Nobel da Física distingue descoberta da massa dos neutrinos

O japonês Takaaki Kajita e o canadiano Arthur B. McDonald são os premiados. Experiência liderada por McDonald que conduziu à descoberta contou com a participação de dois físicos portugueses do LIP.

O Nobel da Física deste ano foi atribuído ao japonês Takaaki Kajita e ao canadiano Arthur B. McDonald pela "descoberta das oscilações dos neutrinos, que mostram que os neutrinos têm massa". Uma descoberta que "mudou a nossa compreensão dos mecanismos internos da matéria e pode ser crucial para a nossa visão do universo", defende o comité do Nobel, no comunicado em que anuncia o prémio.

A experiência liderada pelo canadiano agora premiado contou com a participação de dois portugueses, os físicos José Maneira, do LIP-Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas, e Nuno Barros. A notícia do Nobel foi por isso recebida com "enorme satisfação" naquele laboratório português.

"Recebemos a notícia com grande contentamento", afirmou ao DN o presidente do LIP, o físico Mário Pimenta, sublinhando que esta "é uma área em que o laboratório português está envolvido há já 10 anos", em colaboração com a equipa do físico canadiano agora laureado com o Nobel. Arthur B. McDonald já esteve, aliás, em Portugal, por duas vezes nos últimos anos, em conferências organizadas pelo LIP, em 2007 e em 2010.

"Este prémio é também importante porque acaba por ser um reforço para o grupo português do LIP que participa nesta investigação. Esta é uma acividade que nem sempre é reconhecida e que nos últimos anos teve as suas dificuldades, incluindo de financiamento", nota Mário Pimenta.

Depois dos resultados obtidos pela equipa de McDonald que mereceram agora o Nobel, os investigadores do LIP continuaram, e continuam, a trabalhar com o físico canadiano na experiência internacional Sudbury Neutrino Observatory (SNO), que ele dirige. O laboratório português é, aliás, responsável, já há cinco anos, por um sistema de calibração da experiência e vai continuar a sê-lo, na próxima fase da experiência, estando o novo equipamento a ser desenvolvido no LIP Coimbra.

Os neutrinos são as partículas elementares mais abundantes no universo a seguir aos fotões e a cada segundo milhares de milhões passam pelos nossos corpos. No entanto, durante muito tempo, julgou-se que essas partículas não tinham massa. Foi o trabalho de Kajita e de McDonald, desenvolvido separadamente em laboratórios no Japão e no Canadá, que veio mudar isso.

Os cientistas da Universidade de Tóquio e da Universidade de Queens dividem assim os 8 milhões de coroas suecas do prémio (cercade 850 mil euros). Ambos trabalharam em observações importantes que que demonstraram que os neutrinos podem mudar de classe: uma metamorfose que requer que os neutrinos tenham massa.

Takaaki Kajita descobriu que os neutrinos da atmosfera oscilam entre duas identidades no seu trabalho no Observatório Super-Kamiokande (Super-k) no Japão - num artigo publicado no início do século. No Canadá, um grupo liderado por Arthur B. McDonald conseguiu demonstrar que os neutrinos do Sol não desapareciam, mas que em vez disso eram capturados com uma identidade diferente quando chegavam ao Sudbury Neutrino Observatory - esta última a experiência em que os investigadores do LIP participam há já 10 anos.

Estas descobertas levaram à conclusão lógica de que os neutrinos, as partículas elementares mais abundantes no universo a seguir aos fotões, têm de ter massa.

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