Custos de trabalho caíram mais do que na Zona Euro

Ajustamento de Portugal começou há cinco anos. Produtividade também regista melhor comportamento.

O processo de deflação da economia que Bruxelas exige a Portugal já começou há cinco anos. Desde 2006 que os custos unitários de trabalho - que reflectem salários e contribuições para a Segurança Social - têm evoluído a um ritmo mais lento do que na média da Zona Euro, enquanto a produtividade tem aumentado de forma mais rápida.

Segundo os dados do Banco de Portugal, em 2010 a produtividade cresceu 2,9% em Portugal e 2,1% na Zona Euro. No mesmo ano, os custos unitários de trabalho caíram 1,4% em Portugal e apenas 0,5% na média dos países da União Económica e Monetária.

Esta tendência tem-se mantido nos últimos cinco anos. Entre 2006 e 2010, os custos unitários de trabalho cresceram a uma média de 1,54%, menos do que na Zona Euro (1,86%). Durante o mesmo período, a produtividade cresceu, em média, 1,26% em Portugal e apenas 0,36% na Zona Euro.

"É algo que não me admira. Reflecte uma tendência de moderação salarial que se tem sentido em Portugal", afirma ao DN/Dinheiro Vivo Maria João Rodrigues, conselheira económica das instituições europeias. "É preciso saber como se quer fazer o ajustamento: através de uma travagem ou corte salarial ou com um aumento da produtividade? Logicamente deveria ser a segunda. E há muita gente a concordar comigo em Bruxelas."

Opinião diferente tem o antigo ministro das Finanças Miguel Beleza, que defende que os custos unitários de trabalho devem continuar a descer em Portugal. "É mau se os custos de trabalho não crescerem menos do que na Zona Euro. Precisamos de um grande ajuste nas nossas importações e exportações."

Beleza, que também já foi governador do Banco de Portugal, explica que, "se partimos de um ponto de desequilíbrio, precisamos de vários anos com valores mais baixos do que a média. Não podemos contentar-nos em seguir esse nível".

O argumento de alguns responsáveis europeus, principalmente alemães, é que os custos de trabalho em Portugal têm crescido a uma velocidade mais elevada do que nos restantes países europeus. Um ritmo que a evolução da produtividade não acompanhou e prejudicou a competitividade da economia, afundando o défice externo. Em Portugal, alguns economistas, como o conselheiro de Estado Vítor Bento, defendem a inevitabilidade de um corte de salários no sector privado.

Estes números mostram no entanto que, se a economia portuguesa não tem evoluído nesse sentido, a Zona Euro também não.

Se recuarmos mais alguns anos até à década de 90, esse crescimento superior dos custos unitários de trabalho já é identificável, embora também nesse período a produtividade tenha dado um salto maior do que na Zona Euro. Ainda assim, em ambos os casos é preciso lembrar que Portugal partia de uma base muito mais baixa.

Mais: se retirarmos o impacto da inflação - que tem sido superior em Portugal em relação a países como a Alemanha - os custos de trabalho estão a cair desde 2000. Simplesmente têm caído ainda mais na Alemanha, por exemplo (ver caixa).

"Nos próximos tempos a comparação com a Alemanha vai continuar, mas são situações diferentes", diz Maria João Rodrigues. "Na Alemanha os salários deveriam subir mais, em Portugal deveria aumentar a produtividade."