Mais espécies e mais animais na Mata do Buçaco

Cercada por monoculturas de pinheiro-bravo e eucalipto, a Mata Nacional do Buçaco é "um oásis de biodiversidade", cuja riqueza em termos de fauna a torna um habitat privilegiado, raro na região, para inúmeras espécies animais.

A bióloga Milene Matos, autora do primeiro estudo científico no terreno sobre a fauna da mata, analisou os padrões de diversidade e abundância de várias classes de animais vertebrados, realizando também estudos idênticos nas monoculturas de pinheiro-bravo e eucalipto e na agricultura tradicional e intensiva.

As cerca de 150 espécies de vertebrados (aves, peixes, anfíbios, répteis e mamíferos) conhecidas na Mata do Buçaco beneficiam da riqueza da sua flora e, segundo o estudo da investigadora da Universidade de Aveiro, esta floresta mista é a que apresenta maior diversidade de espécies e maior abundância de animais entre os habitats florestais analisados.

Com mais de 250 espécies de árvores e arbustos de todo o mundo e a sua floresta relíquia (árvores autóctones, vestígio de floresta primitiva), a mata está inserida na bacia do Mediterrâneo, considerada um dos 25 'hotspots' de biodiversidade do mundo e o terceiro mais importante do ponto de vista botânico.

Nos seus 105 hectares, ocorrem 10 espécies de anfíbios das 17 de todo o país e pelo menos 14 espécies de morcegos das 25 do continente. Em termos de aves, há mais de 80 registadas.

A salamandra lusitânica, o lagarto de água e a toupeira são alguns dos vários endemismos ibéricos (animais que só existem na Península Ibérica) que ocorrem na mata, em cujas linhas de água habita o ruivaco (endemismo português).

Para as aves, "há árvores que lhes proporcionam refúgio, com cavidades naturais e ramagem densa (ao contrário da monocultura), e que lhes propiciam locais de nidificação, menos sujeitos à pressão predatória, exemplificou Milene Matos, ao ilustrar a biodiversidade numa deslocação pela mata.

Esta diversidade botânica, patente também nos muitos tipos de sementes, folhas, flores e raízes disponíveis para alimento dos animais ao longo de todo o ano, associa-se à complexidade estrutural da mata -- que contrasta igualmente com os habitats simplificados dos espaços destinados à produção florestal - e faz com que tenha um valor conservacionista "incomparavelmente superior" ao apurado por Milene Matos no eucaliptal.

O índice de valor conservacionista - que mede a importância, em termos de conservação da fauna, de cada um dos espaços estudados - foi agora medido "pela primeira vez nestes termos" em Portugal no âmbito desta investigação e é ainda mais elevado na agricultura tradicional.

Nos solitários e intensivos estudos de campo de cinco anos que originaram a tese de doutoramento em biologia "Diversidade de vertebrados na Serra do Buçaco e áreas envolventes", Milene Matos abrangeu uma área de 250 quilómetros quadrados, representativa da região Centro.

A tese "fornece bases essenciais para a construção de linhas de orientação que visem a integração das atividades humanas com a manutenção da biodiversidade".

Na ótica de Milene Matos, as atuais opções na silvicultura e a intensificação da agricultura "põem em risco a preservação da biodiversidade".

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