Portugal é o país da UE que mais investe em 'offshores'

Empresários e investidores portugueses colocaram 73% das suas aplicações em paraísos fiscais. Investimento de estrangeiros em Portugal caiu 41,4%.

O investimento de estrangeiros em Portugal na compra de participações de empresas - como em acções ou em quotas de sociedades - caiu 41,4% em 2008, de acordo com dados ontem divulgados pela Comissão Europeia. Mas os por- tugueses são os investidores europeus que mais investem em offshores, em proporção com os capitais aplicados em investimentos no exterior.

No ano passado, foram colocados pelos investidores nacionais 1,1 mil milhões de euros em paraísos fiscais e financeiros como a ilha de Man, Jérsia, Gibraltar ou nas Caimão, num total de 1,5 mil milhões de euros. Ou seja, 73% dos capitais investidos no exterior foram direitos para os paraísos fiscais.

A preferência dos portugueses por estes mercados é uma prática maciça que não encontra correspondência em nenhum país da União Europeia. Os espanhóis, por exemplo, de um total de 53 mil milhões de euros investidos fora de Espanha em 2008, canalizaram mil milhões de euros para offshores. Os alemães desviaram apenas 3% das suas aplicações internacionais para paraísos fiscais. A média dos desvios para os oásis financeiros na Europa (27 Estados membros) ronda os 5,5%, de acordo com os dados da Comissão Europeia.

O mundo investiu 2,4 mil milhões de euros em Portugal, dos quais 1,1 mil milhões de euros com origem na União Europeia, uma quebra face aos 4,1 mil milhões de euros captados no ano passado. Desde 2000 - quando o investimento directo estrangeiro atingiu o pico de 26,9 mil milhões de euros - que o investimento dos estrangeiros no País apresenta tendência anual de decréscimo. Em 2004, o total de "apostas" de estrangeiros, incluindo o reinvestimento de lucros, atingia os 14,6 mil milhões de euros.

A reduzida entrada de capitais estrangeiros em Portugal é explicada pela degradação das economias, bem como a crise nos mercados de capitais em todo o mundo. As bolsas caíram desde meados de 2008, logo após a crise bancária iniciada nos EUA, com os empréstimos de alto risco à habitação (sub-prime). A repatriação de lucros está também a influenciar a perda de capitais. É que, com os mercados em crise, os investidores estrangeiros preferem proceder a poupanças, à espera de novas oportunidades.

É também a crise que explica um recuo de 66% do investimentos dos portugueses no estrangeiro. Os portugueses investiram 1,5 mil milhões de euros fora de fronteiras, dos quais 800 milhões de euros na União Europeia.

Exclusivos

Premium

Viriato Soromenho Marques

Madrid ou a vergonha de Prometeu

O que está a acontecer na COP 25 de Madrid é muito mais do que parece. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que nas últimas quatro décadas confirmámos o que apenas uma elite de argutos observadores, com olhos de águia, havia percebido antes: não precisamos de temer o que vem do espaço. Nenhum asteroide constitui ameaça provável à existência da Terra. Na verdade, a única ameaça existencial à vida (ainda) exuberante no único planeta habitado conhecido do universo somos nós, a espécie humana. A COP 25 reproduz também outra figura da nossa iconografia ocidental. Pela 25.ª vez, Sísifo, desta vez corporizado pela imensa maquinaria da diplomacia ambiental, transportará a sua pedra penitencial até ao alto de mais uma cimeira, para a deixar rolar de novo, numa repetição ritual e aparentemente inútil.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Agendas

Disse Pessoa que "o poeta é um fingidor", mas, curiosamente, é a palavra "ficção", geralmente associada à narrativa em prosa, que tem origem no verbo latino fingire. E, em ficção, quanto mais verdadeiro parecer o faz-de-conta melhor, mesmo que a história esteja longe de ser real. Exímios nisto, alguns escritores conseguem transformar o fingido em algo tão vivo que chegamos a apaixonar-nos por personagens que, para nosso bem, não podem saltar do papel. Falo dos criminosos, vilões e malandros que, regra geral, animam a literatura e os leitores. De facto, haveria Crime e Castigo se o estudante não matasse a onzeneira? Com uma Bovary fiel ao marido, ainda nos lembraríamos de Flaubert? Nabokov ter-se-ia tornado célebre se Humbert Humbert não andasse a babar-se por uma menor? E poderia Stanley Kowalski ser amoroso com Blanche DuBois sem o público abandonar a peça antes do intervalo e a bocejar? Enfim, tratando-se de ficção, é um gozo encontrar um desses bonitões que levam a rapariga para a cama sem a mais pequena intenção de se envolverem com ela, ou até figuras capazes de ferir de morte com o refinamento do seu silêncio, como a mãe da protagonista de Uma Barragem contra o Pacífico quando recebe a visita do pretendente da filha: vê-o chegar com um embrulho descomunal, mas não só o pousa toda a santa tarde numa mesa sem o abrir, como nem sequer se digna perguntar o que é...

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

"O clima das gerações"

Greta Thunberg chegou nesta semana a Lisboa num dia cheio de luz. À chegada, disse: "In order to change everything, we need everyone." Respondemos-lhe, dizendo que Portugal não tem energia nuclear, que 54% da eletricidade consumida no país é proveniente de fontes renováveis e que somos o primeiro país do mundo a assumir o compromisso de alcançar a neutralidade de carbono em 2050. Sabemos - tal como ela - que isso não chega e que o atraso na ação climática é global. Mas vamos no caminho certo.