A filosofia de inverno de Cristi Puiu 

O cinema de Cristi Puiu está de regresso às salas portuguesas: Malmkrog é uma longa conversa filosófica com luz de inverno e sentimento de fim de século. Um dos grandes filmes deste ano, de um dos mais proeminentes realizadores romenos.

Nunca é demais lembrar que Cristi Puiu, ao lado de nomes como Cristian Mungiu e Corneliu Porumboiu, não só pertence à geração de cineastas que impulsionou o chamado novo cinema romeno, como é a sua figura principal. Importa ter isso em mente quando se entra pela "janela" de Malmkrog, filme que parte de um texto do filósofo russo Vladimir Soloviov - Os Três Diálogos e o Relato do Anticristo -, e que nunca será menos do que um objeto a espantar a noção simples de modernidade ao pôr-nos diante de um pequeno grupo de aristocratas, com austera indumentária de época, à conversa sobre as grandes questões da civilização humana num francês afetado mas suscetível às modelações de tom que os assuntos sugerem.

A plêiade de Malmkrog é composta pelo rico anfitrião de uma casa de campo e quatro convidados: um político e três senhoras da aristocracia, com idades e posturas distintas (uma delas esposa de um general russo, que será defensora fervorosa do poder militar). Tudo se passa em vésperas de Natal, nessa mansão localizada numa província da Transilvânia, e ao sabor da gradação de luz de um dia de inverno, que começa lá fora, com a silhueta de uma criança na neve chamada para dentro de casa, e um pastor com o seu rebanho a passar à porta.

Quando damos com as personagens propriamente ditas, rodeadas dos preparativos para o almoço, já o diálogo se iniciou, e vai estender-se à hora do jantar, prosseguindo depois deste. Um diálogo filosófico que, de resto, concentra uma consciência de fim do século XIX essencial para se compreender o bailado lento dos temas, desde a Paz e a Guerra (com memórias do conflito russo-turco de 1877-1878) à Europa, passando por Deus e o Anticristo, e a eterna rivalidade entre o Bem e o Mal.

Definir Malmkrog apenas como uma conversa filosófica de três horas e vinte é, no entanto, reduzir o filme ao cliché do retrato aborrecido e intelectual quando, ao lidar precisamente com isso, Puiu forja uma peça da maior grandeza cinematográfica. O segredo está no modo como as personagens são enquadradas e orientam a nossa atenção no espaço da casa. Mas também na relação entre a neve pictórica da paisagem exterior e a luz que modela o discurso alongado no interior. E ainda no silencioso, mesmo que movimentado, ritual doméstico dos criados que, não sendo o centro do quadro, alimentam em pano de fundo a possibilidade de uma interrupção do fluxo palavroso... Esta, de facto, acontece, e deixa a sensação de um interlúdio sonhado, espécie de fantasma de A Regra do Jogo de Jean Renoir.

Sabendo que a morte está no ADN do cinema de Cristi Puiu (A Morte do Sr. Lazarescu, Aurora) e que a casa onde o filme acontece se situa em terras de Drácula, o sentimento invernal que reveste Malmkrog torna-se ainda mais inteligível. Até porque esta aristocracia, para lá do vigor discursivo, é uma imagem moribunda. O tempo é aqui um projeto de imersão que opera pela inefável especificidade cinematográfica e não se presta à leitura superficial da sua passagem.

Como diz o título de um livro de Sándor Márai, as velas ardem até ao fim. E é essa combustão lenta do pavio que pode dar a ideia mais bela do que é Malmkrog, por si só, a mais robusta obra que estreou este ano nas salas portuguesas e o grande momento de sala escura nesta reta final de 2020. Saibamos dar-lhe valor.

***** Excecional

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