A geração Tinder já tem a sua comédia

O humor francês popular costuma ter resultados desastrosos no cinema. "As Primeiras Férias", de Patrick Cassir, é uma honrosa exceção. Uma comédia sobre atrações involuntárias que mostra como dois comediantes de talento podem fazer a diferença.


No turbilhão de comédias românticas francesas com que somos assaltados a toda hora, sabe bem descobrir uma que assume os seus clichés e propõe um pacto com o espectador: não esconder esses mesmos lugares comuns, mas sim fazer deles uma espécie de jogo de reconhecimento. A estratégia é do cineasta Patrick Cassir, um estreante, alguém que imaginou a história de um casal que depois de se conhecer num encontro viabilizado pela aplicação Tinder decide fazer uma loucura: passar de seguida umas férias de verão na Bulgária!

Crónica dos novos tempos e dos engates contemporâneos, o filme encontra depois outras soluções de comicidade para além do mote: os dois amantes não poderiam ser mais diferentes; ele é um hipocondríaco doentio, ela uma mulher aventureira e sem medos. A teoria de que os opostos se atraem é posta à prova numa viagem cheia de imprevistos, muita alma búlgara e azares à desfilada.

Cassir percebe que parte do apelo cómico, além da bem gizada premissa, está no carisma dos atores, gente da comédia francesa que o público português não conhece: os excelentes Jonathan Cohen, rei da televisão, e Camille Chamoux, aclamada humorista de stand up. Ambos são tão bons que tornam o humor-de-situação em algo verdadeiramente universal. Aquela coisa comum do humor francês se perder na tradução aqui não acontece, em parte devido ao talento deles. Mas também é importante realçar a participação de Camille Cottin, essa sim já mais conhecida de filmes como Tal Mãe, Tal Filha e A Biblioteca dos Livros Perdidos.

O que torna igualmente curiosa esta surpresa é o seu comedimento. Quando a maioria das comédias francesas exibe tiques histéricos e uma tendência para o que há de mais alarve na caricatura dos tipos sociais, As Primeiras Férias é bem mais moderado e, apesar de nunca querer inovar, consegue ser sempre fresco na sua charge à superficialidade das novas relações. A tonteria deste romance iniciado com sexo casual é assumida e tem um razoável espelho do ar dos tempos.

A perceção das realidades de natureza espiritual das regras de atração é material para um bom número de gagues bem sucedidos. O humor surge animado por uma busca de sentidos, de simplicidade, de unicidade e de tom, sobretudo quando adquire um caderno de crónicas dos pequenos e grandes desentendimentos homem/mulher. A proeza maior é um ponto de junção entre um desejo de proposta de piada para adultos e uma certa leveza descontraída.

E quando se pensa que vamos estar o filme todo a gozar com as idiossincrasias búlgaras, a farpa fisionómica do gozo está apontada à ideia moderna do "turista". A brincar, a brincar, Premiéres Vacances arranha as manias do estilo de vida francesa, sob o qual está sempre subentendido os inconfundíveis ares de superioridade. Só isso já provoca uma série de sorrisos...

Classificação: *** (Bom)

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