Relato da segunda viagem que inspirou o futuro Che

No dia 7 de Julho de 1953, Carlos 'Calica' Ferrer e Ernesto Guevara, que aos 25 anos ainda não respondia pelo nome que dele faria um ícone, partiram pela estrada fora em direcção à Venezuela. Mais de meio século depois, o autor conta a história de um percurso comum que terminou no Equador.

Em 2004, o público português descobriu o filme Diários de Che Guevara, sobre a primeira viagem pela América Latina de um dos maiores ícones das esquerdas contemporâneas. Esta primeira aventura desempenhou um papel fundamental na transformação do jovem Ernesto Guevara de La Serna no comandante Che, mas não foi caso único. Um ano depois, antes de se tornar o guerrilheiro que iria levar a revolução a Cuba, faria uma segunda e última viagem, narrada em Do Ernesto ao Che, de Carlos "Calica" Ferrer.

O livro, que agora chega a Portugal, conta a história daquela que começa, a 7 de Julho de 1953, por ser uma travessia pela estrada fora rumo à Venezuela. Ali, o par reunir-se-ia com Alberto Granado, que um ano antes tinha descoberto a América com Che. Separaram-se, porém, ao fim de alguns meses, em Outubro desse ano. O autor não voltaria a ver o seu amigo, de quem se despediu "com um 'chau' e um abraço breve".

Meio século depois, Carlos Ferrer decidiu partilhar as memórias dessa época. É verdade que já tinha sido publicada uma outra obra sobre o mesmo tema, assinada pelo próprio Che, de seu nome Otra vez, El diario inédito del segundo viaje por América Latina (1953-1935), que até analisa um período de tempo maior, mas este livro continua a ser importante. É que o autor "foi a única pessoa que partilhou tudo com [Ernesto] nos meses que antecederam a sua transformação no Che ", como explica o historiador Pacho O'Donnel, citado no epílogo.

Na sua estrutura, a obra não anda longe de outros livros de viagens, contudo inclui um lado biográfico que a distingue, valendo também pelo tema abordado. E além de curiosidades interessantes, que dão à personagem de Ernesto Guevara uma dimensão humana que o separa do ícone que é o Che, são também reproduzidas cartas enviadas pelos protagonistas aos respectivos familiares e amigos, ilustrativas das suas variações de humor ao longo do percurso, bem como várias fotografias inéditas da dupla.

Para humanizar esta mítica figura contribuiu não só um primeiro capítulo dedicado à sua infância em Alta Gracia, ao lado do narrador, como alguns apartes mais descontraídos, que revelam um homem de carne e osso, que "jogava sempre a guarda-redes". Ou um jovem "quase imberbe" que em 1953 invejava as longas barba do amigo, e hoje aparece, "barbudo", em milhares de T-shirts.

Mas, apesar de o jovem Ernesto Guevara ser a personagem principal, a figura do Che está sempre presente. De facto, o autor tenta várias vezes analisar algumas acções e traços de personalidade do ícone argentino com base em diversos momentos da sua infância ou da viagem encetada. É isso que ocorre, por exemplo, quando o escritor sublinha o interesse de Guevara na revolução em curso na Bolívia, onde viria a morrer em 1967, enquanto tentava instalar o socialismo naquele país que tanto o marcou nas suas viagens.

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