A saga de encontrar um quarto em Lisboa a preços "normais"

Uma banheira no meio do quarto, dormir em cima de paletes e senhorios com propostas pouco claras. Jovem procura quarto em Lisboa e a situação é complicada.

"Menina, tenho aqui um quarto a 400 euros para si!" Banheiras no meio de um quarto, camas dispostas em caves de casas ocupadas, preços e senhorios com condições de tirar o ar. Estava longe de imaginar que a minha mudança do Porto para Lisboa passaria por aqui.

Lisboa continua a ser a cidade mais cara para se estudar - mesmo que eu não tenha chegado à cidade com esse propósito. O curso estava terminado e agora já vinha trabalhar. A minha busca, porém, encaixa em todos os parâmetros daqueles outros milhares de jovens universitários que precisam de um quarto para viver. O primeiro, e grande (muito grande), obstáculo, é o preço.

Segundo a Uniplaces, plataforma online de alojamento, a renda média de um quarto em Lisboa, em 2018, é de 485 euros, mais 26 euros que no ano anterior. Uma tendência que se verifica a nível nacional, onde as rendas aplicadas a estudantes sofreram um aumento de 4% nos primeiros meses de 2018, subindo 17 euros face ao mesmo período de 2017. Só que o preço de partida, na capital, é um pouco mais elevado.

E tudo começa porque a oferta de camas em residências universitárias é mínima, face à procura. No ano passado, em declarações à LUSA, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior apontava a existência de apenas duas mil camas disponíveis em Lisboa - a nível público - para os mais de 27 mil deslocados a entrar no Ensino Superior. As soluções continuam a ser poucas para os largos milhares de jovens à procura de alojamento na cidade.

Um encontro para nos conhecermos melhor

A minha viagem começou no início de agosto, quando olhei para um pequeno anúncio pendurado num quadro de supermercado.

Depois de pesquisar muitos anúncios de quartos sucessivamente indisponíveis em sites de arrendamento, podia ser que esta fosse a oportunidade que estava à espera para finalmente conseguir alojamento.

A primeira chamada telefónica para o dono da casa começa, porém, com uma estranha recusa em ceder a morada do quarto que estava a alugar. Exigia o meu interlocutor que, numa primeira instância, nos deslocássemos até um local bem afastado da morada do aluguer para "nos conhecermos melhor". Tomar um café, discutir um pouco as intenções de cada um.

Fui fazendo perguntas pelo menos para saber mais alguns detalhes sobre o quarto que estaria para alugar. Percebi então que se tratava de um anexo dentro da casa onde ele mesmo residia, com a companheira. Juntos, disse ele, poderíamos até ver televisão juntos, de vez em quando. E mesmo que tivesse dito: "A menina respeita o meu espaço e eu respeito o seu", todos os alarmes soaram. Desliguei o telefone para não mais ligar e fiquei ainda mais alerta. A cautela passou a ser outra.

Procurar casa em Lisboa é sentir-se como um hamster a correr na roda que nunca sai do mesmo sítio, mas que cansa muito: "Pode usar o quarto, mas não a cozinha nem a sala"; "Só alugo a rapazes"; "Só alugo a raparigas"; "Aceitamos apenas estudantes"; e "Só está disponível para trabalhadores". E ter ainda um milhão de dúvidas: morar ou não com o senhorio na porta ao lado, escolher um quarto por mobilar ou ter de acabar a dormir em cima de paletes - tinha um colchão por cima, sim.

Mas a opção de decoração mais insólita surgiu uns dias depois quando, numa pesquisa na internet, sou surpreendida por um outro quarto, adaptado numa cave de uma casa onde moravam os senhorios, com uma banheira no meio. Uma banheira. Uma espécie de open space com casa de banho "privativa" numa escura cave lisboeta.

Sem contrato, sem despesas e a peso de ouro

"Aquela que é a nossa noção é que qualquer espacinho numa casa serve para fazer um quarto e arrendar a preços absurdos." Aos 23 anos, João Pedro Louro nunca teve de passar pela dor de cabeça que pode ser procurar casa na cidade, mas o seu papel enquanto presidente da Associação Académica de Lisboa permitiu-lhe olhar de perto os problemas estudantis da cidade.

"O que me impressiona mais ainda é o preço a pagar: temos estudantes a pagar mais de 400 euros por um único quarto, sem internet e despesas incluídas. É completamente obsceno", confessa. Além de que "muitas vezes não existe contrato, não existe recibo e a forma de pagamento é duvidosa".

É através de plataformas online ou de grupos no Facebook que os estudantes fazem a sua busca por alojamento em Lisboa. Até há uns anos, os anúncios eram agrafados a quadros de cortiça nas várias universidades, mas atualmente, garante João Pedro, "os senhorios que se deslocavam às próprias instalações universitárias para colocar os anúncios em papel, já não o fazem, pois face à procura nem necessitam de anunciar sequer".

O mais provável é que se consiga marcar uma visita a um quarto dentro de poucas horas e que, mesmo antes de se sair do comboio, já no destino, se receba uma chamada a avisar que o quarto já foi arrendado. O ritmo é este.

E nem o facto de este ano existirem menos vagas nas universidades da capital vai amenizar o problema. "Apesar de estarmos preparados para receber menos estudantes em setembro por causa da redução das vagas, a verdade é que Lisboa será sempre o destino mais procurado para estudar. Ano após ano, as vagas são praticamente todas ocupadas", explica João Pedro Louro.

De todos os alunos colocados, "50% são estudantes deslocados, que precisam de uma casa, que precisam de residência" e esse continua a ser "o grande desafio". "Até porque os timings são muito apertados: no fim de semana em que saem as colocações, sabe que fica em Lisboa e na semana seguinte já tem que estar a fazer a sua inscrição e já tem que arranjar um quarto", remata.

Trocar estudantes por turistas

Catarina Damásio é diretora da Sociedade Promotora de Residências Universitárias, entidade que gere duas residências privadas no país, uma em Lisboa e outra no Porto. Os preços variam entre os 302 e os 666 euros, mas afirma que as candidaturas para as instalações em Lisboa "foram abertas em maio e em junho já não havia vagas". Um cenário anormal, em relação aos anos anteriores, quando esperavam, pelo menos, três meses até os quartos ficarem preenchidos. De acordo com a diretora, este aumento tem como causa "a vinda de mais estudantes estrangeiros, bem como a cada vez menor oferta de quartos para estudantes e cada vez maior para alojamento turístico".

Vivi-o na pele, mesmo antes de ter chegado. Quando o tempo para fazer as malas e partir é curto, há que resumir meses de pesquisa em sites de arrendamento de quartos em poucas horas. Ou, como eu, regressar a uma casa onde já se tenha estado alojado, daquela vez enquanto estudante. O problema é que, entretanto, a cidade já se abasteceu de mais de turistas e os quartos onde viviam estudantes têm agora outro tipo de ocupantes.

O meu senhorio não é exceção. Um a um, os seus andares, que até então albergavam estudantes, vão sendo transformados em espaços ao serviço da plataforma de arrendamento Airbnb. Diz que rende mais e, para quem faz do aluguer vida, o negócio mais rentável no mais curto espaço de tempo é a sua escolha.

De acordo com a Uniplaces, o número de estudantes estrangeiros no país aumentou no primeiro semestre de 2018, ocupando 88% das reservas feitas através da plataforma. Um aumento de 8% relativamente ao ano anterior.

Residências públicas: baratos, mas poucos

Nas residências públicas, a situação repete-se e são poucos os que conseguem garantir um espaço lá dentro. "É muito rápido encher as residências, até porque a oferta não é muita: os estudantes que já lá estão no ano anterior têm prioridade", conta João Pedro Louro. Na residência do Instituto Politécnico de Lisboa, por exemplo, há "200 camas para cerca de dez mil alunos", explica ainda.

E há mais um problema: a degradação das instalações. Garante o presidente da Associação Académica de Lisboa que "há residências com condições dignas e outras a precisar de reabilitação. A do Politécnico é uma residência que não tem as mínimas condições. Até nem fica no principal campus universitário de Lisboa, mas sim em Chelas, que já é uma zona que não deixa muitos estudantes confortáveis".

Já o preço, é substancialmente mais apetecível. A renda média por quarto é de 120 euros: quartos partilhados, com acesso a espaços comuns como a cozinha e direito a televisão e internet.

Todos os anos, em setembro, assim que as listas de colocações nas várias faculdades de Lisboa são publicadas, a caixa de e-mail da Associação enche-se de perguntas de pais que querem saber quais as melhores zonas da cidade onde procurar alojamento. João Pedro já tem a resposta quase na ponta da língua: "Na zona de Benfica ainda vai sendo possível arranjar alguma coisa, bem como na Ajuda. Na zona do Saldanha está completamente impossível, porque está super valorizada e os valores são extremamente elevados. Também o Campo Grande, por exemplo, é uma boa zona para viver, mas os preços praticados são muito altos". Quando a conversa é segurança, explica que "ainda que haja zonas relativamente seguras, não recomendaria a zona do Bairro Alto e Chelas".

Em julho, a Câmara Municipal apresentou um plano que tem como objetivo a transformação de 11 edifícios da Segurança Social em prédios de habitação para aluguer monetariamente mais acessível. O acordo intitulado PRESS - Programa de Reconversão de Edifícios da Segurança Social prevê, além de 250 apartamentos para famílias da classe média, 226 quartos destinados a estudantes universitários.

O Governo anunciou em maio um plano para financiar a criação de alojamentos, com rendas acessíveis, para dezenas de milhares de estudantes do ensino superior que estão deslocados das suas áreas de residência, mas não há prazos anunciados para que estes alojamentos entrem no mercado.

O meu antigo senhorio que está a render-se ao Airbnb ainda tinha um quarto num apartamento que está à espera de obras. Vou ficar lá 15 dias. Já percebi que os anúncios de pouco valem. Uma amiga da minha família conseguiu arranjar-me um quarto no Saldanha em casa de uma amiga dela. Confuso? Só a partir de novembro, porque vou ficar (outra vez) sem casa.

Texto editado por Rita Ferreira

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