Adrià vai cozinhar em Lisboa

O momento é especial e irrepetível, reservado a duas dezenas de pessoas: dois chefs Michelin a cozinhar a quatro mãos no Loco de Alexandre Silva

É no número 53B da Rua dos Navegantes, na Estrela, que todos os astros vão alinhar-se para receber dois génios da cozinha. Dois chefs que o Guia Michelin põe entre os melhores do mundo vão cozinhar lado a lado para apenas 20 pessoas, num jantar que se prevê irrepetível.

Esta noite especialíssima acontecerá a 4 de agosto, no Loco, cuja cozinha Alexandre Silva partilhará então com Albert Adrià. O evento acontece na sequência de um hábito de luxo aqui criado pelo chef português, que já levou ao Loco de Lisboa nomes de peso mundial como Dominique Crenn, Diego Guerrero, Daniel Burns e Pedro Pena Bastos.

"Decidimos que este ano queríamos fazer só um jantar, mas teria de ser com uma figura que tivesse uma grande influência para mim e para a cozinha mundial", explica o chef. "Sendo o Albert um criativo por natureza, com um percurso notável, foi uma escolha óbvia", até porque a correspondência com o ADN criativo do Loco ronda os 100%. As "conversações" arrancaram no início de 2018 e tudo tem sido "muito fácil: o Albert é um profissional muito acessível e prático, o que ajuda muito neste processo", conta Alexandre Silva.

Irmão de Ferran e depois de estar ao seu lado no El Buli e no Enigma, em Barcelona, Albert Adrià é um dos mais reconhecidos cozinheiros da sua geração. Neste momento integra o ElBarri, projeto gastronómico composto por seis diferentes restaurantes, todos na mesma zona de Barcelona. Em 2013, a Time considera-o uma das 13 principais figuras no universo da alimentação e da gastronomia, no mesmo ano em que recebe uma Estrela Michelin para o Tickets, e outra para o 41º Experience (que encerraria no ano seguinte). Em 2014, mais uma Estrela Michelin, desta vez para o Pakta e, em 2015, é a vez do Hoja Santa passar a figurar no Livro Vermelho. No ano passado, foi o Enigma a conquistar a sua primeira Estrela. Em 2015, a revista Restaurant elege-o como melhor chef pasteleiro do mundo e este ano recebeu o Prémio Nacional de Gastronomia, em Espanha, como melhor chef de cozinha.

Para esta união de criatividade ibérica, o menu ainda está a ser definido, mas sabe-se já que será dada primazia ao que é nacional, com Alexandre Silva a enviar "uma listagem de produtos que temos em Portugal nesta época do ano" e Albert a fazer chegar "algumas sugestões do que gostava de fazer por cá". O resultado será um casamento entre as ideias e a técnica do cozinheiro convidado, o produto português da época e o ambiente criativo, confortável e desconcertante do Loco.

A fazer as honras da casa, Alexandre Silva não acusa pressão quanto à presença de mais um estranho na sua cozinha. "Os jantares do ano passado deram-nos bastante rodagem e trouxeram-nos muito conhecimento útil nesse momento de partilha e criação conjunta", diz. Quando a Adrià, "quero mostrar que Portugal e os portugueses têm muito para dar. Quero levá-lo à pesca, ao campo, vamos ter muito para fazer".

O jantar no Loco, dia 4 de agosto, tem o valor de 250 euros, com bebidas incluídas, e arranca às 20.00. Para garantir uma reserva há que correr para o telefone (213 951 861) ou escrever para reservas@loco.pt. A reservas já abriram!

Ler mais

Exclusivos

Premium

Bernardo Pires de Lima

Os europeus ao espelho

O novo equilíbrio no Congresso despertou em Trump reações acossadas, com a imprensa e a investigação ao conluio com o Kremlin como alvos prioritários. Na Europa, houve quem validasse a mesma prática. Do lado democrata, o oxigénio eleitoral obriga agora o partido a encontrar soluções à altura do desafio em 2020, evitando a demagogia da sua ala esquerda. Mais uma vez, na Europa, há quem esteja a seguir a receita com atenção.

Premium

Rogério Casanova

O fantasma na linha de produção

Tal como o desejo erótico, o medo é uma daquelas emoções universais que se fragmenta em inúmeras idiossincrasias no ponto de chegada. Além de ser contextual, depende também muito da maneira como um elemento exterior interage com o nosso repositório pessoal de fobias e atavismos. Isto, pelo menos, em teoria. Na prática (a prática, para este efeito, é definida pelo somatório de explorações ficcionais do "medo" no pequeno e no grande ecrã), a coisa mais assustadora do mundo é aparentemente uma figura feminina magra, de cabelos compridos e desgrenhados, a cambalear aos solavancos na direcção da câmara. Pode parecer redutor, mas as provas acumuladas não enganam: desde que foi popularizada pelo filme Ring em 1998, esta aparição específica marca o ponto em filmes e séries ocidentais com tamanha regularidade que já se tornou uma presença familiar, tão reconfortante como um peluche de infância. É possível que seja a exportação japonesa mais bem-sucedida desde o Toyota Corolla e o circuito integrado.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Adeus, futuro. O fim da intimidade

Pelo facto de dormir no quarto da minha irmã (quase cinco anos mais velha do que eu), tiveram de explicar-me muito cedo por que diabo não a levavam ao hospital (nem sequer ao médico) quando ela gania de tempos a tempos com dores de barriga. Efectivamente, devia ser muito miúda quando a minha mãe me ensinou, entre outras coisas, aquela palavra comprida e feia - "menstruação" - que separava uma simples miúda de uma "mulherzinha" (e nada podia ser mais assustador). Mas tão depressa ma fez ouvir com todas as sílabas como me ordenou que a calasse, porque dizia respeito a um assunto íntimo que não era suposto entrar em conversas, muito menos se fossem com rapazes. (E até me lembro de ter levado uma sapatada na semana seguinte por estar a dizer ao meu irmão para que servia uma embalagem de Modess que ele vira no armário da casa de banho.)