João Botelho estreia novo filme em cine-teatros

O realizador João Botelho prepara-se para estrear no dia 29 'Um filme do desassossego' fora do circuito das salas comerciais, longe das pipocas e dos refrigerantes, porque o cinema 'tem de ser um acto sagrado'.

'Um filme do desassossego', que estreia no dia 29 no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, é a leitura de João Botelho de 'O livro do Desassossego', de Fernando Pessoa, uma obra aberta, fragmentada, susceptível de múltiplas interpretações.

'Acho que é um filme demasiado precioso - o texto do Bernardo Soares [um dos heterónimos de Pessoa] - para ser ouvido com coca-colas, pipocas e telemóveis em centros comerciais. O cinema tem de lutar para recuperar a dignidade que já teve, tem que ser um acto sagrado', disse o realizador à agência Lusa.

Por isso, em vez de ter uma estreia no circuito comercial, o filme será exibido ao longo dos próximos meses na rede de cine-teatros do país, estando confirmadas, depois de Lisboa, projecções em cerca de uma vintena de cidades.

João Botelho chama-lhe a 'volta a Portugal em cinema', numa digressão nacional como se fosse um músico e em apresentações em jeito de estreias teatrais, nas quais irá falar com o público no final de cada sessão.

'Há uma série de cine-teatros que estão mancos. Foram feitos para serem cine-teatros e só são teatros', opinou.

Além do CCB, onde o filme estará no dia 29 e entre 01 e 03 de Outubro, a película seguirá para o Teatro Nacional de São João, no Porto, entre 07 e 09 de Outubro.

Seguem-se projecções em cine-teatros em Braga, Castelo Branco, Portimão ou Funchal, com João Botelho a estimar que o filme poderá ser visto por 30 mil esperadores, mais do que numa rede comercial.

'Filme do desassossego' tem um longo elenco de actores, em pequenas participações, mas o actor Cláudio da Silva é o pilar do filme, interpretando o papel de Bernardo Soares, o ajudante de guarda-livros que, entre desabafos, lamentos e constatações, vai revelando os pensamentos fragmentados do seu desassossego.

'É demente, toda a gente diz que é impossível adaptar 'O Livro do Desassossego'. É um disparate louco, mas é sobretudo uma coisa que tentei preservar: o texto é mais importante que tudo', disse João Botelho à Lusa aquando da rodagem, no começo de 2010.

O filme, cujo fio narrativo se concentra em três dias e três noites, conta ainda com Rita Blanco, Alexandra Lencastre, Miguel Guilherme, Catarina Wallenstein, Laura Soveral, Margarida Vilanova, Ricardo Aibéo e Manuel João Vieira, entre muitos outros.

Além da palavra, a música também assume um papel importante no filme, com a presença dos fadistas Ricardo Ribeiro e Carminho, de Lula Pena, de Caetano Veloso (com a audição de um tema inédito) e excertos de uma ópera que João Botelho encomendou a Eurico Carrapatoso.

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