Base de dados de cheias para prevenir desastres

Projeto Disaster é apresentado dia 26, quando passam 45 anos das cheias de 1967, as mais mortíferas dos últimos 149 anos

Investigadores das universidades de Lisboa, do Porto e de Coimbra passaram a pente fino 145.344 exemplares de 16 jornais portugueses, incluindo o Diário de Notícias desde o seu primeiro número (29 de Dezembro de 1864) e construíram uma base de dados com todos os episódios de inundações e deslizamentos de terras que causaram vítimas mortais em Portugal Continental no último século e meio. Com os perfis de risco para cada um dos concelhos do País, este será um instrumento importante para prevenir futuras tragédias deste tipo no país, acreditam os investigadores.

Resultado de dois anos de trabalho do projeto Disaster, que envolveu 25 investigadores coordenados por José Luís Zêzere, do Instituto de Geografia e Ordenamento do território (IGOT), da Universidade de Lisboa, esta nova base de dados "ficará disponível na Internet até final do ano", afirmou ao DN o coordenador do projeto.

Os resultados preliminares, que serão apresentados publicamente no auditório da Fundação Paula Rego, em Cascais, no dia 26 deste mês, pelas 14.30, mostram que as zonas de Sacavém, Loures, Odivelas, Vila Franca de Xira e Oeiras são as mais críticos, em termos de inundações, na região de Lisboa. Mas há outras zonas, nomeadamente no Vale do Tejo, em certas zonas do Porto e de Vila Nova de Gaia e de Coimbra que são igualmente vulneráveis.

O dia escolhido para a apresentação dos primeiros resultados está carregado de significado. No próximo dia 26 completam-se 45 anos sobre o episódio de cheias mais mortífero ocorrido em Portugal nos últimos 149 anos. Foram as cheias de 1967, que provocaram oficialmente 449 vítimas mortais. No entanto, o estudo desse episódio no âmbito do Disaster mostrou que terão morrido "entre 700 e 800 pessoas em consequência dessas cheias", afirma José Luís Zêrere, cuja equipa equipa investigou o acontecimento no terreno, entrevistando sobreviventes da tragédia que ainda hoje estão vivos.

O Disaster, que ainda vai durar mais um anos, vai ainda aprofundar o estudo da distribuição espacial e temporal das ocorrências, as suas causas meteorológica e a componente social, de forma a detalhar as vulnerabilidades na ocupação do território que estiveram na origem das vítimas mortais.

Uma das conclusões, para já, é que não houve um aumento do número absoluto deste tipo fenómenos - cheias e deslizamentos de terras. Pelo contrário, "eles reproduzem a variabilidade natural do clima", sublinha o coordenador do estudo.

Em relação às cheias de 1967, tratou-se de um fenómeno extremo. Em apenas quatro horas a região de Lisboa e Vale do Tejo foi fustigada por uma chuva intensa que despejou 110 mm de água na região de Lisboa. A ocupação desordenada do território, com muitas barracas amontoadas em leitos de cheia, fizeram o resto. Curiosamente, este foi também o único destes episódios em que censura a certa altura atuou nos jornais, segundo o coordenador dos estudo. "As cheias eram consideras uma consequência natural da chuva, mas neste caso, a partir do quinto dia, com o número de mortos a aumentar, as notícias deixaram de falar deles", conclui José Luís Zêzere.

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