A abstração social de Mark Bradford, o "Jackson Pollock da nossa geração"

Museu de Serralves expõe a partir de hoje Ágora/Agora, conjunto de trabalhos recentes do norte-americano Mark Bradford, artista e ativista que a revista Time elegeu como uma das cem pessoas mais influentes do mundo em 2021.

"Através da arte abstrata, Mark Bradford mapeou a devastação que as crises, incluindo a epidemia de sida, o furacão Katrina e o colapso do mercado imobiliário global causaram às comunidades marginalizadas e às pessoas que vivem nelas. Ele é determinado na forma como disseca racismo, homofobia, sexismo e pobreza na sua arte (...) O trabalho de Mark dá-me esperança de que os desafios que enfrentamos ajudem a conectarmo-nos. Embora desastres futuros possam parecer inevitáveis, a arte de Mark tem-nos mostrado como podemos evitá-los, se formos corajosos o suficiente para ver."

As palavras que abrem este texto são "emprestadas" por Anita Hill, uma advogada e proeminente ativista que assina na revista Time a apresentação de Mark Bradford, artista norte-americano que a prestigiada publicação elegeu como uma das cem pessoas mais influentes do mundo em 2021. Aclamado por muitos críticos como "o Jackson Pollock da nossa geração" e reconhecido como um dos nomes que melhor definiram a pintura das últimas décadas, o artista/ativista negro que aprendeu a ver o mundo a partir do salão de cabeleireiro da mãe, em Los Angeles, chega a Serralves para a primeira grande exposição num museu europeu desde que representou os EUA na Bienal de Veneza, em 2017.

Ágora/Agora é o nome desta primeira exposição de Mark Bradford em Portugal, que abre hoje ao público e se prolongará até 19 de junho de 2022. Um duplo sentido que "liga o espaço público que serviu de palco à democracia na Antiga Grécia (Ágora) aos problemas contemporâneos (Agora)", sublinhou o diretor do Museu de Serralves, Philippe Vergne, que ontem fez uma visita guiada à imprensa ao lado do próprio Bradford, o criativo que "se inspira no espaço público para contar histórias dos nossos tempos", descreveu Vergne.

A obra de Mark Bradford é, já se percebeu, assumidamente ativista. Não podia ser de outra forma, garante o californiano, que era ainda uma criança quando vivenciou a Revolta de Watts, em 1965, quando a comunidade negra da zona sul de Los Angeles se rebelou contra a polícia após um agente ter mandado parar um condutor afro-americano sob suspeita de conduzir embriagado. "A minha mãe viveu esse período, eu vivi os tumultos de 1992 [desencadeados após um júri ter absolvido três polícias brancos e um hispânico do espancamento ao motorista negro Rodney King], cresci a ouvir histórias do meu povo no salão de cabeleireiro da minha mãe, temas como os direitos civis, episódios de discriminação... tudo isso está incorporado em mim. Aliás, o meu próprio corpo é um objeto político nos EUA", diz Bradford, diante de Cerebrus, a enorme pintura gestual sobre uma tela de quase 14 metros de comprimento, que reinterpreta o mapa do relatório McCone que investigou as causas da Revolta de Watts em 1965 e que se apresenta como peça central de uma exposição dividida por três salas e um corredor.

Foi também no salão de cabeleireiro da mãe, onde trabalhou por vários anos, que Mark Bradford acabou por encontrar a "inspiração perfeita" para conceber o seu próprio estilo artístico, numa carreira que começou formalmente já depois dos 30 anos. Um dia, enquanto trabalhava no salão, uma pilha de papéis usados nas permanentes para proteger as pontas dos cabelos caiu no chão e o gatilho criativo disparou. "Eu olhei para eles e para o padrão que criaram. Representavam certas coisas socialmente. Além disso, eram abundantes e baratos. Isso abriu os meus olhos para o material ao meu redor", contou numa entrevista.

Bradford partiu daí para criar uma linguagem artística única, frequentemente designada por "abstração social", em que o ativismo criativo principia precisamente na recolha e seleção dos materiais, que desde então se alargaram a outro tipo de papéis, como mapas, outdoors, cartazes ou simples anúncios de rua como aqueles representados no início e no final desta exposição, e que denunciam fragilidades de uma sociedade cada vez mais bipolarizada entre ricos e pobres, diz. "Anúncios predatórios a prometer dinheiro fácil para pessoas em dificuldades para cumprir com pagamento da casa ou cartazes a promover serviços de divórcio e custódia", exemplifica, sobre alguns dos trabalhos desta exposição.

Depois, com uma técnica baseada sobretudo na manipulação de camadas de colagens, Mark Bradford transpõe para as telas toda a efervescência dos problemas sociais que aborda. "O Mark é um ilusionista. Vai para lá da pintura. Faz pintura com outros meios", descreve, entusiasmado, Philippe Vergne, diretor do Museu de Serralves.

Esta rara exposição do artista californiano em solo europeu gira em torno da sua produção artística nos últimos três anos, com um corpo de trabalho criado durante e imediatamente dantes da pandemia de covid-19. Além das Pinturas da Quarentena, destaca-se particularmente a estreia absoluta de uma nova série de pinturas e tapeçarias baseados em A Caça do Unicórnio, conjunto de tapeçarias medievais produzido nos Países Baixos durante a Idade Média e atualmente exposto no MET Cloisters de Nova Iorque, numa sala cuja disposição é mimetizada em Serralves nesta coleção de Bradford, o artista que encaixou a mensagem social e política no abstracionismo.

rui.frias@dn.pt

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