"O Estado deve pagar aos bancos aquilo que deve"

João Salgueiro diz que seria mais útil para os bancos que o Estado saldasse as dívidas em vez de prestar garantias financeiras

Melhor do que as garantias estatais prestadas aos bancos para obterem financiamento era o Estado pagar aquilo que deve às instituições bancárias, considerou ontem João Salgueiro. Num almoço promovido pelo American Club, o antigo presidente da Associação Portuguesa de Bancos (APB) acrescentou ainda que "os três primeiros meses do novo Governo serão decisivos para aplicar as políticas necessárias ao cumprimento das medidas acordadas" com a troika, FMI, BCE e Comissão Europeia.

"É claro que era mais útil que o Estado pagasse aos bancos aquilo que deve. Era uma forma mais clara e mais imediata", disse o economista, depois de questionado sobre a segunda vaga de financiamentos com recurso a garantias estatais que os bancos anunciaram nos últimos dias. "Durante meses, o Estado não conseguiu colocar dívida no mercado internacional e os bancos portugueses serviram de intermediários", defendeu o ex-banqueiro, explicando que os bancos portugueses "compravam a dívida ao Estado e depois obtinham créditos do Banco Central Europeu (BCE) com as garantias dessa dívida".

O responsável sublinhou que os bancos portugueses "estão carregados de dívida pública nacional" e que o dinheiro que obtiveram junto do BCE não foi canalizado para a economia, mas sim para se reembolsarem.

Perante uma plateia de empresários, João Salgueiro rejeitou a ideia de que a culpa da crise que o País atravessa seja resultado do chumbo do PEC IV, recordando que a dívida pública portuguesa sobre o produto interno bruto (PIB) totaliza já os 115%.

Numa altura em que a valorização da onça de ouro nos mercados internacionais faz ressurgir o debate sobre as vendas das reservas de ouro do Banco de Portugal, João Salgueiro dispensa tal solução. "Não serve para amortizar a dívida pública, tal como as receitas extraordinárias não são solução uma vez que, ao serem canalizadas para a despesa corrente, apenas adiam o problema." O economista defendeu ainda que os três primeiros meses do novo Governo serão decisivos para aplicar as políticas necessárias ao cumprimento das medidas acordadas, independentemente de quem ganhe as eleições. "Os três principais partidos assinaram [o Memorando de Entendimento], portanto, não é uma negociação, essa já está feita", sublinhou aos jornalistas à margem do almoço, considerando que o acordo é um guia "interessante, com a vantagem de a sua execução ser monitorizada de três em três meses".

Segundo João Salgueiro, o grande desafio que Portugal enfrenta actualmente é conseguir cumprir as metas determinadas no acordo com o trio externo e, sempre que possível, ultrapassar os mínimos acordados: "A única solução é surpreender pela positiva nos próximos meses. Só assim se recupera a confiança internacional na capacidade do País."

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