A história da mulher que Oprah incitou a conhecer

Estreia entre nós A Violação de Recy Taylor, de Nancy Buirski. O documentário sobre a mulher negra que, em 1944, no Sul segregacionista dos Estados Unidos, ousou denunciar os seis homens brancos que a violaram.

Ouvimos o seu nome pronunciado por Oprah Winfrey na cerimónia dos Globos de Ouro de 2018, com o prémio de carreira Cecil B. DeMille numa mão e a firmeza de um discurso de empoderamento feminino concentrada na outra. Estávamos então no olho do ciclone #MeToo e a influente apresentadora norte-americana, de dedo indicador em riste, lançava um conselho à audiência de estrelas de Hollywood: "Recy Taylor é um nome que conheço e que vocês também deviam conhecer." De seguida, contou a história por trás dele.

O trágico episódio que marcou a vida desta mulher aconteceu em 1944, no estado do Alabama. Recy Taylor (1919-2017) acabava de sair da igreja, que frequentava regularmente, quando foi raptada por um grupo de sete jovens brancos armados que a vendaram e levaram até um local descampado, onde seis desses raptores a violaram. Tinha 24 anos, era casada e mãe de uma bebé. Sob ameaça de morte, jurou que não contaria nada a ninguém. Mas se não o houvesse feito, é certo, o seu nome não teria hoje o simbolismo que teve na luta das mulheres negras do Sul dos Estados Unidos. Digamos que a sua coragem se alinhou com a da costureira ativista dos direitos humanos Rosa Parks (1913-2005), essa que ficou conhecida pela recusa de ceder o seu lugar no autocarro a um branco.

Rosa Parks é aliás outro nome que entra nesta história contada no documentário A Violação de Recy Taylor, com assinatura de Nancy Buirski. O caso da jovem mulher que ousou quebrar as regras da cultura do silêncio sulista - é preciso lembrar que havia muitas Recy Taylors com um historial de abusos sexuais fechado a sete chaves - despertou as atenções da comunidade negra que, indignada com o desprezo das autoridades perante a denúncia de Taylor, apresentou o processo à Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor (NAACP), sendo nomeada para o investigar, precisamente, Rosa Parks. Ela foi o grande apoio de Taylor na tentativa de levar os seus violadores a julgamento (por duas vezes), mas como a justiça da altura era atravessada uma "questão de pele", não há um final justo para este caso. Não há sequer um final.

O que se afigura notável no filme de Buirski, para além de expor com um lirismo pesado a memória dramática relatada na primeira pessoa, é o modo como a voz de Recy Taylor acaba por crescer como um coro da condição da mulher negra na paisagem angustiante da América sulista. Reunindo depoimentos dos irmãos da heroína, testemunhos e olhares de alguns especialistas no processo e na própria narrativa dos negros nos Estados Unidos, a realizadora forja um panorama que, ao invés de ganhar moldes de crítica agressiva, se presta à observação dos factos através de uma lente serena. De tal maneira que a violência que contém - visível, por exemplo, no arquivo de imagens de "filmes raciais" (realizados maioritariamente por afro-americanos) que são utilizados em vários momentos - deixa-nos numa inquietação arrastada.

Como dizia ainda Oprah no seu discurso dos Globos de Ouro, que deu protagonismo a este caso, "durante demasiado tempo as mulheres não foram ouvidas, nem acreditaram nelas quando ousaram contar a sua verdade." O documentário de Nancy Buirski está aí para celebrar aquela que escolheu, em plena era segregacionista, contar a sua verdade - tal como o voltou a fazer neste filme, numa voz off alquebrada. Aqui, o grande ecrã dá para a noite escura da memória de Recy Taylor.

*** Bom

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