Sonambulismo atinge 30% das crianças dos 5 aos 12

Deambular pela casa a dormir não é uma perturbação grave, dizem os médicos, mas pode ser perigosa por causas dos acidentes. Acontece sobretudo nos mais novos, por conseguirem adormecer mais profundamente. Nos adultos é menos vulgar e pode mascarar problemas graves, como apneias ou depressões. O único tratamento é a prevenção das crisessaúde.

Levantou-se da cama, saiu do quarto, abriu a porta de casa e carregou no botão do elevador. Acordou, assustada e confusa, com o barulho da porta automática a abrir-se. Joana Oliveira, de 20 anos, é sonâmbula. E em casa não é a única. O pai e o irmão também andam frequentemente pelo corredor a dormir.

O sonambulismo é um transtorno do sono em que as capacidades motoras se activam automaticamente na fase do sono lento profundo (primeiro terço da noite), mas a pessoa fica sempre inconsciente. Atinge sobretudo crianças - 30% daquelas entre os 5 e os 12 anos -, e, na maioria das vezes, desaparece na adolescência. Só atinge 0,5 a 2,5% de adultos.

A explicação para esta incidência infantil está no facto de as crianças "terem um sono mais profundo e uma maior capacidade de sincronização das ondas cerebrais, que conseguem trabalhar em simultâneo", diz a neurologista Teresa Paiva, do Centro de Electroencefalografia e Neurofisiologia Clínica. O que lhes permite mais facilmente andar e dormir ao mesmo tempo.

Os médicos dizem que não há estudos científicos que definam "as causas objectivas" para o sonambulismo. "Sabemos apenas que é hereditário e surge com a progressão para o sono profundo", adianta a clínica. "O stress e os níveis de ansiedade também têm tendência a agravar a frequência com que surgem os episódios", acrescenta Marta Gonçalves, presidente da Associação Portuguesa de Sono. "Os sonâmbulos realizam geralmente a dormir a vida do dia-a-dia. Ou seja, levantam-se, vestem-se, tomam banho", indica Ana Rita Peralta, neurologista do Hospital de Santa Maria, em Lisboa.

É o que acontece com o pai de Joana, Carlos Oliveira, de 52 anos. Os episódios de sonambulismo que costuma ter são réplicas do que fez horas antes. Como quando andou, de madrugada, a espalhar cabides pela casa, repetindo a acção social de doação de cabazes de Natal, que fizera horas antes.

Embora não seja uma perturbação grave, pode causar acidentes sérios. "O problema são as consequências laterais, como cair, bater em objectos, perturbar o companheiro de quarto ou até mesmo saltar de uma janela", diz Anselmo Pinto, director da Clínica do Sono.

Em casa de Joana, a família decidiu pôr trancas nas janelas e reforçou as fechaduras. "A minha mãe acordava com os nossos passos à noite e encaminhava-nos de novo para a cama", conta a estudante de Gestão. "O que a incomoda mais são as nossas conversas. O meu irmão quando fala a dormir berra", lembra.

"A ideia de que não se deve despertar um sonâmbulo é um mito. Ele deve ser acordado, com calma, para não se assustar e ser levado para a cama", diz Marta Gonçalves. Nos adultos, estes episódios podem ser mais perigosos: "Podem mascarar outras patologias do sono mais graves. É necessário fazer mais exames para um diagnóstico correcto." As crises de sonambulismo, explica Anselmo Pinto, podem estar ligadas a apneias nocturnas, ou problemas psiquiátricos, como depressões e ansiedade, epilepsia, abuso de álcool ou outras drogas ou stress.

Raramente é preciso medicar os doentes. A prevenção é o melhor remédio. Os sonâmbulos devem evitar dormir pouco, stress e ter horários para dormir a acordar.

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