Criatura da Noite

Em certas noites, especialmente as mais quentes, surge uma vontade de sair sem destino, apenas pelo prazer de conduzir.

À hora em que muitos são banhados pelas luzes das discotecas ou dos bares, outros preferem a luz fria dos faróis, o triunfo dos LED"s perante a estrada, perante a escuridão.Temos de dar o devido valor à noite. Há coisas que só são visíveis à noite, como as algas fosforescentes no mar, por exemplo. Há luzes que brilham mais forte apenas quando o dia desaparece e é a procura desse brilho que distingue quem aprecia a noite pelo que ela é, essa relação escuridão/luz define quem é uma criatura da noite.

Começando pelas avenidas modernas do Parque das Nações, onde a arquitetura comanda o olhar para as alturas, conduzimos o 2008 sem rumo definido. A hora tardia deixa-nos com a sensação de estarmos num mundo diferente, em que o nosso é o único carro, a única fonte de luz. Pelo vidro do teto panorâmico vislumbramos as silhuetas de prédios, a iluminação pública que se torna mais rara consoante nos afastamos das artérias principais para nos aproximarmos das zonas industriais, menos belas na sua arquitetura, mas não menos interessantes.

As luzes dos edifícios cedem o lugar às estrelas quando chegamos perto do rio. Nas curvas onde o perigo se podia esconder, nós vemos mais longe, o Peugeot protege-nos com o seu olhar felino e vê aquilo que nós não conseguiríamos sozinhos. Por muito que a escuridão nos tente alcançar, sentimos sempre que somos nós quem está a conquistar a ausência de luz, em cada estrada, cada travagem, cada vez que sentimos as mudanças subtis da caixa de velocidades.

Se decidimos parar, abrir as janelas e deixar entrar o ar fresco da noite, é apenas porque sabemos que a noite é como uma daquelas baleias míticas dos livros. Olhando para os molhes destruídos que iluminamos com os feixes de luz do2008, não podemos deixar de pensar que será sempre melhor deixar a noite "escapar" mais uma vez, devolvê-la às águas, para voltarmos a persegui-la noutra altura.

Saiba mais ...

Ler mais

Exclusivos

Premium

Anselmo Borges

"Likai-vos" uns aos outros

Quem nunca assistiu, num restaurante, por exemplo, a esta cena de estátuas: o pai a dedar num smartphone, a mãe a dedar noutro smartphone e cada um dos filhos pequenos a fazer o mesmo, eventualmente até a mandar mensagens uns aos outros? É nisto que estamos... Por isso, fiquei muito contente quando, há dias, num jantar em casa de um casal amigo, reparei que, à mesa, está proibido o dedar, porque aí não há telemóvel; às refeições, os miúdos adolescentes falam e contam histórias e estórias, e desabafam, e os pais riem-se com eles, e vão dizendo o que pode ser sumamente útil para a vida de todos... Se há visitas de outros miúdos, são avisados... de que ali os telemóveis ficam à distância...

Premium

João César das Neves

Donos de Portugal

A recente polémica dos salários dos professores revela muito do nosso carácter político e cultural. A OCDE, no habitual "Education at a Glance", apresenta comparações de indicadores escolares, incluindo a remuneração dos docentes. O estudo é reservado, mas a sua base de dados é pública e inclui dados espantosos, que o professor Daniel Bessa resumiu no Expresso de dia 15: "Com um salário que é cerca de 40% do finlandês, 45% do francês, 50% do italiano e 60% do espanhol, o português médio paga de impostos tanto como os cidadãos destes países (a taxas de tributação que, portanto, se aproximam do dobro) para que os salários dos seus professores sejam iguais aos praticados nestes países."