A Ilha dos Silvos: um filme que não assobia para o lado

De Corneliu Porumboiu, o cineasta romeno que nos deu o vagaroso, poético e hilariante Tesouro, chega às salas A Ilha dos Silvos, um enérgico conto noir com um dialeto assobiado, a que não falta uma femme fatale...

Se no último filme que estreou em Portugal de Corneliu Porumboiu, Tesouro (2015), a ação consistia quase somente na morosa tarefa de procurar um tesouro enterrado num pequeno lote de terra - pretexto ideal para fazer a radiografia da Roménia através das conversas que se desenrolam no processo de busca com um detetor de metais -, o que define o seu novo filme, A Ilha dos Silvos, é um reboliço de eventos alicerçados na sua incontestável inteligência humorística.

Qual é então o ponto de partida? Um agente da polícia de Bucareste, Cristi, envolvido com mafiosos, é enviado para a ilha La Gomera, nas Canárias, a fim de aprender uma ancestral língua assobiada (em que cada silvo corresponde a uma letra, imagine-se a paciência...) que lhe permitirá comunicar em código com os membros da máfia, num plano que consiste em libertar da prisão a única pessoa que sabe onde estão escondidos 30 milhões de euros roubados. Sob permanente vigilância dos seus colegas agentes - inclusive dentro de casa, onde sabe que tem câmaras estrategicamente colocadas -, Cristi acaba por se resignar a esta dança moribunda entre dois mundos, desde que por perto esteja a bela e voluptuosa Gilda (nome que soa a clara homenagem à femme fatale Rita Hayworth no filme homónimo de Charles Vidor), por sinal, namorada do homem que é suposto ajudar a tirar da prisão.

Nesta engenhosa intriga, idealizada e escrita pelo próprio Porumboiu, o que salta primeiro à vista é a sua dimensão lúdica. Quer dizer, o modo como o talentoso cineasta elabora as cenas em função de um jogo formal de géneros cinematográficos, pondo na calha o filme de gangsters, o policial, o terror, o western e até uns pozinhos finais de ficção científica, tudo isto envolvido por um tom noir regado de humor cirúrgico. A propósito, guarde-se o espectador para uma apontamento narrativo que Porumboiu faz pelo meio, brincando com a morte simbólica do realizador... É de uma mente que não deixa escapar nada.

Assim, passamos alegremente por referências várias, desde A Desaparecida de John Ford ao Psico de Hitchcock, com uma banda sonora privilegiada (que começa com o tema The Passenger, de Iggy Pop), à procura da essência que se conhece do cinema realista deste nome maior do panorama romeno. E se à vista desarmada não se encontra grande coisa, de facto, por baixo da máquina bem oleada de evocação clássica e ação bem composta está uma das recorrentes questões da sua obra comprometida com um olhar sobre a Roménia: a linguagem. A linguagem enquanto meio que, simultaneamente, revela e oculta. Não é por acaso que as sequências mais fleumáticas de A Ilha dos Silvos, e a que Porumboiu dedica uma atenção quase antropológica, são aquelas em que Cristi está a aprender a linguagem secreta dos assobios. E, no fim, essa linguagem ganha mesmo uma força emocional.

Ainda que se possa dizer que este não é o mais virtuoso dos filmes do realizador romeno, é certamente um brilhante exercício de género, com uma inefável têmpera humorística.

*** Bom

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