A angústia do operador de uma central de emergência perante a chamada telefónica

Turno do Dia, documentário de Pedro Florêncio, colhe uma amostra robusta da pressão quotidiana que se vive na central de emergências 112. Apresentado no Doclisboa 2018, chega agora às salas.

Há ambientes laborais que pedem a presença de uma câmara próxima. Uma câmara que se interesse pelo calor das situações e pela fisionomia da dura prática de uma rotina. No documentário Turno do Dia, Pedro Florêncio assume-se como o agente curioso por trás dessa lente que, no caso, se fixa nos gestos de quem atende as chamadas de emergênciamédica da linha 112, sempre preparado para debitar um protocolo de auxílio enquanto a equipa enviada ao local não chega. Com as informações que vão obtendo da pessoa que está do outro lado da linha, estes operadores do call center do INEM dão instruções médicas ao mesmo tempo que lidam com a perturbação momentânea de quem não consegue ter a frieza necessária para seguir esses conselhos e responder às suas perguntas...

Este é um filme observacional. Entra nesse território oculto de quem convive diariamente, chamada atrás de chamada, com dramas urgentes, para registar a dinâmica de cada atendimento (alguns chegam aos 10 minutos) em jeito de experiência imersiva: é como se estivéssemos naquela sala e na pele dos profissionais.

E aqui o tempo importa bastante enquanto respiração cinematográfica. Florêncio não está interessado numa ilustração superficial e pedagógica de um posto de trabalho, mas sim no tempo próprio do cinema, que permite pôr o espectador a pensar sobre o que está a ver, entrando na ambiguidade daqueles minutos. Digamos que a sua "bisbilhotice" dentro desta atmosfera saturada ganha sentido pela pura observação da complexidade que se desenha em cada uma das chamadas telefónicas, e no retrato cívico português que daí resulta.

Em suma, Turno do Dia surge com um caráter raro. Primeiro, porque decorre da decisão de filmar um local e circunstância pouco prováveis, e depois porque não cede nunca a uma linguagem apressada - com as devidas distâncias, quase que podemos vislumbrar nos seus planos a mesma feição do cinema documental de Frederick Wiseman.

O mais parecido que vimos com este tipo de "exercício" (e a palavra aqui não tem nada de depreciativo) foi a ficção dinamarquesa O Culpado, de Gustav Möller, focado num polícia que, através da central de emergência onde trabalha, tenta ajudar uma mulher sequestrada. Só para que se perceba, trata-se de um thriller que vive de sucessivas ligações telefónicas, somente experienciadas na sala do agente, desafiando a leitura do espectador em relação ao que se passa do outro lado da linha... Do mesmo modo, Turno do Dia, na sua robustez documental, mantém-nos numa suspensão quanto aos contornos precisos do que sucede longe da vista. Os corpos que libertam a exaustão do momento estão mesmo à nossa frente.

*** Bom

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