Rumo ao espaço com os capacetes desenhados por Alice King Chatham

Os primórdios da exploração espacial reclamaram equipamentos de proteção dos astronautas que lhes garantissem a sobrevivência . Alice King Chatham, escultora, destacou-se no desenho de capacetes para os heróis espaciais. E não apenas para humanos.

"My name is Alice King Chatham", ouviu-se por três vezes na noite de 31 de agosto de 1964 na televisão norte-americana. Há perto de 57 anos, milhões de telespectadores sentaram-se frente ao pequeno ecrã para acompanhar uma nova emissão do concurso To Tell the Truth. O programa, estreado em 1956, ainda hoje transmitido, assentava o seu sucesso numa estrutura de jogo simples. Três convidados, figuras destacadas nas suas áreas profissionais, submetiam-se às perguntas de quatro celebridades presentes. Findo o interrogatório, havia que encontrar no trio de participantes, dois "impostores" e o convidado "verídico". Transversal a todas as participações, o facto de representarem personalidades provenientes de atividades menos comuns.

Alice King Chatham, convidada "verídica", preenchia os requisitos do To Tell the Truth. Nascida em 1908, Alice trazia na época uma carreira que somava mais de duas décadas ao serviço da Força Aérea e da NASA. Artista plástica, Alice desenhava os futuros capacetes dos astronautas norte-americanos, assim como apetrechos de segurança para os primeiros animais enviados para a órbita terrestre, no âmbito da exploração espacial. À natural do estado do Ohio, coube também criar o design dos capacetes dos pioneiros de um novo limite nos céus, o dos voos supersónicos.

Em 1942, Alice terminou os estudos artísticos no Dayton Art Institute, no seu estado natal. O exemplar percurso académico da jovem mereceu a atenção dos oficiais da base aérea de Whright-Patterson, no Ohio. Na época, a força área americana vinha a testar novas fronteiras para as suas aeronaves, mais rápidas e capazes de empreenderem voos a maior altitude. Alice King Chatham foi desafiada a integrar a equipa que desenhava e projetava máscaras respiratórias para os pilotos envolvidos nas missões a grande altitude. O Laboratório de Aviação Aeromédica procurava alguém com o perfil da escultora, capaz de interpretar e transpor os traços da anatomia humana para os moldes que serviram de base às primeiras máscaras de oxigénio para voos acima dos seis mil metros de altitude.

Alice também fez subir alto o seu desenho para uma proteção auricular. Com base no trabalho da designer, os pilotos norte-americanos passaram a contar com máscaras equipadas com bolsas de ar pressurizadas em torno das orelhas. Máscaras que permitiam aos pilotos operarem em voos de poucos minutos a altitudes acima dos 17 quilómetros.

Em outubro de 1947, o piloto norte-americano Charles Yeager reiterava na sua já longa história de feitos nos céus, entre elas missões de combate na Europa no decorrer da II Guerra Mundial. "Chuck", como também era tratado pelos seus pares, tornou-se o primeiro humano a pilotar uma aeronave supersónica à velocidade de 1600 Km/h. Yeager ultrapassou a mítica barreira do som num voo ao abrigo do Projeto X-Planes que avaliava o desempenho tecnológico e aerodinâmico de aeronaves e foguetes experimentais. A bordo do Bell X-1, avião supersónico, viajou no rosto de "Chuck" a máscara desenhada por Alice Chatham. O novo limite de altitude alcançado com o contributo da designer, franqueou-lhe as portas, ainda na década de 1940, para a nova aventura humana. Alice recebeu convite para integrar a equipa empenhada no programa espacial da NASA. Após a II Guerra Mundial, o espaço tornara-se palco para a rivalidade entre os Estados Unidos e a União Soviética.

Nos anos subsequentes, no seio do programa espacial norte-americano, Alice desenvolveu roupas de malha elástica, assim como material têxtil para uma cama destinada ao uso no espaço. Já no âmbito do Projeto Mercury, programa pioneiro da NASA para a exploração tripulada do espaço, Chatham atraiu sobre si as atenções. Em 1959, o mundo conheceu os sete astronautas (Alan Shepard, Donald Slayton, Gordon Cooper, John Glenn, Walter Schirra, Scott Carpenter e Virgil Grissom) eleitos para o programa espacial que se prolongaria entre os anos de 1958 e 1963 e que incluiu inúmeras missões tripuladas e não tripuladas em voos suborbitais e orbitais. Os "Mercury Seven", assim foram designados os ex-pilotos de testes da força aérea norte-americana, careciam de vestuário protetor para suportar o ambiente externo à Terra. Alice foi convocada para conceber o desenho dos capacetes e máscaras personalizados do grupo de astronautas. Tarefa que obrigou King a obter réplicas em resina das cabeças dos homens convocados para a missão. Capacetes que se juntavam a fatos espaciais adaptados a partir de fardas para voos a alta altitude da Marinha dos Estados Unidos. Fatos com uma camada interior de nylon, revestido de neopreno e nylon aluminizado.

Ainda de olhos postos nas estrelas, Chatham desenvolveu o desenho dos fatos e arreios para os primeiros chimpanzés a subirem ao espaço a bordo de engenhos da NASA. Os chimpanzés HAM (acrónimo de Holloman Aerospace Medical Center), em janeiro de 1961, e Enos, em novembro do mesmo ano, sujeitaram-se, respetivamente, a um voo suborbital a 85 Km sobre a superfície da Terra e a uma dupla órbita ao planeta.

Alice King Chatham faleceu em 1989 no seu estado natal, há muito afastada dos laboratórios da NASA. Longe do contributo direto para os voos espaciais, a escultora fundou o Alice King Chatham Medicine Arts, empresa que se dedicou ao desenvolvimento de arreios, correias, entre outros equipamentos de segurança para experiências científicas.

dnot@dn.pt

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