Portuguesas descobrem mutação responsável pela progressão do cancro

Investigadoras portuguesas, em colaboração com colegas de outros países, descobriram uma mutação genética responsável pela progressão do cancro que poderá contribuir para desenvolver o tratamento contra vários tipos de tumor.

A descoberta, feita a partir da análise de amostras de tumores enviadas de vários países, vem descrita num estudo publicado na edição desta semana da revista Nature Genetics.

"As colaborações internacionais surgiram depois de encontrarmos a mutação, de desenvolvermos alguns estudos funcionais e de descobrirmos que a mutação era biologicamente bastante relevante", disse hoje à Lusa a primeira autora do artigo, Sónia Melo.

O trabalho foi realizado em Madrid, no Centro Nacional de Investigações Oncológicas (CNIO) - onde a investigadora portuguesa está a fazer doutoramento - na equipa de Manel Esteller, cientista espanhol de renome na área da epigenética do cancro.

"O que eu vejo de mais interessante no estudo é que a mutação descrita tem como consequência que nos cancros estudados a produção de pequenas moléculas de RNA (ácido ribonucleico) que regulam a expressão dos genes, chamadas microRNAs, deixa de ser correcta", explicou Sónia Melo.

A carcinogénese tem sido associada a várias vias, mas esta é a primeira vez que se liga a via de biogénese das microRNAs ao processo tumorogénico.               

"Os tumores desenvolvem-se porque as células 'defeituosas' não morrem e se dividem demasiado", afirmou a cientista. "Agora ficámos a saber que na base do processo e na progressão tumoral está também uma falha na produção daquelas moléculas de RNA que regulam a expressão génica".

A descoberta é importante porque 25 por cento dos subtipos de cancros analisados apresentam mutação no gene TARBP2, que inactiva a proteína TARBP e, consequentemente, a produção das microRNAs que induzem a expressão aberrante de genes com actividade oncogénica.

Sónia Melo estava a fazer um estágio de Bioquímica no IPATIMUP (Instituto de Patologia e Imunologia molecular da Universidade do Porto) quando foi aceite no programa de doutoramentos GABBA, que anualmente dá a 12 estudantes portugueses a possibilidade de fazerem o doutoramento numa instituição à sua escola.

"Procurei laboratórios interessantes em vários sítios, incluindo nos Estados Unidos, e acabei por me encantar com o laboratório de Madrid de Manel Esteller", disse a investigadora.

Depois de encontrada a mutação, a equipa contactou peritos mundiais em microRNAs e cientistas em todo o mundo pedindo-lhes amostras de tumores em que pudessem caracterizar a sua existência, conseguindo assim fazer um estudo mais abrangente, já que as amostras biológicas vieram dos mais variados sítios do mundo.

O trabalho resultou assim de um colaboração multi-institucional e internacional entre investigadores do CNIO, do IPATIMUP e de outras instituições na Finlândia, Japão e Estados Unidos, sob a coordenação de Manel Esteller.

Entre os autores portugueses do estudo contam-se Carla Oliveira e Fátima Carneiro, com ligações ao IPATIMUP, à Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e ao Hospital de São João.

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