Nascem 20 hermafroditas por ano em Portugal

Casos em que a mesma pessoa apresenta dois sexos são raros. E a maioria dos que aparecem são de difícil diagnóstico, dizem especialistas. A opção por um dos géneros é difícil e divide os especialistas. Aos problemas biológicos juntam-se os psicológicos e a tendência para o isolamento.

A ecografia não deixava dúvidas: Inês estava grávida de gémeas. À décima semana de gestação já era perceptível o sexo das bebés, e uma pequena vagina em ambos tornava evidente que eram duas meninas. No entanto, por ter perto de 40 anos, Inês foi submetida a uma amniocentese para despistar deformações genéticas nos fetos. E a surpresa chegou: o exame revelou dois conjuntos de cromossomas diferentes, um 46XX (feminino) e um 46XY (masculino). Afinal, estava grávida de uma menina e de um menino, embora o rapaz apresentasse órgãos genitais femininos.

Casos de pessoas com ambos os sexos, chamadas hermafroditas (quando existem ovários e testículos) ou pseudo-hermafroditas (quando os órgãos genitais não coincidem com o sexo cromossómico) são raros. Em Portugal, nascem, por ano, 20 bebés com estas características: ou seja, uma em cada 4500 crianças tem um sexo indefinido.

Um caso semelhante chamou à atenção nos Campeonatos do Mundo de Atletismo. Caster Semenya, que, na semana passada, apareceu na capa de uma revista maquilhada e de vestido preto, tinha deixado dúvidas sobre se era mulher ou homem durante os campeonatos, não só pelo seu aspecto físico, como pela força e os resultados que atingiu (ver texto ao lado, em baixo).

"A estas situações damos o nome de doenças de desenvolvimento sexual, e podem ter as mais variadas causas", define o cirurgião pediátrico Paolo Casella. "Pode haver mistura de material genético; as hormonas, tanto femininas como masculinas, podem não estar a ser produzidas em quantidade suficiente ou os tecidos não as reconhecerem; ou as enzimas da supra-renal (que têm influência na produção das hormonas) não estarem a funcionar bem".

Este mau desenvolvimento genético pode resultar num vasto leque de situações, garantem os médicos, que tornam difícil definir à nascença se o bebé é menino ou menina. A maioria dos casos são crianças que têm um clitóris maior do que aquilo que seria de esperar e os pequenos lábios não abriram, o que faz parecer um pénis (meninas virilizadas). Outras vezes, o bebé pode ter um aspecto masculino mas não ter os testículos na bolsa ou ter um pénis que não se formou normalmente porque o orifício (uretra) não se desenvolveu.

Aparecem ainda situações, por exemplo, em que a criança cresce como menina, sem sinais de hermafroditismo, chega à adolescência e, de repente, os testículos que estavam escondidos começam a aparecer e o clitóris começa a assemelhar-se a um pequeno pénis. Porque é na puberdade que o nível das hormonas sobe abruptamente.

"Nem sempre é fácil fazer o diagnóstico. Muitas vezes não se suspeita de nada porque não há evidências externas. Para se ter a certeza sobre o sexo do bebé, muitas vezes são necessários vários exames genéticos e hormonais", sublinha o endocrinologista António Santinho Martins. Para tratar estes casos é necessária uma equipa multidisciplinar com psicólogos, sexólogos, endocrinologista e cirurgiões.

Foi uma equipa de vários especialistas que explicou a Inês o que se passava com um dos seus bebés. Embora se tivesse a certeza de que uma das crianças era um rapaz, Inês decidiu-se pela menina e pediu aos médicos para lhe retirarem os testículos que escondia no abdómen. No entanto, agora, aos quatro anos é fácil perceber, pela atitude e postura, qual das gémeas é o o rapaz e qual é rapariga.

"São questões muito complicadas, onde as pressões sociais e familiares têm um peso enorme", diz Paolo Casella, que, no entanto, defende que a escolha do sexo deve ser feita só na adolescência para que a pessoa tenho direito a decidir a que género pertence (ver texto ao lado).

Carla escondeu de todos o problema que a assombrava: chegada a idade adulta, nunca tinha ficado menstruada. Aos 21 anos procurou ajuda. Afinal apresentava cromossomas 46XY, era um homem, mas sempre se sentira mulher. "Retiraram-se os testículos atrofiados que tinha no interior dos grandes lábios e construiu-se uma vagina mais natural", conta João Dácio Ferreira, cirurgião do Hospital de Santa Maria. "Na maioria das vezes, estas mulheres não conseguem ter filhos, pois embora tenham órgãos sexuais femininos, estes não estão bem desenvolvidos. E o tratamento hormonal tem de ser feito para o resto da vida", explica Santinho Martins.

Aos problemas biológicos somam-se ainda as questões psicológicas. "Estas pessoas têm tendência a isolarem-se", salienta o psiquiatra e sexólogo Francisco Allen Gomes, acrescentando: "O problema reside no ser diferente, que permite compreender o problema da marginalização e da estigmatização." O médico salienta ainda que são mais vulneráveis e é "muito fácil feri-las" psicologicamente. "Daí também que as pessoas que não são exactamente como a maioria, tenham necessidade de se associar em grupos, vulgarmente conhecidos como de 'auto-ajuda'."

São casos de "grande complexidade" que não se limita à área biológica. Ao longo da vida a fase da adolescência é a mais problemática.

Exclusivos

Premium

Espanha

Bolas de aço, berlindes, fisgas e ácido. Jovens lançaram o caos na Catalunha

Eram jovens, alguns quase adultos, outros mais adolescentes, deixaram a Catalunha em estado de sítio. Segundo a polícia, atuaram organizadamente e estavam bem treinados. José Manuel Anes, especialista português em segurança e criminalidade, acredita que pertenciam aos grupos anarquistas que têm como causa "a destruição e o caos" e não a luta independentista.