"O mercado das peças de arte arqueológicas é um regabofe"

Joaquim Pessoa garante, em entrevista ao DN, que em Portugal há tráfico de arte arqueológica. Há peças achadas em solo nacional que vão directamente para Espanha, sendo depois comercializadas no nosso país no mercado negro. Os ataques de que tem sido alvo, diz o poeta, resultam das guerras entre arqueólogos institucionais e coleccionadores particulares.

Para o director do Museu Nacio- nal de Arqueologia (MNA), a colecção que vendeu ao BPN tem um valor arqueológico nulo...

As afirmações infelizes que o dr. Luís Raposo fez em relação à colecção demonstram que ele não é um arqueólogo, mas um funcionário público da arqueologia. E daí o MNA estar no marasmo em que está há vários anos, sobretudo desde que é director.

Desvaloriza a apreciação do director do MNA?

Ele nunca se interessou por ver as peças, ao contrário de outros directores de museus. Só Luís Raposo achou que não valia a pena, que não tinha tempo.

Mas viu imagens da colecção...

A única coisa que viu foram fotografias que lhe mostrei. Quando as viu ficou tão entusiasmado que me convidou para fazer uma palestra no MNA. Convidar-me-ia se considerasse as peças falsas?

O director diz que baseia a sua opinião no relatório de uma conservadora do MNA...

A conservadora é outra funcionária pública da arqueologia. Tem medo até da própria sombra. Se querem dizer coisas nos jornais, que digam, por exemplo, como aconteceu com essa conservadora, que o MNA comprou peças de ouro a uma senhora, pretensamente achadas numa herdade do Alentejo, e depois veio a saber-se que foram roubadas em Espanha.

Mas porque não confia no parecer de uma conservadora?

Quis oferecer ao MNA seis peças de ourivesaria, das quais não constam paralelo na sala do tesouro. Essas peças representavam quase três quilos de ouro. Falei com a conservadora dizendo que queria fazer a doação. Não obtive resposta até hoje. Resolveu, por ela, não aceitar... e não acontece nada a esta funcionária pública que prejudicou o MNA em pelo menos 10 milhões de euros?

O MNA tem peças que não foram achadas?

Se pegar nos catálogos de ourivesaria, verifica que na sala do tesouro há três ou quatro, das mais insignificantes, que foram achadas. As outras foram compradas a ourives e a coleccionadores particulares. E algumas não são mais do que fragmentos. A pergunta é pertinente: então, onde estão as coisas achadas pelos arqueólogos? Onde estão? Ou só os particulares acham peças de ouro? Não me parece credível. Mas quero ressalvar que há arqueólogos muito sérios.

Há quanto tempo não se acha nada em Portugal?

A primeira compra de ourivesaria no MNA foi feita pelo director Leite de Vasconcelos, em finais do século XIX, e depois nada mais se achou. Ou seja, em mais de 110 de anos, os arqueólogos portugueses não acham peças de ouro?

Não acham mesmo?

Se calhar acham, mas onde estão? Quando se usavam mulas e arados para remover as terras, achavam-se peças de ouro. E agora, nas escavações dos arqueólogos, não se acham peças de ouro? Toda a gente sabe do regabofe que houve de venda de peças a particulares durante muitos anos.

O País tem sido muito escavado...

O País foi retalhado desde os tempos de Cavaco Silva - são milhares de quilómetros de estradas. Não se acharam peças? Acharam-se? Onde foram entregues? As obras têm de ser acompanhadas por empresas de impacto arqueológico. Mas não se sabe se foram encontradas algumas peças.

Há relatórios das escavações?

Escolha uma entre as várias escavações realizadas em Portugal nos últimos anos e veja se consegue um relatório do que foi achado. É tudo muito abafado. Houve algum achado durante as obras do Chiado, em Lisboa, depois do incêndio em 1988? Ficou a saber-se que no local existiu uma igreja bizantina e não acredito que nada tivesse sido encontrado. Se foi encontrado, onde está? Porque é que nos museus há sobretudo cacos e nos coleccionadores particulares vêem-se peças completas?

Há um mercado negro na arqueologia?

Há muitas peças que são achadas cá, vão para Espanha e depois voltam... Ando há 36 anos nisto e tenho autoridade para contar histórias de peças encontradas por arqueólogos e postas no mercado. Eu sei bem o que se passa...

Os autores que contactou para emitir pareceres sobre a sua colecção vendida ao BPN aceitam a opinião do director do MNA?

Um deles, Castro Nunes, confrontou o dr. Raposo, que lhe disse taxativamente: "Eu não tinha opinião. Eu disse o que tinha de dizer."

Está a falar de pressões?

Mas pressionado por quem? Por aqueles que têm medo de ser atingidos por esta coisa? Eventual- mente até já conheciam as peças, porque foram eles que as introduziram no mercado? Há aqui um medo terrível, não só da minha colecção, mas de todos os coleccionadores particulares.

A sua colecção é toda autêntica?

É toda autêntica. Não são peças arqueológicas, é preciso que isto seja dito. São peças antigas de arte móvel e foram todas encontradas em contexto português. O que se passa com a minha colecção é o mesmo que se passa com as peças da sala do tesouro do MNA. Eles também andam a comprar a populares e a feirantes. Portanto, não venham com a história do contexto arqueológico, senão acabem já, mas já, com a sala do tesouro. Tudo aquilo está descontextualizado.

Considera justo o negócio que fez com o BPN?

Só não foi justo porque as peças valem muito mais. Mas já manifestei a minha intenção de readquirir a colecção.

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