Cornos

O filme em que o eterno Harry Potter deixa de o ser, nas críticas de Flávio Gonçalves e Rui Pedro Tendinha.

FLÁVIO GONÇALVES (Classificação 1/5)

Nem Radcliffe sem varinha mágica o consegue salvar

Daniel Radcliffe pode já não ser Harry Potter (a quem deu corpo ao longo de oito filmes, entre 2001 e 2011) mas a verdade é que o seu nome continua intimamente ligado ao fantástico e aos ambientes mais ou menos sombrios destinados ao entretenimento de públicos jovens - é o caso de A Mulher de Negro (2012) ou de Frankenstein (com estreia marcada para 2015). Agora, sem varinha na mão mas com cornos na testa, Radcliffe é o protagonista atormentado da adaptação para cinema do romance Horns, de Joe Hill (filho de Stephen King), interpretando um jovem acusado de ter assassinado a namorada (Juno Temple).

Depois de ter diluído de modo eficaz o terror e o gore em Terror nas Montanhas (inspirado em The Hills Have Eyes, de Wes Craven), o realizador francês Alexandre Aja aproveita o mistério da morte desta rapariga para poder montar uma estrutura baseada numa visão maniqueísta e perversa sobre as pessoas, entendidas neste filme como eternas dissimuladoras dos seus "pecados". Será a magia dos cornos acidentados do protagonista que desvendará as tentações que amaldiçoam a comunidade que o persegue, ajudando-o a concluir o enigma final. "Ele vai revelar o demónio que existe em ti", avisa o cartaz do filme que estreia hoje em Portugal...

Para além da ingenuidade das suas proposições, o autor deve a pobreza formal de Cornos aos seus pretextos televisivos - desde o histerismo das interpretações às paródias banais sobre o inferno na terra, tudo é descrito e colocado em evidência, não havendo espaço nem tempo para o mistério ou para a incerteza. Assim, é ao serviço de uma narrativa incoerente de luto e vingança, que se transforma pelos "twists" como uma série muda de episódio para episódio, que o autor de Alta Tensão (2003), Espelhos (2008) e Piranha 3D (2010) tenta reactivar o apelo juvenil do seu cinema.

Entre os espaços livres em que a banda sonora original de Robin Coudert deixa de ilustrar os passos da história, conseguimos ouvir alguns interessantes apontamentos da música de David Bowie, Flaming Lips, Fever Ray, The Dead Weather, Pixies, EELS e Marilyn Manson. Mas nem a música nem os efeitos especiais parecem conseguir salvar Cornos do seu esquecimento.

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RUI PEDRO TENDINHA (Classificação 2/5)

Entre a comédia com pós de farsa e o filme de terror puro, Cornos acaba por não ser nem uma coisa nem outra. O seu dispositivo de tirar o tapete ao género poderia ser uma espécie de cartão de visita mas acaba por escorregar nesse apropriacionismo desordenado. Há filmes que fazem demasiada bandeira em "não se levarem a sério"...Tudo começa quando um jovem americano de uma cidade pequena é acusado de assassinar a namorada. Subitamente, nascem-lhe dois chifres na sua testa que lhe dão o poder de convocar o mal que há nos outros.

Alexandre Aja, cineasta frequentemente desnorteado, comete outro pecado mortal: não sabe dirigir Daniel Radcliffe, que parece representar sempre em esforço. Como se não bastasse, o questionamento sistemático das suas fórmulas, em vez de soltar um efeito provocatório, cai antes numa constante graçola forçada.

Ficha de filme

Cornos

Título original: Horns

País: EUA

Realização: Alexandre Aja

Argumento: Keith Bunin, a partir do romance original de Joe Hill

Elenco: Daniel Radcliffe, Juno Temple, Max Minghella

Ano de produção: 2013

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