Mercado negro de autores fictícios de estudos científicos

A 'compra' de cientistas para assinarem estudos que não fizeram tornou-se num autêntico mercado negro. A indústria farmacêutica faz os estudos e encontra autores, que aceitam assinar os trabalhos, de modo a que estes sejam aceites como credíveis por revistas onde os relatórios têm de ser validados por painéis de cientistas antes de serem publicados.

"As mensagens financiadas pela indústria [farmacêutica] poderão infectar artigos em todas as revistas médicas. Não se sabe quantos académicos participam ou quantas revistas examinadas por pares estão escritas por 'fantasmas', mas existe a preocupação de que esta prática possa estar disseminada", afirmou a médica Adriane J. Fugh-Berman, da Universidade de Georgetown.

O El Mundo escreve hoje que, segundo revelaram diversos autores ao longo dos últimos anos, o negócio ilegal tornou-se mesmo numa indústria oculta: de um lado estão autores e empresas que oferecem os seus serviços na redacção de estudos ou que se oferecem para assinar trabalhos; do outro há empresas de marketing ou departamentos dentro das farmacêuticas que planificam os prazos e até a forma como serão apresentados os resultados dos estudos.

Na prática, uma empresa na área da investigação faz uma pesquisa e prepara um relatório destacando determinados resultados desse estudo; depois procura investigadores profissionais que estejam disponíveis para assinar o trabalho. "Parece que, em alguns círculos académicos, o recrutamento de 'autores' começa a ser considerado aceitável, e as campanhas de marketing já não se centram em torno da emissão de anúncios mas sim nas 'evidências' proporcionadas por artigos revistos aparentemente respeitáveis", escreveram há dois anos os editores da revista PLoS Medicine, citados pelo El Mundo.

Segundo Simon Sern e Trudo Lemmens, professores da Universidade de Toronto, não está tanto em causa a veracidade dos estudos, até porque a maioria apresenta resultados verdadeiros, mas esta indústria oculta representa um risco para a saúde das pessoas e é uma grande ameaça para a credibilidade do sistema de validação científica, que se baseia na apresentação dos estudos a revistas de renome, que têm painéis de peritos que analisam os estudos e que podem ou não autorizar a publicação.

Sern e Lemmens, juristas da PloS Medicine, que se tem oposto à proliferação de autores 'a negro', dizem que esta prática viola as normas éticas da investigação científica e é considerada ilegal pelo Supremo Tribunal dos EUA, país sede da maioria das revistas de publicação de estudos. Já houve casos em que farmacêuticas foram processadas e que os tribunais não conseguiram identificar os autores dos estudos, porque os que assinaram os trabalhos não eram os mesmo que os escreveram.

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