Estudo põe em causa cirurgia do cancro da mama

A remoção dos gânglios linfáticos das axilas, uma das cirurgias mais comuns nos tratamentos do cancro da mama, pode trazer mais complicações que benefícios, conclui um novo estudo "de grande prestígio", segundo cirurgião português Fortuna Campos.

O estudo (clique aqui para ler), pago pelo Instituto Nacional de Cancro norte-americano, foi publicado ontem no "Journal of the American Medical Association" e pode alterar radicalmente um dos procedimentos cirúrgicos mais realizados no cancro da mama. Trata-se do esvaziamento axilar, ou seja, a remoção de gânglios linfáticos das axilas (órgãos importantes do sistema imunitário), considerada útil para impedir a propagação do cancro. Sabe-se agora que esta cirurgia, que pode trazer complicações, não traz grandes benefício para os pacientes nem aumenta a sua esperança de vida.

João Fortuna Campos, cirurgião e presidente do Conselho Científico da Associação de Mulheres Mastectomizadas "Ama e viva a vida", analisou o estudo a pedido do DN e considera os seus autores "de grande prestígio internacional", salientando que este trabalho "vem complementar a evolução no tratamento do cancro da mama nos últimos 20 anos - cada vez menos mutilante e com idênticos resultados"

De acordo com o estudo, uma grande percentagem das mulheres investigadas não teve qualquer benefício, nem aumentou a sua esperança de vida com a remoção da totalidade destes gânglios. Os investigadores defendem que as melhorias verificadas nas pacientes estudadas não surgem do procedimento cirúrgico, mas sim da quimio e radioterapia que geralmente o acompanham, que destroem as células cancerígenas.

O procedimento realiza-se quando são detectadas células cancerígenas através de uma biópsia ao gânglio "sentinela" - aquele onde o cancro aparece primeiro. Quando a biópsia dá um resultado positivo, o gânglio "sentinela" é removido pelos cirurgiões, bem como todos os gânglios próximos, para impedir o cancro de alastrar aos órgãos vitais pela linfa, o que pode criar problemas como infecções, linfedema (distúrbio da circulação linfática) ou inchaços crónicos que podem levar à perda de mobilidade nos braços.

Para João Fortuna Campos, "as conclusões finais - baixa recorrência loco-regional [significa que o cancro ressurge poucas vezes] e idêntica sobrevida global e intervalo livre de doença - vão (...) evitar as complicações resultantes do esvaziamento axilar e assim dar melhor qualidade de vida, quando os casos forem bem seleccionados." Apesar da credibilidade do estudo, Fortuna Campos diz que "há sempre resistência", e que custa aos cirurgiões "não proceder ao esvaziamento" quando a biópsia dá um resultado positivo". O cirurgião acredita, ainda assim, que "apesar de o estudo - Biópsia Gânglio 'Sentinela'/Esvaziamento axilar no cancro da Mama - ter uma selecção de doentes só com tumores invasivos até 5 centímetros - T1 e T2 - submetidos a cirurgia conservadora e radioterapia seguida de quimioterapia, tem muito valor pois irá ter repercussões na nossa prática clínica".

Só em Portugal, "é diagnosticado um cancro da mama a cada duas horas, há entre 4500 a 5000 mil casos por ano, e morrem quatro a cinco mulheres por dia", salienta Fortuna Campos, passando a mensagem da associação que representa: "é preciso 'sentir o que lhe vai no peito'. Vão aos médicos, façam as mamografias."

Foram estudadas 819 mulheres, de Maio de 1999 a Dezembro de 2004, todas com tumores invasivos T1 e T2 - até 5 centímetros. Constituíram-se dois grupos: um de mulheres que removeram dez ou mais gânglios linfáticos, outro de mulheres que não removeram todos os gânglios. Quase não houve diferenças na esperança de vida: 91,8% das que removeram vários nódulos sobreviveram, 92,5% sobreviveram removendo apenas o gânglio onde se detectaram as células cancerígenas. Em apenas 1% das mulheres houve recidiva da doença na zona das axilas.

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