Amor tóxico: como os turistas estão a destruir o Porto

A opinião vem da revista alemã "Der Spiegel", que aponta o turismo de massa como fator de ruína para lugares históricos como a Invicta. A Livraria Lello parece ser o exemplo supremo destes novos tempos

Paula Freitas Ferreira
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Livraria Lello, no Porto. | foto Rui Oliveira/ Global Imagens
Livraria Lello, no Porto. | foto (Ivan Del Val / Global Imagens
Livraria Lello, no Porto. | foto ESTELA SILVA/LUSA

As culpadas são as companhias aéreas low cost, como a Ryanair e a EasyJet, que "contribuíram para uma forma de turismo de massa que faz com que os moradores locais se sintam estrangeiros em cidades como Barcelona e Roma". Este é o mote para um longo artigo da revista alemã "Der Spiegel" - publicado a 11 de agosto - e que se debruça sobre o novo turismo, que deixou de ser um bem de luxo para se tornar algo ao alcance de todos. E a verdade é que todos estão a ajudar a "destruir aquilo que amam", como vaticinou Oscar Wilde (Each man kills the thing he loves), assim sugere a publicação, que arranca a reportagem com vários capítulos inteiramente dedicados à cidade do Porto e a Portugal.

O texto começa com a cidade portuguesa em destaque, ao referir a hospitalidade e o orgulho da mulher que, na receção do hotel, aponta no mapa "a Cidade Velha e o Douro, o porto e a livraria mais bonita do mundo: a Livraria Lello", descrita no artigo como "um edifício neogótico de dois andares com muita madeira escura, abundância de livros antigos, ornamentação e vitrais, e uma escada curva no meio". Prossegue com factos históricos, aproveita para considerar a Lello como uma "catedral de livros" e chama a atenção com um nome famoso: era a livraria que a escritora J.K. Rowling (criadora da saga Harry Potter) costumava visitar quando morava no Porto.

Depois, aponta outros factos, contemporâneos e exemplificativos, de como os turistas estão a "estragar" tudo: sendo o Porto uma cidade com pouco mais de 200.000 habitantes, as longas filas para a Livraria Lello são formadas por "japoneses, mochileiros escandinavos, famílias de França, casais da China, americanos e alemães". A reportagem aponta as filas em todo o lado, as barreiras de controlo das multidões, como se a livraria fosse uma espécie de aeroporto com até direito a um "balcão de check-in".

Durante as visitas, o menos importante parecem ser precisamente os livros: "Parecem estar todos a tirar fotos com os seus smartphones". De seguida, novamente os factos: a Lello esteve à beira da falência, há quatro anos, e então começou a cobrar bilhete de entrada (5 euros). Explicação? As pessoas estão a deixar de comprar livros, mas cada vez mais gostam de publicar fotos nas redes sociais e a Livraria Lello é uma das principais atrações turísticas do Porto: em 2017 recebeu 1,2 milhão de visitantes e faturou mais de 7 milhões de euros, aponta a "Der Spiegel".

O turismo moderno é apelidado de "predador" e a história da Lello é o exemplo máximo da inversão do paradigma, culpa da crise, lembra a revista, o país "deve a sua recuperação, em parte, ao crescimento de dois dígitos no turismo", cita o artigo, que lembra ainda como, ao contrário de Lisboa e do Sul do país, era no Porto e no Norte de Portugal que as dificuldades económicas mais se faziam sentir.

Neste ponto, a reportagem recupera o gatilho: "A Ryanair e a EasyJet voam para a cidade há anos". É lembrado que, o ano passado, 2,5 milhões de turistas visitaram o Porto, e metade destes compraram o bilhete para visitar a Livraria. Ainda assim, diz a revista, a Invicta ainda não atingiu os níveis de saturação de turistas de cidades como Barcelona e Amesterdão, mas o turismo já terá dividido a cidade ao meio: moradores de um lado e turistas do outro. Fica a pergunta dos alemães: "Os habitantes locais também têm de ficar na fila e pagar cinco euros?".

O resto do artigo continua a colocar o dedo nas feridas que o novo turismo tem feito em locais como Palma de Maiorca, Veneza ou Roma, Barcelona e Dubrovnik, onde os turistas são despejados em centros das cidades que estão há muito superlotados. Os preços competitivos, os constantes saldos e promoções de última hora das companhias áreas para estes destinos têm alimentado um fenómeno que causa ainda o caos nos aeroportos - não só em Lisboa, dizemos nós, mas também na Alemanha, refere o artigo, "com multidões de pessoas a discutirem em frente aos ecrãs, enquanto os cancelamentos de voos aumentaram 146% no primeiro semestre do ano e o número de atrasos foi de 31%".

A indústria começa a perceber que "o seu próprio sucesso está a minar a base do seu modelo de negócio".

Existem vários parágrafos ao longo do artigo que poderiam ter sido retirados de jornais portugueses, como este: "Os moradores das cidades e regiões afetadas são talvez os maiores perdedores. Quando, por exemplo, se torna mais lucrativo para os proprietários alugar os apartamentos a turistas diariamente ou semanalmente do que a locais que precisam de um lugar acessível para morar"ou "quando as pessoas não se sentem mais confortáveis ​​na sua vizinhança porque se tornaram minoria nos cafés e restaurantes que tradicionalmente frequentavam". Podia ser Alfama. Podia ser a Ribeira. E, na verdade, é.

A reportagem aponta que os habitantes locais já se estão a organizar contra este turismo de massa e recorda os slogans em paredes com frases como "turistas voltem para casa" e os protestos à frente de aeroportos e em hotéis. "Em Palma, ativistas atiraram excrementos de cavalo nos turistas. Em Barcelona, ​​empurraram as pessoas das bicicletas e assediaram-nas em cafés. Em Veneza, impediram que navios de cruzeiro entrassem no porto".

Como conclusão, o artigo regressa à ideia central. Sim, é verdade que os turistas estão a destruir aquilo que amam (será que amam mesmo?) e a indústria começa a perceber que "o seu próprio sucesso está a minar a base do seu modelo de negócio".

O turismo em excesso está a afastar os próprios turistas e a transformar as cidades típicas pela sua cultura individual em locais massificados. O provérbio é português e talvez tivesse sido utilizado se o artigo não fosse escrito em alemão: este é o momento em que a indústria de turismo percebe que pode não morrer da doença, mas sim da cura.