PCP quer mais travões ao turismo em Lisboa

João Ferreira defende projeto à medida do que se faz em Amesterdão e Barcelona. Comunistas exigem "cidade para todos" e não só de olhos postos no turismo

Joana Petiz
© Leonardo Negrão/Global Imagens

"Não devemos ter medo do crescimento. Pelo contrário, precisamos de preparar a cidade para receber ainda mais turistas." A frase era dita com ânimo por um Fernando Medina já presidente da Câmara de Lisboa, no início do verão de 2016, em resposta a uma reportagem da Bloomberg que dava conta de um aumento de 21% no número de dormidas e de 13 mil casas e quartos registados no Airbnb. Dois anos depois, há 73 500 casas em alojamento local no país, com Lisboa a acolher mais de 4 milhões de turistas/ano, e ainda que Medina continue a defender o turismo (com regras) na cidade, a pressão política levou já à criação de travões. Mas o PCP quer mais.

João Ferreira não está contente com as regras que têm sido criadas para travar a pressão turística na cidade - caso da nova lei do alojamento local, que entra em vigor no final de outubro. Segundo um documento a que o Observador teve acesso, o PCP questionou a Câmara de Lisboa sobre a lotação turística da cidade e quer introduzir "limites críticos da intensidade turística no território" à semelhança do que fizeram Amesterdão e Barcelona.

O projeto, que os deputados municipais do PCP tornarão púbico amanhã de manhã, define-se pela avaliação da capacidade de carga turística de ruas, zonas ou mesmo de toda a cidade, fixando o número máximo das que podem ali passar sem estragar os seus "padrões de qualidade".

Já durante a campanha autárquica, João Ferreira - que vive em Bruxelas, uma vez que é também eurodeputado - fora um acérrimo opositor do turismo enquanto centro da atividade de Lisboa, defendendo já em entrevista à TSF que "nalgumas áreas já são necessárias medidas de contenção, porque o que está em causa é o direito à habitação e a própria descaracterização da cidade. Estamos a despir Lisboa da matriz identitária que a tornou apetecível e atrativa, inclusive para o turismo", frisou o dirigente comunista no início do ano passado.

Agora, o partido defende que se crie um tampão, algo que vá além da legislação aprovada para travar o alojamento local, que entra em vigor no final do mês. Para o PCP, igualmente crítico da forma como Lisboa tem sido reabilitada, que entende resultarem de uma estratégia com os olhos postos em fins turísticos, é importante que a "cidade seja para todos". E sustenta a criação de limites nos programas discutidos em cidades como Amesterdão (18,5 milhões de turistas/ano para cerca de 850 mil habitantes) ou Barcelona (32 milhões, vinte vezes o número de habitantes).

Também Ricardo Robles, vereador do BE - entretanto substituído por Manuel Grilo, na sequência das notícias da propriedade que detém em Alfama e que planeava pôr em regime de Alojamento Local, tendo-se entretanto comprometido a colocá-la no mercado do arrendamento - foi sempre defensor da necessidade de pôr travão àquilo que o Bloco de Esquerda considerava um crescimento descontrolado do turismo.