Se eu fosse ladrão... Roubava

As críticas de Inês Lourenço, João Lopes e Rui Pedro Tendinha ao filme português de Paulo Rocha

INÊS LOURENÇO (Classificação 3/5)

Entre os verdes anos e a memória em sépia

Paulo Rocha despede-se do cinema e da vida numa discretamente nostálgica compilação de excertos "roubados" a vários filmes seus. As páginas desse caderno autobiográfico, são cosidas com a linha temática da emigração, e pela agulha experimentada de atores que são os rostos principais da sua obra: Isabel Ruth e Luís Miguel Cintra. Eles atravessam as imagens, recentes e antigas, ao lado de fotografias do álbum de família de Rocha, como se, antes de uma luz se apagar, o tempo fosse percorrido sem preocupações de cronologia, e de realidade ou ficção.

Há uma emoção lúcida, notada por quem já frequentou alguns dos filmes que vão aparecendo, mas há também, e sobretudo, um convite a conhecê-los como objetos singulares de uma obra que, em grande parte, ficou por fazer. Os Verdes Anos e Mudar de Vida, agora em reposição de cópias restauradas, são dois desses convites irrecusáveis.

JOÃO LOPES (Classificação (4/5)

Um mágico jogo de espelhos

O derradeiro filme de Paulo Rocha (1935-2012) surge em paralelo com a reposição (em cópias restauradas, digitais) das suas duas primeiras longas-metragens: Os Verdes Anos (1963) e Mudar de Vida (1966). Produz-se, assim, um mágico jogo de espelhos, uma vez que Se Eu Fosse Ladrão... Roubava integra fragmentos desses dois filmes, e também de vários outros da obra o realizador, gerando aquilo que podemos chamar uma autobiografia assumidamente romanesca. O ponto de partida é o desejo do pai de Paulo Rocha de partir para o Brasil, nos primeiros anos do séc. XX, numa demanda em que, afinal, se cruzam os dilemas familiares e as ambivalências da identidade portuguesa. Outras referências, como a da pintura de Amadeo de Souza Cardoso, vão pontuando esta deambulação pelas memórias em que a angústia do que somos se cruza sempre com o humor do que imaginamos ser.

RUI PEDRO TENDINHA (Classificação 3/5)

Visita, confissões e também memórias

São muitas as obsessões do cinema de Paulo Rocha. No seu filme testamento, mescla entre jogo de colagem de raccords do seu próprio filme e ficção que recria a juventude do seu pai, ainda encontra muitas outras, em especial uma reflexão antropológica do que era ser português. O resultado é um objeto raríssimo, um ensaio poético sobre a essência do que filmou durante décadas. Curiosamente, a escrita de Regina Guimarães contamina de forma muito pueril todo este olhar interior. Tanto que até pensamos estar dentro do cinema desta escritora e cineasta nortenha.

Metade assombração trágica, metade tese elaborada sobre a impossibilidade de um filme (desmontam-se sempre os formatos convencionais do cinema narrativo, nem que se recorra à própria voz do cineasta a dizer corta), o último Rocha é coisa séria.

Título Original: Se eu fosse ladrão... Roubava

Realizador: Paulo Rocha

Com: Isabel Ruth, Luís Miguel Cintra e Márcia Breia

Ano: 2012

Ler mais

Exclusivos

Premium

Daniel Deusdado

Começar pelas portagens no centro nas cidades

É fácil falar a favor dos "pobres", difícil é mudar os nossos hábitos. Os cidadãos das grandes cidades têm na mão ferramentas simples para mudar este sistema, mas não as usam. Vejamos a seguinte conta: cada euro que um português coloca num transporte público vale por dois. Esse euro diminui o astronómico défice das empresas de transporte público. Esse mesmo euro fica em Portugal e não vai direto para a Arábia Saudita, Rússia ou outro produtor de petróleo - quase todos eles cleptodemocracias.