Kinshasa, 1920: pandemia da sida viajou nos caminhos de ferro

Grupo coordenado por investigador português na Universidade de Oxford analisou a maior amostra de sempre de sequências genéticas de HIV da África Central e traçou pela primeira vez com clareza a origem da epidemia

É uma das mais devastadoras epidemias da História e, no entanto, o foco original da sida e o que tornou imparável a sua expansão a partir de meados do século XX é em parte um mistério. Agora um grupo de investigação internacional, que incluiu portugueses, conseguiu traçar o rasto da doença até à sua origem. Como disse ao DN Nuno Faria, investigador principal do estudo, e um dos seus coordenadores, na Universidade de Oxford, a pandemia causada pelo HIV-1 "emergiu pela primeira vez nas populações humanas em Kinshasa, hoje capital da República Democrática do Congo, à volta de 1920". Depois, os caminhos de ferro e a história da região fizeram o resto.

O ano de 1920, como esse momento inicial da epidemia global, é o mais provável, "com 95% de segurança", dentro de um intervalo que vai de 1909 a 1930, explica a equipa no artigo que hoje publicam na revista Science.

A história que os novos dados revelam podia, então, contar-se assim: num dado momento, entre 1900 e 1920, alguém com uma infeção causada por um vírus SIV (o parente do HIV nos outros primatas), provavelmente um caçador que esteve em contacto com o sangue infetado de um chimpanzé, viajou do sudoeste dos Camarões para Leopoldville, hoje Kinshasa. O mais certo é que esse doente primordial tenha ido por barco, cruzando o rio Sangha e os seus afluentes, até chegar à antiga capital do Congo Belga - nessa época, as viagens na região tinham muito essa marca fluvial. Mas porquê nos Camarões?

A resposta vem da genética. Os vírus da imunodeficiência dos primatas não humanos mais parecidos com o HIV-1 responsável pela pandemia provêm, exatamente, de chimpanzés dali.

Chegado, então, a Kinshasa, o viajante infetado iniciou uma cadeia de transmissão, que os caminhos de ferro, na altura em grande expansão, ajudaram a propagar.

"A dispersão inicial do vírus seguiu as redes de transporte, principalmente as redes ferroviárias, que desde o final dos anos 1940 já eram usadas anualmente por mais de um milhão de pessoas", explica Nuno Faria, sublinhando que o seu grupo também encontrou indícios de que um outro momento-chave imprimiu nova velocidade à doença.

"Existe alguma evidência de que as mudanças sociais, com a independência da República Democrática do Congo, em junho 1960, contribuíram para amplificar exponencialmente o número de infeções e elevar o que era uma epidemia local a uma escala global", refere. Entre essas mudanças sociais estiveram "as dos padrões de trabalho sexual e as iniciativas públicas contra doenças tropicais que usaram seringas não esterilizadas", afirma Nuno Faria.

Para chegar a estas conclusões, que pela primeira vez revelam com clareza o "onde, o quando e o como" da pandemia da sida, que já infetou até hoje mais de 75 milhões de pessoas, a equipa utilizou métodos avançados de filogeografia - estudo da genealogia e proveniência de vírus. Traçou assim o rasto genético e geográfico ao HIV-1 do grupo M (de main, que significa principal), justamente aquele que é responsável por 99% destas infeções no mundo.

Nesse trabalho de verdadeiro detetive, o grupo, que incluiu outro português, João Sousa, das universidades de Lovaina (Bélgica) e Nova de Lisboa, e ainda investigadores do Reino Unido, Estados Unidos, França, Bélgica, Canadá e Espanha analisou a maior amostra de sequências genéticas de HIV da África Central até hoje estudada, num total de 927.

Professor e investigador na Universidade de Oxford desde 2013, Nuno Faria, 30 anos, foi de resto um dos investigadores que ajudou a desenvolver, ainda na Universidade de Lovaina, durante o doutoramento, o novo método de análise utilizado neste trabalho. Por isso, publicar o artigo na Science é um reconhecimento", de "uma instituição sempre atenta ao que de mais inovador se faz no mundo", diz. Mas, sobretudo, o artigo "traz visibilidade"a outras investigações em HIV, "nomeadamente na cura e resistência a antirretrovirais", e abre a porta "ao estudo dos fatores que determinam o surgimento e disseminação de outras doenças infecciosas", conclui.

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Anselmo Borges

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