O segredo lunar das antas e dos menires

Alinhamento de dólmenes com a lua cheia da Primavera abre a porta à visão cosmológica no Neolítico. Há portugueses nesses estudos.

Seria preciso estar lá no momento certo, quando a lua cheia da Primavera se eleva no horizonte, alinhada com algumas das pedras do cromeleque, ou com o seu eixo central, consoante os monumentos. Em Almendres, o maior círculo de pedras milenares da Península Ibérica, esse alinhamento é com dois menires: um no topo, outro na base do monumento. No de Vale d'el Rey, que tem a forma de uma ferradura, o ponto no horizonte onde nasce a primeira lua cheia da Primavera alinha-se com o seu eixo central. O físico Cândido Marciano da Silva, que há décadas percorre o país para fazer medições nestes locais, evoca a emoção desse testemunho. "É um fenómeno muito especial, sente-se ali qualquer coisa", diz.

Há cinco a oito mil anos, quando os homens do Neolítico ergueram estas pedras na paisagem, bem como os dólmenes ou antas (os seus monumentos funerários), poderiam ter sentido algo semelhante ao contemplar no céu os movimentos do Sol e da Lua. Na sua relação com o horizonte, e com os astros inacessíveis, esses agricultores e pastores teriam também a sua cosmologia própria. É isso que Cândido Marciano da Silva procura ler nas medições que há cerca de três décadas faz nestes monumentos.

Não é o único. O jovem físico Fábio Silva, que mediu a orientação de 31 antas entre o Douro e o Mondego, está a desenvolver trabalho nesta área. Os estudos de ambos, publicados no Journal of Cosmology, e noutras revistas científicas, mostram que o Sol e a Lua, na sua dança diurna-nocturna e na sua ligação às estações do ano, estão "marcados" na posição das pedras na paisagem, que apontam para direcções bem definidas. E esse conhecimento abre a porta para a compreensão da visão cosmológica dos seus construtores.

Foi em Inglaterra, nos anos 70 do século XX, que se consolidou a ideia de que os monumentos dos homens do Neolítico poderiam encerrar uma visão cosmológica relacionando os astros com os mistérios da existência. Fixadas pela agricultura, estas comunidades ganharam há nove, dez mil anos, a noção de horizonte e começaram a aperceber-se dos ritmos anuais do Sol (Verão e Inverno, tempo quente, tempo frio), e também dos da Lua (noites escuras ou luminosas), que marcavam os ciclos da natureza, da actividade agrícola e da própria vida.

Mas como estabelecer uma relação directa e inequívoca entre os monumentos neolíticos e a visão cosmológica, envolvendo os astros?

O trabalho dos astrónomos britânicos Clive Ruggles e Michael Hoskin, entre outros, ajudou a dar resposta ao problema. Ao fazer medições sistemáticas da orientação espacial de antas e menires "eles confirmaram estatisticamente que estes monumentos têm orientações preferenciais, em que há alinhamentos com eventos astronómicos solares e, ou, lunares", explica Fábio Silva, que acaba de concluir o doutoramento em astronomia, em Londres.

Hoskin, por exemplo, correu a orla mediterrânica a partir dos anos 80, incluindo Portugal, para fazer um levantamento da orientação de antas, e em 2001 publicou os resultados. Na sua leitura, a orientação preferencial destes monumentos, para nordeste parecia apontar para alinhamentos desses túmulos milenares com o nascer do Sol no Outono e na Primavera. Ou seja, por altura dos equinócios. O que quereria isto dizer?

Pegando nas medições feitas por Hoskin em 96 antas do Alentejo Central, e alargando o estudo a outras 81 na região, num total de 177, Cândido Marciano da Silva acabou por verificar que a esmagadora maioria destes monumentos funerários tem o seu eixo central alinhado com uma faixa muito estreita do horizonte, a meio caminho entre os pontos extremos do nascimento do Sol marcados pelos solstícios de Inverno e de Verão. "Tinha de haver uma explicação", diz.

Aqui é preciso dizer que o Sol nasce ao longo do ano em diferentes pontos do horizonte. Entre o solstício de Inverno e o de Verão, e se se considerar o horizonte como uma linha que corre de norte para sul, verifica-se que a partir do solstício de Inverno, quando o Sol atinge a sua posição extrema a sul, ele passa a nascer cada vez mais para norte, até atingir o outro ponto extremo no horizonte, no solstício de Verão. Entre ambos os extremos, mais a menos a meio desse caminho, ocorre o equinócio da Primavera e durante alguns dias, o Sol e a Lua nascem em pontos do horizonte muito próximos entre si. E é para aí, para essa faixa estreita do horizonte, que aponta a esmagadora maioria das antas medidas por Cândido Marciano da Silva.

A explicação tem que ver com a primeira lua cheia da Primavera, defende o investigador português, que publicou a sua proposta em 2004 e que assim abriu a porta a um novo olhar sobre estes monumentos e sobre a visão cosmológica dos seus construtores. A lua cheia da Primavera coincide com o renascimento da natureza e poderia portanto ter sido percebida como um marco significativo na vida pelos homens do Neolítico. Aberta essa porta, Fábio Silva conseguiu também ir um pouco mais longe ao fazer as medições nos dólmenes entre Douro e Mondego. "Os do Mondego estão, na sua maioria, alinhados com a primeira lua cheia após o equinócio da Primavera, e os do Vouga, Paiva, Torto e Côa com a primeira lua cheia após o equinócio de Outono", explica o jovem investigador. Mas a interpretação desta diferença não é linear. Seriam os seus construtores oriundos de duas comunidades distintas? Não é possível dizê-lo. A única resposta é continuar a fazer estudos, estendendo as medições a mais monumentos nessa e noutras regiões do País. É nisso que ambos estão empenhados.

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