Juro da dívida salvo pelo BCE perto dos 8%

Excesso de obrigações que bancos querem escoar é a razão apontada pelos analistas para a subida que atingiu mais países.

A ameaça do FMI voltou ontem a adensar-se sobre Portugal, com os juros da dívida a subirem vertiginosamente, logo pela manhã, rumo aos 8%. Foi necessária a intervenção do BCE, que há já duas semanas não ia ao mercado secundário comprar dívida soberana, para que os investidores começassem a aliviar a pressão sobre os juros portugueses, já no seu máximo histórico de 7,64% para as obrigações do Tesouro a 10 anos, quando a Bloomberg noticiou que a autoridade monetária voltara a adquirir obrigações portuguesas. Os juros acabariam por ficar nos 7,296% no final da sessão, ligeiramente abaixo dos 7,361% a que os títulos com aquela maturidade cotavam na véspera, mas o susto está longe de ultrapassado.

O DN apurou que ontem, durante todo o dia, houve múltiplos contactos entre responsáveis do BCE, do Banco de Portugal e o ministro Teixeira dos Santos. Esta situação de crise impediu, aliás, que o ministro das Finanças pudesse estar presente, como previsto, no debate no Parlamento.

Desde o dia 2 deste mês que os juros das obrigações a 10 anos - as mais comercializadas no mercado secundário e o indicador mais utilizado para medir a confiança dos investidores na capacidade de Portugal saldar os seus compromissos -, então nos 6,901%, não paravam de subir, atingindo ontem a quinta sessão consecutiva acima da limite de 7% fixado pelo ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, para Portugal pedir a ajuda da UE/FMI.

Nas 30 sessões desde o início do ano, os juros portugueses fecharam em metade delas acima dos 7%. No caso da Grécia, bastaram sete dias acima daquela taxa para recorrer ao apoio externo, enquanto a Irlanda esteve 15 dias a fechar acima dos 7% antes do pedido formal de ajuda à UE/FMI.

Mas o ministro da Presidência, Pedro Silva Pereira, desvalorizou a escalada dos juros portugueses ontem, argumentando que não foi um exclusivo do País. "O movimento que se verificou de manhã não foi específico para Portugal, aconteceu em relação a diversos países europeus", afirmou Silva Pereira após o Conselho de Ministros.

O ministro reconheceu que "a taxa é elevada", mas defende não haver "correspondência com os fundamentais da economia portuguesas, nem com o trabalho que Portugal está a fazer para a consolidação das contas públicas". O economista-chefe do Montepio, Rui Serra, também pensa que "do ponto de vista dos fundamentais macroeconómicos da economia portuguesa não há propriamente nada de novo de negativo" e defende que a venda pelos investidores de dívida soberana que terão em excesso em carteira terá potenciado a subida dos juros.

A maior parte destes investidores, como fundos de pensões e de investimento, não tem acesso ao mercado primário e nos últimos leilões muitos bancos com acesso ao mercado primário "podem ter pensado que havia mais procura para a dívida portuguesa do que a efectiva e agora estão a desfazer-se", explicou à Lusa o analista.

A mesma opinião tem Ricardo Marques, da IMF - Informação dos Mercados Financeiros, para quem "a procura global por obrigações está a cair", pode levar vários investidores a querer "escoá-las" para investir em acções e matérias-primas. E Filipe Silva, do Banco Carregosa, corrobora: "Desde o início do ano, os principais índices accionistas subiram em média 5%, o que pode explicar o desinvestimento em obrigações".

Certo é que até o BCE regressar ontem ao mercado de dívida, além de Portugal, também a Irlanda, Grécia e Bélgica iam no quinto dia consecutivo de subida dos juros. França, Finlândia e Áustria iam no quarto, Espanha e Itália no terceiro e até a Alemanha tinha a taxa a subir há dois dias.

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