensinou-lhe latim um tio beirão que era padre."

O meu receio sobre o que destinatário da carta poderia pensar sobre o poeta, leio na página seguinte, é também partilhado pelo próprio quando diz que "nesta altura estará pensando que má sorte o fez cair, por leitura, em meio de um manicómio". A finalizar, Pessoa ainda dará mais umas explicações sobre uma dúvida de Casais Monteiro sobre a sua crença no ocultismo. Creio que será o remate final na estupefação do destinatário da carta, já que Pessoa se confessa assim: "Creio na existência de mundos superiores ao nosso e de habitantes desses mundos, em experiências de diversos graus de espiritualidade, subtilizando até se chegar a um Ente Supremo, que presumivelmente criou este mundo. Pode ser que haja outros Entes, igualmente Supremos, que hajam criado outros universos, e que esses universos coexistam com o nosso, interpenetradamente ou não. Por estas razões, e ainda outras, a Ordem Extrema do Ocultismo, ou seja, a Maçonaria, evita (exceto a Maçonaria anglo-saxónica) a expressão «Deus», dadas as suas implicações teológicas e populares, e prefere dizer «Grande Arquiteto do Universo», expressão que deixa em branco o problema de se Ele é criador, ou simples Governador do mundo. Dadas estas escalas de seres, não creio na comunicação direta com Deus, mas, segundo a nossa afinação espiritual, poderemos ir comunicando com seres cada vez mais altos. Há três caminhos para o oculto: o caminho mágico (incluindo práticas como as do espiritismo, intelectualmente ao nível da bruxaria, que é magia também), caminho místico, que não tem propriamente perigos, mas é incerto e lento; e o que se chama o caminho alquímico, o mais difícil e o mais perfeito de todos, porque envolve uma transmutação da própria personalidade que a prepara, sem grandes riscos, antes com defesas que os outros caminhos não têm. Quanto a «iniciação» ou não, posso dizer-lhe só isto, que não sei se responde à sua pergunta: não pertenço a Ordem Iniciática nenhuma. A citação, epígrafe ao meu poema Eros e Psique, de um trecho (traduzido, pois o Ritual é em latim) do Ritual do Terceiro Grau da Ordem Templária de Portugal, indica simplesmente - o que é facto - que me foi permitido folhear os Rituais dos três primeiros graus dessa Ordem, extinta, ou em dormência desde cerca de 1881. Se não estivesse em dormência, eu não citaria o trecho do Ritual, pois se não devem citar (indicando a orde m) trechos de Rituais que estão em trabalho."

A estas minhas leituras assistiu estático o velho índio. Fi-las em voz alta, passando folha após folha, encostado ao púlpito que ele construíra, como que a imitar o poeta sem o querer, só que a ler em vez de escrever. Ao terminar, aguardei pela sua reação mas a única que obtive foi uma só palavra.

- Silêncio.

Sentado, de pernas cruzadas uma na outra, o meu ouvinte mantinha-se calado após ouvir o conteúdo da carta. Não sei o que pensaria, nem se esta lengalenga de um poeta do outro lado do oceano lhe diria alguma coisa. Cansado, decidi descer do pequeno monte de areia à beira da lagoa onde estava o púlpito e encaixar-me na cova quente pelos raios de sol que ainda permanecia na areia. Repousei um pouco, molhei os pés e descontraí. Mesmo que por pouco tempo porque, sem ter reparado, o velho índio interrompera o seu silêncio e aproximara-se do púlpito, de onde iniciava a sua própria proclamação. Mal ouvi os primeiros versos, reconheci o poema de Pessoa.

"Eu nunca guardei rebanhos, / Mas é como se os guardasse. / Minha alma é como um pastor, / Conhece o vento e o sol / E anda pela mão das Estacões / A seguir e a olhar. / Toda a paz da Natureza sem gente / Vem sentar-se a meu lado. / Mas eu fico triste como um pôr do Sol / Para a nossa imaginação, / Quando esfria no fundo da planície / E se sente a noite entrada / Como uma borboleta pela janela... Quando me sento a escrever versos / Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos, / Escrevo versos num papel que está no meu pensamento, / Sinto um cajado nas mãos / E vejo um recorte de mim / No cimo dum outeiro, / Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias, / Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho, / E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz / E quer fingir que compreende."

Então o velho índio pegou na minha mão e levou-me até à duna. Desviou o olhar do corpo nu de Beatriz, que ali estava mais uma vez só enquanto o índio e eu nos confrontávamos, e apontou-me o mar. Disse-me que o oceano começava pouco profundo, que a meio da minha viagem de regresso seria impossível ver o chão, mas que ao aproximar-me da minha terra voltaria a poder caminhar sobre a areia submersa no litoral. Que começasse por desenhar as minhas palavras na areia e elas continuariam a escrever-se por si próprias.

- Que o seu novo eu seja como os grãos de areia em movimento.

Em seguida convidou-me a sentar, observou o oceano e desafiou-me.

- Ponha-se a andar sobre o mar e caminhe até ao seu destino.

Não disse mais uma palavra. Depois de algum tempo, voltou à choupana e recolheu alguns pertences de que necessitava. Sem se despedir, meteu-se pela floresta que nos cercava e desapareceu, não sem antes me aconselhar a ir até ao seu casinhoto e ler um caderno que lá tinha deixado sobre uma cadeira para mim.

- Pode interessar-lhe muito e ajudá-lo nos seus projetos artísticos...

E desapareceu das nossas vidas por mais algum tempo.

Não entendi logo que Beatriz me devolvera à solidão da vida, achei apenas que tinha ido passear. Nem o compreendi nos próximos dias, tal foi a forma como me perdi no caderno que o índio me sugerira ler, um conjunto de páginas encadernadas, com muitas anotações e uma linguagem que eu não consegui perceber de imediato. Eram várias folhas de papel com muitos desenhos, como que a explicar a influência do biografado na sua própria pessoa. Contava a história de um esquizofrénico-paranoico que ficara confinado durante meio século numa cela de um centro de tratamento psiquiátrico e que durante esse tempo elaborara um trabalho artístico que seria considerada uma das mais impressivas obras de arte do século XX.

O início do caderno fez-me pensar que os adjetivos eram próprios de um povo que gosta de exacerbar os seus feitos populares mas, conforme ia lendo, fiquei deslumbrado com o trabalho e a vida do biografado. Durante os dias que se seguiram não larguei o livro, nem reparei no apagamento de Beatriz - como só vim a entender depois - na minha vida, apenas li e vi as reproduções dos trabalhos do esquizofrénico-paranoico. Pensando no que me acontecia a esta distância, talvez o facto de me ter fechado na choupana do índio como se fosse também eu uma personagem psiquiátrica, perigosa se estivesse à solta, foi uma contribuição importante para fazer mais um pouco de Vicente Guedes o que ele iria ser. Não fiz a leitura de forma organizada, a querer saber que tinha nascido em 1909 num estado vizinho àquele em que me encontrava, que tinha sido sinaleiro-chefe durante os oito anos em que esteve na Marinha e que depois deixou o mar para levantar voo como funcionário que cuidava dos pneus dos aviões de uma companhia aérea, até lhe acontecer o relâmpago mental que o internou num hospital para alienados trinta anos depois de ter nascido e onde se deixou ficar por vontade própria encerrado durante meio século, já nomeado artista pelos especialistas mas sem se interessar por esse estatuto. O que mais me impressionou saber, num dos capítulos escolhidos na desordem do acaso da minha leitura, foi a recusa em o enterrarem vestido com um peça de roupa que costurara para esse fim. Chamava-o de manto da apresentação e era a peça de vestuário que desejava usar no dia do seu juízo final, coberta de nomes bordados por dentro e por fora daqueles que considerava merecerem o céu após a morte. Recortou o manto de um cobertor vermelho do hospital e, além de uma lista de nomes das pessoas de que se convencera com direito a um final feliz, bordou, na maioria das vezes usando a cor azul, situações de uma vida: um tabuleiro de xadrez e uma mesa de bilhar, aviões, números e inúmeros objetos. A ilustração maravilhou-me e deu-me que pensar sobre o que inscreveria num manto se fosse eu a fazê-lo!

A princípio pensei que a cor azul aparecia por ser a do céu, o lugar para envergar o manto da apresentação no dia do julgamento final, mas a leitura de um outro capítulo explicou-me que o esquizofrénico-paranoico o fizera por lhe faltar matéria-prima para conceber a sua arte. Como não a tinha, desfiara o uniforme azul que os doentes vestiam e aproveitara o fio do tecido para tecer os bordados. Vi nessa solução algum paralelismo com a minha obra literária, que sem poesia escrita herdara a arca que Beatriz me deixara em legado antes de desaparecer na floresta, cheia de originais de Pessoa. As folhas que estavam do interior da caixa de madeira eram os fios do meu uniforme, com as quais bordaria a escrita a apresentar aos leitores nesta segunda vinda do poeta. Se o doido transformara os fios de um bolso, de um colarinho e de outras partes em linha para inscrever nomes no seu manto, eu faria destes manuscritos as linhas de muitos poemas inéditos. Poderia, como ele fez, reinventar a matéria-prima que dera forma à gola de um uniforme ao transformá-la em nomes, enquanto eu recriaria as folhas velhas em novas manufaturas poéticas. Tal como ele, ambos faríamos de uma peça criada com um destino humano físico um altar espiritual. Preocupava-me, ao ler sobre o seu fim, como seria o meu próximo tempo? Decerto estaria fora de uma cela onde a inspiração chegaria pelo buraco de uma janela ou pela fuga à insanidade através da expressão interior. Queria um destino diferente, era o que eu pensava enquanto devorava as páginas do caderno, porque pressentia que o uso do que não era meu em mim não criaria loucura. É certo que ele se livrara de levar os choques elétricos recomendados pelo tratamento porque soubera encontrar um lado útil para a sua pessoa em vez de ser mais um carneiro no rebanho de desmiolados.

Nessas páginas, de onde fugi mal pude, apreendi que a princípio fora incluído no grupo dos agitados por ser agressivo, mas que o instinto o fizera tornar-se um dos aliados dos enfermeiros devido à capacidade para sossegar os companheiros mais violentos. Pulei mais algumas partes do livro para ignorar o que viria a seguir, não evitando aquela que explicava que para ser artista ele tinha usado o boxe, uma das atividades que os médicos recomendavam para apaziguar os mais nervosos. E que o artista aprendera a pôr à volta da mão uma toalha molhada que, com a ajuda de um soco inglês, acalmava os agitados. Se isso lhe permitira ser olhado como um paciente com serventia, também o ensinara a dominar-se. Nada pelo que eu quisesse passar com Vicente Guedes, até porque jamais olhara o boxe como uma via para a minha libertação criativa.

Enquanto lia o caderno do índio, o meu pensamento rodopiava sem parar e desenhava associações sobre a auto-investigação ao próprio eu que o poeta realizara, as quais comunicava em cartas a conhecidos que o questionavam sobre a divisão heteronímica e processos de criação. Pessoa não fora económico nas explicações, nem parco nas elucubrações sobre o facto de se considerar histero-neurasténico, afirmando que o primeiro sintoma lhe orientava a emoção e o segundo a inteligência e a vontade. Dizia que pelas suas tendências naturais e pelas circunstâncias que rodearam o princípio da sua vida, o seu caráter se tornara auto-cêntrico e mudo e que, por isso, toda a sua vida era de passividade: "O que sou essencialmente - por trás das máscaras involuntárias do poeta, do raciocinador e do que mais haja - é o dramaturgo. O fenómeno da minha despersonalização instintiva, para explicação da existência dos heterónimos, conduz naturalmente a essa definição. Vou mudando de personalidade, vou enriquecendo-me na capacidade de criar personalidades novas, novos tipos de fingir que compreendo o mundo, ou, antes, de fingir que se pode compreendê-lo." No entanto, o seu autoconhecimento permitia-lhe dizer que havia entre si e o mundo uma névoa que o impedia de ver as coisas como verdadeiramente eram e como são para os outros." E considerava que não tinha força de vontade para eliminar ou deter os pensamentos que perpassavam dentro de si porque não eram seus, apenas passavam através dele.

Ao ler o caderno deixado dentro da choupana, ponderava até que ponto o índio admitira que o seu protagonista pudesse confluir com o meu, sendo tão diferentes espiritualmente e longínquos geograficamente, e que ao partilhar a sua paixão biográfica com a minha futura persona isso me permitisse saltar alguns degraus no processo. É certo que um fora diagnosticado esquizofrénico-paranoico e o outro achava-se histero-neurasténico... É também certo que um aceitara isolar-se numa instituição e o outro tornara-se uma instituição isolada... Dúvidas que a leitura do caderno ia ajudando a resolver, com uma única exceção, qual seria o motivo porque o índio considerara que a sua consulta era importante para mim.

Havia uma parte no universo do esquizofrénico-paranoico que me seduzia a cada avanço nas páginas daquele caderno, ele próprio um conjunto de colagens como era a obra do paciente, que (des)montava a história daquele homem. Tudo começara quando deixou de ser o empregado eficiente para servir obedientemente a outro patrão: Deus. Acreditava que fora escolhido, mesmo que negasse o caráter divino das suas criações. Nas anotações escritas no caderno estava uma que revelava ter escondido o seu passado e até a data de nascimento e que, simplesmente, aparecera um dia. Não dizia qual o nome da sua terra natal, mas afirmava-se um Jesus Cristo, filho de José, e que a mãe, Virgem Maria, o recebera nos seus braços. Quanto ao modo como soubera tudo isto, não havia declarações. Sabia-se que o ponto de viragem acontecera nas vésperas do Natal de 1938, quando iniciou o trajeto até a uma igreja, orientado por um exército de anjos que o guiaram, aonde se transformaria em Jesus no dia do nascimento deste. A intervenção das autoridades impedira o seu nascimento e oferecera-lhe em troca a estada no hospício de onde não quis mais sair. Se a sua santidade era razão de desconfiança, já o seu trabalho artístico era apoiado pelas pessoas que lhe entregavam todo o tipo de lixo para transformar em obras artísticas. E, mais uma vez, o poeta surgia nas comparações com o artista, já que numa das páginas do caderno estava o relato de uma autobiografia bordada num estandarte onde se inscrevia a seguinte frase: "Eu preciso destas palavras." Também o poeta precisava de palavras, como escrevia num poema: "É fácil trocar as palavras, / Difícil é interpretar os silêncios!" Ambos utilizavam as "palavras", quer bordadas em mantos, quer postas em poemas, no silêncio a que se remetiam nas suas vidas.

Se a história do paranoico-esquizofrénico desenrolava-se num hospício e a do histérico-neurasténico nas ruas da Baixa lisboeta, ambas tinham muito mais a ver uma com a outra do que se poderia pensar e foram essas pontas que continuei a procurar até sentir que Vicente Guedes estava cada vez mais completo na sua construção. Apercebi-me disso quando o velho índio regressou e se sentou ao meu lado, no encaixe na areia onde eu gostava de ficar. Não disse uma palavra, olhava também para a lagoa fixamente até que, num gesto preciso atirou uma seta de bico afiado para o mar. Apesar de a água estar calma, a arma abanava como uma cana verde. Fui ver o que se passava e descobri que pescara um peixe. Trouxe-o e dei-lho, sob o olhar curioso de Beatriz, que também regressara da floresta.

Decidi que antes de partir, deveria escrever um manifesto sobre Vicente Guedes. Não o consegui idealizar de imediato, mas o índio explicou que chegara a altura de aprender algo mais com ele. Abriu cirurgicamente o peixe ao meio e deu-me para a mão. Felizmente o animal já estava morto, pelo que só a visão do seu interior é que me enojou.

- Leia as entranhas do peixe e decida o que vai fazer.

Como se fosse um adivinho, li nas entranhas o que precisava para, a correr, ir até ao púlpito e escrever o texto que me definiria: "Pertenço a uma geração que ainda está por vir, cuja alma não conhece já, realmente, a sinceridade e os sentimentos sociais. Por isso não compreendo como é que uma criatura fica desqualificada, nem como é que ela o sente. É oca de sentido. Assisto ao que me acontece, de longe, desprendidamente, sorrindo ligeiramente das coisas que acontecem na vida. Hoje, ainda ninguém sente isto; mas um dia virá quem o possa perceber. Procurei sempre ser espectador da vida, sem me misturar nela. Não tenho rancor nenhum a quem provocou isto. Esses sentimentos pertencem àqueles que têm uma opinião, ou uma profissão ou um objetivo na vida. Eu não tenho nada dessas coisas. Tenho na vida o interesse de um decifrador de charadas.

Nunca senti saudades da infância; nunca senti, em verdade, saudades de nada. Sou, por índole, e no sentido direto da palavra, futurista. Não sei ter pessimismo, nem olhar para trás. Que eu saiba ou repare só um tempo de trovoada é capaz de me deprimir. O ponto central da minha personalidade como artista é que sou um poeta dramático; tenho continuamente, em tudo quanto escrevo, a exaltação íntima do poeta e a despersonalização do dramaturgo. Transmudo automaticamente o que sinto para uma expressão alheia ao que senti, construindo na emoção uma pessoa inexistente que a sentisse verdadeiramente, e por isso sentisse, em derivação, outras emoções que eu, puramente eu, me esqueci de sentir.

A Humanidade é outra realidade social, tão forte como o indivíduo, mais forte ainda que a Nação, porque mais definida do que ela. Mas eu não tenho princípios. Hoje defendo uma coisa, amanhã outra. Não creio no que defendo hoje, nem amanhã terei fé no que defenderei. Brincar com as ideias e com os sentimentos pareceu-me sempre o destino supremamente belo. Tento realizá-lo quanto posso."

Ao terminar o manifesto, coloquei-me muito empertigado atrás do púlpito, como se estivesse perante uma plateia de espetadores ávidos, e discursei-o em voz alta. Soou bem e pareceu-me uma proposta que Pessoa rubricaria para o seu heterónimo, que se encaixava no perfil de quem se iria apresentar como a reencarnação do poeta.

Um heterónimo a pensar no Nobel da Literatura

A pasmaceira da minha rotina diária regressou por uns dias. Sabia que era passageira e que só a leitura impaciente dos inéditos de Fernando Pessoa que iam saindo da arca que Sena obtivera, sabe-se lá como, é que disfarçavam a minha contrariedade perante a falta de ação. No entanto, Beatriz avisara-me que a minha entrada na literatura nacional - ela fora mais longe e referira também vida nacional - estava por dias.

- O plano está em movimento e a operação em fase adiantada.

Espantara-me que utilizasse conceitos militares para uma realidade tão diferente como era a poesia e um poeta daquela que é a vida nos quartéis ou nos campos de batalha. Mas ela era assim, com uma vida distante da minha a não ser nos momentos de fazer amor, situação em que um pouco do seu mistério se desgarrava da personalidade habitual.

A pasmaceira a que eu me referia não era assim tão trágica, já que voltara a ocupar o meu lugar no Martinho da Arcada e os turistas regressaram à esplanada e com eles as sessões fotográficas e até os livros para autografar. Os proprietários do estabelecimento agradeceram o meu regresso e, não querendo voltar a perder a clientela para a Brazileira do Chiado, melhoraram-me o rancho. Para além da bebida, mal chegava ao estabelecimento, colocavam-me uma dose de miniaturas de pastéis de bacalhau, que ia petiscando até à hora do almoço.

Os inéditos de que eu ia ser o autor, confesso, agradavam-me de sobremaneira. Além de irem ao encontro do meu Manifesto, eram de uma beleza e profundidade que só Pessoa teria sido capaz de escrever. Havia poemas e prosa vária assinada pelo próprio e por todos os heterónimos, numa profusão de estilos e de sensações que se poderiam identificar como seus se cotejados com o original, mas que a minha intuição, e porque não dizer o meu conhecimento, organizara com um novo sentido. Que os tornava mais originais do que seriam se desvendados como ele os deixara.

Correspondia com esta atividade ao apelo de Beatriz para preparar dois livros de inéditos que assinalassem o meu regresso, representativos da poesia e da ficção de Vicente Guedes. Enquanto observava o outono chegar a Lisboa, com o mar da Palha mais encapelado a cada novo dia e os habitantes da capital a vestirem roupas mais quentes, trabalhava o material que o poeta deixara pronto e por burilar. Uma atividade tão fácil para mim como fora para ele, mesmo que agora só fosse necessário completar pensamentos, reerguer versos que tinham ficado a meio da sua explosão, eliminar sonoridades características da sua época e criar metáforas próprias para uma nova época. Não era difícil avançar em novas escritas com um baú repleto de textos como o herdado, nem encontrar páginas soltas e inspiradas, bocados de papel anotados, apontamentos em páginas de livros da sua biblioteca ou princípios de poemas, contos e epígrafes. O poeta era um mundo amazónico, uma floresta cheia de árvores em que a folhagem era um conjunto de letras perfeitas para colar nas futuras resmas de pasta de papel feita de troncos transformados.

Olhava para o rio e pensava nesta imagem em que se convertiam folhas em palavras, árvores em papel, e pensava nos botânicos que corriam os bosques em busca de espécimes diferentes do reino vegetal para os prenderem com pequenos alfinetes em quadros forrados a tecido de feltro verde. Era essa a tarefa que tinha pela frente, transformando a árvore numa floresta e impedindo quem quer que fosse de ver apenas o pormenor. Queria o todo como a preocupação dos leitores fiéis ao poeta, aqueles que, ainda sem saberem os que lhes estava para acontecer, ignorariam de imediato o interregno na publicação própria para correrem às livrarias sedentos da poesia mais portuguesa possível de encontrar.

Frustrados, iriam ficar todos aqueles que andaram a escarafunchar no baú com a certeza de que Vicente Guedes não ressurgiria para reparar o esquecimento do seu outro eu mais terreno e mortal.

Não era por acaso que observava o rio, é que este gigantesco córrego de água era para mim um espelho da família de poetas com a marca Pessoa e ambos não secariam jamais. Com mais ou menos água, o Tejo estaria sempre ali. Quanto ao poeta, findo o primeiro, vim eu e outros se seguiriam, acompanhando a eternidade da existência humana até onde existisse o convívio com as palavras. Enquanto pensava nesta capacidade da imortalidade posso dizer, por ser verdade, que Vicente Guedes atraía atenções e que o seu regresso público estava prestes a ser noticiado de forma espetacular. Sentia a pressão pelo parto a adensar-se na atmosfera em redor da minha presença no Martinho da Arcada e as águas iriam rebentar como se a onda levantada por um dos navios a chegar viesse bater contra o Cais das Colunas com a força suficiente para inundar a praça como se fossem as de um pequeno maremoto literário...

Casualmente, quem iria dar a descobrir o poeta à imprensa foi o meu já conhecido jornalista que fizera a cobertura noticiosa do suicídio de Sena na Boca do Inferno, o descendente de Ferreira Gomes. O homem fora alertado para a existência de um Fernando Pessoa no Terreiro do Paço e resolvera investigar o que se passava. Reconheci-o de imediato mal o vi a rondar o restaurante, mesmo que não tenha vindo fazer-me perguntas. Esse lapso de tempo permitiu-me organizar um plano de ação - para utilizar os conceitos de Beatriz - e preparar algumas respostas para hipotéticas perguntas.

A primeira dúvida que eu tinha era a de se me identificaria como a pessoa que estivera nos arquivos do jornal a consultar o dossier Pessoa. Achei que isso seria quase impossível pois o bigode que entretanto deixara crescer e o tom moreno da pele devido aos efeitos das férias tropicais faziam-me muito diferente. O vestuário, também bastante diverso do que eu usava normalmente, e o chapéu e os sapatos engraxados, alteravam ainda mais radicalmente o meu aspeto. Ou seja, dificilmente esse problema surgiria quando chegássemos à palavra. A segunda dúvida, era o de como o conseguiria ludibriar para que me apresentasse como o ressuscitado Pessoa. Necessitava de o convencer que o meu heterónimo era prova suficiente para ultrapassar as décadas de morto que o poeta já levava. Ou seja, criar uma ilusão de vida para além da morte dos meus colegas heteronímicos e do patrono de todos, e que tinha obra feita, original e por publicar. A terceira dúvida residia no facto de se seria o jornalista audaz o suficiente para alinhar num jogo em que, a troco de lhe dar uma grande notícia, construísse uma história credível para o meu regresso.

Estas questões eram as principais que se me punham, as quais gostaria de ter debatido com Beatriz, já que era a minha tutora por ordem de Sena. Não estando ela por perto, a aproximação sorrateira do descendente de Ferreira Gomes iria obrigar-me a estar à altura da situação. Enquanto o via encurtar pelo canto do olho os passos que nos separavam, dizia para mim próprio que era a hora certa para mostrar que estava à altura da situação e não do tempo próprio para ser apanhado em flagrante delito na esplanada do Martinho da Arcada.

O descendente do jornalista Ferreira Gomes, ao contrário de mim, estava igual a si mesmo. Estendeu-me a mão enquanto me cumprimentava e pediu autorização para se sentar à mesa. Dei-lha imediatamente e até lhe estendi o pires com pastéis de bacalhau que restavam para que provasse um.

- Agradeço, mas antes de aceitar um pastelinho gostaria de fazer-lhe algumas perguntas. Decerto que depois saberão ainda melhor.

Era, pelos vistos, um jornalista dado a armar-se em engraçado enquanto atuava. Disse-lhe que fizesse como lhe apetecesse e que viessem de lá as perguntas que queria fazer. Como quem não quer a coisa, disse-lhe em jeito de piada que a curiosidade matou o gato.

- Ora aí está uma definição exata para mim, que me considero um rafeiro bom para a caça e a sua presença aqui bem merece uma investigação.

Trocadas estas palavras iniciais, o jornalista decidiu entrar a matar. Perguntou-me se pretendia ser um imitador como os que infestavam a Baixa de Lisboa ou se a minha existência tinha algum outro significado? É claro que entendi o caminho que pretendia seguir neste mini-interrogatório, desmoralizando e desmascarando-me logo à primeira pergunta. Assim sendo, apresentei-me de forma pausada e ciente do meu perfil de poeta como Vicente Guedes, poeta.

- Tinham-me dito que era o Fernando Pessoa!

De novo pausadamente, esclareci que o poeta morrera há algumas décadas e que eu era, repetia, Vicente Guedes, também poeta.

- Então porque se veste como ele e até vem para o Martinho da Arcada?

Senti que a próxima resposta iria ser fundamental para a jogada que Vicente Guedes teria que executar no xadrez de perguntas que estava em curso. Afirmei que o facto de Fernando Pessoa ter morrido não significa que aos seus heterónimos tenha acontecido o mesmo. Aliás, disse-lhe sem permitir contra-argumentação, que os outros Pessoa só tinham sido conhecidos a sério muito para além do dia em que o poeta morrera e que um deles até fora tema de um romance ao regressar a Lisboa, já depois da morte do poeta. E que agora, e em muito bom tempo, revelava-se ao mundo mais um. Sorrindo, até lhe coloquei a questão de quem sabe se após este que está à sua frente não surgirão outros ainda?

O descendente de Ferreira Gomes ficou a pensar no que ouvira e acabou por dizer.

- Creio que está na hora de provar o pastel de bacalhau que me ofereceu.

Via-se que na sua cabeça fervilhava aquilo a que o pensador marxista caracterizara como a luta entre tese e antítese, sendo que eram várias as sínteses que dali resultavam em vez de uma única.

Não tive dúvidas de que no descendente do jornalista o pensamento já ia mais longe. Se viera a pensar escrever uma crónica de escárnio e mal-dizer sobre um imitador de Fernando Pessoa, o que lhe parecia ter entre mãos era uma outra história, bastante mais complexa e capaz de disputar o interesse de muitos mais leitores que a anterior.

- Esclareça-me o seguinte. O que é que Vicente Guedes tem a ver com Fernando Pessoa?

Senti que o próximo movimento iria mais uma vez ser importante para convencer o jornalista sobre a veracidade do meu heterónimo e, em seguida, fazê-lo transmitir essa opinião para os leitores. Não estava em causa apenas o papel que Sena me atribuíra e de que eu me apropriara com tanta confiança para esta segunda vida minha e do poeta. Então, expliquei-lhe que Vicente Guedes tinha sido um dos heterónimos mais importantes para Pessoa, que andara a trabalhar na sua voz o Livro do Desassossego durante vários anos mas que este lhe fora usurpado à última hora, contrariando até algumas ideias do próprio poeta. Sabe, disse-lhe repetindo alguns do textos escritos por Pessoa e influenciados por Malthus, que a sensibilidade é a fonte de toda a criação civilizada. Mas essa criação só pode dar-se completamente quando a sensibilidade está adaptada ao meio em que funciona e que é na proporção da adaptação da sensibilidade que está a grandeza e a força da obra resultante. E eu, Vicente Guedes não estava pronto como acontecia a Bernardo Soares porque, embora a sensibilidade varie um pouco pela influência insistente do meio, ela é também determinada desde a sua nascença, em função do temperamento que a hereditariedade me fixou. E rematei: a sensibilidade, portanto, progride por gerações. E foram precisas várias para que eu estivesse pronto para a missão que o poeta me confiara.

- Compreendo o que me está a dizer, mesmo que isso não me explique a razão do seu aparecimento, principalmente o que o liga ao Pessoa.

Avancei então num discurso mais magistral, repetindo outros conceitos do poeta de modo a convencê-lo sobre o desígnio da missão: A Europa tem sede de que se crie, tem fome de Futuro! A Europa quer grandes Poetas, quer grandes Estadistas, quer grandes Generais! Quer o Poeta que busque a Imortalidade ardentemente, e não se importe com a fama, que é para as atrizes e para os produtos farmacêuticos! E eu, da Raça dos Descobridores, desprezo o que seja menos que descobrir um Novo Mundo e, portanto, vou indicar o caminho com a minha sensibilidade. Ora, como já referi, a sensibilidade progride por gerações e só neste momento é que o poeta está pronto para renascer em Vicente Guedes.

O descendente olhava para mim com um ar entre o convencido e o vencido pelos argumentos que eu declamava. Mas não me parecia ainda estar pronto a aceitar as teses que fora buscar a Fernando Pessoa para dar uma componente científica sobre a minha aparição. Decidi avançar com mais uma teoria pessoana e dizer-lhe que estava perante a "abolição do dogma da personalidade".

- O que quer dizer com isso?

Expliquei-lhe que todos temos uma Personalidade «separada» das dos outros - é uma ficção teológica, acrescentei -, porque cada um de nós é composto do cruzamento social com as «personalidades» dos outros, da imersão em correntes e direções sociais e da fixação de vincos hereditários, oriundos, em grande parte, de fenómenos de ordem coletiva. Isto é, no presente, no futuro, e no passado, somos parte dos outros, e eles parte de nós. Para o auto-sentimento cristão, o homem mais perfeito é o que com mais verdade possa dizer «eu sou eu»; para a ciência, o homem mais perfeito é o que com mais justiça possa dizer «eu sou todos os outros». Devemos pois operar a alma, de modo a abri-la à consciência da sua interpenetração com as almas alheias obtendo assim uma aproximação concretizada do Homem-Completo, do Homem-Síntese da Humanidade.

Mais uma vez entendi pelo seu franzir da testa que estas explicações de pouco lhe interessavam, pois seriam de difícil transformação para a linguagem jornalística e para a compreensão dos seus leitores. Decidi, por isso, arriscar em grande e afirmar algo que lhe daria um bom título para o artigo e que o consumidor do seu jornal leria de um ápice e até perder o fôlego. Foi, então, que confessei que só tinha um propósito na vida: quero que se faça justiça e que Fernando Pessoa ganhe o Prémio Nobel.

- Mas os mortos não podem ser candidatos ao Nobel!

O descendente de Ferreira Gomes reagira depressa! Não estava à espera que recobrasse a lucidez tão depressa, mas foi fácil compreender o porquê deste seu acordar após ouvir as balelas teóricas que dissera antes. Era a palavra Nobel que tocava as campainhas e que o acordara para a vida. Tanto assim que não resisti a acrescentar que acreditava que a candidatura que eu iria protagonizar em nome de Pessoa deveria ter naturalmente um apoio ibérico!

O jornalista permaneceu em silêncio durante alguns instantes. Em seguida pegou no bloco e riscou umas palavras. Continuou a pensar no que eu dissera por mais uns instantes e saiu-se com esta.

- Sinceramente, não acredito em si, nem no que está a dizer...

Regressou ao silêncio por mais um tempo e rabiscou mais umas palavras.

- Isso também não me diz respeito. Se eu publicar um artigo com a sua revelação decerto que os entendidos irão verificar até que ponto é verdade o que me está a dizer. A minha obrigação é dar a notícia e quem não acreditar que se preocupe com o assunto, que o investigue e dê cabo de si se for preciso!

Não era exatamente esta a reação que eu esperava de Ferreira Gomes, principalmente que me fosse dita assim tão sem rodeios. Via-se que o homem estava um pouco sem norte e que o seu espírito profissional se dividia entre a notícia excecional que tinha entre mãos e a descrença no que ouvia.

- Explique-me só uma coisa, como é que vai justificar que é uma das personalidades do Pessoa?

Mesmo com dúvidas, o descendente do jornalista queria encontrar argumentos para convencer o seu chefe de redação para a situação inédita com que regressava ao jornal. Tentei encontrar nas teorias do Pessoa uma que o pudesse esclarecer e recordei esta: «Em arte, só tem o direito ou o dever de exprimir o que sente, o indivíduo que sente por vários. O que é preciso é o artista que sinta por um certo número de Outros, todos diferentes uns dos outros, uns do passado, outros do presente, outros do futuro. O artista cuja arte seja uma Síntese-Soma, e não uma Síntese-Subtração dos outros de si, como a arte dos atuais.»

Confirmei que ele anotava esta frase, designadamente a parte em que referia o "futuro", uma justificação para o presente que estávamos a viver e que tanto o perturbava. E para que não lhe restassem dúvidas voltei ao ataque, certificando-me de que ele tomaria nota de uma última teoria que lhe ditei: «O maior artista será o que menos se definir, e o que escrever em mais géneros com mais contradições e dissemelhanças. Nenhum artista deverá ter só uma personalidade. Deverá ter várias, organizando cada uma por reunião concretizada de estados de alma semelhantes, dissipando assim a ficção grosseira de que é uno e indivisível.»

Tentei imaginar o frenesi em que o descendente de Ferreira Gomes estaria. Afinal, encontrara uma ponte até ao seu antepassado, que tanto tornara Fernando Pessoa popular ao maquinarem juntos a história do falso suicídio de a Besta. Tal como há várias décadas, um beneficiara o outro num negócio com proveito para ambos e agora, como menos aldrabice, repetia-se essa aliança com tradições familiares.

Quando relatei o que se passara a Beatriz, ela levou as mãos à cabeça. Via-se que estava em pânico e que não tinha previsto este desfecho para a minha revelação.

- Eu deveria estar sempre ao teu lado. Bem que Sena avisou para evitar alterações ao plano!

O olhar dela confirmava a aflição que lhe ia no pensamento, altura em que lhe fiz notar que não tinha tido outra solução e que os segredos que teimava em manter em relação a mim em nada me beneficiariam. Desconhecendo o plano de Sena, havia que improvisar a cada situação que me surgisse. Avisei-a de que a partir desta conversa com o descendente de Ferreira Gomes o Vicente Guedes iria ser um caso nacional - espero até que internacional, desejei - e que estava na hora de nos unirmos num mesmo esforço ou deixar-me viver a minha segunda vida como se fosse real. Até porque eu não tinha medo de enfrentar tudo o que estava para me acontecer, afinal sentia-me verdadeiramente apanhado pelo Vicente Guedes e já pouco recordava sobre a minha vida anterior ao ano passado no Freixo.

Pior ainda ficou Beatriz quando soube que eu me tinha deixado fotografar na minha mesa do Martinho da Arcada, a segurar um pastel de bacalhau numa mão e a escrever com uma caneta na outra, e também sentado ao volante do velho Chrysler. O descendente convencera-me que estas duas imagens dariam credibilidade aos meus relatos e eu acreditara nisso. Também não gostara que eu tivesse cedido um poema inédito para integrar na página de jornal que ficara prometida publicar.

A notícia publicada dois dias depois fez o furor que era de se esperar e o movimento ao meu redor até obrigou o dono do Martinho da Arcada a requisitar um polícia para manter a ordem naquela parte do passeio do Terreiro do Paço. Para além dos turistas habituais, e de muitos mais curiosos do que era habitual, surgiram fornadas de jornalistas a quererem certificar-se da existência de um renascido Fernando Pessoa, que se intitulava Vicente Guedes, conforme afirmava o artigo do descendente de Ferreira Gomes.

Desta vez, Beatriz não me deixara só. Ficou bem mais nervosa do que eu quando pressentiu que o magote de pessoas não iria abrandar e voltou a entrar em pânico quando, para além dos da imprensa escrita, se concentraram vários jornalistas das televisões, apetrechados de microfones, grandes câmaras e holofotes para realizarem diretos para os noticiários da noite. Mantive-me calmo e apenas pedi alguns momentos para ir até à casa de banho fazer um chichi, já que o licor de absinto fazia o seu efeito. Também aproveitei para confirmar que o meu penteado estava impecável e que o bigode se igualava na forma ao do poeta.

Ir e vir foi difícil já que os jornalistas decidiriam acompanhar cada passo dos que dei até à casa de banho. Não sei se receavam que fugisse por alguma porta dos fundos! Havia também os que, durante estes passos, me pediram para declamar um poema, e outros que faziam grandes planos fotográficos para posteriormente compararem o meu rosto como o do falecido Pessoa. Enquanto urinava, também Beatriz foi vítima das perguntas e da curiosidade dos jornalistas, mas nada disse ou explicou. Via-se que ela não era dada a estas coisas de falar com a imprensa como eu, que me sentia já capaz e preparado. Tinha em mente que a principal qualidade de um entrevistado era mostrar confiança e não defraudar os espetadores, daí que tivesse preparado algumas palavras para quando esta situação ocorresse. Também decidira que não iria desvendar muito mais do que já conversara com Ferreira Gomes, um entre os muitos que ali se encontravam, mantendo-se sempre a uma certa distância do epicentro da confusão, como que a observar o efeito da sua notícia e a confirmar que fizera o trabalho completo.

Apesar das insistências, só pronunciei uma única frase: "É agora necessário que eu diga que espécie de homem sou. O meu nome não importa, nem qualquer detalhe externo sobre mim. É acerca do meu carácter que algo deve ser dito. A minha própria recordação dos acontecimentos, das coisas externas é vaga, mais do que incoerente. Estremeço ao pensar quão pouco resta no meu espírito daquilo que foi a minha vida passada. Eu, o homem que sustenta que o dia de hoje é um sonho, sou menos do que uma coisa de hoje."

Houve dois momentos na reação dos jornalistas. Primeiro, o tentar entender o significado do que eu afirmara. Segundo, insistir em mais declarações. Claro que percebi que a minha frase não fora digerida com grande profundidade, tal foi a pressa com que passaram à segunda fase, e que nem estavam preocupados com o seu alcance filosófico e heteronímico. O seu interesse era obter uma declaração onde eu afirmasse que era Fernando Pessoa pela via de um heterónimo menos conhecido, o de Vicente Guedes.

Não lhes dei essa satisfação de imediato, havia que manter algum mistério, até porque preferia utilizar o descendente do jornalista como único mensageiro das minhas novidades. Ferreira Gomes fora correto no que publicara e, para felicidade de Beatriz, o artigo era pouco dado a invenções. Notava-se que pretendia tornar-se o canal preferencial da minha pessoa e obra, e até cometera a proeza de ouvir um especialista no poeta sobre o inédito que eu lhe entregara para publicação. Que considerara o poema como na linha dos que escrevera no início da século passado e notara uma vertente heteronímica pouco detetada até ao momento em que o lera, que bem poderia ser de autoria de Vicente Guedes. No seu entender, o poema "era de um desassossego superior ao livro com este título, o que fazia entrever a razão pela qual Vicente Guedes abandonara a autoria daquela obra". Outro especialista confirmava a minha existência como heterónimo e explicava os seus contornos biográficos, e um terceiro questionava que se a possibilidade do regresso de Pessoa fisicamente era de difícil compreensão, ao nível metafísico era de crer na sua possibilidade.

O jornalista não deixara arrefecer o noticiário sobre o estranho regresso de um poeta e na edição seguinte foi mais longe, entrevistou várias personalidades do mundo literário e questionou-os sobre se não tinha chegado a hora de terminar com a secura da Academia Sueca em relação à poesia nacional. Que a língua portuguesa estava em todos os cantos do mundo e continuava ignorada de forma ostensiva pelo Prémio Nobel era a premissa do artigo de duas páginas, com uma grande chamada à primeira página do jornal, em que Ferreira Gomes confrontava os intelectuais da esquerda à direita, da ficção ao ensaio, e, principalmente, os inúmeros poetas que logo se puseram em bicos de pés para terem a sua opinião favorável publicada. Ninguém esteve contra a proposta ao Nobel, antes erigiram de imediato uma grande muralha em defesa de Vicente Guedes e valorizaram o facto de ser tempo de premiar a grande voz poética que corria pelas veias da História de Portugal desde a fundação do país e nunca se calara.

Ferreira Gomes fizera um bom trabalho, daí que eu desejasse privilegiá-lo com as novidades públicas necessárias à minha segunda vida, no que Beatriz também concordou. E assim, quando todos os jornalistas se cansaram de esperar por mais revelações, fiz-lhe sinal para se sentar connosco e conversar enquanto provávamos mais uns pastéis de bacalhau acabados de fazer. Senti que a minha vida estava a chegar a um ponto de não regresso ao que fora até há ao princípio desta manhã. A publicação da notícia que anunciava a aparição de Vicente Guedes e a chusma de reações que se seguiram obrigavam-me a uma segunda vida, quer eu quisesse ou não. Ainda poderia evitá-lo, bastaria dizer que era mentira e que me aproveitara de uma maquinação de Sena. Pelo contrário, caso avançasse, só precisava de manter a versão que agora começava a correr mundo e que me levaria até uma irrealidade que eu era incapaz de imaginar.

De qualquer modo estava tão consciente sobre o que me acontecera nestes últimos meses que já não duvidava que o meu anfitrião apenas fora o parteiro de uma verdade que estava bem dentro do meu íntimo, fazendo de mim o primeiro homem a gerar um filho. Que mesmo nascendo adulto, seria um milagre para a arte da poesia. Não me restava por isso senão avançar com a encarnação de Vicente Guedes, contando para tal com a ajuda preciosa do descendente do jornalista. Foi então que lhe fiz nova revelação, desta vez combinada por antecipação com Beatriz, a de que lhe daria uma nova e espetacular notícia para escrever no seu jornal e continuar a alimentar o fenómeno em torno do novo heterónimo. Contei-lhe que na manhã seguinte pretendia apresentar-me à porta da Casa Fernando Pessoa e reivindicar algumas das suas divisões para morar.

- E tem todo o direito em o fazer!

O esgar de felicidade do jornalista antecipou em todo o seu esplendor os estragos que o furacão Vicente Guedes iria provocar no universo pessoano com esta segunda vida. Por isso, estava certo de que ao bater à porta da Casa Fernando Pessoa iria revolucionar a minha vida e a do poeta para toda eternidade...

Fim

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