Uma ideia das arábias. No século XIX, o exército americano viajou à boleia do camelo

De 1857 a 1859, o exército dos Estados Unidos empreendeu uma singular experiência ao importar perto de uma centena de camelos provenientes dos desertos do Médio Oriente. Uma empresa que trazia como objetivo patrulhar a vasta região árida do sudoeste do país. A expetativa foi grande, os resultados nem tanto.

Quartzsite é uma localidade de dimensão modesta, não mais de três mil almas, no coração do deserto do Arizona, no sudoeste dos Estados Unidos. A cidade guardiã de memórias de mineração é ponto de paragem para caravanistas ávidos de invernos amenos e soalheiros. Nos guias dedicados à região, Quartzsite merece referência pela peculiar sepultura erigida no cemitério local, uma pirâmide em pedra e madeira petrificada, encimada pela representação de um camelo-árabe. O memorial edificado pelo governo local no início do século XX homenageia um homem nascido sob outros céus, um cidadão com origens no império Otomano, filho de mãe grega e pai sírio, nado Philip Tedro, mais tarde, Hadji Ali, após conversão ao islão. Nos Estados Unidos, onde chegou em 1856, Hadji Ali seria informalmente rebatizado como Hi Jolly. A menção a Hadji Ali revelava-se um trava-línguas para os locais. Junto com oito cidadãos gregos, Hi Jolly fez a travessia atlântica a bordo do navio USS Supply para desembarcar, semanas volvidas, no porto texano de Indianola. O périplo marítimo carregava um propósito que germinara duas décadas antes. Em 1836, um major do exército norte-americano, George H. Crosman, nutriu de palavras arrebatadas a recomendação que endereçou ao departamento de guerra, o de usar camelos como força expedicionária, de comunicação e de transporte nos desertos dos Estados Unidos.

Hi Jolly a par com os seus colegas de viagem, desembarcou nos Estados Unidos com o propósito de adestrar e guiar a cáfila de quatro dezenas de animais que se juntavam à trintena que, um ano antes, apeara em terras do Tio Sam, adquiridos no Médio Oriente. Na época, Hi Jolly não sonharia tornar-se uma figura recordada entre as populações do sudoeste americano, onde viveria nas quatro décadas seguintes. Na sua história, Hi Jolly trazia o serviço no exército francês na Argélia e a prática adquirida de lidar com camelos. A adaptação destes animais a condições extremas de secura, a capacidade de transpor longas distâncias e a força revelada, capazes de transportar até 300 Kg, eram atributos esgrimidos em 1848 num estudo encomendado pelo major norte-americano, Henry C. Wayne. Este, reforçava o ensejo de George H. Crosman na importação de camelos para o Departamento de Guerra. Uma vontade que encontraria suporte na década de 1850, quando Jefferson Davis, então secretário de Guerra, considerou pertinente a introdução de camelos nas fileiras do exército. Em 1855, o Congresso disponibilizava 30.000 dólares para a criação do Corpo de Camelos dos Estados Unidos. Wayne foi designado para adquirir os animais. Dois anos mais tarde, uma primeira expedição saía de Fort Davis, no Texas, sob o comando de um veterano na exploração de vastas áreas desérticas dos Estados Unidos, o tenente Edward Fitzgerald Beale, um herói da guerra Mexicano-Americana, entre 1846 e 1848. Em consequência da vitória no conflito, os Estados Unidos estendiam as suas fronteiras a novos territórios, entre outros, os atuais estados da Califórnia, Nevada, Texas, Utah e Arizona. Uma área imensa que, acreditavam os empreendedores do projeto Corpo de Camelos, passaria a ser patrulhada pelos fleumáticos animais originários do Próximo Oriente.

A 25 de julho de 1857, a expedição rumava para uma primeira jornada até às margens do rio Colorado. Vinte e cinco camelos empreenderam um percurso diário de 40 Km, sob orientação dos seus guias, entre eles Hi Jolly. O sucesso da missão determinaria o estabelecimento de futuros postos do exército ao longo da rota. Postos avançados que serviriam para transmissão de correspondência e suprimentos no inóspito sudoeste. Em novembro de 1857, a expedição chegava a Fort Tejon, na Califórnia, para, depois, retornar ao Texas. Beale elogiava a empresa e preconizava um futuro em que todas as rotas de correspondência nos Estados Unidos se fariam sobre as bossas dos camelos. Em 1859, Beale supervisionou o reconhecimento de uma área entre o rio Pecos e o rio Grande, do Colorado ao Novo México. A força expedicionária incluía 24 camelos e outras tantas mulas de carga. O tenente Edward L. Hartz, ao comando da escolta, esforçava-se por demonstrar a superioridade do camelo face a outros animais de carga. Uma perceção que não era partilhada pelos militares da força expedicionária. Os animais aprestavam dificuldade em avançar no solo rochoso do oeste americano. As mulas de carga assustavam-se com o temperamento dos camelos. Para mais, o exército dos Estados Unidos era um corpo experiente no manejo de cavalos e mulas, não no de animais com uma bossa, com halitose aguda, mau odor generalizado e que regurgitavam face à suspeição de uma ameaça. O futuro do camelo nas fileiras do exército americano não era promissor.

Em 1858 e, mais tarde, em 1860, o secretário da Guerra, John Floyd, pediu ao Congresso verba para a aquisição de 1000 camelos, um ensejo recusado numa época em que bailavam os temores de um conflito dentro das fronteiras dos Estados Unidos. Em 1861, estalava a Guerra Civil Americana, opondo os exércitos da União e os Confederados. Aos camelos foi dada uma nova oportunidade, o de encetarem o transporte de correspondência das forças da União entre Fort Mohave, no Arizona, e San Pedro, na Califórnia. Uma vez mais, a utilização do camelo revelou-se penosa. Em 1864, os animais que permaneciam na Califórnia foram leiloados, adquiridos por circos e jardins zoológicos ou mesmo para trabalhos agrícolas e em minas. Uma cáfila subsistiria em estado semisselvagem nas proximidades de Camp Verde, no Texas, mais tarde vendida pelo Governo Federal. Em 1875, era avistado o último camelo em estado selvagem nas cercanias de Camp Verde.

Na década que mediou entre a chegada de Hi Jolly ao território norte-americano e o fim da Guerra Civil, o manejador de camelos, estabeleceu um serviço próprio de frete entre o rio Colorado e os territórios a leste. Negócio fadado ao insucesso. Hi Jolly tornou-se cidadão dos Estados Unidos em 1880, casou-se com Gertrudis Serna, com quem teve duas filhas, trabalhou em minas, deixou a família, para, no ano de 1885, ser contratado pelo exército do Arizona para serviço de manejo de mulas de carga. Hi Jolly morreria em 1902, nas proximidades da cidade de Quartzsite. Hadji Ali procurava um camelo que, dizia-se, vagueava no deserto.

Old Douglas, um veterano da Guerra Civil Americana

Durante anos, Old Douglas, um camelo domesticado proveniente do extinto Corpo de Camelos dos Estados Unidos, serviu na Guerra Civil Americana no apoio ao exército Confederado. Douglas carregava os instrumentos musicais e mochilas da Companhia A da 43.ª Infantaria do Mississippi. O animal apresentou-se a combate nas batalhas de Iuka e de Corinto e no cerco a Vicksburg. Aí, nas margens do rio Mississippi, o camelo foi abatido em 1863 sob disparos de atiradores do exército da União. Volvidos mais de 150 anos, Old Douglas é recordado no cemitério local onde tem uma lápide.

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