A masculinidade, esse fantasma da América...

Um Karate Kid misturado com Fight Club. A Arte da Auto-Defesa tem Jesse Eisenberg a vingar-se com karaté da América "bully" de Trump. Não estreou nos cinemas nacionais, mas pode ser agora apanhado na programação dos canais TVCine.

Uma comédia violenta, toda ela em forma de sátira moderna. O alvo é a masculinidade do jovem americano contemporâneo. Riley Stearns é cínico mas convincente na abordagem: um humor lancinante sem "punchlines" nem truques de fórmula, apenas um sentido observacional íntegro.

Tudo começa quando Casey (Jesse Eisenberg em composição de rigorosa austeridade), um contabilista tímido de 35 anos, é vítima de um espancamento brutal. Depois dessa agressão, acaba por se inscrever num curso de karaté e encontra Sensei, um instrutor que o obriga a repensar a sua dureza interior. Primeiro de tudo, a lavagem cerebral inclui ouvir apenas "heavy metal", ser agressivo para os colegas e passar de um cachorro pequeno para um pastor alemão. O "tótó" típico solitário começa então a tornar-se num tipo violento, respondão e capaz de passar do cinturão branco ao amarelo numa assentada. O karaté como metáfora de uma raiva de frustração de uma América de homens temporariamente sós.

Primo nada distante de Selvagem e Perigosa, de Jonathan Demme, The Art of Self-Defense é uma curiosa mistura de géneros. Uma mistura tão grande que se torna para o espetador numa espécie de jogo de contaminação entre o drama, a farsa e a comédia negra. Violentíssimo quando não se esperava, é também capaz de brincar com os ideais do filme de "vingança" que o cinema de Michael Winner instituiu. O melhor de tudo é que a abstenção de gagues faz com que o humor surja sem avisos, provocando no espetador uma sensação de delicioso desconforto. O Karate Kid aqui não precisa de lições de vida, mas sim de um lugar na sociedade e encontrar conforto com a sua dureza masculina, algo que lhe é imposto - acusam-no de não ter um nome suficientemente masculino e gozam-no por não ter uma arma...Talvez não seja exercício fútil olhar para esta violência endémica à luz dos acontecimentos pós-George Floyd...

Se é verdade que há um fôlego de originalidade em toda esta proposta, não o é menos que está dependente de uma capitalização de escala "indie" à pequeno filme de Sundance, uma espécie de praga de um cinema menos ambicioso da indústria americana. É pena porque a crónica desta sociedade americana à beira de um ataque de nervos merecia um outro grau de acidez. Não obstante, A Arte da Autodefesa é uma boa surpresa e pode desestabilizar quem entrar desprevenido. Em suma, uma comédia sempre em modo "low-profile", nada expansiva e com um charme que também vive da presença de atores tão contidos como Alessandro Nivola e a inglesa Imogen Poots.

Frio e assustador num ápice, farsa nos limites noutro. Riley Stearns aposta tudo num humor seco que surpreende. Custa acreditar que não tenha encontrado quem o quisesse estrear por cá...Está a rodar pelos TVCine...

*** Bom

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG