Foi você que pediu uma nova maneira de beber Porto?

Uma bebida que parece tão antiga como a ideia de se ser português, mas que tem nas suas raízes uma forte influência estrangeira, só poderia continuar a evoluir.

A maioria de nós lembra o velhinho anúncio, feito na década de 1970, que remetia para um determinado vinho do Porto que fazia as delícias da vizinha que devolvia o jornal e que, graças a este vinho fortificado, reunia em poucos segundos pessoas suficientes para começar uma festa. O que de nem todos se apercebem, é que a festa continua, embora com um aspeto bastante mais moderno.

O vinho do Porto foi visto durante muito, mas mesmo muito tempo, como algo que servia apenas para terminar uma refeição, quase equiparado a uma sobremesa. E por muito que o seu caráter extremamente doce possa explicar isso, a verdade é que existe muito mais num bom vinho do Porto, o suficiente para que ele possa servir para todos os momentos de uma refeição, ou até como bebida casual, durante um convívio, sem que tenha forçosamente de acompanhar algum produto gastronómico.

É cada vez mais popular a utilização de vinho do Porto em vários tipos de cocktail, que ao contrário do que seria de esperar, colocam a hora de consumo deste vinho antes das refeições, e não no seu final. O vinho do Porto branco, por exemplo, tem sido misturado com água tónica - muito à semelhança do gin - dando origem a uma bebida que tem tanto de refrescante como de suave, servindo de alternativa a quem procura algo menos "complexo" para começar uma festa.

Mas se é complexidade que procura, saiba que ainda assim, o vinho do Porto não desilude. Afinal, o facto de ser uma bebida bastante mais elaborada do que um vinho típico, com a adição de uma aguardente vínica pura e limpa a oferecer-lhe um caráter profundamente distinto ao vinho obtido de castas tipicamente portuguesas, possibilita a construção de bebidas com maior profundidade. Experimente por exemplo aliar um bom vinho do Porto aos aromas botânicos do gin, o despertar vigoroso de um xarope de canela e, por fim, o toque frutado de uma conserva de framboesa, e estará perante uma bebida que tem tanto de moderno como de natalício - e o Natal está mesmo aí a chegar.

Com ou sem festividades tradicionais, a verdade é que os novos hábitos de consumo de vinho do Porto são tão naturais como a sua alma antiga. A ligação à gastronomia, que já aqui foi referida, é lógica, e se não acredita experimente fazer uma redução de vinho do Porto para elevar o estatuto dos seus pratos de carne. Mas a sua ligação aos momentos de convívio ainda o é mais, e não queremos desafiar a lógica, pois não?

Tawny, Ruby ou Vintage? Saiba que a denominação do vinho do Porto está relacionada com o seu tempo de envelhecimento e também se é envelhecido em cascos ou cubas. O Vintage é o mais indicado para guarda prolongada.

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Anselmo Borges

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1. Muitas das graves convulsões sociais em curso têm na sua base a globalização, que arrasta consigo inevitavelmente questões gigantescas e desperta paixões que nem sempre permitem um debate sereno e racional. Hans Küng, o famoso teólogo dito heterodoxo, mas que Francisco recuperou, deu um contributo para esse debate, que assenta em quatro teses. Segundo ele, a globalização é inevitável, ambivalente (com ganhadores e perdedores), e não calculável (pode levar ao milagre económico ou ao descalabro), mas também - e isto é o mais importante - dirigível. Isto significa que a globalização económica exige uma globalização no domínio ético. Impõe-se um consenso ético mínimo quanto a valores, atitudes e critérios, um ethos mundial para uma sociedade e uma economia mundiais. É o próprio mercado global que exige um ethos global, também para salvaguardar as diferentes tradições culturais da lógica global e avassaladora de uma espécie de "metafísica do mercado" e de uma sociedade de mercado total.