As Mil e uma Noites, Volume 1 - O Inquieto

A trilogia de Miguel Gomes só fica completa a 1 de outubro. Para já, estreia o primeiro volume, O Inquieto. Leia aqui a crítica de Rui Pedro Tendinha e João Lopes

RUI PEDRO TENDINHA (4/5)

A Twilight Zone de Miguel Gomes

Depois de um filme milagre como Tabu (2012), para onde se volta um cineasta? Miguel Gomes foi para outra latitude de cinema. Foi "dar-nos trabalho", a nós espectadores. Foi colocar-nos em zona de risco com esta trilogia que pode ou não ser começada com este Volume 1, composto por uma série de histórias que navegam entre o documentário e ficção, mas que depois se cristalizam num portento de comédia burlesca satírica que pode dar lugar a confissões comoventes de desempregados de Aveiro ou as histórias do "limiar da realidade" portuguesa do período da Troika em 2013/2014.

É um volume mais delirante e convulso que os outros dois que se estreiam a seguir. O tal "rock n' roll" tão genial como do arco-da-velha, capaz de fazer rebentar baleias gigantes vindas de sonhos sindicalistas ou imaginar o Primeiro Ministro português com um feitiço que o faz ficar com ereção permanente. É divertido, é agitador mas também é de uma violência catártica, sobretudo quando começa por nos fixar nas vozes dos trabalhadores dos Estaleiros de Viana.

A arte de contar histórias no cinema pode vir da vontade olharmos para o nosso tempo.

Veja aqui o trailer:

JOÃO LOPES (4(5)

Fantasia e realismo português

Poderemos discutir se a estreia autónoma das três partes de As Mil e uma Noites terá sido a melhor opção num mercado tão difícil, nem sempre disponível para a diversidade artística do cinema português (o segundo volume chega a 24 de setembro, o terceiro a 1 de outubro). Mas não tenhamos dúvidas: não haveria solução mágica para estrear uma obra ao mesmo tempo tão vulnerável e tão tocante. Porquê? Porque Miguel Gomes constrói o seu filme a partir de uma interrogação radical, que tem tanto de prático como de poético, em tudo e por tudo contrária à "transparência" televisiva que tem vindo a normalizar as nossas visões e ficções. Ou seja: como dar conta, cinematograficamente, do Portugal contemporâneo? O "desvio" pelas Mil e uma Noites envolve, como é óbvio, uma convocação festiva da fantasia inerente à arte de contar histórias; por enigmático paradoxo, tal fantasia relança-nos no despojamento realista de factos e personagens que sabemos pertencerem ao nosso aqui e agora. Este é, por isso, um filme que quer pensar connosco o que somos - e como somos.

Título: As Mil e Uma Noites, Volume I, O Inquieto

Realizador: Miguel Gomes

Ano: 2015

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