O gajo que não pode estar parado ressuscita o Leite de Colónia

Viveu entre o Porto, Madrid e Lisboa até construir a Generis. Fez o negócio do ano, em 2009 ,ao vender ao fundo Magnum, de João Talone, o controlo desta farmacêutica. Um presente envenenado que os amigos lhe deram, quando fez 47 anos, levou-o a comprar a Investis, empresa que comercializa o Leite de Colónia. Agora, adquiriu uma fábrica que vai produzir, em Madrid, comprimidos para o golfo Pérsico

Há vários culpados. Para começar os amigos, porque o desafiaram. Mais remotamente Catarina Portas, por ter roubado à lei da morte algumas das nossas marcas mais míticas. Dito assim, até pode parecer uma conspiração, mas não. Trata-se apenas de uma série de coincidências.

Foi assim. Estávamos em Fevereiro e apesar de 2009 ainda ser uma criança, Paulo Paiva Santos acabara de protagonizar um dos maiores negócios do ano ao vender a 80% da Generis, farmacêutica avaliada pelo comprador em mais de 230 milhões de euros.

Sucede que ele faz anos em Fevereiro e na festa do 47.º natalício os seus amigalhaços deram-lhe o cabaz de produtos Vintage da Vida Portuguesa, acompanhado de um desafio - fazer medicamentos está ao alcance de qualquer um; se ele fosse efectivamente tão bom como se pinta seria capaz de ressuscitar uma dessas marcas.

"Não sou gajo para ficar parado", reconhece Paulo, um antigo guarda-redes de andebol que deu aulas de ginástica e trabalhou nos Socorros a Náufragos enquanto se licenciava em Gestão - e debutou como delegado de propaganda médica a sua bem sucedida carreira na indústria farmacêutica. Os amigos sabiam que ele não era homem para se ficar, pelo que a caixa foi uma espécie de presente envenenado.

Falhou a compra dos rebuçados do Dr. Bayard, que planeara transformar em marca farmacêutica, e da pasta medicinal Couto. Mas não desistiu. À terceira foi de vez, e adquiriu o Leite de Colónia, produto de beleza que fez furor nos anos 60 e foi celebrizado por um anúncio radiofónico em que um duo misto de vozes dizia, em português do Brasil, o slogan fetiche da marca: "De Colónia é o leite/que você deve usar/ Leite de Colónia/Para a beleza realçar".

Quando fechou o negócio, as embalagens deste produto de limpeza da pele arrastavam-se pelas prateleiras poeirentas das Lojas dos Trezentos e das drogarias dos subúrbios. Em apenas um ano, Paulo está a estender a gama da marca - Leite de Colónia será também sinónimo de sabonete aromático, gel de banho, protector labial, desodorizante, tónico facial, creme para as mãos, creme para os pés, etc. - e a dignificá-la, transferindo-a para os expositores das farmácias, estratégia que não demora a dar frutos, pois espera fechar 2010 com uma facturação da ordem dos cinco milhões de euros.

Como não é homem para ficar parado, apesar de ainda se manter como presidente e accionista minoritário da Generis, Paulo Paiva Santos fundou a Wynn Pharma, que vai vender genéricos de marca para os países do Golfo (Dubai, Emirados, Koweit, Bahrein, Qatar…), e comprou a farmacêutica espanhola Acyfabrik que, na sua fábrica em Getafe (arredores de Madrid) tem capacidade instalada para produzir anualmente 750 milhões de comprimidos.

"Empreender, empreender e voltar a empreender" é o alfa e o ómega da vida deste empresário, que quando era guarda-redes de andebol apreendeu que o melhor remédio para evitar levar com uma bolada na cara é manter sempre os olhos bem abertos - pois assim vê a trajectória da bola e pode meter a mão para se proteger-se.

"Não sou gajo para ficar parado", repete Paulo Paiva Santos, que gosta das coisas pão-pão, queijo-queijo ("é ou não é") e orgulha-se de nunca ter recebido subsídios e de não ter offshores - e detesta "os gajos que não pagam impostos". Aceitam-se apostas sobre o que ele vai fazer dentro de dois anos, quando comemorar meio século de vida.

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