A viagem das tartarugas no Oceanário

Conservação e sensibilização são duas ideias fortes para a exposição temporária com tartarugas-marinhas que o Oceanário está a preparar para o seu novo espaço, a partir de Março de 2011, no Parque das Nações. Os exemplares são animais recuperados em centros nacionais e europeus e serão depois devolvidos ao oceano

Foi no Inverno, há três anos. A pequena tartaruga estava exausta no areal da praia de Neiva, na costa norte, e poderia ter morrido ali mesmo, mas, nesse dia, a sorte esteve do seu lado. Por acaso, um grupo de pessoas que ali passeava encontrou-a e entregou-a a quem podia cuidar dela. Foi acolhida na Estação Litoral da Aguda, em Arcozelo, Vila Nova de Gaia, e lá ficou.
O animal, um macho da espécie tartaruga-comum (Caretta caretta), pesava nessa altura menos de um quilograma, mas acabou por recuperar, e, hoje, com 55 cm de comprimento e 8 kg, está de perfeita saúde. Na semana passada mudou-se para o Oceanário.


Ela é a primeira de um grupo de tartarugas desta espécie que ali vai estar, a partir de Março do próximo ano, na exposição temporária "Tartarugas-Marinhas. A Viagem", que inaugura nessa mesma altura o novo espaço do Oceanário, no Parque das Nações.


Não há ainda um número definido de tartarugas para integrar esta exposição, que pretende dar a conhecer a vida destes seres marinhos, as ameaças que pendem sobre o seu futuro e também sensibilizar para a necessidade da sua conservação. O tanque que lhes será destinado, e que está neste momento ainda em construção, "terá uma capacidade de 250 metros cúbicos, o que equivale em volume ao nosso habitat do Índico", explica ao DN a bióloga e curadora do Oceanário, Nuria Baylina.


Um espaço aquático com essa dimensão pode albergar cerca de uma dezena de tartarugas de diferentes tamanhos, e existe a possibilidade de, para além da Caretta caretta, também estarem na exposição tartarugas de outra espécie: a tartaruga-verde (Chelonia mydas). As duas existem em águas portuguesas, já que passam por aqui nas suas viagens atlânticas, ou a caminho do Mediterrâneo.


O que é certo é que todas as tartarugas serão, tal como a que arrojou há três anos à praia de Neiva, exemplares oriundos de centros de recuperação de animais marinhos de Portugal ou de outros países da Europa. "Em Portugal temos contactos com a Estação Litoral da Aguda, o Centro de Reabilitação de Animais Marinhos de Quiaios e o Zoomarine, onde existem os meios para albergar tartarugas que arrojam à costa em dificuldades", diz Nuria Baylina.


Todos os anos há notícia de arrojamentos destes animais marinhos em Portugal. Ainda em Julho e Agosto isso aconteceu, até em número anormalmente alto, nas praias do Sul do Algarve, onde foram detectadas cerca de quatro  dezenas de tartarugas mortas. Não houve indícios de doenças e a explicação adiantada pelo Instituto da Conservação da Natureza e Biodiversidade (ICNB) foi a de que as tartarugas se aproximaram em maior número da costa devido ao aumento da temperatura das águas e acabaram presas em redes de pesca, que lhes causaram ferimentos mortais.


Os maus encontros com redes de pesca são, aliás, uma das principais ameaças que estão a colocar as tartarugas-marinhas em perigo. Isso, e a poluição, sobretudo os plásticos, que as tartarugas engolem - o que lhes bloqueia o sistema digestivo, podendo levá-las à morte -, as capturas intencionais para comércio em alguns pontos do mundo e a grande pressão humana sobre as praias onde elas fazem as suas posturas, acabaram por colocar em situação difícil todas as espécies de tartarugas-marinhas no mundo.

A exposição que abre em Março tem também, ela própria, uma vertente de conservação. Os animais que por ali passarem serão depois devolvidos ao mar. Em alguns serão colocados chips para serem seguidos nas suas viagens pelos oceanos de todo o mundo.