Os chineses de Lisboa acham que o karaoke pode salvar o mundo

Em 57 países, as comunidades chinesas escolheram os representantes para a final do Shui Li Fang. É o maior festival da canção do planeta em participantes e o segundo em audiência televisiva, depois da Eurovisão

História de uma eliminatória lisboeta que juntou os chineses do país inteiro em Algés e a meio teve de mudar-se para o Martim Moniz

Qualquer pessoa que tenha tido um órgão Casio nos anos 1990 há de lembrar-se disto. Havia uma cantilena chinesa que mesmo o pior dos pianistas conseguia levar até ao fim, tocando apenas nas notas pretas do teclado, primeiro em sentido ascendente, depois descendo a escala:

Fá# Sol# Lá#, Dó# Dó#

Fá# Sol# Lá#, Dó# Dó#

Fá# Sol# Lá# Dó# Ré# Dó# Lá#

Sinfonia simplória, sim, mas infalível. Quando Jiang Bei Mao subiu ao palco da primeira eliminatória do festival da cancão chinesa em Portugal e dedilhou aqueles sustenidos todos, parecia que já não precisava de cantar. A multidão que ocupava o salão da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Chinesa, na garagem de um prédio em Algés, levantou-se a um só tempo, como que picada por alfinetes, para ovacioná-lo.

Domingo, no Casino Estoril, Jiang e outros nove concorrentes disputam a final portuguesa do Water Cube Cup ou, na versão original, o Shui Li Fang.É o mais participado concurso musical do planeta. Dez mil concorrentes da diáspora chinesa lutam, em 57 países, por um lugar na grande final de Pequim. Cada nação escolhe o seu vencedor a 1 de julho e, uma semana depois, os finalistas rumam à capital da China para 20 dias de formação de palco e técnica vocal.

No início de agosto começam as rondas de eliminação, até se apurarem os dez melhores. A grande final, transmitida em direto pela CCTV (China Central Television) no dia 8, é o segundo maior programa de entretenimento televisivo do globo, logo atrás da Eurovisão. E tudo começou aqui, na garagem de Algés. Neste domingo de junho, centenas de chineses que vivem nos cantos mais remotos de Portugal acorrem à chamada e a multidão acotovela-se para conseguir vista para o palco. O Shui Li Fang vai começar.

A monarquia do karaoke

Estão três miúdas a fazer tranças umas às outras enquanto afinam as vozes com uma cantiga de Jia, a Britney Spears chinesa. Mais atrás há um homem que há muito ultrapassou os 40, está a estalar os dedos e a entoar baixinho uma versão de Barry White em madarim. Dois rapazes fazem rap ao despique, com calças largas e bonés virados para trás. O largo em frente ao salão onde se realiza o concurso está uma pilha de nervos.

Nesta primeira ronda participam 300 concorrentes, metade são adolescentes, outros tantos adultos. Ninguém traz canções originais, apenas réplicas, mas isso não impede que estejam aqui dois mundos em confronto: há os miúdos que já nasceram em Portugal e vão cantar a modernidade chinesa e há os que mal falam português - e esses são todos tradição. E depois há Jiang Bei Mao, que vai ser o 19.º a subir ao palco. Optou pela tal cantilena tradicional que qualquer pianista amador sabe replicar num órgão Casio. Mal sabe que não vai conseguir entoá-la até ao fim.

Dois polícias irrompem pelo salão de Algés e interrompem o concurso. Há uma queixa de ruído, a eliminatória não pode prosseguir. "Podemos ir para o meu restaurante", cabemos lá todos", diz Zhu Chang Long. Em menos de uma hora, a festa recomeça no Martim Moniz

Rei do karaoke, como o próprio se arroga, Jiang veio de Águeda. Também há aqui gente de Bragança e de Portimão, dois concorrentes dos Açores, uma da Madeira. "Está na hora de testar o meu sonho a sério." Se vencer, promete abandonar o serviço de mesa no restaurante onde trabalha para se dedicar em exclusivo às cantigas, não necessariamente em mandarim. "Também gosto de música portuguesa, oiço muito Marco Paulo e Xutos & Pontapés." Cruza os braços em homenagem à banda, foi um amigo aguedense que lhe ensinou a simbologia. "Rock"n"roll." E Marco Paulo.

Uma lição de desenrascanço

Cantaram sobretudo miúdos, agora é a vez dele. Fá# Sol# Lá#, Dó# Dó# e toda a gente se levanta para o aplauso. Jiang começa baixinho e vai subindo de tom, uma voz limpa e afinada. Chega o refrão, um coro inteiro a acompanhá-lo espontaneamente. E, quando volta às estrofes, dois agentes da PSP irrompem pela sala e o homem vê a sua glória interrompida. O presidente da Câmara de Comércio vai falar com os polícias. Há um problema.

"Os vizinhos apresentaram uma queixa por ruído e não podemos continuar aqui", anuncia na sua língua nativa. Começa a crescer o burburinho, até que Zhu Chang Long se levanta e propõe: "Podemos ir para o meu restaurante, cabemos lá todos." Sob seu comando, são imediatamente desmontadas colunas, microfones e até o palco. Organizam-se boleias, o material técnico é levado para Lisboa.

O presidente da Câmara de Comércio, acompanhado do júri, passa num hipermercado, compra petiscos para compensar toda a gente pelo transtorno. Há amendoins, garrafas de água e folhados de salsicha, os mais concorridos. Em menos de uma hora, e apesar da distância de 13 quilómetros, a festa está pronta para recomeçar.

Sonho de uma noite de verão

O restaurante Hua Ta Li fica no quinto piso do Centro Comercial do Martim Moniz e é sobretudo frequentado pela comunidade chinesa da capital. Serve pratos tradicionais da costa oeste do país, nomeadamente o fondue de couve e o caranguejo com nabo, que são as grandes especialidades da casa. Tem uma parede decorada com luzes de Natal, que às vezes serve para noites de karaoke e agora vai ser o palco do Shui Li Fang. O presidente do júri sobe ao estrado e diz que Jiang foi prejudicado por não ter podido terminar a música, mas a sua prestação foi mais do que suficiente: está na final do Casino Estoril.

Enquanto os mais velhos aplaudem, os mais novos digitam o nome do cantor de Águeda nos telemóveis e mostram os caracteres coloridos. Hão de repetir o gesto pela tarde e a noite dentro, sempre que ouvirem uma prestação de que gostem. "O Jiang pode ser o primeiro de Portugal a vencer o concurso", diz Anqi Li, a mais bem classificada portuguesa de sempre. Em 2014 ficou no segundo posto, com 9,7 pontos. "Em primeiro lugar ficou a cantora da Malásia, com 9,9. Eles são a superpotência do Shui Li Fang." De facto, em sete edições, a comunidade chinesa na Malásia venceu por quatro vezes.

O problema dos cantores chineses em Portugal, diz Anqi, é o mesmo dos atletas olímpicos do país: falta de condições de treino. "Precisamos de mais karaokes", sentencia a rapariga, e esse devia ser, na sua opinião, um desígnio para toda a comunidade. Mas haverá público em Portugal para alimentar essa febre? "Claro que sim. Depois do meu segundo lugar comecei a ser convidada para cantar em toda a Europa, nas comunidades chinesas. Em todo o lado há salas. Em Viena, por exemplo, é muito comum encontrar chineses e austríacos juntos ao microfone."

A sua opinião é firme: o karaoke é uma das mais eficazes ferramentas de integração. Na próxima vez que alguém tocar uma cantilena simples com as teclas negras de um teclado Casio, é capaz de não estar só a mostrar ao mundo que tem um truque na manga. Está, também, a salvar o mundo.

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Anselmo Borges

"Likai-vos" uns aos outros

Quem nunca assistiu, num restaurante, por exemplo, a esta cena de estátuas: o pai a dedar num smartphone, a mãe a dedar noutro smartphone e cada um dos filhos pequenos a fazer o mesmo, eventualmente até a mandar mensagens uns aos outros? É nisto que estamos... Por isso, fiquei muito contente quando, há dias, num jantar em casa de um casal amigo, reparei que, à mesa, está proibido o dedar, porque aí não há telemóvel; às refeições, os miúdos adolescentes falam e contam histórias e estórias, e desabafam, e os pais riem-se com eles, e vão dizendo o que pode ser sumamente útil para a vida de todos... Se há visitas de outros miúdos, são avisados... de que ali os telemóveis ficam à distância...