Uma vida a bater nos romanos e a caçar javalis

Astérix e Obélix começaram a bater em romanos e a caçar javalis há exactamente 50 anos, num tempo em que a banda desenhada estava longe da dimensão que viria a alcançar e ninguém conseguia antecipar o sucesso estrondoso dos "irredutíveis gauleses".

Albert Uderzo, o desenhador, e René Goscinny, o argumentista, já tinham trabalhado juntos e voltavam a encontrar-se, em 1959, na criação do jornal "Pilote" (primeiro número a 29 de Outubro), para que contribuíam com uma série de fórmula simples, mas que se veio tornar muito eficaz.

Bastou menos de dois anos para se perceber que "Astérix, o Gaulês" era a "alma" do jornal, relegando para segundo plano outras séries que também granjearam os favores do público, como "Michel Tanguy" (Uderzo de novo, mas com Jean-Michel Charlier,) e "O Demónio das Caraíbas" (Victor Hubinon e Charlier).

As crónicas da vida de uma pequena aldeia de gauleses, no Norte de França (Armorique), rodeada de quatro campos romanos, mas resistindo sempre ao invasor, não se rendendo nem por nada, tornaram-se no primeiro "best-seller" da banda desenhada francesa, superando em poucos anos a barreira do milhão de exemplares por álbum novo.

Numa França ainda com a II Guerra Mundial fresca na memória, os romanos lembravam a ocupação alemã. E e intrépida "resistência" gaulesa, liderada por Astérix, encontrava eco no forte sentimento nacionalista dos franceses.

René Goscinny, genial argumentista de BD, atingia em "Astérix o Gaulês" o ponto mais alto da sua criatividade e criava uma galeria de personagens secundários muito conseguidos, como Assurancetourix, o bardo, Panoramix, o druida, e Abraracourcix, o chefe da aldeia.

O desenho de Uderzo sempre foi elegante, mas a "pedra de toque" da estrondosa aceitação foi a escrita de Goscinny, sempre de humor genial, permitindo uma dupla leitura, com referências secundárias, que passavam despercebidas aos leitores mais jovens.

Goscinny fez Astérix e Obélix viajar pelos países mais próximos de França, como a Alemanha (Godos), Suíça (Helvéticos), Espanha (Hispânia), Inglaterra (Bretões) e Bélgica, o que ajudou à rápida "internacionalização" da banda desenhada.

Por outro lado, mostrou-se sempre atento ao mundo real, projectando-o com graça para a série dos gauleses: "O Combate dos Chefes" aparece em anos de eleições presidenciais, "O Domínio dos Deuses" retrata a explosão urbanística dos anos 70, "Astérix nos Jogos Olímpicos" surge por altura dos Jogos de Munique e diz-se que "Obélix e Companhia" é inspirado no então primeiro-ministro Jacques Chirac.

René Goscinny morreu em 1977 mas a série continuou sem ele, com Uderzo a chamar a si a responsabilidade total da obra, escrevendo e desenhando. Nunca mais a banda desenhada foi a mesma, a qualidade decaiu, mas continuou a vender de forma absolutamente imparável.

Nessa altura já os gauleses tinham chegado ao cinema, com dois desenhos animados ("Astérix o Gaulês" e "Astérix e Cleópatra"), e o "merchandising" estava florescente. Ainda estava para aparecer o parque temático, que recria a aldeia gaulesa perto de Paris, o musical e os três filmes de imagem real, todos eles sucessos de bilheteira e já com novas aventuras programadas.

Tudo junto somado, a marca "vale" de 10 a 15 milhões de euros de lucro anual, fazendo do pequeno gaulês e seus amigos uns campeões em termos de exportação da cultura francesa.

Um "império" quw enfrenta agora uma dura prova, com o render da guarda de Albert Uderzo. Aos 82 anos, despediu-se dos gauleses que o fizeram milionário com um "Livro de Ouro", o 34º álbum da série, marcadamente atípico e sem o ritmo aventuroso que caracteriza todos os outros.

No auge da popularidade, a tiragem deste livro de aniversário, saído há exactamente uma semana, chegou aos 3,5 milhões, em 19 países. Mas esses números vão subir: Astérix está traduzido em 107 línguas e dialectos e tem vendas agregadas de 325 milhões de exemplares.

Para continuar a saga, Albert Uderzo já prepara o terreno. Desfez-se dos direitos que tinha sobre a série, para a Hachette, e admite sem reticências que Astérix deve viver sem ele. Os "guardiões da chama" passam a ser Régis Grébent e os irmãos Frédéric e Thierry Mébarki, já o fez saber.

Terão de se manter próximos do traço inconfundível de Uderzo, como é evidente. E respeitar algumas "restrições" impostas por ele: nada de sexo, nem de religião, nem de política. Com Goscinny, não era tanto assim... mas desde 1979 - "O Grande Fosso", que marca a carreira a solo de Uderzo - que os gauleses ficaram, de facto, "mais bem comportados", mais consensuais.

Ao contrário de Tintin, mas como Lucky Luke ou Blake e Mortimer, Astérix sobrevive ao criador, isso é ponto assente. Não se sabe por enquanto muito mais do que isso.

 Na certeza porém de que haverá poção mágica (menos para Obélix...), pancadaria nos romanos e um inevitável banquete de encerramento, no largo maior da aldeia, com javali assado sobre a mesa.

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