Uma concha gigante cheia de vida

Entre as serras do Caramulo e do Buçaco e o mar há uma concavidade irregular - tipo concha - que tem vindo a definir-se ao longo de milénios. Essa zona alagadiça, entre a terra firme e o cordão de areias litoral é a laguna a que chamam ria de Aveiro, com comprimento máximo de 47 km, de Ovar a Mira, e largura máxima de 11 km.

O espelho de água de salinidade variável, vinda do mar pela barra, é uma aguarela animada por juncais e arvoredos e por uma fauna riquíssima. Mas as alterações do clima e dos cursos de água doce, o abandono dos trabalhos agrícolas, a pressão urbanística, a sobrepesca e a sobrecaça estão a alterar a vida dessa fauna tradicional.
Os estudos de Milene Matos, da Universidade de Aveiro, levaram-na a concluir que "o garçote, a águia-pesqueira, sapeira e calçada e outras aves de rapina são espécies que se encontram em conservação desfavorável, bem como os patos frisados, o pato-colhereiro, o pato de bico vermelho e as negrinhas".
A ria de Aveiro, com uma avifauna muito rica e diversificada, é uma zona de protecção especial, ao abrigo da Directiva das Aves. São comuns os pilritos, os guinchos, as andorinhas--do-mar, as gaivotas, as gaivinas, os borrelhos, os perna-longa, muitas aves migradoras e, casos excepcionais, como ultimamente, os flamingos, que chegam a formar bandos de mais de 100 elementos.
"A garça-vermelha, considerada espécie ameaçada e protegida, é caso de sucesso na ria, onde está a aumentar o seu efectivo populacional", conclui Milene Matos.
A cegonha-branca também tem tido recuperação surpreendente. A nidificação foi dificultada pelo abate das grandes árvores e pela perseguição dos cultivadores dos arrozais por a considerarem perturbadora. Vários agentes uniram esforços e implantaram ninhos nos postos de alta tensão e chaminés de fábricas abandonadas. A procriação na zona acelerou. De tal modo que de sazonal passou a ave residente.
As poliquetas (serradela, casulo, bicha-branca e outras), bastante procuradas como isca pelos pescadores desportivos, estão em franca disseminação. "Recentemente investigadores do CESAM (Universidade Aveiro, UA) encontraram uma outra espécie, semelhante mas bastante mais pequena, que pode ser confundida com juvenis do casulo: a Diopatra marocensis, que foi encontrada pela primeira vez nas costas de Marrocos em 1995 e, ao que tudo indica, tem vindo a expandir-se para norte", declara Ana Maria Rodrigues, docente na UA. "Este poderá ser mais um dos exemplos da alteração do limite Norte de distribuição das espécies face às mudanças climáticas que se fazem sentir", acrescenta.
José Rebelo, professor na UA e co-autor do livro Peixes da Ria de Aveiro, apresenta a mesma explicação para o aparecimento, desde os anos 90 do século passado, do robalo-baila: muito semelhante ao robalo-legítimo, mas menor e bastante mais frenético, com sarapintas no dorso durante toda a vida, ao contrário do outro que apenas as apresenta na fase juvenil. É um peixe característico de águas mediterrânicas e também frequente na costa sul portuguesa.
José Rebelo considera que, apesar da sobrepesca, "não existe qualquer espécie piscícola em vias de extinção na ria". No entanto, foi lançado um alerta internacional sobre a enguia, muito capturada na laguna, e classificada como espécie em perigo. A fêmea adulta da enguia desloca-se à ria para acasalar, dirigindo-se depois, numa viagem de dois anos, para o mar dos Sargaços, onde desova e morre. Os milhões de ovos sobreviventes dão à costa e sobem os rios, passados três anos. Chegam em fase de enguia de vidro, vulgarmente conhecida como meixão no Norte e pela designação espanhola mais generalizada de angula. A "doideira" espanhola pelas angulas fritas motivou a apanha em Portugal nos últimos anos. Ilegalmente, à excepção do rio Minho.
A laguna é um organismo vivo em permanente transformação e a sua riquíssima fauna e flora vão-se ajustando às novas condições. Algumas espécies encontram-se fragilizadas e outras adaptaram-se muito bem às novas condições.  

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG