"A maior parte dos grandes concertos são os das bandas mais pequenas"

O festival de música NOS Alive regressa hoje ao Passeio Marítimo de Algés depois de duas edições anuladas pela pandemia de covid-19. Em conversa com o DN, Álvaro Covões, responsável máximo pela organização, explica porque acredita que este vai ser "o melhor regresso de sempre".

Conseguiu tirar alguma coisa de positivo nestes dois anos sem Alive?
Nada. Não tivemos a possibilidade de trabalhar e isso foi muito frustrante. Embora trabalhemos cada edição com um ano e meio de antecedência: é quando termina um festival que nos concentramos na edição seguinte. Portanto, depois de 2019, chegamos a março de 2020 e aí levamos com o choque de não haver festival. Depois caminhámos para 2021, e quando chega o ano não podemos realizar novamente...mas não estivemos parados, vendemos bilhetes, fizemos cartazes e as sucessivas alterações dos cartazes.

Tomar essa decisão de não realizar os festivais tirou-lhe o sono?
Não fomos nós que tomámos a decisão, fomos obrigados a fazê-lo. Na realidade fizemos a proposta de fazer eventos-teste. Achámos que fazia sentido fazer os eventos com pessoas que testassem negativo, mas o entendimento na Europa não foi esse. Mas, depois de estarmos vacinados, foi assim que passamos a ir aos eventos. Claro que a vacina foi muito importante, mas foi pena que Portugal não tenha seguido os passos do Reino Unido e dos EUA, que começaram os festivais mais cedo, em agosto. Nós só começámos em setembro.

Esta interrupção veio mudar de alguma forma o perfil do público do Alive. Há diferenças em relação a outras edições?
Temos dificuldades em saber porque os bilhetes desta edição foram vendidos em quatro anos civis. Só vamos sentir no terreno. Aliás, há três gerações que acabaram de fazer 18 anos, que é quando já podem oficialmente beber uma cerveja, e que viram adiada a sua experiência com plenos poderes para virem a um festival e, legalmente, beber uma cerveja. Estamos com curiosidade de ver o impacto que isso tem.

Têm muitos estrangeiros a virem ao festival, são os turistas qualificados e não os tais "mochileiros" que uma vez mencionou?
Isso é outra história, faço parte da direção de Turismo de Lisboa e quando se fala em sustentabilidade no turismo é quando os turistas ficam mais tempo, o que significa que fazem menos viagens. E se tiverem mais poder aquisitivo será melhor para a economia portuguesa. Agora, claro que não se manda os mochileiros embora. Isso foi por causa da Avenida da Liberdade, em vez de ter dito turismo de pé descalço, disse mochileiros. Claro que os turistas que ficam em hotéis de duas estrelas e que vão ao supermercado fazer compras são bem-vindos, mas não vamos estar à espera de que vão depois à Louis Vuitton. Mas os festivais de música, principalmente os urbanos, têm trazido um turismo mais qualificado, ou seja, com mais poder de compra. E é o que interessa a todos nós. Não quer dizer que se proíba, mas não é interesse de nenhuma organização ter turistas a dormir na rua num saco para virem assistir a um concerto de uma banda que gostam. Queremos que eles venham e tenham poder financeiro para ficarem num hotel. E cada vez mais é o que se verifica.

"Esta edição vai ficar marcada na história dos grandes festivais porque um dos maiores artistas, senão o maior, são os portugueses Da Weasel. É um facto inédito."

E o que vai ser esta edição do Alive?
Fomos buscar uma assinatura que nos vai na alma: o melhor regresso de sempre, porque regressamos ao fim de três anos. E acho que esta edição vai ficar marcada na história dos grandes festivais porque um dos maiores artistas, senão o maior, são portugueses: os Da Weasel (dia 9). É um facto inédito. E isso acontece porque a banda decidiu terminar há doze anos e há agora esta exclusividade de ter uma aparição única, o que faz disso um momento muito especial. Há muitos anos criticavam os festivais por serem só artistas estrangeiros, e os portugueses não terem palco. Mas os portugueses que vendem bilhetes fazem 40 a 50 concertos por ano, ninguém vai pagar um preço alto quando os pode ver de graça num outro sítio. Aliás, isso está a acontecer. Falei há poucos dias com alguém de uma sala de espetáculos grande no norte que está a ter uma quebra nas vendas e a justificação para isso é que todas as autarquias têm uma série de artistas a dar concertos de graça e as pessoas não compram bilhetes. Mas isso tem a ver com a dimensão do mercado. Mas regressando aos Da Weasel, vão ficar na história por serem cabeças de cartaz a par de outros nomes internacionais.

Outros destaques em especial?
Há coisas fantásticas, como a Hope Tala (dia 9), que vai tocar no Palco Heineken. Depois há Jungle (dia 6). O cartaz tem tantas bandas boas. A maioria das pessoas focam-se nas bandas mais conhecidas, mas por exemplo fala-se pouco de The War on Drugs (dia 6), Royal Blood (dia 8), que são brutais; Parov Stelar (dia 6), que é uma grande festa. Normalmente, a maior parte dos grandes concertos são das bandas mais pequenas. A melhor experiência aqui no Alive é ir ver uma banda no palco NOS, depois ir ao Clubbing, depois ir à comédia, depois palco Heineken, passar pelo coreto, sempre com ambientes diferentes, e parece que estamos noutro evento quando mudamos de palco. Dou o concelho de olharem com muito cuidado para o programa. E há algo de que nos orgulhamos: quando começámos, em 2007, estava na moda os projetos de responsabilidade social e a maior parte dos festivais plantava árvores. Seguimos esse caminho, porque temos de ser mais sustentáveis, mas isso não vai acontecer de um dia para o outro.

E agora o que têm feito?
Introduzimos pequenas coisas, como uma parceria com a EDP de onde vem a maioria de rede elétrica. Só temos geradores no palco Nos por causa da potência, e temos geradores de backup, para o caso de haver uma quebra de fornecimento de energia. Seguimos uma política de sustentabilidade de brindes - no nosso festival os brindes têm de ser sustentáveis e reutilizáveis. Temos o incentivo à utilização de transportes públicos, com comboio e 25 autocarros da Carris no final dos concertos. Temos parceria com a Transtejo, para que os turistas possam ir à praia de bicicleta, há bilhetes que estão incluídos os barcos e os comboios. Mas há uma escolha que fizemos mais importante.

Qual?
Como percebemos que isso de plantar árvores é mais marketing do que realidade, porque não basta só plantar depois há que cuidar delas. E, geralmente planta-se, leva-se a comunicação social, tira-se umas fotos e depois as árvores morrem. Por isso, decidimos procurar um projeto diferente e passámos a financiar, em conjunto com o Instituto de Ciência Gulbenkian, duas bolsas de investigação ciêntifíca desde 2007 e hoje temos mais de 20 cientistas em várias partes do mundo que começaram como bolseiros do Alive e do Instituto Gulbenkian. Sempre dissemos que quem resolver os problemas do mundo, nomeadamente no ambiente, é a ciência. E precisamos de cientistas! Aliás quem nos resolveu o problema da pandemia foram os cientistas que desenvolveram a vacina. Todas as edições do festival fazemos uma espécie de speed dating com cientistas onde as pessoas que veem ao festival podem ir falar com eles e trocar experiências.

O Alive ao contrário de outros festivais não tem dias temáticos. Vocês misturam vários estilos nos mesmos dias...
Criámos um conceito novo no mercado dos festivais quando começámos a considerar que não temos palcos principais e que todos os palcos são principais. Fizemos isso com o objetivo de aglutinar mais publico e criar uma experiência interessante. O objetivo é que a pessoa tenha permanentemente uma coisa do seu agrado para ver. O pior que nos pode acontecer num festival é levar uma seca antes de ver os artistas preferidos. Assim, criamos essa diversidade de oferta que chega ao ponto de não se conseguir ver tudo o que se quer...mas também não conseguimos ter o concerto perfeito para cada uma das pessoas.

Este ano há mudanças na localização das casas de banho que era algo que não corria bem...
Sim, tínhamos uma zona central nas casas de banho...mas, em primeiro lugar, tenho de fazer aqui um aparte: não existe em Portugal um espaço construído de raiz para grandes eventos. Fala-se tanto em turismo, mas é tudo da boca para fora. Uma estratégia nacional para o Turismo tem de prever um espaço para grandes eventos ao vivo. E todos os espaços usados são adaptados, aqui o Passeio Marítimo de Algés, que tem sido alvo de melhoramentos, ou é o Parque da Bela Vista ou o Parque da Cidade, no Porto, tudo adaptações do que existe, e isso faz com que nunca se consiga ter aquilo que se devia ter.

E não há festivais de música a mais em Portugal?
Não se pode dizer isso, o mercado corrige sempre. Há festivais que já não existem há outros que aparecem.

E quantas pessoas por dia estão à espera nesta edição?
Dois dias com 55 mil, o terceiro está muito próximo disso e o primeiro dia, que é uma quarta-feira, estamos nos 45 mil. E depois há uma coisa que não sabemos, pessoas que compraram e depois não aparecem.

filipe.gil@dn.pt

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