Um império duradouro à custa da Guerra Fria

A previsão de Salazar de uma III Guerra Mundial, a geoestratégia da Guerra Fria e responsáveis que 'não leram bem a conjuntura' explicam o fim tardio do império português, concluiu José Filipe Pinto num livro a apresentar quarta feira.

'O ultramar secreto e confidencial', que será apresentado na Sociedade de Geografia, em Lisboa, por João Pereira Neto, com comentários do antigo ministro do ultramar Adriano Moreira, é o culminar de cerca de seis anos de investigação de José Filipe Pinto.

Ao longo da investigação, quase exclusivamente centrada em documentos que se encontram na Torre do Tombo, o autor, que é docente da Universidade Lusófona, privilegiou telegramas trocados entre o presidente do conselho, Oliveira Salazar, os ministros das colónias da ditadura e os governadores do império.

À Lusa, o investigador explicou que os responsáveis pelas colónias foram, até à I Guerra Mundial, 'ministros do seu tempo', em linha com a 'conjuntura mundial', que 'fizeram o que seria expectável fazer'.

'Depois da II Guerra Mundial, a conjuntura alterou-se substancialmente e o erro de previsão de Salazar da iminência de uma III Guerra Mundial vai marcar toda a política produzida a partir daí', sustentou.

Os ministros das colónias que se seguem, com Marcelo Caetano à cabeça, 'já não são homens do seu tempo' porque 'não leram bem a conjuntura', argumentou o investigador, sublinhando que 'a grande mudança vem no início dos anos 60, com Adriano Moreira', que 'lê a conjuntura correctamente e pensa que a única alternativa é encaminhar as colónias para a autonomia irreversível e progressiva'.

'Só que aí os interesses instalados falaram mais alto e no plenário ultramarino de 62 o ministro demitiu-se e houve um regresso à política anterior, que é essencialmente retomada com Silva Cunha e não no mandato a seguir, que é um mandato de transição', sublinhou.

Nesse 'regresso a um tempo errado', referiu José Filipe Pinto, 'tudo o que tinha sido feito no sentido de encaminhar as colónias para a autonomia foi revogado e assistiu-se a um retrocesso no processo'.

A geoestratégia mundial do pós-guerra favoreceu, por outro lado, a manutenção de um império 'centralizado no Terreiro do Paço' e 'sem autenticidade', argumentou igualmente o investigador.

'Se não fosse a política resultante da II Guerra Mundial, se não fosse a Guerra Fria, se não fosse o equilíbrio do terror e o medo dos EUA de que aquela zona -- uma zona muito apreciável na costa ocidental e oriental africana -- caísse na alçada do bloco soviético, Portugal teria sido obrigado a descolonizar mais cedo, por força da pressão da comunidade internacional', sustentou.

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