A Malta da Rua dos Plátanos, de António Garcia Barreto. Uma geração à espera da liberdade

Às portas de Lisboa, nas décadas de 1950 e 1960, um grupo de rapazes desperta para a vida e para a consciência de que Portugal não é um país livre. A Malta da Rua dos Plátanos, à venda com o DN a partir de 4 de abril por 8 euros, reconstitui as vidas de uma geração que conheceu a ditadura, a emigração, a guerra e, finalmente, a conquista da democracia. Entrevista ao autor.

Sob os plátanos, um grupo de miúdos joga à bola ou ao pião. Estão na Amadora, às portas de Lisboa, mas as copas frondosas das árvores proporcionam-lhes uma ilusão de liberdade campestre... pelo menos enquanto as mães não chamam para jantar. À medida que os anos passam, hão de compreender, no entanto, que esta é uma das poucas liberdades possíveis numa sociedade contaminada pelo medo à polícia política, à prisão ou simplesmente à miséria, cujo limiar nunca está longe. Romance de estreia de António Garcia Barreto (nascido na Amadora, em 1948), A Malta da Rua dos Plátanos foi lançado originalmente em 1981 pela Editorial Caminho e traduzido para russo, foi publicado na então União Soviética, juntamente com Levantado do Chão, de José Saramago, o que lhe proporcionou, como hoje brinca, "a alegria de ter visto um livro seu com uma tiragem de 100 mil exemplares".

Autor de várias obras de e sobre literatura infantojuvenil, Garcia Barreto tomou, com este primeiro romance, o gosto à ficção para adultos. Seguiram-se, entre outros, Triângulo de Guerra, À Sombra das Acácias Vermelhas, A Mulher da Minha Vida, É Perigoso Brincar com os Beijos, Ensina-me a Namorar, Contos do Amor Breve, O Homem do Buick Azul ou O Cio das Manhãs. Em 2019, voltou a A Malta da Rua dos Plátanos e depurou-o do que diz ser "a linguagem demasiado datada de há 40 anos", conservando-o, no entanto, "fiel à sua essência". Nem outra coisa poderia fazer com um livro que assumidamente devolve à vida a infância e a adolescência do autor e dos que com ele cresceram. Ei-lo agora, no mês em que se comemora a liberdade, à disposição dos leitores do DN.

Até que ponto A Malta da Rua dos Plátanos reconstitui as memórias da sua infância e adolescência nas décadas de 1950 e 1960? Aquele meio operário, com um orçamento remediado, como então se dizia, era o seu?
Posso dizer que sim. O meu pai era operário da Anglo-Portuguese Telephone Company, a empresa que explorou as linhas telefónicas em Portugal até 1968, e a minha mãe era bordadora, ou seja, estava em casa e trabalhava para fora, aceitando encomendas de particulares. E a Rua dos Plátanos efetivamente existiu na Amadora, foi aquela em que vivi até ir para a guerra, em Moçambique. Tinha outra designação toponímica mas todos a conheciam assim porque os plátanos eram tantos que as suas copas formavam uma autêntica abóbada, muito agradável nos meses de verão. Ali jogávamos à bola ou hóquei em campo, embora também fôssemos para o campo do Estrela da Amadora, que só anos depois se mudaria para a Reboleira. Socialmente era habitada maioritariamente por essas famílias ditas remediadas, mas que, na verdade, tinham muitas dificuldades em criar os filhos. Havia algumas exceções, como o historiador e jornalista Fernando Piteira Santos, que ali viveu antes de se ter exilado em Argel. No meu caso pessoal posso dizer que tive também a felicidade de ter sido uma espécie de neto adotivo de um casal que tinha outras possibilidades, o que me facilitou o acesso a outras coisas que os meus pais não podiam comprar.

Em que momento começou a tomar consciência da repressão exercida pela ditadura?
Antes de formar a chamada consciência política, houve momentos que me ficaram gravados na memória. Lembro-me, por exemplo, de ver o meu pai a tentar ouvir a Rádio Moscovo ao mesmo tempo que punha um copo de água em cima do rádio, que era daqueles grandes que se usavam antigamente. Eu perguntava para que era aquilo e ele, que, aliás, era homem de poucas falas, não respondia. Disseram-me mais tarde que, com o copo cheio em cima do aparelho, se julgava que a polícia não conseguia detetar a ligação.

No livro fala do terror das famílias, que crescia à medida que as crianças se tornavam adolescentes: ai, se eles se metem na política, se trazem para casa um panfleto, um papel proibido...
Essa preocupação era uma constante. E a violência policial não era um fantasma, existia, de facto. Pude presenciá-la, ainda adolescente, quando estive empregado na já desaparecida Livraria Portugal, na Rua do Carmo. Era miúdo ainda, chumbara no 4.º ano e, como era hábito nessa época, a minha família pôs-me a trabalhar nas férias. Por causa de um conhecimento familiar, fui parar à Livraria Portugal, onde acabei por ficar, mesmo depois de as aulas começarem, até porque o dinheiro me dava muito jeito. Foi aí que várias vezes vi a guarda, comandada pelo capitão Maltês, perseguir os estudantes Rua do Carmo acima, entrar na Portugal (e nas outras livrarias) para ver se eles se tinham escondido lá dentro. Também me lembro de ver uma bala, disparada pela Polícia, bater debaixo da janela do escritório onde estava a contabilidade da livraria. E recordo, por outro lado, uma pobreza muito mais grave do que a da Amadora, que todos os dias levava centenas de pessoas ao Quartel do Carmo para trazer uma malga de sopa..

Há um momento muito curioso no livro, em que fala do modo como a aquisição de uma máquina de costura própria foi uma conquista para as mulheres, que, de repente, podiam aceitar encomendas de trabalho e aumentar o orçamento familiar...
Foi o caso da minha mãe, que era bordadora e trabalhava nos enxovais muito delicados das noivas abastadas. Lembro-me muito bem de irmos de elétrico a casa dessas pessoas, a minha mãe com uma mala muito carregada, eu a tentar ajudar, mas sendo muito pequeno não conseguia. Havia em particular uma família da Praça de Londres, com três ou quatro criadas muito amáveis que me davam uma gemada porque eu era muito magrinho. De facto, essas encomendas eram muito bem-vindas porque correspondiam a um rendimento extra. Embora não nos pudéssemos queixar muito porque, ao contrário de tantos outros, o meu pai tinha um ordenado fixo (esteve 51 anos na companhia, até se reformar), e, sendo a companhia inglesa, havia regalias que as empresas portuguesas não proporcionavam aos trabalhadores. No Natal faziam sempre grandes festas, em que nós recebíamos um conjunto de roupas de inverno, incluindo botas. Éramos dois rapazes, imagino agora o jeitão que isso dava aos meus pais.

Fala várias vezes no DN e na sua omnipresença no quotidiano. Sente que os portugueses liam mais jornais e livros do que hoje?
O DN estava todos os dias em casa desses meus avós adotivos e era lido de ponta a ponta. A classe média lia mais jornais e tinha grande apreço pelos livros. Esse meu avô, que tinha sido maquinista da CP, ainda dos comboios a vapor, tinha em casa uma pequena biblioteca. Quando estive na livraria, pude perceber que as pessoas que iam comprar livros não eram apenas universitárias. A leitura assumia, de facto, um grande papel na vida quotidiana do cidadão comum.

Que memória guarda do dia 25 de abril de 1974?
A de uma grande expectativa. Lembro-me de sair à rua e ver as pessoas todas muito paradas, sem saber o que pensar ou o que fazer. Eu voltara da guerra em novembro de 1973 e empregara-me na secção de organização e métodos de uma fábrica. Quando lá cheguei, nessa manhã, aquilo estava já tudo parado, até porque havia lá uma grande célula comunista. Estava tudo a perguntar-se: o que aconteceu? Isto vai voltar para trás, não vai? Aquilo de que nos apercebíamos era de que aquele movimento tinha uma força diferente de outras tentativas anteriores.

Ainda mantém amigos desse tempo, da malta da Rua dos Plátanos?
Posso dizer que esses amigos, por causa da guerra ou por outra razão próxima, desapareceram. Nós vivíamos todos juntos, mas, nos anos 1960, uns partiram para o estrangeiro para evitar a ida à guerra, outros foram mesmo lá parar, como eu, que estive quatro anos na tropa em Moçambique. Quando voltámos, o lugar já não era o mesmo e nós também não.

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