Movimento faz campanha contra o banho diário

Um grupo norte-americanos defende que o duche diário é desnecessário e que faz mal. Só se lavam quando lhes apetece e não usam desodorizante. Os médicos portugueses garantem que tomar um banho todos os dias não faz mal à pele, mas dois já é um exagero. Por outro lado, o uso de um desodorizante é fundamental

Já lá vai o tempo em que se tomava banho apenas uma vez por festa, o que, para algumas pessoas, significava apenas três vezes na vida - à nascença, no dia do casamento e no funeral. Em Portugal, sobretudo nas zonas urbanas, o banho diário tornou-se um hábito quase tão comum como lavar os dentes. Mas, agora, um movimento norte-americano está disposto a acabar com isso. Desafiam a cultura da limpeza e admitem sem problemas que não tomam um banho todos os dias nem usam desodorizante ou champô. Os médicos portugueses dizem que a lavagem é fundamental , mas admitem que não precisa de ser um hábito diário.

"Eu só tomo banho quando me apetece e quando sinto que preciso. Não é necessariamente todos os dias, pelo contrário", admitiu por e-mail ao DN Katherine Ashenburg , de 65 anos, autora de The Dirt on Clean: An Unsanitized History ("Os podres da limpeza: uma história pouco higiénica").

Katherine pertence ao movimento que faz campanha contra o banho diário. O grupo está a ganhar força nos Estados Unidos ao defender que não é bom nem necessário tomar banho todos os dias e que este hábito foi criado pelas empresas de produtos de higiene para aumentaremos lucros. "Os americanos exageram na higiene. Não precisamos de nos lavar como acontecia com os nossos avós que trabalhavam a terra. Nós trabalhamos sobretudo sentados ao computador", defende a escritora, que também admite que só usa desodorizante quando faz exercício físico.

Os especialistas portugueses reconhecem que não é necessário tomar banho todos os dias, mas também não encontram nenhum mal neste hábito. O problema, advertem, é quando se tomam banhos a mais ou a menos.

"Mais do que um banho por dia é um exagero", defende a dermatologista Vera Monteiro Torres, admitindo que "não há necessidade" e que "seca demasiado a pele". Mas o contrário também não é aconselhado, uma vez que os cuidados com a higiene são fundamentais para eliminar os germes e evitar doenças. "Ficar vários dias sem tomar banho pode levar ao aparecimento e propagação de doenças da pele, como infecções bacterianas e micoses", adverte o dermatologista António Picoto.

António, de 63 anos, vive na zona da serra da Estrela e bem podia pertencer ao movimento norte-americano. Licenciou-se em Filosofia, mas nunca chegou a exercer a docência. Preferiu refugiar-se no campo para se manter em contacto estreito com a natureza e dar asas à escrita. Longe do meio urbano, garante também que o banho diário é fruto do capitalismo. "Não é preciso tomar banho todos os dias para sermos higiénicos. Demasiados banhos fazem mal à pele e podem levar ao agravamento do reumatismo", acredita o escritor. Também nunca usou desodorizante.

Segundo os médicos, a maioria dos portugueses, salvo nas zonas mais isoladas do País, tem por hábito tomar banho todos os dias. Pelo que o movimento não ganharia muitos adeptos deste lado do Atlântico, garantem.

"O que tenho reparado é que já há muitos portugueses a optar por usar produtos biológicos. Ou seja, gel de banho ou champô sem detergente. Embora os tradicionais também respeitem a pele e o seu PH de 5,5", diz o dermatologista Fernando Guerra, da Clínica Epilaser.

É o caso de Manuela Azevedo, de 33 anos. Desde há cinco anos que trocou os produtos de beleza dos supermercados por artigos de lojas de produtos naturais. "Não fazem espuma, mas são mais ecológicos", defende a arquitecta.

Mais do que o banho diário, o uso do desodorizante é fundamental, diz Fernando Guerra. "Todas as pessoas emanam um certo odor. É preciso controlá-lo", defende. No fundo, os médicos são unânimes a dizer que as práticas de higiene dependem sobretudo da cultura do país em que se vive.

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