A Casa e o (Novo) Mundo

Temporada 2019 da Casa da Música ocupa-se das músicas das Américas, do erudito ao popular, do século XVII ao XXI. Ciclos dedicados a Tchaikovsky e à canção orquestral são outros destaques. Abertura oficial este fim-de-semana

Pela primeira vez, um ano temático na Casa da Música (CdM) não é dedicado a um país, mas antes a um continente. 2019 será o ano das Américas, ou do Novo Mundo, como foi também chamado desde o século XVI. Como se poderá imaginar, não haveria instituição capaz de dar um retrato abrangente de uma área tão vasta, com tão numerosas culturas e cerca de meio milénio de tradição musical autóctone. Por isso, podemos apontar, dentre os compositores, alguns grandes ausentes da programação, como os norte-americanos Morton Feldman, John Cage e Philip Glass, só para citar alguns. Tal como podemos apontar autores sub-representados (uma obra, apenas), como Elliott Carter, Steve Reich, Mason Bates ou Osvaldo Golijov.
Ou até países com presença surpreendentemente discreta, como o Brasil.

Mas o panorama que a CdM congregou até dezembro é ainda assim rico o suficiente para merecer numerosas visitas e outras tantas descobertas. Daí também o "festival de abertura", ao longo do corrente mês, ter recebido o nome "Dar Novos Mundos ao
Mundo". E estes novos mundos passam, em numerosos casos, por primeiras audições em Portugal de obras importantes de autores de além-Atlântico. E às descobertas americanas acrescem as componentes mais "tradicionais", chamemo-las assim - mas que são também âncoras - da programação. De umas e outras trataremos a seguir.

Janeiro em festa

O mês de janeiro será repassado pelo espírito de "abertura de ano", com múltiplas propostas até dia 27 como que para "tomar o gosto à música americana" e experienciar o que será muito recorrente ao longo do ano: a audição de obras em estreia portuguesa. Deste festival inicial, destacamos a audição (dia 18) da efervescente Amériques (1918-21), do francês naturalizado americano Edgard Varèse (1883-1965), obra à qual já chamaram Uma Sagração da Primavera em versão urbana". Esse concerto conta ainda com a exuberante Sensemayá, de Silvestre Revueltas e com Orion, de Claude Vivier,
o notável compositor canadiano prematuramente desaparecido em 1983, aos 34 anos, além de obras de George Gershwin e Leonard Bernstein.

De 16 a 20 será o "Casa Aberta", cinco dias em que a Casa da Música se torna um "bairro" de (quase) todas as artes, com múltiplas atividades dia e noite. Após este "festival de abertura", outro período "quente" do ano americano chega no final de fevereiro/início de março, com estreias portuguesas de cinco fantásticas obras: a Quarta Sinfonia de Charles Ives (quase um século depois de composta!), emparelhada com a divertida My Fathe r K new Charles Ives, de John Adams (9/3); antes disso (23 fev), ouvem-se o Concerto para violino de Elliott Carter, com a "autoridade" Irvine Arditti como solista, mais Siddhartha (1976), de Claude Vivier. Finalmente, a 15/3, soará A Noite dos Maias, do mexicano Silvestre Revueltas (1899-1940), a partir do filme do mesmo nome, de 1939.

Do Serviço Educativo da CdM vem O Picapau Amarelo (19/1), inspirado no inesquecível universo de Monteiro Lobato. Trata-se, no caso, de um teatro musical dirigido às famílias, com direcção artística do tenor Mário João Alves.

Ciclos temáticos

Outra marca-d'água da programação da CdM é a temporada aparecer "polvilhada" de ciclos temáticos: entre fevereiro e dezembro (retirando os dois meses estivais), apenas março não tem um, sendo que abril tem dois (Concertos de Páscoa e
Música & Revolução). Já em fevereiro, o Invicta. Musica.Filmes inclui o clássico de Buñuel L'âge d'or (dia 12), acompanhado ao vivo pelo Drumming e A quimera do ouro, de Chaplin (dia 16), acompanhado pela Sinf. Porto Casa da Música. O citado Música & Revolução (27-30/4) incluirá um dos cumes absolutos da temporada: três concertos integralmente preenchidos (um luxo!) com obras do húngaro György Ligeti (1923-2006), um dos autores fundamentais da modernidade musical. Este tríptico inclui, a fechar, um recital pelo fenomenal pianista Pierre-Laurent Aimard, que irá tocar uma
seleção dos Estudos (1985-2001).

Um compatriota de Ligeti, Peter Eötvös (n. 1944), será Artista em Associação em 2019 e estará em março (dias 23 e 24) no Porto para dirigir dois concertos com várias obras suas, incluindo o 2.º Concerto para violino: Do Re Mi (de 2013); e a ópera de câmara The Secret Kiss (inspirada no romance "Seda", de Alessandro Baricco), obra com estreia mundial no final deste mês, em Gotemburgo. Dentre os restantes ciclos, o destaque vai para o que abaixo individualizamos.

O mês das mulheres

Setembro será o mês "delas" na Casa. O ciclo "Música no Feminino" (de 14 a 29) tem por interessante premissa apresentar música de compositoras, dirigida sempre por maestrinas e tendo sempre mulheres por solistas! Claro que compositoras sempre houve, mas nunca como no último século houve tal quantidade de grandes compositoras, justamente por lhes terem sido enfim retiradas as "amarras" que as impediram historicamente (com pontuais exceções) de seguir e de se afirmar nessa carreira. Pelo que nomes como Sofia Gubaidulina, Kaija Saariaho ou Unsuk Chin estarão representadas neste ciclo e, do lado português, Clotilde Rosa ou Ângela da Ponte. Destacamos dois concertos: o de dia 14, com Joana Carneiro a dirigir Viviane Hagner no Concerto para violino Offertorium, de Gubaidulina; e o de dia 17, com Carolin Widmann solista no Concerto Graal Théâtre, de Saariaho. E nota ainda para a rara audição do Concerto para piano, de Clara Schumann (dia 20).

Surpreende apenas que em Ano Américas, a única compositora dessas latitudes representada (e é-o discretamente) neste ciclo seja Joan Tower (n. 1938). O ciclo inclui ainda uma conferência-debate (14/9) que terá por convidados Mariana
Mortágua, Gabriela Canavilhas e a secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade, Rosa Monteiro.

Ciclos transversais

Ao contrário dos precedentes, estes percorrem a totalidade do ano e são os seguintes: integral das (seis) sinfonias de Tchaikovsky, Grandes Canções Orquestrais e Ciclo de Piano. No Tchaikovsky, natural destaque para as três últimas sinfonias, verdadeiros "cavalos de batalha" do repertório: a Quarta a 27/9; a Quinta por duas vezes: pela Orquestra Gulbenkian (19/6) e pela Orquestra residente (29/11); e, por fim, a famosa Patética (n.º 6), a 13/12. Além delas, haverá ainda por exemplo oportunidade para escutar o popularíssimo "Concerto para piano n.º 1" (25/1), tendo por solista o português Rafael Kyrychenko (n. ilha de São Miguel, 1996), filho de imigrantes ucranianos.

O ciclo de Canções Orquestrais, entendido no sentido lato, dará a ouvir desde autores barrocos até ao alemão Jörg Widmann (n. 1973). Este, também um fantástico clarinetista e ainda maestro, será aliás o Artista em Residência/2019 da Casa, com
visitas ao Porto (residências artísticas) agendadas para Maio, Outubro e Novembro. O final da sua associação (dia 16 nov) terá como momento marcante a estreia portuguesa do seu ciclo de canções Das heisse Herz ("O coração ardente"), obra de que a CdM foi co-comanditária. Escrito entre 2013 e 2018 e dedicado ao barítono Christian Gerhaher, este ciclo de 8 canções sobre poemas de vários autores de língua alemã tem uma duração vizinha dos 40 minutos.

Deste ciclo, selecionamos outros dois momentos que serão decerto amplamente aguardados: a 8 de fevereiro, as Quatro últimas canções de Richard Strauss, cantadas pelo soprano alemão Anne Schwanewilms (mais O Anel sem palavras, de
Wagner/Maazel); e a 10 de maio, as Canções de Wesendonck, de Wagner, que emparelham com a Quinta Sinfonia de Gustav Mahler, num concerto dirigido pelo eminente mahleriano Eliahu Inbal.

Já o Ciclo de Piano inclui oito recitais e levará à Sala Suggia nomes como Pierre-Laurent Aimard (v. acima), Grigory Sokolov (7/5), a glamorosa Khatia Buniatishvili (5/10) ou a jovem italiana Beatrice Rana (13/11), concluindo com o regresso de Pedro
Burmester (14/12). Além destes, referência ainda para o excelente francês David Fray: toca com e dirige a Sinfónica em Bach e Mozart, a 24/5.

Outros eventos

Além do ciclo "Outono em Jazz" (Outubro) e de concertos espalhados temporada fora, o jazz terá duas presenças sinfónicas: Mário Laginha com a Sinfónica do Porto (29/3) tocando a Rapsódia em blue de Gershwin; e a audição de Night Creature, de Duke Ellington (a 18/5). Além da Rapsódia, não podia faltar Um Americano em Paris, do mesmo Gershwin: será tocada a 22/11, num concerto que abre com outro hit clássico: o Adagio para cordas, de Barber. E para fechar o "quarteto popular", as Danças Sinfónicas de West Side Story, de Bernstein, ouvem-se no mesmo concerto da Rapsódia!

Anglófono, mas "very British", Sir Harrison Birtwistle (n. 1934) terá duas importantes obras tocadas ao longo da temporada: a 2 de fevereiro, Night's Black Bird (de 2004) e a 7 de dezembro, Deep Time (de 2017), ambas em estreia portuguesa. Nas curiosidades, o "Óscar" vai para o concerto de 12/11, com a execução de quatro Estudos do muito discreto e rarissimamente tocado norte-americano Conlon Nancarrow (1912-97), em arranjos, já que o original se destina a pianola (piano mecânico).

Também "nomeado", o concerto de 12/10 da Orquestra Gulbenkian, no qual se ouve a Sinfonia Buenos Aires (de 1951), de Astor Piazzolla (1921-92), obra que lhe valeu uma bolsa para ir estudar em Paris com Nadia Boulanger. Fora de portas, há os concertos durante o verão, no Porto (concertos da Sinfónica nos Aliados, no Arrábida Shopping, etc.), em Gaia, Matosinhos, Maia e S. Pedro do Sul e há a série de música de câmara no Salão Árabe do Palácio da Bolsa (cinco recitais, de março a dezembro).

O atletismo musical não é esquecido, com duas "maratonas": uma de teclistas (25 e 26/5) e outra de violoncelistas (6/7), honrando duas personalidades portuenses: a pianista Helena Sá e Costa e a violoncelista Guilhermina Suggia. E os parabéns vão este ano para o Coro Casa da Música, que celebra o 10.º aniversário. E para tal ocasião um concerto deveras especial, dia 20 de outubro, preenchido com as belíssimas "Vésperas da Beata Virgem" (de 1610), de Claudio Monteverdi, com participação adicional de elementos da Orquestra Barroca residente.

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